(Tragédia rústica)
Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e chuva desabridos.
FRANCISCO, da porta, chamando:
Maria Joana!
MARIA JOANA, que vem de dentro, do interior da casa, com uma candeia acêsa, voltando-se:
Crédo! Meteste-me um susto! (Pendurando a candeia). Entra![{136}]
FRANCISCO, entrando:
O pai? está melhor?
MARIA JOANA, abatida:
Na mesma...
FRANCISCO
Na mesma?!
MARIA JOANA
Ou pior... sei lá! A outra noite já o nem julgávamos. Um febrão!
FRANCISCO
Basta que sim.
MARIA JOANA
Sempre a variar... a dizer tolices... (sente-se, dentro, gemer). Ouves? Lá está...
FRANCISCO
É verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor...[{137}]
MARIA JOANA
Sim, tem disso.—«Alembras-te» da minha mãe?
FRANCISCO
«Alembro».
MARIA JOANA
Não me sái da «'maginação» que é o mesmo mal.
FRANCISCO
Ágora!
MARIA JOANA
Um dia melhor, outro pior, té que por fim... (Comovida) É o mesmo mal.
FRANCISCO
Ora!
MARIA JOANA
Verás. Já d'ali se não ergue.
FRANCISCO
Sabes lá bem...[{138}]
MARIA JOANA
Diz-mo o coração. E olha que para adivinhar...
FRANCISCO, depois dum silêncio:
Porque não mandam vocês à cidade, chamar o médico?
MARIA JOANA
P'ra lá foi o Tónio à bocado. Não tardam aí.—Pois que horas são?
FRANCISCO
Oito. Déram agora...
MARIA JOANA, calculando:
É isso. Foi com de dia. Não tardam.
FRANCISCO, depois dum novo silêncio:
E que diz o mestre Lourenço?
MARIA JOANA
O barbeiro? Olha o que há-de dizer! Que já se não entende com o mal, é claro.[{139}]
FRANCISCO
Sangrou-o?
MARIA JOANA
Sangrou.
FRANCISCO
E «óspois»?
MARIA JOANA
Cuidávamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a encovarem-se-lhe... (Tápa o rosto com as mãos, horrorisada). Se tu o visses!
FRANCISCO
Devia ter sido há mais tempo, talvez...
MARIA JOANA, desiludida, encolhendo os ombros:
Oh!
FRANCISCO
Há quantos dias adoeceu?
MARIA JOANA
Há treze.—É mau «númaro», não é?[{140}]
FRANCISCO
Ora adeus! Fias-te nisso?
MARIA JOANA
Fio.
FRANCISCO, levemente trocista:
Esta bom.
MARIA JOANA
Quando a minha mãe morreu, um cão esteve a uivar aqui toda a santíssima noite...
FRANCISCO
Foi o acaso.
MARIA JOANA
A Tereza Bógas casou a filha a uma terça feira e dia treze...
FRANCISCO
Bem haja ela...
MARIA JOANA
Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a![{141}]
FRANCISCO
Milagre fôra se a deixásse com vida...
MARIA JOANA
Que mais queres?
FRANCISCO
Nada, co'os démos: estou «'stifeito». Tira-me essas manias da cabeça; dás em maluca.
MARIA JOANA
Se fôsse só isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites tão certos, «Fracisco», tão certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do nosso casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade...
FRANCISCO, nervoso:
Bem; se continúas, vou-me.
MARIA JOANA, rindo:
Oh! «home»! julguei que eras mais forte do que isso!...[{142}]
FRANCISCO
Não é; não gósto...
MARIA JOANA
Bem, bonda, não te zangues...—És meu amigo?
FRANCISCO, amuado:
Não sei...
MARIA JOANA
És, bem vejo.
FRANCISCO
P'ra que mo «prècúras», nesse caso?...
O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das árvores, ululando.
MARIA JOANA, num pressentimento:
E se eu morrêsse?... Casavas com outra?
FRANCISCO
Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou então...[{143}]
MARIA JOANA
Esta dito. Eu hoje estou assim... Não é por mal.—Escuta!
Poem-se os dois a escutar.
FRANCISCO
Parece que vem gente...
MARIA JOANA
Ná. É o vento.
Abre-se a porta de repente, com um empurrão sêco, e MANOEL entra, embuçado; traz uma velha arma caçadeira que coloca a um canto. MARIA JOANA, assustada, expele um grito quando o vê. FRANCISCO ergue-se tambêm assustado.
MANOEL, sorrindo, semblante mal encarado de facinora:
Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu não sou o diabo, socegai!...
MARIA JOANA, mal refeita ainda do susto:
D'onde vens tu, «home», assim, a estas horas?[{144}]
MANOEL
Que te importa? Mete-te lá com a tua vida! Ora o «estapor»! (A Francisco) Um cigarro!
FRANCISCO oferece-lhe um cigarro.
MANOEL
Olá! Êste é dos de cu aberto! Bravo, rapaz, estás um «fedalgo»!
FRANCISCO
Déram-mos.
MANOEL
Só a mim ninguêm me dá raça de nada! Tudo me rouba. Aqui então, nesta casa... é tudo deles,—dessa e do outro...
MARIA JOANA
Intrujão! Não no acredites, Francisco, é um intrujão.
MANOEL, crescendo para ela:
Intrujão? E tu, minha porca? E tu que és?[{145}]
FRANCISCO, para o serenar:
Olha o pai, que ouve...
MANOEL
Quero cá saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o médico? Bem te digo eu: isto é deles! Não vem cá por menos d'uma libra! Pois hão de êles pagá-la, se quiserem; nanja eu. (Beija os dedos em cruz). Juro!
MARIA JOANA
Ninguêm to pede...
MANOEL
Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enxó, do peito...
FRANCISCO
Deixa lá! Vão-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma pessoa de remorsos.
MANOEL
Livra!... Livra-se mas é do dinheiro. Eu cá digo: quem tem de morrer, morre. Todos hemos d'ir, paciência... É a obrigação.[{146}]
MARIA JOANA
Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com saúde.
FRANCISCO
Ouves?
MANOEL
O corpo dava ela por menos disso...
FRANCISCO
«Manel»!
MANOEL, refilão:
Que há de novo?
FRANCISCO
É tua irmã, bem vês...
MANOEL
Parabêns. Olha a princesa!
MARIA JOANA
Desalmado! (Ouve-se dentro a voz do pai a gemer). Pai! pai! Aí vou!
Sai correndo.[{147}]
FRANCISCO segue-a até a porta e fica a escutar. Pausa dalguns instantes. A chuva bate com fôrca nas têlhas.
FRANCISCO
Que noite!
MANOEL, à lareira, põe-se a cantar:
Não sei que quer a «desgrácia»
Que atrás de mim corre tanto...
FRANCISCO, interrompendo-o:
Parece mal, «home»; cala-te!
MANOEL
Pois sim...
... Que atrás de mim corre tanto...
Hei de parar e mostrar-lhe
Que de vê-la não m'espanto...
FRANCISCO
Até é pecado.[{148}]
MANOEL
Pecado e êles fazerem-me o que me fazem.
FRANCISCO
Estás doido. Que é que te fazem?
MANOEL
Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha mãe quase me não criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis dar!...—Já lá está, a pagá-las!
FRANCISCO
Ora! Vá a gente a ouvir-te. Tu és um doido.
MANOEL
Sou?—Porque dizes isso?...
FRANCISCO
Porque tenho rasões.
MANOEL
Talvez. Eu odeio-vos a todos![{149}]
FRANCISCO
A mim tambem?
MANOEL
A ti. Queres-me roubar...
FRANCISCO, pálido, recuando:
Eu?!
Ouve-se fóra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima.
MARIA JOANA, de dentro, a gritar:
Lá veem! lá veem! Abram a porta... (vê Francisco arquejante, afogueado; pára diante dêle). Que foi?
TÓNIO, de fora, ao mesmo tempo, chamando:
Maria Joana! ó Maria!... Abram lá isso! Abram! (Batem com força).
Francisco corre a abrir a porta. Há confusão, reboliço.—«Santo nome de Deus!» diz Maria Joana. Entram o médico e Tónio.[{150}]
O MÉDICO
Ora até que emfim!... Boa noite!
VÓZES, a um tempo:
—Bôa noite.
—Viva!
—Passe vossa senhoria bem...
TÓNIO
Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio é muito.
O MÉDICO, aquecendo-se:
Aceito. Venho gelado.
Faz-se silêncio. O doente grita.
O MÉDICO
É o doente?
MARIA JOANA
Saberá vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo nome de[{151}] Deus! Se vossa senhoria o aliviasse daqueles tormentos, por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se os tem...
MANOEL, do lado, chasqueando:
Êle não e casado, mulher!
O MÉDICO, voltando-se, reparando em Manoel:
Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemecêe que eu não sou casado?
MANOEL, no mesmo tom:
Digo eu...
O MÉDICO, para Maria Joana:
Quem é êste homem?
MARIA JOANA
É meu irmão (segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido).
O MÉDICO
Bem.—Vamos ver o doente. (Indicando uma porta) É por ali?[{152}]
MARIA JOANA
Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria há de desculpar, é uma casa de «probes»...
Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os tres homens: TÓNIO, o irmão e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra. Um cão põe-se a uivar, perto.
FRANCISCO, nervoso:
Olha o diabo do cão! É o vosso?
TÓNIO
É. Chama-o.
FRANCISCO, vai á porta a assobiar-lhe:
Eh! Farrusco! Quieto! Venha cá! Quieto!
O cão cala-se, mas d'aí a pouco põe-se a uivar outra vez.
FRANCISCO
Não há meio! Se fôsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono. Farrusco! (assobia-lhe de novo).[{153}]
MANOEL
Deixa lá o animal! que mal te faz o animal? Tambem com êle te metes? Aquilo foi desde que entrou o médico: cheirou-lhe a defunto...
TÓNIO
Bruto!
Os dois irmãos entreolham-se ferozmente. Passa entre êles uma labareda d'ódio. Depois, MANOEL põe-se a cantarolar.
TÓNIO, a meia voz:
Farçola! o que tu merecias...
MANOEL, que ouviu bem:
Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira...
TÓNIO
O quê? que dizes?
MANOEL
É cá comigo...[{154}]
TÓNIO
Escuta. Quem paga ao médico sou eu, do meu bôlso, ouviste?
MANOEL
Bom proveito.
TÓNIO
As vinte moedas que ali estão (indica um arcaz) são da Maria Joana.
MANOEL, erguendo-se, encandieirado:
De quem?
TÓNIO, enérgico:
Da Maria Joana, já disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade, mando eu!
FRANCISCO, intervindo:
Tónio, bem vês... A Maria Joana há de vir a ser minha mulher. Eu não queria que por via disso... de dinheiro...
TÓNIO
Tá, tá, tá... não tens que «agarcer»; são dela. Eu é que mando aqui: sou o mais velho.[{155}]
MANOEL
Juro que te arrependes, Tónio! Cego seja eu de gôta serena.
TÓNIO
Pois cego sejas tu.
FRANCISCO, interpondo-se:
Olhem o médico! Tenham juizo, ó menos...
O MÉDICO, da porta, falando para dentro:
Sim senhor, tudo se há de arranjar, esteja socegadinho... isso pássa (entrando). Pobre homem!
TÓNIO, avançando para o médico:
Está pronto, não é verdade? Já d'ali não «arrinca»... Morre?
O MÉDICO, querendo animar:
Vamos a ver; emquanto há vida...[{156}]
FRANCISCO
Sim, emquanto há vida, Tónio, há esperança! Tem por dizer...
TÓNIO, desiludido, ao médico, abanando a cabeça:
Na. Póde vossa senhoria desabafar; eu cá sei o que vai haver esta noite... Adivinho!
FRANCISCO
Ó «home», que genio! que fraqueza! Não vês êste senhor a dizer-te que não. Êle é que sabe, que estudou...
TÓNIO
Pois sim. Estâmos sem pai, «Fracisco»!
MARIA JOANA, que vinha entrando e que ouviu o irmão dizer aquilo:
O quê! Morre? (Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao médico). Morre? meu pai morre? (o médico cala-se) Não me respondem! não me dizem nada! (levando as mãos á cabeça num desespero)[{157}] Ah, meu pai! Ah, meu pai! Que não tenho outro...
FRANCISCO, confortando-a:
«Atão», Maria Joana, vem cá, vem cá. Olha que êle ouve.
MARIA JOANA
Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, «Fracisco».
FRANCISCO
Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa!
TÓNIO, ao médico que está preparado para, saír:
Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, há de perdoar, nós lá iremos...
O MÉDICO
Descansem, quando puderem, não tenho pressa; arranjem cá a sua vida. Agora o que é preciso é ir embora... Faz-se tarde.
TÓNIO
Pronto! (a Francisco) Ó «Fracisco», tu agora vais aqui com o sr. «doitor», se te não custa, eu[{158}] não posso... E trazes os remédios, pelas almas. É um favor.
FRANCISCO
Vou e ponho-me aí num foguete, verás. Dentro de duas horas estou de volta.
MARIA JOANA, num gemido:
Leva a arma!
MANOEL, que tem estado sempre calado até aqui:
Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta.
Todos se voltam, admirados da generosidade.
FRANCISCO
Não é preciso; levo antes esta (mostra um marmeleiro ferrado) é mais certeira... Bem hajas!
Dão as boas noites. Sai êle e o médico. Uma lufada d'ar entra, quando se abre a porta, apagando a luz.—«Fechem a porta!» ouve-se dizer no escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o vento. TÓNIO, dentro, ás apalpadelas, procura a candeia,[{159}] que acende ao fogo duma acha, no lume da lareira, soprando-lhe para a atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma rodilha, a um canto, a soluçar.
TÓNIO
Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama...
MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do lenço da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água. MANOEL nem palavra: fuma.
TÓNIO
Para onde vai isso?
MARIA JOANA
É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes? (Tónio encolhe os ombros) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito: «filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de beber. Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle pedisse. Dou?[{160}]
TÓNIO
Se êle o disse...
MANOEL, de troça:
Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho...
TÓNIO, furioso, agarra num banco e avança para o irmão:
Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (Os seus olhos chispam lume).
MANOEL, erguendo-se:
Experimenta e verás o trôco... (Diante dêle): Sim! sim!
MARIA JOANA, suplicante, entre os dois:
Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!
TÓNIO, cedendo:
O que te vale...[{161}]
Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante.
Grande silêncio!
Súbito, um grito, depois outro,—lancinantes, desesperados, dentro do quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados.
MARIA JOANA, à porta, num paroxismo:
O pai! o pai!... Morto! (volta como louca à cabeceira do cadaver).
TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da irmã. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade, olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o braço nervosamente no fundo; tira tudo,—roupas, farrapos, misérias, remeche,—procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as vinte moedas!
TÓNIO, que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama:
Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã![{162}]
Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes—como dois liões!
MARIA JOANA, sòzinha, brada, abrindo a porta, para a solidão dos campos ermos, na chuva e na ventania:
Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!
Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da outra gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto, alucinado, escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por duas veses o prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a espingarda e alveja-o.
MARIA JOANA, interpondo-se, num salto ágil:
Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»!
MANOEL
Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem...
Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão, dispára-se, indo a carga alojar-se no peito da rapariga.[{163}]
TÓNIO, vendo a irmã caída num lago de sangue:
Mataste-a!
MANOEL, poisando a espingarda e com um sorriso cínico:
Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação...
Recomeçam a luta.
[1] O autor não quis nesta novela, a que deu indiferentemente a forma dialogada, tentar um género de literatura dramática como êsse que há tempos aí se exibiu em palcos Portugueses (não sabe se com grande ou pequeno exito) com o titulo de Grand-Guignol, importado directamente de França. Género macabro, terrorista, insalubre, visando a provocar no público as fortes comoções nervosas pelo espectáculo de scenas lúgubres, sanguinárias ou simplesmente extravagantes.—Esta tragédia rústica é um ligeiro estudo do caracter supersticioso, bestial, por vêzes quase feroz, da pobre, inculta, miserável gente das aldeias beirôas, em cujo seio os instintos, bons ou maus, falam ainda a linguagem espontânea e bárbara das primitivas idades.