O crime...

"C'est ainsi qu'une faute est irreparable."

J. PAYOT.

Helena fitou-o então nos olhos e inquiriu sem motivo:

—Estás zangado?

—Não. Porquê?

Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Êle manifestou-se contra aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem que um dia descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho racional a seguir: abandoná-la.

Helena calou-se.

—Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de vaticínio.—De que serve andar a encobrir, um dia e outro, semanas[{126}] e mêses inteiros... se tudo se vem a saber afinal?

Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse desejo forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os mínimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a conhecia, notava misteriosos e traiçoeiros abismos?...

Chamou-a brandamente, disse-lhe:

—Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui alguma coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não negues... leio-to nos olhos!

Ela baixou instintivamente a cabeça.

—Alguma coisa?!...—disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se por manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda mais, aumentando aquelas desconfianças.

Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe restava, para lhe dizer com serenidade:[{127}]

—Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei, tenham despertado o meu reparo.

—Os factos?! Quais factos?!—dissimulou.

—Tudo; o que se está passando...

—Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim desconfiado, acredita.

—Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas palavras... o teu rosto! Anda cá...

Pegou-lhe numa das mãos e diante do espêlho da sala:

—Vê aí o teu rosto!

Ela esquivou-se, revoltada:

—Deixa-me! É de mais!

—Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter.—Vais-me dizer tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o que houve?

—O que houve!?—exclamou aterrada.

—Sim, o que houve!

—Deixa-me! deixa-me![{128}]

Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz, intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e latejava ao mesmo tempo uma angústia horrível:

—Fala! anda... diz-me tudo!

Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera.

—Larga-me!—implorou Helena.—Não olhes para mim dessa maneira... Tenho medo!

—E porque tens tu medo de mim?!

Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com energia, de forma a fazê-la gritar:

—Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas, deixa-me!

Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o desespero em que se debatia, mais o enfureciam: quase lhe davam provas do que se passára!... Mas o que se passára?[{129}]

E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o que a sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a suspeita entrára no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que podia pesar sôbre a honra duma mulher.

Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de pessoa que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um grito, abriu os braços e caiu num sofá a estrebuchar.

Alberto—nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande catástrofe,—pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande banho morno de indiferença e de tédio...

Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava, arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime artista e êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito, representando o papel de[{130}] marido ciumento com a mais pura e meticulosa arte!

No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...

Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto. Voltou, logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia ainda na mão o chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar: «Bravo! Bravo!»; que uma multidão ruidosa de espectadores se levantava para saír da sala. Ouvia mesmo os comentários da ópera—porque era afinal uma ópera!—pessoas que passavam, suas conhecidas, que êle cumprimentava e lhe diziam:

—«Gostou?

—«Muito!»

Helena atravessou-se-lhe no caminho:

—Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não perdoas?...

Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou. Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.[{131}]

—Mata-me! mata-me!—gritou ela.

Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombára desmaiada sôbre o soalho. Quando se viu no páteo parou. Abriu a porta devagarinho e uma lufada do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns instantes a respirar, a arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos. Desceu então o último degrau e começou a caminhar ao longo da rua—sob a inclemência do vento e da chuva que caía.[{132}]
[{133}]