VERDADEIRO
METODO
DE ESTUDAR,

PARA
Ser util à Republica, e à Igreja:
PROPORCIONADO
Ao estilo, e necesidade de Portugal.
EXPOSTO
Em varias cartas, escritas polo R. P. * * * Barbadinho
da Congregasam de Italia, ao R. P.
* * *
Doutor na Universidade de Coimbra.

TOMO PRIMEIRO.

VALENSA
NA OFICINA DE ANTONIO BALLE.
ANO MDCCXLVI.
COM TODAS AS LICENSAS NECESARIAS, &c.

AOS REVERENDISIMOS
PADRES MESTRES,
DA VENERAVEL RELIGIAM DA COMPANHIA
DE JEZUS.
No Reino, e Dominio de Portugal.

ANTONIO BALLE
OBZEQUIOZAMENTE SAUDA.

Saiem à luz, Reverendisimos Padres, as cartas eruditas, de um autor moderno: as quais até agora corrèram manuscritas, por algumas maons: mas chegando às minhas, e conhecendo eu, que podiam utilizar a muitos, me-rezolvi impremi-las. O argumento delas é este. Certo Religiozo da Universidade de Coimbra, omem mui douto, como mostra nas suas cartas; pedio a um Religiozo Italiano, seu amigo, que vivia em Lisboa; que lhe-dèse algumas instrusoens, em todo o genero de estudos. O que o dito Barbadinho executa, em algumas cartas: explicando-lhe em cada-uma, o que lhe-parece: e acomodando tudo, ao estilo de Portugal. Este autor escreveo-as, sem nem menos suspeitar, que se poderiam impremir: como consta de alguns periodos destas, que nam impremi; e de outras que conservo, em que declara com mais individuasam, o motivo desta conrespondencia: e explica varias coizas, que aqui nam se-acham. Onde, para consolar o dito autor, que nam sei se ainda vive, e fazer o que dezejava; nam impremi senam as que me-parecèram necesarias: e ainda nestas ocultei os nomes dos conrespondentes, e de algumas pesoas, que nelas se-nomiavam: parecendo-me justo e devido, nam revelar os segredos, das conrespondencias particulares: principalmente, quando podia conseguir o fim, de utilizar o Publico, sem prejuizo de terceiro. As cartas encadeiam tam bem umas com outras, que se-podem chamar, um metodo completo de estudos. podem servir para todos; mas especialmente sam proporcionadas, ao estilo de Portugal: pois este era o fim do autor. Protesta ele nas mesmas cartas ineditas, que nam dera em varias coizas, melhor metodo; porque temia, que o seu amigo mostráse as cartas, a pesoas preocupadas: as quais nam fariam nada, se lhe-aconselháse tudo, o que praticam em outros Reinos: e que por iso se-acomodava ao gosto, do paîz em que estava. E nam cesava de encomendar-lhe, que as-nam-lese a omens, que interpretasem mal as suas palavras; e as-aplicasem, a outro sentido.

E querendo eu agora impremir estas cartas, a quem as-devo dedicar, senam a VV. RR.? Prezumo, e com muita razam, que se o autor ouvèse de publicar estes escritos, a ninguem mais os-ofereceria, que a esa sagrada Religiam: visto mostrar a cada paso, o respeito e venerasam, que lhe-profesava. E sendo eu nam menos propenso, e obrigado a toda a Companhia; quero tambem mostrar-lhe o meu reconhecimento, nesta pequena oferta. Se a minha posibilidade dèse mais, mais faria: mas as forsas nam conrespondem aos dezejos: e VV. RR. costumam estimar mais a vontade, que as ofertas. Alem diso, por todos os titulos deviam estas cartas, ser consagradas ao seu nome. Sam VV. RR. aqueles, que só podem ajudar, os pios dezejos deste autor: aqueles, que só tem forsas, para iso: e finalmente aqueles, que mais que ninguem dezejam, o adiantamento da Mocidade, e se-cansam, para o-conseguir. Acrecento, que o autor confesa, que tudo aprendèra, com a diresam desa Roupeta, e polos seus autores. E asim, torno a dizer, por todos os titulos estes livros, se-lhe-devem dedicar.

Quam oportuna ocaziam se-me-oferecia agora, de referir os louvores desa veneravel Religiam, se a moderasam, e umildade de VV. RR. nam me-tapáse a boca! Quem tem dado mais, e mais ilustres escritores a ese Reino, que a Companhia? Quem tem promovido com mais empenho os estudos, que os seus mestres? Onde florecem as letras com mais vigor, que nos seus Colegios? Que omem douto tem avido em Portugal, que nam bebèse os primeiros elementos, nas escolas desa Religiam? Nam leio as istorias dese Reino, e Conquistas, que nam veja a cada paso, exemplos memoraveis, da grande piedade, da suma erudisam, do inexplicavel zelo dos seus Religiozos! VV. RR. que abrîram no-Oriente as portas, ao Evangelho, tem trabalhado com tal empenho, na vinha do Senhor; que se contamos somente os Povos convertidos, tem conquistado para a Fé, e tambem para o Reino, imperios vastisimos. Nem sei a quem atribua maior gloria: se às armas vitoriozas dos Portuguezes, no Oriente; se às pias exortasoens, e fadigas, dos seus Misionarios. Mas se é mais gloriozo o triumfo, que se-consegue sem sangue, somente com a forsa da eloquencia, sem prejuizo dos Povos, e com grande utilidade da Republica: ficam VV. RR. muito mais gloriozos, que os mesmos ilustres Generais Portuguezes; pois conseguîram a vitoria, nam dos corpos, mas dos animos. Vencèram VV. RR. nam derramando o sangue dos outròs, mas o proprio: e com ele escrevèram o seu nome, nam só nos livros da fama, e destas istorias caducas; mas no-mesmo livro da-vida: e levantáram um padram naquela patria, em que as virtudes se-estimam: premeiam-se dignamente os servisos: e a gloria dos vitoriosos nam morre. Nam me-volto para a Africa, para a America, que nam veja os Religiozos da Companhia, convertendo os idolatras, ajudando os fieis, ensinando a todos. Aî mesmo em Portugal, quem á que nam seja obrigado, à Companhia; e nam experimente os influxos, desa benigna Religiam? Quem ja mais chegou, a uma das cazas desa Religiam, para buscar um confesor, a qualquer ora da noite; que nam ficáse consolado? um Pregador, para qualquer festividade; que nam fose obedecido, ainda sem interese? quem foi pedir conselho, em materias de conciencia; que nam tivese promta resposta? quem quiz um parecer escrito, em qualquer materia que o-quizese; que nam tornáse satisfeito? Se olho para as prizoens, vejo os Religiozos da-Companhia consolando os aflitos, procurando os livramentos, confesando, e confortando a todos. Se olho para as prasas, e ruas publicas, vejo os mesmos Religiozos, doutrinando os ignorantes, excitando a emulasam nos-meninos, atraindo com suave maneira os que pasam, para ouvirem a verdade Evangelica. Se olho para as igrejas, vejo-os frequentes no confesionario, exortando os fieis em dias determinados, exatisimos nas funsoens divinas, que celebram com toda a magnificencia, e devosam. Se olho para as escolas, vejo-os ensinando aos meninos com grande amor, e paciencia, nam só as letras, mas a piedade, que em toda a ocaziam lhe-inspiram. As mesmas portarias das suas cazas, ensinam com o exemplo; nos muitos martires, e doutos, que nelas vemos pintados; que muda, mas eficazmente persuadem, seguir a mesma estrada: e ensinam com a doutrina, nos livros que nelas incontramos, que suavemente inclinam a vontade, para abrasar a vida perfeita. Finalmente se olho para qualquer Religiozo da Companhia, vejo o retrato da continencia, da moderasam, da mansidam, da afabilidade, do respeito: coizas que me-infundem um sagrado terror. Bemdita Religiam, em que o Prelado nam se-distingue do Sudito, senam em ter mais trabalho, e suportar o pezo, do governo economico. Ninguem aspira aos governos: ninguem busca meios de conseguilos: sinal certo, que se-administram com os olhos em Deus, e na sua obrigasam. Nam á distinsam de magisterios: nam á izensam de graos. O mesmo que ensina a Teologia na cadeira, ensina o catechismo nas prasas: o mesmo que confesa os Grandes, confesa os Pequenos: o mesmo Prelado que manda aos mais, obedece, e serve nas ocazioens a todos. Finalmente todos conspiram, para dar gloria a Deus, utilidade ao proximo, e servir no que podem à Republica.

Nam quero trazer à memoria, o que esa sua Religiam tem feito, e faz, nas mais partes da Europa Catolica. Deixo de parte, a inviolavel uniam que sempre teve, com a Sé Apostolica: e as persiguisoens, e censuras criticas, que tem sofrido por esa cauza. Nem menos falo na gloria, que rezulta à Companhia, de ver que tantas Religioens, e Congregasoens, que se-fundáram despois dela, todas a-tem tomado por treslado: e nam julgam merecer com justisa, os louvores dos omens pios, senam quando se-avizinham mais, ao seu instituto. Este é um milagre continuo daquele bemaventurado espirito, que la no-Ceo está sempre pedindo a Deus, pola propagasam, e aumento da Religiam que ca deixou: unir tantas vontades, para imitarem uma Religiam, que nam conta longa serie de seculos, mas que é a mais moderna, entre as famozas. Nam, nam quero referir mais singularidades. Intraria na verdade em uma materia vastisima, que me-daria argumento, para muitos e dilatados panegiricos; mas excederia os meus limites. Só considero, o que faz em Portugal, e o que pratîca no seu dominio. Estas coizas ocupam de sorte a minha ideia, e admirasam, que me-nam-permitem considerar o demais, aindaque seja grande e singular. Nem tem que me-dizer, que as outras Religioens sagradas todas se-cansam em obzequio da Igreja: ensinam muito, e edificam muito. Confeso, que todas tem as suas singularidades: todas merecem ser louvadas: todas dam gloria a Deus, e servem à Igreja: mas cadauma no seu genero. Nam vejo alguma, que tenha todas as prerogativas, que se-acham juntas, na Religiam da Companhia: e que as-pratique, nam por vaidade, nam por outro interese mundano; mas por amor de Deus, e por caridade do proximo. Estam todos os Portuguezes tam persuadidos, desta verdade, que quem quizese dizer o contrario, serîa publicamente escarnecido. Os mesmos Monarcas de Portugal, que sabem justamente estimar a Virtude; nam costumam intregar, a diresam da sua conciencia, senam aos Religiozos da Companhia. Desde que VV. RR. intráram neses Reinos, conspiráram todos eses Soberanos a reconhecèlos, como prudentisimos diretores, da conciencia dos omens: e por iso os-elegèram, para seus Confesores. Os Principes, a Caza Real, os Grandes, a maior parte dos omens de letras, e empregos, todos praticam o mesmo. Nam é posivel, que se-inganem tantos omens, de diferentes gerarchias, e de incontrados intereses, sem que os-obrigue a experiencia, e a verdade. Em todos os seculos, e entre todos os omens de juizo, o consenso de todos, foi argumento irrefragavel, da evidencia. Todos os omens prudentes louvam a VV. RR. todos os-engrandecem, todos os-buscam, todos se-servem das suas prendas, e virtudes: E asim sam VV. RR. tais como eles intendem.

Mas eu PP. RR. ja saî fóra do-meu argumento. Comesei uma carta, e acho-me engolfado em um elogio: caî naquilo mesmo que dezejava evitar. Nam sei se ofendi a sua moderasam, com as minhas expresoens: que é verdade que nacem do corasam, e sam proferidas com toda a sinceridade, de um bom amigo; mas emfim sam elogios. Nam obram VV. RR. polos louvores: mas por um fim mais alto, mais grande, mais admiravel. Nam obram bem para o-parecerem, e paraque todos o-conhesam; mas porque o seu instituto asim obriga: asim foram criados: vivem persuadidos diso mesmo: e nam podem obrar de outra sorte. Este é o elogio, que aquele encarecido Romano[1] deu la, ao seu Catam Uticense, com adulasam excesiva: mas que eu intendo, que só se-pode aplicar a VV. RR. nam com lizonja, mas com verdade notoria; porque o-digo publicamente, e a todo o mundo. Asim é, nam obram bem os Religiozos da Companhia, para agradar ao mundo, e conseguir os seus louvores: e dejando eu fazer-lhe a vontade, nam devo opor-me aos seus dezejos. Verdade é, que falando desa Religiam, dificultozamente podia deixar de expremir, alguma coiza do que intendo. Mas VV. RR. nam mo-permitem; eu me-desdigo, e dou por nam dito, quanto até aqui tenho significado. Só digo, que lhe-ofereso, e dedico as cartas de um autor, que conforme julgáram os omens doutos, que as-lèram, conheceo o verdadeiro modo de estudar: e para o-conseguir, deu excelentes doutrinas: e quem as-ler com animo dezapaixonado, e tiver voto na materia, achará nelas tudo o que é necesario, para aquistar o bom gosto literario; quero dizer, um juizo critico, que ensine abrasar somente o que se-deve, em todo o genero de estudos. Acho nelas algumas vezes, certas palavras, e diversidade na uniam dos-Pronomes, e outras particulas com os Verbos &c. conforme o idiotismo Italiano; que o autor pode ser que mudáse, se lhe-puzese a ultima mam: porque me-parece, que era bem informado da-lingua Portuguesa, e nam pecou por-ignorancia. Mas se nelas á algumas coizas que emendar, e acrecentar, quem melhor o-pode fazer, que VV. RR. Comque ponho-as nas suas maons, e ofereso-as ao seu criterio: e só direi o que me-pertence, a cerca da prezente edisam.

O autor segue uma Ortografia particular, (que eu, movido das mesmas razoens, abrasei) e que ainda nam está bem recebida, nese Reino: e asim para nam parecer novidade, será precizo ler as cartas, como se-acham impresas: observando bem a primeira, na qual dá razam, da sua Ortografia. Mas como em outras cartas explica varias coizas, que aqui nam se-acham; devo declarálas, paraque os leitores formem conceito, das opinioens do autor. Em certa carta, escrita entre a primeira, e segunda do primeiro tomo, diz, que nam obstante que disèse[2], que a linha se-pode pór entre as disoens, para evitar os equivos: v.g. na particula por, quando significa cauza, para a-distinguir do-verbo pòr: ou tambem nas particulas no, do, da; para as-distinguir dos sustantivos , , e do verbo, , dás: Contudo observando ao despois, que podia embarasar os principiantes, ver as linhas nestas particulas, que sam frequentes; julgára mais acertado, tirálas das ditas particulas: como tambem de todas as terminasoens plurais dos verbos: v.g. disera-mos, amaria-mos, quizer-mos, fizer-des &c. pola razam que estas terminasoens sam mui frequentes, e todos as-intendem mui bem. Acrecenta, que tambem nam se-deve pòr, naquelas palavras e verbos, em que se-acrecenta uma letra, para evitar a uniam de vogais, que fasam equivocos, v.g. fazèla, quando vale o mesmo, que fazer-a, isto é, fazer esa coiza. Tambem quando se-introduz o pronome no verbo: v.g. dirmeám, que vale o mesmo que, diram-me: falosîa, obrigalosîa, que muitos escrevem mal asim; falos-ia, obrigalos-ia: porque a dita palavra compoem-se destas: faria-os, obrigaria-os: acrecentando um l, para facilitar a pronuncia das-vogais: onde separando, ia, separam uma parte necesaria da palavra, e fazem erro. Nestes cazos diz, que basta o acento em fazèla, dirmeám, obrigalosîa. Aindaque na primeira e semelhantes, quando sam imperativos, faze-la, quere-la &c. que valem, faze-a, quere-a; nam reprova que se-ponha a linha, para mostrar que é esdruxola, e que se-pronuncîa diferentemente. Asimque para facilitar a Ortografia, somente deixa as ditas linhas nestes cazos. I. Na uniam dos pronomes com os verbos, ou das particulas que servem de pronomes, e sam diferentes das terminasoens dos verbos: v. g. fazemos-lhe, lhes-fazem, nos-dizem, dizem-no, o-dizem, as-querem. II. Nos verbos impesoais, que unem com o reciproco: fazem-se, chamam-se, se-nam-fazem: ou tambem nestes; nos-explicarmos, nos-virmos &c. e outras unioens semelhantes: como no verbo á quando une com a particula se: porque sempre se-pronuncîa unido: se-á-de, ám-de &c. Tudo isto advertîra confuzamente, no lugar apontado: mas aqui o-explica melhor. E com efeito tendo escrito com as linhas, as primeiras trez cartas, nas seguintes observa as regras, que aqui dá. E devendo eu, ou tirar as linhas de todas, ou polas em todas, para proceder coerente; segui esta segunda parte: aindaque em algum plural de verbo, alguma vez a-nam-puz. A quem nam agradar, observe as regras que o noso autor dá; que eu tambem observo.

Adverte na mesma carta o autor, que serîa utilisimo, que os omens doutos, seguindo a regra da pronuncia, puzesem i em muitos verbos, e nomes que deles nacem, que se-pronunciam geralmente com i; e nam se-podem pronunciar com e, sem se-esforsar: v.g. emprestar, engrandecer, envergonhar &c. Diz porem, que ele só o-praticou em poucos, e mais comuns, v.g. intrar, incontrar, inganar, intender, ingenhar, importar, informar, e algum outro rarisimo. O que fez, para nam escandalizar de um jato os leitores, pouco informados destas coizas: mas aconselhava, que pouco a pouco se-introduzisem com i. Como tambem se-escrevesem com e, alguns infinitos, v.g. admetir, permetir, defirir, &c. nam obstante se pronunciarem com i, os prezentes &c.

Em algumas partes, de duas ou trez palavras compoem o autor uma só: damesma, contantoque, namobstanteque. Outras vezes escreve-as separadas: com tanto que, nam obstante que, &c. o que eu conservei na impresam. Mas diz o autor que o-fez, para mostrar, que se-podem unir, e separar, como cadaum quizer: O que fazem os seus Italianos, em varias palavras; e os mesmos Latinos em paulo minus, nihilo minus, quam ob rem, et enim &c. que escrevem ou separadas, ou juntas, como lhe-parece mais elegante. Mas o noso autor comumente escreve-as unidas.

Algum erro de Ortografia segundo os tais principios, se-cometeo nesta edisam: o que moralmente nam se-podia evitar, nam sendo o mesmo autor, o que correge a impresam. Estes parece-me que se-podem reduzir, a varios capitulos. I. Puzeram algumas vezes acento agudo, em lugar do grave; e polo contrario: o que o autor distingue mui bem. II. Falta o acento em algumas palavras, em que o autor costuma polo, ou para evitar equivoco, ou para facilitar a pronuncia: v.g. serîa, verbo; e seria adjetivo: escrevèram, preterito remoto; e escreverám, futuro: fórma, nome da escola; e forma, nome de artifice: &c. aindaque neste particular o contexto, comumente tira o equivoco. III. Acha-se alguma linha, em parte onde nam devia, ou falta onde devia: mas sam cazos mais raros. IV. Varias vezes escrevèram i, por e, em admitir, defirir, prefirir, permitir &c. que o autor sempre escreve por e, admetir &c. conformando-se, segundo diz, com a pronuncia comua, e facil, que sempre exprime o e, tirando em bem poucos. Polo contrario puzeram tambem e por i, em ingano, incontrar, intrar, inganar &c. que o autor sempre escreve por i, pola mesma razam da pronuncia. V. Falta alguma virgula onde devia estar, segundo os principios do autor: e alguma se-acrecentou. VI. Dividîram algumas palavras mal no-fim das regras: v.g. min-ha, con-heso, mel-hor, ba-sta, &c. devendo porem o n, e l das primeiras unir-se com h; e o s da segunda com o a. Em inco-gnito, per-spetiva, e outras poucas que tem origem Latina, ou sam quazi Latinas; intendo que è melhor, dividilas nesta fórma, seguindo o estilo Latino.

Estes erros sucedèram mais frequentemente, nos principios de ambos os tomos, que se impremiam juntos: tempo em que o corretor nam tinha toda a noticia, da Ortografia do autor. Mas como os ditos erros nam pervertem o sentido do-discurso; por iso os-nam-apontei nas erratas. E asim só apontei aqueles, que me-parecèram que mudavam o sentido, ou que eram totalmente contrarios, ao estilo do autor, ou comum da dita lingua. Com as reflexoens que aqui aponto, pode o leitor cortez emendàlos, quando s’incontrarem: tendo à vista esta regra: Que achando-se diversidade em alguma palavra, que às vezes tem uma letra, e n’outras ocazioens letra diferente; observe o que é mais frequente; e saiba, que iso é o que o autor aprova.

Advirto alem disto, que os que impremîram o primeiro tomo, nam tinham U vogal maiuscolo pequeno, e asim servîram-se deste U, para vogal; e d’estoutro V, para consoante. No segundo tomo comumente se-distinguem na figura. Tambem advirto, que a minha imprensa nam tinha estas duas linhas =, para pòr no-fim da-regra, na divizam forsada das-palavras: (o que serîa necesario para distinguir, o que o autor aponta, na primeira carta) e asim puz somente, a linha simplez. O que advirto ao leitor, paraque nam estranhe, faltarem aquelas duas linhas, que o autor encomenda, e pratîca: aindaque com uma só linha, muito bem se-conhece, e distingue o sentido. Finalmente advirto, que puz alguns titulos das materias, no corpo de algumas cartas. v.g. na da Gramática, Medicina, &c. o que fiz, para facilitar a inteligencia aos leitores, e distinguir as materias. Isto é, RR. PP. o que tenho que advertir nesta carta, sobre a impresam, e inteligencia das-ditas cartas. O mais que se-contem nelas, compendiei nos-sumarios, que puz no-principio de cadauma, e tambem se-acham no-Index, de cada tomo. Nem me-pertence amim formar juizo delas, quando as-ofereso a pesoas tam doutas, de quem eu devo receber os ditames. Onde acabo a prezente carta, repetindo de novo a VV. RR. a venerasam que lhe-tenho, e dezejando-lhe as maiores felicidades, e a toda a sua Religiam.