II.

E tambem as memorias gloriozas

Daqueles Reis, que foram dilatando

A Fé, e o Imperio: e as terras viciozas

D’Africa, e d’Azia andáram devastando:

E aqueles que por-obras valorozas

Se-vam da-lei da-Morte libertando;

Cantando espalharei, por-toda a parte;

Se a tanto me-ajudar o ingenho, e arte.

Tudo o que se-compreende nestas duas Estancias, é propozisam: e tudo isto ele promete cantar. Mas aindaque na propozisam de um poema se-posam acrecentar, alem da-asám, algumas coizas; estas devem ficar fóra da-fabula, e nam deve o Poeta cantálas; e somente nos-epizodios do-dito poema, é que se-toca alguma delas. v. g. O novo Reino que se-fundou entre gente remota &c. é acrecentamento, que rezulta da-asám; e somente se-canta por-epizodio. O Camoens porem inclue tudo na propozisam, e asim o-executa: desorteque considerando os que inculca, na segunda Estancia; bem se-ve que entram, nam por-acrecentamento, mas direitamente. Contudo os Reis de Portugal, de que trata no-Canto III., e IV., nada tem que fazer, com a principal asám, e entram por-epizodio. Os que por-obras valorozas se-vam da-lei da-morte libertando, que sam todos os outros Portuguezes ilustres, tanto antigos, como modernos; tambem estam fóra da-principal asám, que é a navegasam do-Gama. Com efeito o Camoens lá os-introduz por-epizodio, no-principio do-Canto VIII. mas nam obstante iso, na propozisam do-poema mete-os direitamente, com os outros. Os que foram governar a India, tambem entram por-epizodio, no-principio do-Canto X. mas sem reparar niso, ele os-propoem com os outros, no-5. e 6. verso da-2. Estancia. Asim na primeira Oitava confunde, os que foram com o Gama conquistar a India, com os que ao despois foram governála: e de uns e outros diz, que edificáram novo Reino. Este defeito é de toda a considerasam, nesta materia. Garcez os-reconhece em Camoens: mas querendo desculpar nele, o ter proposto muitos varoens, com o exemplo de Caio Valerio Flaco; é mostrar que ignora, o pouco conceito que os eruditos tem, das-obras de Flaco; nas-quais acham mil defeitos contra a arte; e nenhuma grasa, ou beleza: desorteque os seus erros, nam podem servir de desculpa, aos de Camoens.

Errou alem diso o Camoens, em nam sustentar sempre o carater, e grandeza do-seu eroe: que abaixa sensivelmente no-Canto VIII. do-meio para diante. Errou, nas enfadonhas digresoens que introduz, por-toda a parte. Errou, em acabar quazi todos os Cantos, com esclamasoens mui fóra de propozito, e muito contra o estilo da-Epopeia. Tambem errou consideravelmente, introduzindo no-seu poema, as Divindades dos-Etnicos: nam alegorizando a coizas santas, como puerilmente pertende o Faria: nam aos Planetas personalizados, como benignamente interpreta o Garcez; o qual fingio uma nova constelasam para Baco, que nam se-intende o que é: mas em sentido proprio, damesma sorte que faláram os-idolatras Romanos; pois mete Venus, e Baco imprudentemente por-toda a parte. Isto é tam claro no-seu poema, que me-admiro muito, que aja quem o-queira desculpar, nesta materia. Se nam quizer-mos dizer, que se-servio de palavras sem significado; que serîa outro erro.

Mas deixando muitos outros erros, em materia do-Epico, que se-podiam apontar; tem outros nam menos censuraveis, em todo o genero de Poezia. Muitos versos errados, por-exceso de silabas: outros por-falsidade das-rimas, que nam sam consoantes &c. muitas palavras Latinas sem necesidade alguma; vistoque em Portugal á bastantes igualmente boas. Tem alem diso outros defeitos, comuns neste Reino: entre eles a prezunsam, de dizer sempre sentensas: o que nam nega o Garcez, nega porem, que Camoens seja oscuro; e afirma, que os seus versos sam canoros. E eu confeso a V. P. que acho estes dois defeitos expresamente no-Camoens: e que reconheso, que um douto Francez, que o-censura nisto, tem muita razam. Os versos de Camoens sam languidos, e pola maior parte sem grasa. Escreve comumente muitas vogais seguidas: e como os Portuguezes costumam na pronuncia, comer as ditas vogais, umas com outras; é necesario, para nam errar o verso, tomar frequentes respirasoens, e fazer muitas pauzas no-meio do-verso: o que faz perder a armonia. A prova disto é ler o Camoens: pois a cada paso se-incontram os exemplos: que se eu quizese citar, serîa necesario fazer um livro. Mas deixando outros muitos, observe V. P. estes, no-principio do-primeiro Canto.

O quarto, e quinto Afonso, e o terceiro.

Em vós os olhos tem o Mouro frio.

Dai-me agora um som alto, e sublimado.

E costumai-vos ja a ser invocado.

Com uma coroa e cetro rutilante.

Guerra Roma tanto se-afamáram.

Onde o dia é comprido, e onde é breve.

Da-antiga tam amada sua Romana.

E outro polas onras que pertende.

Deitando paratraz medonho, e irado.

Estrangeiros na terra, lei, e Nasam.

A Natura sem lei, e sem rasam.

Quem diser que estes versos, e outros que podia apontar, sam armoniozos, e enchem bem a orelha; é necesario que tenha orelhas mui compridas. Sam poucos os versos de Camoens, que nam tenham algum defeito de disonancia. A oscuridade ninguem lha-pode negar, quando queira examinar, as suas compozisoens. Nace em primeiro lugar, de uzar de palavras Latinas aportuguezadas, sem necesidade alguma: e isto nam uma ou outra vez, o que se-podia perdoar, e podia enriquecer a lingua, multiplicando os sinonimos da-mesma palavra: mas frequentisimamente, com afetasam manifesta. Nace em segundo lugar, de introduzir palavras, e frazes, que nada significam; o que é mais frequente na Luziada: porque no-Lirico explica-se naturalmente. v.g. Estas palavras: som sublimado: furia grande, e sonoroza: esperar jugo, e vituperio: tenro gesto: Mouro frio: suprema eternidade: e outras que se-acham na-invocasam que faz, a El-Rei D. Sebastiam; sam palavras que nada significam, e cauzam confuzam em quem le. Nace tambem, de certas aluzoens forsadas, e trazidas de longe, que frequentemente uza. A 6.a e 7.a Estancia, em que comesa o comprimento ao dito Rei, é tam oscura, que nam se-pode intender sem comentario: e o mesmo podia dizer, de quazi toda a invocasam. Isto acha-se frequentemente, em todo o poema: o que unido com a negligencia do-verso, faz, como dise um omem douto, que cada Estancia seja um misterio: o que é um consideravel defeito, em um poema Epico: cuja disam deve ser, aindaque nobre, natural, clara, inteligivel. Onde quando o Garcez quer defender, a clareza de Camoens; mostra que nam está despido, de toda a paixam: e vem a cair no-mesmo defeito, que ele condena no-Faria. Estes defeitos sam mui consideraveis, neste Poeta; e mostram o pouco dicernimento que tinha, das-coizas: e quem os-nam-distingue, nam intende que-coiza é Poezia. Contudo, tirando estes defeitos, nam deixa de ser um, dos-melhores Poetas Portuguezes.

Quanto ao poema de Filis, e Demofonte, obra do-Chagas, de que asima falei; é ele tal, que eu nam sei como lhe-chame. Pola figura, parece Epopeia: mas examinado dentro, nam é mais que uma istoria de amor, mui afetada. Reconheso, que o autor o-deixou imperfeito: como se-ve do-Canto VIII. que nam tem mais que 5. Estancias; e do-X. que tem 15. mas o corpo da-obra mostra mui bem, o que o Poeta queria. O titulo é este: Filis, ou Poema Tragico de Filis, e Demofonte. e nisto se-descobre, que o Chagas nam sabia, que coiza era poema Epico, nem como dele se-faziam os titulos. A asám do-poema é, a navegasam de Demofonte, que se-retirava do-sitio de Troia: e o Poeta perde logo de vista este ponto, e ocupa o poema com amores. No-primeiro e segundo Canto, em que descreve a guerra de Troia, e o seu naufragio; imita servilmente Virgilio, quazi palavra por-palavra. Somente o-nam-imita, nas comparasoens: pois sam tam frequentes e enfadonhas, as que introduz; que nam se-podem ler sem fastio. O III. Canto é uma disputa escolastica, sobre o amor; com mil conceitos improprios, e de rapaz. No-IV. em uma casada ajusta-se o cazamento: e copeia fielmente Virgilio, na cova onde se-retiráram os amantes &c. O V. Canto consiste na descrisam do-lago Averno, caza de Plutam, e outras arengas mais; em que entra um sacrificio, que nam se-sabe o que quer dizer: e finalmente Demofonte mata Ardenio. As duas descrisoens do-Palacio de Plutam, e da-jornada que este fez; sam as coizas mais ridiculas, que eu ainda vi. O Canto VI. é uma istoria tragica, dos-amores de uma pastora; que nada tem que fazer, com a asám do-poema. Mas a melhor istoria está no-Canto VII. em que o Poeta reprezenta o seu eroe mui descansado, polo espaso de dez mezes; sem que posamos saber, o que fez nese tempo. Despois, quando ele ja nam cuidava mais em Atenas, o-chama seu pai. custa-lhe a persuadir a Filis, que o deixe partir: mas finalmente parte. O VIII. Canto nam diz nada. O IX. é uma embrulhada terrível. Comesa com as saudades de Filis: esta vai consultar a Sibila Delfica, sobre os sucesos de Demofonte. Descreve a Sibila e a sua caza mui mal. Poem na boca da-Sibila um epizodio, da-Geografia de toda a terra; em que mistura umas coizas, com outras, e comete alguns erros. Mostra-lhe a Sibila o seu Demofonte, adorando a Florisbe. Filis raivoza rompe o espelho magico; e sucede um espalhafato orrendo. Filis fica esa noite no-campo, (nam se-falando mais no-que sucedeo à Delfia) exclamando contra as ingratidoens de Demofonte: e mata-se com a sua propria mam. E aqui descreve puerilmente, os efeitos da-sua morte. No-Canto X. torna Demofonte para Tracia, e sabendo a morte de Filis, que se-convertèra em arvore, quer abrasála: e sucede milagre, que no-mesmo instante produzio a dita, folhas, frutos, e aromas: os ramos tangèram, e balháram as flores.

Esta em duas palavras é a serie, e analize do-poema: na qual verá V. P. que este Poeta nem menos sabia, o que significava poema Epico. Esta sua compozisam, nam tem unidade de asám: porque toda a asám se-acaba em poucos dias, com o cazamento: a viagem ultima, foi um divertimento. Nam tem fabula: porque se-ve claramente, que é uma istoria, sem enredo, nem solusam. A descrisam da-Terra que faz a Delfia, nam tem parentesco algum, com a asám. isto é uma embrulhada, que eu nam vi tal. A transformasam de Filis em arvore, e o milagre das-flores; é outra parvoice, que ali nam tinha lugar. Só faltou ao Poeta dizer, que Demofonte se-enforcára na dita arvore: e acabava a tragedia. Tambem lhe-falta a unidade de tempo &c. Quanto ao modo de dizer; em quazi todas as partes se-serve de palavras, que nada significam: as frazes sam afetadas: os conceitos sam pueris: e quando diz alguma coiza mais estudada, ve-se uma afetasam condenavel em tudo. Ignora totalmente o decoro, e carater dos-sugeitos: o que se-ve, quando introduz no-Canto III. um guerreiro como Demofonte, disputando uma questam amatoria; como faria um academico, a quem encarregasem este asumto: ou tambem quando deixa uma Rainha como Filis, uma noite inteira, no-meio de um bosque medonho, sem companhia; o que mostra, a suma inverosimilidade: alem de muitas coizas, que podia notar. Onde torno a concluir, que de poema Epico, o Chagas nam sabia nada: e que pode V. P. aconselhar ao noso * * * que nam tenha dificuldade, de emprestar o tal poema; porque se o-perder, perde pouco.

Outro Portuguez chamado Francisco Botelho de Morais, e Vasconcelos, publicou dois poemas: um intitulado El Nuevo Mundo: cujo argumento é, o triumfo de Osiris, na corte de Atlantide: e este nam pude ver. O que porem vi averá anos, foi o outro poema intitulado, El Alfonso: em que com XII. Cantos descreve, a primeira conquista de Portugal, por-Afonso I. Polo que agora me-lembro, cuido que nam se-pode chamar Epopeia: mas uma simplez îstoria da-dita guerra, alterada com algumas fabulas: desorteque nam tem artificio algum, de Epopeia. Este Poeta quiz imitar em tudo, Lucano: e nam o-podendo imitar naquilo, que tem melhor; somente o-imitou, nas enfadonhas digresoens, e exclamasoens, que às vezes introduz: sendo uma destas tam grande, que ocupa um inteiro Canto. Tambem o-quiz imitar na afetasam, de mostrar-se Astronomo, e Fizico: pois nos-ultimos cantos, faz sem necesidade vários discursos escolasticos, nesta materia: a qual, polo que mostra, intendia mui pouco. As fabulas sam afetadas, e com bastantes inverosimilidades: entre estas ponho a da-Deuza que vinha polo ar, acavalo em um grande leam &c. os versos sam duros: e em todo o poema reina, uma oscuridade insofrivel: o que creio provèm tambem, de escrever em Espanhol. Nunca pude intender, por-que razam um Portuguez deixa a sua lingua, para escrever na Espanhola, que pola maior parte nam alcansa bem. Mas esta afetasam é mui vulgar, em muitos destes seus nacionais, que querem parecer eruditos. Isto é o que agora me-ocorre, sobre este Poema: o que digo, porque nam sei se V.P. tem noticia dele, por-ser impreso fóra de Portugal. Dos-outros Poetas nam digo nada: porque sendo uzuais, do-que tenho dito, pode V.P. formar conceito, das-suas obras.

Os Romances, a que os Portuguezes chamam Novelas, sam verdadeiras Epopeias em proza; e devem ser feitos damesma sorte. Contudo acham-se poucos, que meresam este titulo: pois os Portuguezes, e Espanhoes que se-acham, nada mais sam, que istorias de amor mui inverosimeis. O Telemaco de Monsieur de Salignac é uma Epopeia das-mais bem feitas, e escritas, que tem aparecido.

Do-poema Dramatico direi pouca coiza, vistoque os Portuguezes, nam se-aplicam a ele; por-se-persuadirem que o Drama, nam tem tanta grasa em Portuguez, como em Espanhol. Mas este prejuizo comum, nam tem sombra de verosimilidade. Reconheso, que toda a Poezia soa melhor, na lingua Italiana, que noutra alguma: o que confesam os eruditos das-outras Nasoens, que chegáram a posuir bem, a lingua Italiana: e ainda alguns Francezes doutos: nam obstanteque outros queiram, que a Franceza seja propria, para a Poezia. (no-que, com sua licensa, intendo que dizem muito mal: porque nam á coiza mais insulsa, que o verso duodecasilabo, de que uzam comumente os Francezes, e o modo de rimar deles. no-Lirico, e algumas cantigas, sam mais toleraveis. Mas geralmente falando, a lingua Franceza é pouco propria, para a Poezia: porque nam tem nervo, nem armonia) Mas o certo é que, despois da-Italiana, as duas melhores linguas sam, a Portugueza, e Espanhola. E eu acrecento mais, que a Portugueza parece-me mais propria, para alguns generos de Poezia, doque a Espanhola: porque é sezuda e grave, e nam tem aquele falso brilhante, que muitos loucamente admiram, na Espanhola. Se tiramos as terminasoens em , ou am; e aons, e oens &c. nam sei que melhoria tenha a Espanhola, sobre a Portugueza; para dizerem, que aquela é propria para o Drama, e esta nam. Muito mais grave que a Espanhola, é a Latina; e contudo ninguem lhe-nega, o poder servir no-Drama. Onde, os que por-este principio deixam de compor Dramas, em Portuguez; vivem mui preocupados, e nunca consideráram bem a materia. Mas a razam ultima é, porque a estes modernos nam agrada, o modo de compor, a Comedia antiga: e só se deleitam, com esta moderna: (de que parece ter sido inventor, Lope de Vega) e como esta é composta de mil sutilezas, e coizas semelhantes; por-iso gostam das-Espanholas, que abundam disto. Mas como este estilo é muito mao, e se-deve praticar outra coiza diferente; daqui vem, que devem reconhecer, que a lingua Portugueza é tam capaz para o Drama, como a Espanhola.

O Drama, ou seja Tragedia, ou Comedia, nam é mais que uma instrusam, que se-dá ao Povo, em alguma materia. A Tragedia trata, de algum cazo extraordinario, sucedido a pesoa grande. Com isto se-modéra, a grande ambisam dos-Omens, ensinando-lhe a conhecer, que as condisoens desta vida estam sugeitas, a todas as infelicidades. Alguns defeitos se-tem introduzido, na-Tragedia moderna: pois devendo ela conter somente, coizas eroicas; introduzîram muitos, imitando aos Espanhoes, eroes amantes. E ainda os nosos Italianos, para agradarem ao Povo, que tem secreta inclinasam, para ouvir estes enredos amantes; o-praticam: aindaque os omens inteligentes desprezem este estilo, que só é proprio da-Comedia. Nam é crivel, que arte particular se-requer na Tragedia, para ser boa. Nela se-á-de ver, um enredo bem ideiado: um argumento digno e nobre: uma elevasam de pensamentos grande: uma particular arte de excitar as paixoens, com pinturas exatas, e discursos proprios das-pesoas que falam: finalmente tudo á-de ser animado, grande, singular, sem ser afetado: O que na verdade é mui dificultozo: e ainda muitos omens grandes, em algumas destas qualidades; nam conseguîram, unilas todas.

A Comedia é uma pintura, do-que sucede na vida civil e domestica. Ela ensina mil coizas aos ouvintes, mostrando de nam-querer ensinar, mas somente divertir: porem nese mesmo divertimento, está o ensino: porque ela pinta desorte, os defeitos dos-Omens; que quem os-ve, ou ouve, nam pode menos, que envergonhar-se deles, e condenálos. Este é o segredo da-Comedia, saber imitar bem a natureza; porem em modo que o-vejamos, sem advertir-mos o artificio. Convem pois com a Tragedia, em tudo: só diversifica no-argumento. E asimcomo na Tragedia nam basta, enredar bem um suceso; mas é necesario observar, a verosimilidade; desfazer naturalmente, o nó do-argumento, observando escrupulozamente, os carateres das-pesoas; asim tambem a Comedia: na qual deve reinar em tudo a naturalidade, mas judiciozamente disposta: porque daqui rezulta, aquela particular galantaria e sal, que os omens de juizo acham, nas boas Comedias. quando entra nelas afetasam, acabou-se a grasa.

Por-este principio digo a V. P. que nunca achei Comedia Espanhola, que se-pudese sofrer. Raras vezes o Espanhol imita a natureza: reina a afetasam, e as sutilezas em tudo. O mesmo bobo, que deveria reprezentar, a figura de um louco; fala com tanta descrisam, como o omem mais eloquente, e judiciozo: as molheres todas sam doutoras: todos dizem grasas, e agudezas: e asim nam se-observa, a verosimilidade dos-carateres. Querendo afetar tanta grasa, sam os omens mais insulsos, que ainda vi. Porque a grasa deixa de o-ser, todas as vezes que aparece o artificio, e nam nace das-entranhas da-materia. A nosa Comedia Italiana é mais natural: e aindaque alguns tenham introduzido, outro estilo florido, os omens mais doutos o-tem desprezado. A nosa lingua é propria para galantaria, e dosura da-Comedia. O ingenho do-Poeta prepára a materia, para fazer rir: e a galantaria da-expresam, ajuda esa mesma materia, para agradar mais: o que se-acha frequentemente, na nosa lingua. Na verdade é dom da-natureza, saber inventar materias agradaveis, e expolas em modo que agradem: mas alem deste ingenho requer-se juizo, para saber distribuir as galantarias, onde devem intrar. Parece facil, o argumento da-Comedia: contudo é dificultoza a execusam: e sendo tantos os que compoem, sam poucos os que o-fazem com felicidade. A maior parte daquelas Comedias, que em Cidades inteiras tem tido, grandes aplauzos; examinadas de perto, merecem compaixam. Os Poetas ajuntáram muitas ideias ridiculas, com que pudesem divertir os ignorantes, e adular as suas inclinasoens: e como estes sam os mais, daqui nace, que se-dam aplauzos a coizas, que os-nam-merecem. O omem de juizo vai à Comedia, com outros olhos, que nam o ignorante, e rude. Este pára na superficie do-que ouve: aquele penetra com a considerasam, a intensam do-Poeta: e quando nam acha o que deve, em vez de rir, vem-lhe vontade de chorar.

Alem do-que asima disemos, acha-se outro defeito, no-material das-obras de teatro, quero dizer, na sua reprezentasam: vem aser, quererem unir em tudo a reprezentasam, com o original. Alguns, para inspirarem orror, reprezentam nas Tragedias, a morte de um omem, e outras coizas improprias. Era melhor, que o-matasem detraz dos-bastidores, para poupar esta descortezia aos ouvintes: bastando que expuzesem, o corpo morto. Vi algumas vezes nas Comedias, intrar omens acavalo em verdadeiros cavalos: vi carros triunfais tirados por-quatro cavalos brancos; com perigo de darem quatro coices, e deitarem abaixo os bastidores; ou fazerem alguma porcaria no-teatro: vi arrebentarem bombas, e foguetes: vi dar fogo a uma Cidade, e uma Armada: e muitas coizas semelhantes. Mas isto é uma impropriedade, indigna de omens prudentes. A Comedia é imitasam do-natural, e todos sabem isto: e asim nam se-devem introduzir coizas, que desmintam o que é Comedia. Muitas vezes ve-se voar um omem, na Comedia: outras vezes um diabrete vivo dece do-teto, prezo por-uma corda: parecem-me os bonifrates do-Prezepio, que tem um arame na cabesa. Tambem aquilo de introduzir um Rei, e Rainha em uma camera, rodiados de soldados armados; ou aquilo de dar uma batalha sobre o teatro, nada tem de verosimel: Porque nem o Rei, quando está falando com a Rainha, tem as guardas de corpus na mesma sala: nem uma batalha se-pode dar, em quatro palmos de terra. Um bom Poeta dará melhor ideia de uma Armada, ou batalha, com uma famoza descrisam; e poderá com ela inspirar, sentimentos mais grandes, e nobres; doque com aqueles acidentes exteriores, e improprios daquele lugar. Mas o Povo vai à Comedia, para a-ver, e nam para ouvir: e só fica satisfeito, com estas coizas. Nam asim os omens que podem julgar, do-merecimento das-obras: estes nam podem deixar, de condenar isto; e sugerir ao Poeta, que disponha melhor as suas figuras. Isto é o que agora me-ocorre. Acrecento somente, que as Comedias de Camoens nam me-agradam; aindaque uma delas parece mais sofrivel. Outras que vi modernas em Portuguez, tinham mais artificio: e na verdade eram menos más.

Tendo pois apontado a V. P. os defeitos mais comuns dos-seus Poetas; segue-se examinar, se estas reflexoens podem ser utis, e como o-podem ser aos rapazes. E quanto à utilidade, é sem duvida, que a noticia das-regras é necesaria, para intender os autores: e a dos-versos, para intender a diferente armonia das-suas obras: especialmente na lingua Latina, porque a beleza dos-versos consiste, na sua cadencia. Alem diso, a leitura dos-bons Poetas, eleva o intendimento para perceber, e ajuizar nobremente; e ajuda muito a Eloquencia: e como nam se-posam intender os Poetas, sem saber as regras; é necesario ter, alguma noticia delas.

Quanto ao modo, ja dise em outra carta a V. P. que é loucura obrigar os rapazes, a fazerem versos: e misturar os versos, com as outras compozisoens; como se fose coiza necesaria, para intender o Latim: os que fazem isto, nam intendem a materia: parece-me que o modo mais natural é este. A Poezia deve-se ensinar, em uma escola separada, em que nam se-trate outra coiza. Examinando primeiro o rapaz, se tinha ou nam genio para a Poezia; lhe-proguntaria expresamente, se a-queria seguir: e quando ele me-disèse, que sim; e eu com a experiencia vise, que tinha propensam para iso; lhe-daria uma arte Poetica Portugueza, feita por-este modo. Na primeira parte devem-se conter, as regras gerais da-Poezia, e a diversa noticia de poemas: vistoque as regras sam as mesmas, em todas as linguas: e isto istoricamente, porem ornado com algum exemplo. Na segunda parte, deve-se primeiro tratar, das-diferentes compozisoens Portuguezas, e algumas particulares do-Reino: e aqui explicar, como se-fórma a Decima, Soneto &c. apontando um exemplo, em cada coiza: notando especialmente, a cadencia dos-versos, e estilo da-fraze poetica. Isto nam parece coiza de momento, aos que nam sam da-profisam: mas é de infinito preso, aos que entram em semelhante estudo, e o-profundam. Acham-se mil Poetas, que tem veia; mas porque lhe-falta a doutrina, pecam contra as leis da-arte, e nam brilham.

Neste tempo deve-se propor-lhe uma Decima, ou Soneto escrito &c. que ele nunca vise; e obrigálo a que em escrito, fasa a analize da-dita obra, se é boa, ou má; que defeitos, ou belezas encerra. Este estilo de mandar pór a lisam por-escrito, serve infinitamente, para a inteligencia das-coizas que estudam; e para a memoria: e repetido varias vezes, quando ja tem noticia das-regras, poupa infinitas explicasoens, e faz-se com toda a felicidade: e tem o rapaz tempo de considerar, e emendar.

Desta primeira parte, deve pasar à segunda, tambem em Portuguez; em que se-trate, das-particulares compozisoens Latinas, e sua versificasam. Aqui deve-se repetir o mesmo, que disemos da-lingua Portugueza. Notará especialmente, as diferentes fórmas de versos, de que se-formam as diferentes compozisoens Latinas, como a Elegia, Epigrama, Ode, Idilio &c. Despois a cadencia do-verso, tanto a simplez, que é comua a todo o poema, como as particulares: as suspensoens, elizoens &c. e as que sam proprias, de varias paixoens do-animo. Despois o estilo e fraze poetica; que é aquele particular idiotismo, de que se-servem os Poetas: que se-compoem de expresoens elevadas, com que se-vareia muito o discurso; expondo as coizas grandes, com muita nobreza; e as pequenas, com muita galantaria. Finalmente aqueles epitetos proprios, tam belos no-verso, como afetados na proza: e mil outras coizas, que sam particulares do-estilo poetico, e que constituem a sua beleza. Estas coizas a um rapaz, que lè um poema, somente para intender a Latinidade; nam sam necesarias: mas a um que quer compor, sam sumamente importantes: e sem elas fará versos, mas nam-será Poeta.

A Compozisam serîa a ultima coiza, que eu mandáse fazer aos rapazes: porque pede uma memoria, cheia de muitas especies: o que nam pode ter um rapaz. Deve-se comesar, polas compozisoens Portuguezas: dando asumtos facis, e nam mandando compor, senam obras breves; para terem ocaziam, de as-emendar. E nesta ocaziam pode o mestre explicar-lhe melhor, quais sam as expresoens proprias, para expremir o que quer: e dar-lhe por-este meio, uma boa noticia da-sua lingua. Com o tempo, e observando a capacidade do-estudante, pode ir aumentando, o numero das-compozisoens: sendo sempre melhor, mandar compor uma obra boa, a um certo asumto, doque muitas más, a diferentes. Feito isto, nam é crivel, quanto se-facilita a compozisam no-Latim. Será pois esta a ultima parte da-compozisam: tendo a mesma advertencia, de comesar por-Disticos, Epigramas &c. asumtos brevisimos: pois nam enfastiam os rapazes; antes com eles se-dezembarasam muito, para as outras obras. E aqui, quando o mestre lhe-ensina, a compozisam Latina; lhe-deve ensinar tambem, o modo de pronunciar o Latim. Certo é, que a Lingua Latina, despois da-Grega, excedeo muito as modernas todas, na armonia das-suas expresoens: a qual coiza como nós nam sabemos, por-iso nam achamos nela a beleza, que achavam os Antigos. Contudo devemos procurar de imitar, a boa pronuncia: o que principalmente é necesario, no-verso. Quanto aos exemplos, devem eles ser poucos, e bons: e deve o mestre fugir de Regia Parnasi, e outros livros destes, que estragam o bom gosto da-Eloquencia, e Poezia: porque na leitura dos-melhores autores, aprende-se melhor. Asimque, nam achando isto feito, pode o mestre nos-mesmos autores mostrar os lugares, que sam necesarios: e encomendar muito aos rapazes, que os-leiam, e decorem: pois só asim se-faz algum progreso, na Poezia. Desta sorte pode ser, que ouvesem mais Poetas bons, doque nam á; entre tantos mil versejadores, que V.P. está ouvindo todos os dias.

A Poezia nam é coiza necesaria, na Republica: é faculdade arbitraria, e de divertimento. E asim nam avendo necesidade de fazer versos, ou fazèlos bem, ou nam fazèlos: por-nam se-expor às rizadas, dos-inteligentes. Se eu vise que o estudante, nam tinha inclinasam à compozisam, explicaria brevemente, as leis poeticas; que é uma erudisam separada da-compozisam, e que todos podem aprender; ao menos para intenderem as obras: e o-deixaria empregar, no-que lhe-parecèse. Desta sorte, livres os estudantes daquele cativeiro, podiam empregar-se em coizas utis, e dar outro lustre à Republica. Sei, que nem todos os mestres sam capazes, de escreverem semelhante arte: mas se alguem a-fizese, e se-imprimise; podia ajudar muito a todos. Certo amigo meu, omem mui douto, me-dise um dia destes, que um seu conhecido, avia pouco tempo tinha acabado um manuscrito, polo estilo que dizemos. Eu ainda o-nam-vi: mas formo tal conceito de quem mo-dise, que julgo nam será mao: se o-puder conseguir, nam deixarei de avizar a V. P.

Finalmente com isto acabo esta carta, que ja me-parece longa: aindaque se olho para o que devia dizer, é curta. Tenho dito nela a V.P. o que me-ocorreo sobre uma materia, que averá bastantes anos que deixei: e conseguentemente nam sei se terei satisfeito, a sua expetasam, sobre a Poezia Portugueza: da-qual, como ja protestei, tenho pouca noticia. Mas V.P. que me-obriga a falar, em todas as materias; deve estar preparado, para ouvir coizas boas, mediocres, e algumas mal ditas. E asim agradesa-me somente a boa vontade, e promtidam com que obedeso, ao que me-manda. Deus Guarde &c.

CARTA OITAVA.
SUMARIO.

Trata-se da-Filozofia. Mao metodo com que se-ensina, em Portugal. Advertencia das-outras Nasoens, em procurar a Ciencia. Necesidade da-istoria Filozofica, para se-livrar de prejuizos. Ideia da-serie Filozofica. Danos, e impropriedades da-Logica vulgar. Da-se uma ideia, da-boa Logica.

Meu amigo e senhor, Dirá V. P. que eu sou mui preguisozo em responder, e conservar a conrespondencia, com os amigos: mas se-soubèse como eu tenho estado, reconheceria, que nam falto, senam com justificada cauza. Eu sou filho da-obediencia; e esta me-ocupou bastantes dias: a isto se-seguio, a minha costumada indispozisam da-cabesa, que me-impedio ler coiza alguma. Tambem me-lembrou, que tinha remetido a V. P. um proporcionado livro, com o titulo de carta; e que nam lhe-faltava que ler. Agora livre de algum modo, de um e outro impedimento; pego na pena para continuar, o noso comercio literario.

Nas duas ultimas me-pede V. P. com instancia, que me-dilate bem sobre a Logica, e que nam me-poupe, a nenhuma outra parte da-Filozofia. Eu nam sei, se poderei dignamente satisfazer, a curiozidade que V. P. mostra, nestas materias: porque finalmente á muito que dizer nelas; e muitas coizas, que nam am-de agradar: mas finalmente direi. Lembro-me, que na nosa ultima conversasam me-dise V. P. que as escolas de Filozofia deste Reino, necesitavam ainda maior reforma, que as outras: porque o mao metodo das-escolas baixas, alguma coiza se-pode emendar com o tempo: porem uma vez que o estudante comesou a provar, o ergo, e atqui, e a brincar com eles, e excogitar sofismas, e metafizicas oscuras; de tal sorte se-ocupa, com aquele negocio, que nam é posivel por-lhe remedio: de que nace, a confuzam na Medicina, Teologia, e mais Ciencias. Como V.P. reconhece de antemam esta verdade, me-animo a dizer-lhe sinceramente, o meu parecer.

Eu verdadeiramente nam sei, se as escolas de Filozofia deste Reino, tem pior metodo, que as escolas baixas: sobre iso avia muito que dizer: o que sei porem é, que nestes paîzes nam se-sabe, de que cor seja isto, a que chamam boa Filozofia. Este vocabulo, ou por-ele intendamos ciencia, ou com rigor gramatico, amor da-ciencia; é vocabulo bem Grego nestes paizes. Verá V. P. que se-dá este nome, a coizas bem galantes: Universais, Sinais, Proemiais, e outras coizas destas. Os pobres rapazes pasam os seus trez e quatro anos, lendo arengas mui compridas: e saiem dali, sem saberem o que lèram, nem o com que se divertîram. Falo do-estilo das-Universidades: porque o das-outras escolas é o mesmo, quanto à materia; e ainda pouco diferente, quanto à dispozisam.

No-primeiro ano se-pasa com dois tratados, a que chamam Universiais, e Sinais; cadaum dos-quais terá quando pouco, os seus 20. cadernos, de duas folhas: e ja vi mestre, que ditou 40. cadernos, somente de Universais. No-segundo ano acabam-se os Sinais: e parte do-ano fala-se muito, em Materia Primeira, e Cauzas; ao que chamam Fizica. No-terceiro ano estudam-se Intelesoens, Noticias, Topicos, e algumas questoens de Metafizica, digo do-Ente em comum: e com estas quatro, e as duas do-primeiro ano, se-faz o Bacharel. No-quarto explica-se um tratado, a que chamam Gerasam e Corrusam: e avendo tempo, outro a que chamam de Anima in communi. Despois fazem concluzoens, nas ditas materias, ou semelhantes: que é um ato em que muitas vezes sucede, que o defendente nam tem, argumento algum. Segue-se o Licenciado, que é um exame sobre as 6. materias do-Bacharel, com mais outras que apontamos: e temos o omem graduado, Filozofo.

Se isto pode ser bom metodo; se tais materias podem formar, um bom Filozofo; eu o-deixo considerar, aos pios leitores. Progunte-lhe V. P. aqueles Universais, e Sinais, de que coiza servem, quando se acaba a Filozofia. Diga-lhe que lhe-apontem, em que parte da-Teologia sam necesarios: que dogma se-explica com tal doutrina: fasa-lhe outras proguntas destas, e verá que limpamente lhe-confesam, que tudo aquilo morre com a escola. Se repetir a progunta em outras materias, concluirá o mesmo. E eisaqui tem V.P. o que significa Filozofia, nestes paîzes.

Mas isto serîa nada: o melhor da-festa está, na satisfasam com que ficam, de terem estudado tudo aquilo. Se alguem lhe-contradiz um ponto; se alguem quer tomar o trabalho de lhe-mostrar, que nada daquilo vale um figo; ou que Aristoteles nam falou naquele sentido; ou que a Filozofia se-deve tratar de outra maneira; e que asim a-tratam naqueles paîzes, que dam leis ao mundo, em materia de erudisam; e ainda em Roma, nas barbas do-Papa &c. acabou-se tudo, e vem o mundo abaixo com gritarias. A tal propozisam é uma erezia, contraria diametralmente à Escritura, e às definisoens dos-Concilios, e Padres; e ao costume da-Igreja Catolica; que canonizou as obras de Aristoteles, e tambem a doutrina dos-Arabes. Galilei, Descartes, Gazendo, Newton, e outros destes que a-nam-seguîram, cheiram a Ateistas; ou polo menos estam um palmo distantes, do-erro. Estas Filozofias só reinam, em paîzes de Erejes. Os estrangeiros que defendem isto, sam quatro bebados, que impugnam o que nam intendem, e nam intendem o que proferem. Isto, e outras coizas semelhantes, tenho eu ouvido algumas vezes.

Proguntava eu em certa ocaziam a um mestre, que me-parecia bom omem; e cujo defeito cuido que era, nam malicia, mas ignorancia: Tem V.P. lido nos-originais, a doutrina de Descartes, Galilei, Gazendo, Newton tem examinado fundamentalmente, os que explicáram melhor, a doutrina do-primeiro; como o P. Malebranche, o Baile, o Regis, o Le Grand: ou os que expuzeram a de Gazendo, como o Saguens, Maignan &c.? diz, Nam senhor. Observou, continuei, polo menos as objesoens, que o P. Genari Dominicano propoz ao Saguens, e Monsieur Arnaldo ao P. de Malebranche em outro sentido; com as respostas destes ultimos? diz, Nem menos. Muito bem: pois diga-me, intende V.P. na sua conciencia, que pode ser juiz nesta materia, sem ter examinado, as razoens de ambas as partes: e muito mais formar uma censura tam rigoroza, como é condenar a religiam, dos-que seguem esta Filozofia? Respondeo o omem: Na verdade eu nam sou informado, da-materia: mas tenho ouvido dizer muito mal dela, a outros mestres, de quem eu formo conceito. Maravilhozamente: mas diga-me, continuava eu, tem V.P. certeza, que eses tais examinasem o que digo; ou, aindaque o-examinasem, que julgasem sem paixam, e fosem capazes de decidir o ponto: porque sem isto deve-me conceder, que nada provam? Diz, Eles alegavam certas palavras, de que eu inferi, que os-tinham visto. Mas, proseguia o dialogo, poderá V. P. mostrar-me, que dogma se-destrue, com esta nova doutrina? Os acidentes Eucaristicos, e todo o sistema da-Grasa. Muito bem: vistoiso temos, que as fórmas acidentais no-sentido de Aristoteles, sam de fè? diz, sem duvida. Vistoiso, ou na Escritura, ou por-tradisam nam interrompida, digo, polo consenso de todos os Padres, definisoens de Concilios, ou Igreja Romana, estará determinado isto: porque eu nam reconheso outros principios, para fundar propozisam de fé. Mas atreverseá V. P. a mostrar-me, esa declarasam? Declaro, que eu tambem sou catolico Romano, e creio que na Eucaristia está Cristo, debaixo dos-acidentes de pam, e vinho: o que digo é, que os tais acidentes nam sam fórmas, no-sentido peripatetico: e disto é que peso, esa declarasam de fé. Concluio ele dizendo: Iso nam poso eu fazer, porque nam tenho visto a materia. Bem, respondi eu, pois pesa V. P. a um dos-seus amigos, que lhe-descubra esta revelasam, ou decreto; e entam falaremos sobre o particular: porque agora tem pozitivo impedimento.

Este dialogo podia-se repetir, com mais alguns acrecimos; e executar-se com algumas pesoas, que ouso falar nestas materias, com tanta satisfasam; como se soubesem o que dizem, e intendesem a materia, de que falam. Eu tive alguns ratos de divertimento, conversando com alguns destes mestres. Eles confundem, todos os autores modernos; e sem mais exame os-acuzam, dos-mesmos erros: e com estranha dialetica os-condenam, de ignorancia. Como se um omem doutisimo, nam pudese uma vez, dizer um despropozito! Os que tem erudisam exquizita, sabem que no-mundo ouve um Descartes: e algum deles, mais raro que mosca branca, leo alguma coiza, dos-Principios, ou Meditasoens Metafizicas. E aqui é ela: sobe à cadeira, e vomita mais decizoens, contra o pobre Descartes; doque ele nam dise palavras: E sem examinar, se ele é seguido em tudo, intende que tudo o que Descartes dise, foi, e é recebido, com a mesma venerasam; e sam todos obrigados, a seguilo. Em certa jornada que eu fiz, incontrei em uma estalagem um Religiozo * * que tivera a felicidade, de ler Descartes: o qual, conhecendo que eu era Estrangeiro, introu logo na materia: e todo o tempo que durou á ceia, empregou ele em provar, que, segundo os principios do-tal Filozofo, a Eucaristia estava somente, nos nosos olhos. Veja V. P. como este intendia bem, a doutrina dos-Cartezianos! Mas eu que vinha cansado do-caminho, e com fome; para abreviar a disputa concedi tudo, e meti-me na cama. Nam acho melhor modo de responder, a esta sorte de gente.

Eu certamente nam sou Carteziano, porque me-persuado, que o tal sistema em muitas coizas, é mais ingenhozo, que verdadeiro: mas confeso a V. P. que nam poso falar no-tal Filozofo, sem grandisima venerasam. Este grande omem, na Matematica foi insigne, e inventou algumas coizas, até ali ignoradas; e promoveo outras com felicidade. Em materia de Filozofia, acho que foi inventor, de um sistema novo. Isto nam parece nada, aos ignorantes: mas aos omens que intendem, qual é a dificuldade de inventar, e inventar com tanta propriedade; que ainda despois de descubertas as machinas, grande parte das-experiencias esteja da-sua parte; é sinal de um ingenho elevadisimo, e de grande criterio. Alem diso ele foi o primeiro, que abrio a porta, à reforma dos-estudos: pois aindaque Bacon de Verulamio, e Galileo Galilei, tivesem indicado o metodo, de fazer progresos na Fizica; e alguns outros os-fosem imitando; é certo porem, que Descartes foi o primeiro, que fez um sistema, ou inventou ipoteze; para explicar todos os fenomenos naturais: e por-este principio, abrio a porta aos outros, para a reforma das-Ciencias. E aindaque em tudo nam acertáse; é tambem certo, que se ele nam fose o primeiro, os outros nam teriam cuidado, de emendar os seus erros, e de adiantar os estudos, como estam oje.

Onde com todos estes principios, nam poso sofrer, que omens totalmente ignorantes da-materia; e que nam sabem de Descartes mais, que o nome; e aindaque o-leiam, nam tem olhos para o-intender: ainda asim tam indignamente o-tratem; e injuriem um omem, de quem eles nam seriam capazes, de serem amanuenses. Se estes censores tivesem lido, a istoria das-Ciencias, e do-restablecimento delas, desde o Concilio de Trento a esta parte; formariam diverso conceito destas coizas: e nam vomitariam tantos improperios, contra os modernos Filozofos: como eu vejo todos os dias, em varios autores, que podendo mostrar, o seu merecimento; o-perdem todo, quando entram a falar nestas materias, com tanta seguransa, como os que as-tem bem estudado. Dizem mil falsidades, que nunca sucedèram: fingem definisoens, que nunca se-sonháram: confundem a doutrina revelada, com as opinioens da-Escola: e querem que os SS. PP. aprovasem profeticamente, a Escolastica; que se-inventou alguns seculos, despois d’eles mortos. Esta é a celebre cantilena destes mestres, principalmente deste Reino: A qual provèm, da-grande ignorancia em que se-vive, da-Istoria antiga, e moderna, e dos-estilos dos-outros paîzes: do-pouco conhecimento que tem, de livros: e finalmente de quererem ser mestres, em uma materia, em que ainda nam foram dicipulos.

Sei, que a maior parte dos-Omens, vive mui satisfeita, dos-estilos, e singularidades do-seu paîz: mas nam sei, se á quem requinte este prejuizo com tanto exceso, como os Espanhoes, e Portuguezes. Observo, que os Francezes, Inglezes, Olandezes, que nam sam dos-que tem pior opiniam, e com razam, de si; aproveitam-se com todo o cuidado, dos-excesos que lhe-levam, as outras Nasoens. Os Francezes, mandam muita gente a Roma, para se-aperfeisoarem na Architetura, Escultura, Pintura; e em tudo o que pertence, às antiguidades Romanas. Sabem que estas artes, se-conserváram sempre em Roma, com distinsam: reconhecem, que os Romanos posuem o melhor, que neste genero nos-deixou a Antiguidade; e pode fugir à barbaridade, dos-incendios de Roma: e asim mandam lá os omens mosos e inteligentes, para beberem o bom gosto, da-Antiguidade. Muitos Senhores Inglezes, Olandezes, Francezes, Alemaens, que correm o mundo, para formarem os costumes; demoram-se tempo bastante em Roma, e nas principais Cidades de Italia; para observarem escrupulozamente, todas as antiguidades Romanas: e verem com os seus olhos aquilo, de que estam cheios os livros. Eu acompanhei alguns deles, que faziam estas observasoens; e os-achei sumamente instruidos, nas antiguidades Gregas, e Romanas: e com dezejo exorbitante, de verem com os seus olhos, e aprenderem o que nam sabiam: e faziam gloria de estudar, o que ignoravam. Polo contrario vejo, que os nosos Italianos se-aproveitam bem, das-belas edisoens de livros, e outra erudisam exquizita, que se-acha nos-livros, destas nasoens Ultramontanas: e que ainda em materias de Ciencias, se-regûlam polo metodo, das-Universidades de Sorbona &c. das-Academias Regias de Londres, Pariz, S. Pietroburgo, &c. por-conhecerem, que ali se-exercitam melhor; e dali saiem as melhores obras.

Isto é verdadeiramente conhecer, o merecimento de cada coiza. Mas observo tambem, que este metodo é ignorado nas Espanhas, e mui principalmente em Portugal: onde vejo desprezar, todos os estudos Estrangeiros, e com tal empenho; como se fosem maos costumes, ou coizas muito nocivas. Lembro-me a este intento, da-istoria do-Espanhol de Amsterdam. Nela viviam em uma estalagem, um Espanhol, e um Cavalheiro Florentino. Retirando-se este um dia a caza, proguntou ao Espanhol, que lhe-parecia Amsterdam: a belisima dispozisam da-Cidade no-material, e formal: a liberdade do-trato, contida dentro dos-limites do-justo: emfim ia-lhe repetindo uma por-uma, todas as singularidades de Amsterdam; e sobre cada uma lhe-proguntava, o que lhe-parecia. Mas o Espanhol, abanando a cabesa, nam respondia palavra. Até que o Florentino enfadado lhe-dise: Valha-me Deus, só vosé a-de ser singular neste mundo, nos-seus gostos; e só a um Espanhol nam á-de agradar, uma Cidade como Amsterdam, em que todos tem tanto que admirar? A isto respondeo o Espanhol mui laconico: Vaya, para pintada. Esta mesma resposta, com pouca diferensa, me-tem dado alguns, em outras materias. Quando se-vem obrigados com exemplos a reconhecer, que os Estrangeiros lhe-levam, consideravel exceso; respondem rindo, que asim é: mas que somente é, em coizas inutilisimas.

Isto suposto acho, que o melhor modo de dezinganar esta gente, e mostrar-lhe os seus prejuizos; é, por-lhe diante dos-olhos, uma breve istoria, da-materia que tratam: e persuado-me, que este é o mais necesario prolegomeno, em todas as Ciencias. Creia V. P. que com esta noticia, poupa-se muito trabalho, e muito estudo: adianta-se um omem muito, na inteligencia da-materia: e só asim fica capaz, de ouvir o que deve, e dezinganar-se por-simesmo. Asimque intendo, que por-esta istoria se-deve comesar. Nam digo, que o estudante deva saber, as opinioens de todas as setas de Filozofia; mas ao menos quando comesáram: quais foram as mais famozas: em que coiza comumente se-distinguiam: e como se-continuáram.

A Filozofia é o conhecimento das-coizas, que á neste mundo; e das-nosas mesmas asoens, e modo de as-regular, para conseguir o seu fim. Em todos os Povos do-mundo, e em todos os tempos achamos omens, que mais ou menos se-aplicáram, a estas coizas. Mas o noso estudante nam é necesario, que suba tam alto: basta que conhesa, os Filozofos da-Grecia. Toda a Filozofia Grega se-dividio ao principio, em duas setas; de que nacéram. todas as outras: estas duas sam a Jonica, e Italica. A Jonica fundou Thales Milesio, um dos-sete Sabios da-Grecia; o qual, como diz Diogenes Laercio, naceo 640. anos antes de Cristo. Foi grande Astronomo, Geometra, Filozofo, e escreveo muito de Fizica. Teve varios dicipulos, que se-ensináram sucesivamente: Anaximandro, Anaximenes, Anaxagoras, Archelao, e Socrates. Este Socrates foi aquele grande omem, que encheo de admirasam a Antiguidade: e alguns dos-nosos SS. PP. se-empregáram, na sua defeza. Socrates teve muitos dicipulos, que fundáram escolas separadas. Aristipo fundou a escola Cirenaica, Phedo a Eliaca, Euclides a Megarica, Antistenes a Cinica: da-qual naceo a Estoica, que foi famoza: porque Menedemo ultimo profesor da-Cinica, foi mestre de Zenam, que fundou a Estoica. Damesma escola de Socrates tendo saido Platam, fundou a Academica. Cadauma destas escolas se-diversificava nas opinioens: o que é necesario, que o estudante advirta.

Platam foi o mais insigne discipulo, de Socrates: naceo 428. anos antes de Cristo: e foi o primeiro que compreendeo, as trez partes da-Filozofia. Na Fizica seguia os sentimentos, de Eraclito, que se-reputava o melhor Fizico: na Metafizica seguia em tudo, a Pitagoras: e no-Moral, e Politico seguia a doutrina, de Socrates; poisque somente ao Moral, este se-aplicára. A escola de Platam se-dividio em duas, Academica, e Peripatetica. A primeira continuou os dogmas de Platam: donde vem, que Platonicos, e Academicos significam a mesma coiza. Nela sucedeo a Platam, seu sobrinho Speusippo; a este Xenocrates, Polemon, Crantor, e Crates. A Crates sucedeo Archesilao dicipulo de Crantor, e tambem de outro Filozofo chamado Pyrrho: do-qual Pyrrho aprendeo, um novo metodo de filozofar; com o qual fundou a Academia Media, que durou até Carneades. Este ultimo, fazendo nela alguma reforma, instituio a Academia Nova; que durou até Antioco: que foi o ultimo dos-Academicos, e foi mestre de Marco Tullio Cicero. A Peripatetica fundou Aristoteles, dicipulo de Platam. Diz Cicero, que somente se-diversificava da-Platonica, nas vozes; mas nam nos-sentimentos e opinioens. Dava Aristoteles as suas lisoens, no-Liceo: e continuou a escola nos-seus sucesores, até Diodoro; que se-conta por-ultimo Peripatetico: desorteque ja nos tempos de Cicero, esta escola se-achava mui descaida.

A outra seta de Filozofia, a que chamam Italica, foi fundada por-Pitagoras, naquela parte de Italia, a que chamáram Magna Grecia. Este Pitagoras florecia 564. anos antes de Cristo: e despois de longuisimas perigrinasoens, para aprender; se-estableceo em Crotona Cidade de-Calabria: e ensinou com grande aplauzo, a Filozofia. Esta seta foi famozisima, pola frequencia dos-ouvintes, e pola sua durasam. Dela nacèram varias: a Eleatica, que uns atribuem a Xenocrates, outros a Democrito. Anaxarcho ultimo dos-Filozofos Eleaticos, foi mestre de Pyrrho, que fundou a seta Pyrrhonica, ou Sceptica. Tambem da-Eleatica saio a Epicureia, uma das-mais celebres setas da-Antiguidade; e talvez a que durou mais: pois no-segundo seculo da-Igreja, ainda estava em flor. Estes sam os diversos ramos, da-seta Italica. Tambem um seculo despois de Cristo comesou outra, a que chamáram Ecletica, a qual teve bastantes dicipulos. O seu principal instituto era, nam jurar nos-dogmas de nenhuma seta: mas tirar de todas, o que parecia melhor. De alguns destes ainda temos as obras: o ultimo foi Damascio. Esta seta agradou muito aos Padres, dos-primeiros seculos da-Igreja; porque parecia a mais racionavel.

Estas sam as diferentes setas, da-antiga Filozofia. Destas a Academica, Estoica, Pyrrhonica, Epicureia, e Peripatetica, duráram na Grecia com pouca diferensa, até o tempo de Augusto, quero dizer, até Cristo. Nos-ultimos dois seculos da-Republica Romana achamos, que os Romanos comesáram a estudar, a Filozofia. Nam que eles fundasem setas, como os Gregos; mas iam estudar à Grecia: ou serviam-se em Roma dos-Gregos, que vinham à Italia: e seguiam quem uma, quem outra seta de Filozofia Grega. Pola maior parte eram Academicos, e Estoicos: alguns foram Epicureos: rarisimo Peripatetico. Os livros de Aristoteles, que ele deixára a Theophrasto seu discipulo, este os-deixou a Neleo: os erdeiros do-qual, para os-roubar à curiozidade d’El-Rei de Pergamo, de quem eram suditos; o qual procurava livros, para a sua Biblioteca; os-enterráram: d’onde foram cazualmente tirados, polos seus decendentes; que os-vendèram a Apellico Ateniez, quazi todos comidos da-umidade. Onde, para se-copiarem, foi necesario encher, todos os vazios da-corrusam: com o que sensivelmente se-alteráram, as opinioens. Despois da-morte de Apellico, Silla Ditador Romano os-transportou de Atenas, para Roma; e se-entregáram a Tirañio, para os-emendar, e dispor em melhor ordem. E tendo-se feito muitas copias, sem as conferir com os originais; foi pior o suceso em Roma, que nam tinha sido em Atenas. Comesou entam a ser conhecido melhor, este Filozofo: e os Romanos comesáram a fazer uzo, principalmente das-suas doutrinas politicas. Entre os Filozofos Romanos singularizou-se Cicero; ouveram tambem alguns outros, de que ainda temos as obras. Até que finalmente, com a ruina do-Imperio no-Ocidente, se-arruinou tambem, a noticia das-Ciencias.

Nos-principios do-VIII. seculo de Cristo, os Principes Arabes dicipulos de Mahomet, os quais uzurpáram grande parte da-Africa, Azia, Grecia, Espanha, e Sizilia; nas invazoens que fizeram, nas Cidades da-Grecia, entre os roubos com que se-recolhèram, foram alguns dos-livros dos-seus autores. E agradando-se destes estudos, fizeram em modo, que Almanon Califfo ou Imperador Saraceno, no-ano 820. mandou pedir ao Imperador de Constantinopoli, aonde as Ciencias ainda se-conservavam; os melhores livros Gregos; os quais se-mandáram traduzir em Arabio. Nam sendo o genio dos-Arabes inclinado a Poetas, Istoricos, e Oradores; somente se-aplicáram aos Filozofos, e Matematicos: e entre eles escolhèram trez, que foram, Aristoteles, Ipocrates, e Galeno. Aplicáram-se a estas Ciencias; e principalmente à Chimica, Magia, Geometria, Algebra, e Fizica. Fundáram Universidades em Tuniz, Tripoli, Fez, Marrocos, e algumas partes da-Espanha: d’onde saîram alguns omens insignes, para aquele tempo: Entre os quais se-singularizou Averroes; o qual na Universidade de Cordova, fez o seu grande comento, sobre Aristoteles, no-meio do-seculo duodecimo.

Neste meio tempo a fama de Aristoteles, que estava tam bem establecida, entre os Arabes; comesou a divulgar-se, entre os Cristaons. A comunicasam que os Napolitanos tinham, com os Sizilianos, lhe-deu noticia dos-estudos, establecidos entre os Arabes da-Sizilia. Tambem a vizinhansa da-Fransa com a Espanha, abrio a comunicasam aos estudos: e se-cre, que por-este meio pasáram a Fransa, os livros de Aristoteles; e intráram na Universidade de Pariz. Ja lá sabiam, que avia Dialetica, e a-estudavam: mas da-Fizica Aristotelica, nada sabiam. Finalmente ou para poderem disputar com os Judeos, e Maometanos, como fundadamente suspeita Monsieur de Fleury; ou por-outra razam que nam se-sabe; os Teologos recebèram benignamente Aristoteles, e pouco a pouco o-introduzîram, na Teologia. Os primeiros foram introduzindo as Dialeticas, como Abellardo, Roberto Pullo, Pedro Poitiers, e alguns outros no-duodecimo seculo. Daqui pasáram a introduzir, as doutrinas Fizicas: o que sucedeo, no-seculo decimoterceiro. Os primeiros foram Alberto Magno, Alexandre de Ales: despois Tomaz de Aquino, e alguns mais. Despois de S. Tomaz veio Escoto, que fundou escola separada: e despois deste, seu dicipulo Okam tambem Franciscano, fundador da-seta dos-Nominais. Demodoque despois do-seculo XIV. a Filozofia se-dividia em trez setas, Tomistas, Escotistas, e Okamistas: as quais com alguns mudansas duráram, atè o Concilio de Trento, celebrado no-meio do-seculo XVI.

Nam falo no-metodo de Raimundo Lullo de Maiorca, porque pola sua oscuridade, nam teve sequazes: excetuando alguns Maiorquinos, mais loucos que ele. No-ano 1565. Bernardo Telesio de Cosenza em Italia, publicou a sua Filozofia, que teve alguns sequazes. Pouco despois Jordano Bruno Dominicano, publicou muitos livros, em que, entre algumas coizas boas, dise muita estravagancia; sobre o Universo infinito, e diversos mundos. Despois deste, Tomaz Campanela, tambem Dominicano Calabrez, publicou algumas obras de Filozofia, quazi segundo os principios do-Telesio.

Neste mesmo seculo XVI. do-meio para diante, quero dizer, polos tempos do-Concilio de Trento, comesou a establecer-se o sistema Fizico-celeste, de Nicolao Copernico: que resucitando a opiniam de Filolao, e Eraclides Pontico, sobre o movimento da-terra arredor do-Sol; teve muitos sequazes, que asentáram, ser um sistema preferivel aos outros. No-fim do-seculo XVI. saio à luz o sistema de Tico Brahe, que tambem teve sequazes. Mas ninguem mais deo tanta luz à Fizica, quanta Francisco Bacon de Verulamio Chanceler mór de Inglaterra: o qual no-fim do-mesmo seculo, e principio do-seguinte, apontou o verdadeiro metodo de adiantar a Fizica, em belisimas obras que a este intento nos-deixou; principalmente de Augmentis Scientiarum, e de Novo Organo. Eu considero as especulasoens deste grande omem, como a mais famoza epoca, da-verdadeira Filozofia: porque observo de entam para diante, uma total mudansa, e adiantamento sempre para o melhor. morreo polos anos 1636. de anos 66.

No-mesmo tempo de Bacon, no fim do-XVI. e principios do-XVII. floreceo o insigne Galileo Galilei Florentino; que seguindo os ditames de Bacon, uzou da-Matematica, para explicar a Fizica: e aumentou sensivelmente a Mecanica: a qual desde Archimedes até o seu tempo, quazi nada se-tinha adiantado. Ele descobrio muitas leis, do-movimento dos-corpos, tanto solidos, como fluidos; e tambem da-Gravidade, e da-Luz, e do-Som &c. desorteque pode-se dizer, que ele foi o que comesou a servir-se, da-boa Fizica. morreo em 1642. de anos 78. Comesado o seculo XVII. florecèram Descartes, e Gazendo: que dando um paso mais adiante, descobriram mais terra, e comesáram a abrir os olhos ao mundo. Ja se-sabe as disputas, que os Peripateticos tiveram, com estes novos Filozofos; e as injurias, que contra eles vomitáram. Desde o fim do-Concilio de Trento, em que os melhores Teologos tinham aberto os olhos, sobre a Teologia; e comesado a intender, que nam se-devia misturar com ela, a Peripatetica; tinha esta descaido muito: mas nam tanto, que muitos Regulares nam intendesem, que devia ser a mimoza entre as mais. De que nacia, que com todo o empenho a-defendiam: porque, a falar verdade, nam intendiam mais, nem tinham outras noticias. Mas despois que se-viram atacados, por-estes modernos Filozofos; os quais nos-principios deste seculo conspiráram todos, para abrir os olhos, ao mundo Literario; nam querendo os velhos, perder as suas conquistas, fizeram um espalhafato orrendo: e o menos que diseram foi, que se-tinha levantado uma nova perseguisam, na Igreja Catolica; com a publicasam destas Filozofias. Mas como isto eram balas de lan, e palavras sem fundamento, nem verosimilidade; nam faziam brecha. Polo contrario os Modernos despediam, constantes experiencias, que eram balas eficazes. Em modo tal que a dita Filozofia foi-se continuando, e com forsa: e só os Regulares, e nem todos, seguiam a Peripatetica.

A introdusam das-Academias Experimentais, deu novo esforso, a esta Filozofia. Despois da-morte de Cartezio no-ano 1640., e a de Gazendo no-de 1655.; tinham comesado as ditas Filozofias, a aquistar credito: mas ainda com algum medo; pois nam tinham toda a necesaria protesám, que tiveram pouco despois. Nam foi senam despois que se-abrio, a Academia de Londres no-ano 1662. ou 63. e a de Pariz no-1666., que as Ciencias naturais se-continuáram, com empenho: asistindo-lhe os Reis, com o dinheiro e protesám. Dilatou-se aindamais este costume, porque o Imperador Leopoldo no-ano 1670. movido do-bom suceso das-duas Academias; fundou tambem, ou, melhor direi, protegeo uma Academia ja comesada, com o nome de Academia dos-Curiozos da-Natureza. El-Rei de Prusia em 1700. fundou tambem a sua Academia experimental. Os nosos Italianos fizeram o mesmo. O Conde de Marsilli em 1712. instituio uma em Bolonha, que tambem é famoza: em Padua e outras partes abrîram-se outras. Em 1725. a Imperatriz Catarina abrio em S.Petroburgo em Moscovia, outra famoza: deixando por-agora outras muitas, que se-abriram em diferentes partes da-Europa.

Esta dilatasam de estudos naturais chamou a si, todos os melhores Filozofos, principalmente os Seculares. Tambem alguns Regulares, nos-fins do-pasado seculo, comesáram a deixar, as sutilezas de Aristoteles. Porem neste XVIII. seculo infinitos se-tem declarado, contra o antigo estilo; e ensinam publicamente, a Filozofia moderna. Em Italia, e ainda em Roma, por-toda a Fransa, Alemanha &c. se-tem divulgado este metodo: e os mesmos Regulares, que ao principio o-tinham proibido, nam tem oje dificuldade alguma, em defendèlo. Verdade é, que algumas Religioens anda o-nam-aprováram: mas tambem é certo, que muitos leitores delas sam declaradamente, Filozofos modernos. Os doutisimos Dominicanos, e Jezuitas, que pareciam os mais empenhados, polo antigo metodo; comesáram a admetir, a nova Filozofia: nam só em Fransa, mas ainda em Italia. E eu sei de certo, que em algumas partes de Italia os Jezuitas, vendo que nas suas escolas e colegios, faltavam consideravelmente os estudantes, que concorriam a outros estudos publicos; se-vîram obrigados, a reformar o antigo metodo, e introduzir os estudos novos. Tam persuadidos estam todos oje, que o antigo metodo nam serve, para coiza alguma.

Esta, em poucas palavras, é a serie da-Filozofia: na qual se-compreende mui bem, com quam pouca razam estes mestres de Portugal, condenem uma coiza; que está tam bem introduzida: e nam entre Erejes, como eles dizem, mas entre Catolicos mui pios, e doutos. E tambem se-conhece, com quam pouca razam queiram persuadir-nos, que os SS. PP. aprováram, a doutrina de Aristoteles: pois nam sendo ela, ou polo menos esta que pasa, com o nome de Aristoteles; conhecida antes do-seculo XIII. é bem claro, que os PP. nam podiam aprovar uma coiza, que nam conheciam, nem intendiam, que naceria no-mundo. Seguro a V. P. que se estes mestres, que oje exaltam tanto Aristoteles, conhecesem os PP. nam polo sobrescrito, mas por-dentro; e tivesem bem examinado as suas obras; ficariam envergonhados, da-sua grande ignorancia, e talvez temeridade: pois veriam nos-escritos dos-Padres, que nada mais encomendam, que deitar fóra das-escolas Aristoteles: evitar todos os sofismas da-Dialetica: e propor as suas razoens, com a maior clareza posivel. Aprovavam na verdade, a boa Dialetica; mas despida totalmente de arengas. E nesta paz se-continuou, até o undecimo seculo: no qual, como asima digo, introduzîram nas escolas, estas embrulhadas. Desorteque a examinar bem o negocio, Aristoteles é mui moderno, nas escolas Catolicas: e ainda nesas nam durou, senam até o Concilio de Trento: pois de entam para cá pouco a pouco se-abrîram os olhos ao mundo: e oje todos os-tem mui bem abertos.

Intendido isto muito bem, com o que se-poupam mil respostas, e embarasos a cada momento; deve o estudante pasar, para a Filozofia. Mas é necesario, que primeiro intenda, que coiza ela é; para nam se-embrulhar, com as costumadas confuzoens da-Escola. Eu suponho que a Filozofia é, Conhecer as coisas polas suas cauzas: ou conhecer, a verdadeira cauza das-coizas. Esta definisam recebem os mesmos Peripateticos, aindaque eles a-explicam, com palavras mais oscuras: mas chamem-lhe como quizerem, vem a significar o mesmo. v. g. Saber qual é a verdadeira cauza, que faz subir a agua na siringa, é Filozofia: conhecer a verdadeira cauza, porque a polvora aceza em uma mina, despedasa um grande penhasco, é Filozofia: outras coizas a esta semelhantes, em que pode intrar, a verdadeira noticia das-cauzas das-coizas, sam Filozofia.

Mas como no-conhecer as cauzas das-coizas, principalmente naturais, pode aver ingano; e muitas vezes nos-inganemos, tomando uma coiza por-outra: alem diso como nos-mesmos discursos, com que nos-querem persuadir alguma coiza, suceda frequentemente ingano, cuberto com aparencia de verosimilidade; ao que chamam Sofisma, ou Paralogismo: daqui vem, que cuidáram os omens, em fugir estes inganos, e descobrir o vicio do-discurso, paraque nam caisemos nele. Isto primeiro comesou, sem arte alguma: mas cazualmente um omem descobrio um erro, outro descobrio outro, e asim os mais. Alguns dos-quais, fazendo uma colesam destas observasoens, fizeram tratados, em que se-pudese aprender, o modo de nam se-inganar. A isto chamáram Logica ou Dialectica: que é muito mais antiga que Aristoteles: mas ele foi o que a-compilou com melhor metodo, a respeito do-seu tempo: aindaque muito imperfeita, se olhamos para o noso. Quem fose o autor desta colesam, notará o estudante, quando ler a istoria da-Filozofia. Os Antigos dizem, que foi Zenam Eleates, que a-ensinou a Socrates: este a Platam: do-qual a recebeo Aristoteles. Mas esta Logica Socratica, era por-outro estilo, e convencia com proguntas. Platam era um pouco mais dogmatico. Comumente se-cre, que Speusippo, e Aristoteles, ambos dicipulos de Platam, guiados polos discursos dele, fizesem no-mesmo tempo, e cada um parasi, esta nova colesam, e acrecentasem muita coiza sua: os Estoicos com o tempo, acrecentáram muitas mais. Seja como for, o cazo é, que os Antigos reconhecèram, que para conhecer, e discorrer sem ingano, sobre as cauzas de todas as-coizas; é necesario observar algumas regras, a que quizeram chamar, Logica. Desorteque esta chamada Logica, nenhuma outra coiza é mais, que um metodo e regra, que nos-ensina a julgar bem, e discorrer acertadamente. Asimque establecido este importante ponto, fica claro, que se-deve abrasar aquela Logica, que conduz a este fim: e fugir qualquer outra, que nos-desvia dele.

Tendo percebido este ponto, nam pode aver duvida, sobre o cazo que devemos fazer, desta chamada Logica dos-Escolasticos: basta examinar, se o que se-ensina com este nome, é util, ou prejudicial, para julgar, e discorrer bem. Porque se achamos, que nam conduz; saie por-legitima consequencia, que se-deve deixar, e estudar outra coiza mais util. Ora eu creio, que sem grande trabalho se-conhece, que esta Logica vulgar, nam dá nenhuma utilidade, antes cauza suma confuzam. Os Proemiais sam a coiza mais inutil do-mundo. Com a simplez explicasam, do-que é Logica; sabe um estudante quanto basta, para intrar nela, e ser um grande Logico: toda a outra noticia util se-pode aprender, em uma advertencia, a que chamam notando. Que a Logica tenha por-objeto, os atos do-intendimento, ou as coizas, ou os modos de saber; nada serve para discorrer bem: o que importa é, ter boas regras, e sabèlas uzar bem.

Aqueles Universais, e Sinais sam coizas indignas de se-lerem: o menos que neles acho, é a inutilidade: o pior é o metodo: parecem a mesma confuzam: e de talsorte embrulham a mente, de um pobre principiante, que nam é facil ao despois, intender bem coiza alguma. Em lugar de facilitarem a um rapaz, a inteligencia das-coizas; o-confundem com uma quantidade de sofismas, e sutilezas, tam fóra de propozito; que eu nam sei, como os mestres nam fazem escrupulo, de perderem tam inutilmente o tempo. Acrecento a isto, a inutilidade: pois para nenhuma parte das-Ciencias serve aquilo. O mais que se-tira dos-Sinais é saber, que as vozes servem, para declarar as ideias da-mente, e os afetos da-alma: e que mediante as vozes comunicamos aos outros, o que intendemos, e queremos. Que as vozes nam excitam nos-que ouvem, as ideias de quem as-profere, por-virtude alguma natural, que tenham para iso: mas porque asim o-determináram, os omens de uma Nasam. Sendo certo que as vozes, que em Portugal significam uma coiza, em outro Reino significam coiza diferente, ou nada significam. Esta é toda a noticia util, que se-tira dos-Sinais: e isto é coiza que se-aprende, em um quarto de ora: tudo o mais que dizem dos-Sinais, sam arengas ridiculas, que espremidas na mam, nam deitam uma gota de doutrina. V.P. que perdeo bastante tempo, com estas arengas; fasa-me a merce de me-mostrar, alguma questam util, entre tantas que no-tal tratado se-incluem: estou certo que, uzando da-sua costumada ingenuidade, me-dirá, que nam acha alguma. De que fica bem claro, que o tal tratado, é somente divertimento de omens ociozos. Nem me-faz forsa que o P. * * * me-disèse um dia, que os Sinais eram o Apex Philosophiæ: e o seu P. Colegial * * * me-disèse mui sezudamente, que os Sinais tinham seu uzo na Teologia: poisque na Trindade se-falava, em priori signo &c. nem um, nem outro sabia o que dizia, como as suas respostas mostram: e, aindaque fosem leitores de Filozofia, tinham necesidade, de a-estudar outra vez.

Quanto aos Universais da-Escola, comque se-gasta tanto tempo, nam sam melhores que os Sinais: todos sam talhados, pola mesma medida. Pase V.P. ligeiramente com os olhos, por-aqueles tratados; e me-dirá, o que acha em tantos cadernos. Ali disputa-se mui largamente, se se-dá Universal a parte rei, como eles lhe-chamam: se a Unidade de precizam, e Aptidam sejam da-esencia do-Universal: e outras coizas destas, que quando eu as-considero, fico persuadido; que os que falam nisto, nam intendem iso mesmo que proferem. Que bulha nam se-faz, sobre a divizam em cinco especies! que arengas, sobre cada especie em particular! que confuzoens, sobre as precizoens! Ora eu tomára que me-disesem, o que se-tira de todo aquele negocio; e que noticia util para discorrer se-colhe, de todas aquelas confuzoens? Achei muitos, que, despois de alguns anos de Filozofia, e despois de terem defendido concluzoens publicas, e com grande aceitasam; nam sabiam, por-qual razam se-introduzîram os Universais, na Logica. O que digo dos-Universais, deve-se aplicar aos Predicamentos; que uns introduzem na Logica, outros na Metafizica: e sobre os quais se-disputa, com igual fervor.

Os omens mais advertidos entre os Peripateticos, reconhecem a verdade do-que digo, e sinceramente confesam, que se-deviam cortar, estas longuisimas disputas, que para nada servem. Peripatetico, e bem Peripatetico, era o Suares Granatense, o Barreto Portuguez &c. contudo sam do-meu parecer: e o tal Barreto acrecenta[82], que o aumento que se-deo aos Sinais, é vicio dos-Portuguezes. Mas tornando aos Universais, de que falavamos, a unica razam que eles alegam, para introduzirem esta longa arenga de Universais, e Predicamentos; é, porque as propozisoens de que se-fazem os silogismos, constam de predicados universais. Digo pois, se aquilo nam tem mais serventia, que mostrar, que um nome pode ser universal, ou particular &c. de que serve aquela arenga sempiterna, que nam conduz para iso? Certamente que, seguindo os seus mesmos principios, tudo aquilo se podia reduzir, a meia folha de papel.

Nem cuide V. P. que eu reprovo, toda a sorte de exame, das-propozisoens universais, e particulares: conheso, que iso pode ter seu uzo, e tem utilidade: mas tambem conheso, que se-deve tratar de outra maneira, como em seu lugar direi. Somente condeno muito, o que dizem os Peripateticos; porque nem serve para o intento, que eles propoem; nem para outro algum: confunde as especies, e intendimento dos-rapazes: e é o mesmo a que nos chamamos, perder tempo sem interese algum, e sem saber por-qual razam. Mas prosigamos o curso, da-Logica Peripatetica.

Aos Predicamentos, e Sinais, segue-se o enfadonho tratado de Enunciatione, ou Propozisam. Aqui fazem eles infinitas disputas, tam fóra de propozito; que eu fico pasmado. Confundem a propozisam vocal com a mental, ou ato do-intendimento: ora disputam de uma, ora de outra: desorteque nam se-pode saber, o que eles querem explicar. Sendo aquele um tratado, que se-deve explicar mui claramente, para intender os seguintes; eles o-fazem com tal negligencia, e confuzam, como quem nam cuidáse neste fim. O melhor que eu acho é, que em vez de proporem as coizas, em que todos convem; disputam tudo o que propoem: e a cada propozisam acrecentam, uma longa cadeia de argumentos; e às vezes tam embrulhados, que um omem adiantado teria trabalho, em lhe-responder. E como á-de o principiante, formar conceito das-coizas, e executar os ditames que le; se ele nada acha, em que todos convenham: mas em cada propozisam acha, quem o-contradiga? Isto è o mesmo, que se um carpinteiro tomáse um aprendiz, e em lugar de lhe-ensinar, como se-á-de servir dos-instrumentos; fizese longuisimos discursos, sobre a diversidade de instrumentos de Carpinteiro: contando-lhe miudamente, que a alguns nam agradam, aqueles instrumentos: que outros escrevem, que se-deviam fabricar de outra maneira: e todo o tempo pasáse com isto.

Este é o grande defeito que eu acho, nestas Logicas: nam buscarem aquelas coizas, em que todos convem, para as-explicar aos estudantes. nam acharem um metodo de ensinar Logica, comesando por-documentos claros, que todos intendam: fugindo todo o genero de disputas, que nam servem para principiantes. Pois este devia ser, todo o seu cuidado: e quem nam pratica este metodo, nam quer ensinar Logica. Isto conhecerá V. P. melhor, olhando para as longas disputas, que eles aqui introduzem, sobre os atos verdadeiros e falsos. Nam é crivel, a confuzam com que aquilo se-trata. nam é menos admiravel, a quantidade de coizas falsas, que ali se-supoem, como se fosem demonstrasoens matematicas. Disputa-se com fervor, se o mesmo ato do-intendimento, posa pasar de verdadeiro, para falso: e outras coizas destas. Isto supoem manifestamente, que o dito ato dura algum tempo, na alma; porque se nam duráse, a questam serîa de nada. Mas isto que eles supoem, é manifestamente falso. Basta olhar, para as muitas distrasoens involuntarias, que um omem tem; para conhecer, que a nosa alma está em continuo movimento de conhecimentos: e que devemos dizer, que ela nam pára em algum juizo, ou ato. Ainda quando nos-parece, que sempre cuidamos na mesma coiza, creio eu que nam perziste, o mesmo ato: mas que a alma muitas, e muitas vezes considera, a mesma coiza: que é o mesmo que dizer, com atos diferentes. A razam disto nam me-parece oscura: pois vejo a violencia, que é necesario fazer ao intendimento, para o-fixar no-mesmo objeto: pois um minuto que nos-descuidamos, ja estamos em outro objeto. E ainda quando nos-parece, que consideramos um só, v. g. um painel; é certo que fazemos muitos atos: pois nam vemos só um ponto, mas diferentes pontos, e partes do-mesmo todo: o que se-faz, com diversos atos. Nam é crivel, com quanta velocidade a alma conhece, e pasa de um objeto para outro. Fazemos todos os instantes mil asoens, que nam advertimos: e contudo é certo, que a alma as-conhece todas: mas falas com tal velocidade, que parece as-nam-conhece. Deste genero é o continuo movimento de pestanas, que nós fazemos; e a alma, por-obediencia da-qual se-faz, o-conhece: e contudo nenhum de nós adverte tal coiza. O que mostra bem, quam veloz é a nosa alma, em pasar de um conhecimento para outro. E sendo isto tam claro, os-Peripateticos, sem fazerem cazo disto, introduzem as suas longas disertasoens, fundadas sobre um suposto falso. Demos-lhe, que seja materia duvidoza; sempre é coiza ridicula, propor como coiza certa um fundamento, que tem tantas aparencias de falsidade: e ocupar o tempo com isto, devendo ensinar outras coizas.

Mas, para abreviar este exame, pase V. P. comigo, ao tratado de Priori resolutione. Na primeira parte se-disputa eternamente, sobre os termos, e diversos modos, com que significam as coizas. Isto explicado bem com clareza, e brevidade, podia servir ao estudante de alguma coiza: mas iso é o que eles nam fazem: e todo o tempo pasam em disputar, se o verbo Est pode ser termo; e outras galantarias destas. O que dizem das-Propozisoens, da-sua Conversam, das-Modais, é tam embrulhado, e tam inutil; que nam sei, que pior coiza se-posa dizer. Seguro a V. P. que ja achei Peripateticos, que ingenuamente me-confesáram, que a maior parte daquelas coizas eram inutis.

Mas sem grande trabalho, cuido que mostrarei a V. P. que tudo aquilo, que nestas escolas se-disputa, se-deve totalmente pór de parte. apontarei uma unica razam, que compreende o Priori, e Posteriori, da-Logica vulgar. Examine V. P. com toda a atensam, quanto se-disputa naquelas duas partes da-Logica, e fasa-me a merce de notar mui distintamente, algumas coizas. 1.a Se o que ali se-disputa, é materia inteligivel. Cuido, que a resposta será clara, se olhar-mos para o que sucede nos-estudantes: pois é certo, que despois de muitas, e muitas explicasoens, comumente nam intendem, o que ali se-diz. Apelo, para o que cadaum experimenta em si, e para o que os mestres experimentam, nos-dicipulos. Sei polo contrario, que os meninos intendem muito bem as coizas, se lhas-explicam bem: e sabem dar razam do-seu dito. v.g. se diserem a um rapaz: Aquele ramo que ves naquela porta, é sinal que ali se-vende vinho: porque em todas as partes em que se-vende vinho, se-costuma pòr aquele sinal; porque asim determináram, os nosos antigos: estou certo, que á-de intender facilmente, o que lhe-dizem. Ora fale-lhe V. P. por-estas palavras: Aquele ramo é sinal ex instituto do-vinho: que se-constitue na razam de sinal, por-um respeito de dependencia do-ato da-vontade, que o-deputou para significar vinho: polo que se-distingue do-sinal natural, que se-constitue, por-um respeito de independencia: Despois de toda esta arenga filozofia, o tal rapaz intenderá muito menos, o que lhe-dizem, doque se lhe-falasem em Caldeo. De que vem, que ainda as coizas que se-deviam dizer, se-dizem de um modo tal, que nam se-intendem. Isto é quanto ao modo de se-explicar: pasemos à materia.

A 2.a coiza que V. P. deve notar é, a serventia que tem aquelas regras, para discorrer sem ingano, em toda a materia. Traga V. P. à memoria, tudo o que tem estudado de Priori, e Posteriori, e tenha o sofrimento de considerar; se lhe-servem, ou nam, para intender, e discorrer bem em qualquer materia: ou para provar alguma coiza, que lhe-seja necesaria; nam só nos-atos publicos quando argumenta, ou defende; mas ainda no-seu bofete, quando compoem em alguma materia: ou ainda no-discurso familiar. Tenho tantas provas, da-sua candura de animo, que nam tenho receio que diga, ter experimentado utilidade. Mas eu nam quero por-agora, um juiz tam alumiado como V.P. contento-me que me-respondam os mesmos, que perdem os anos com estas arengas. Eu os-faso juizes nesta disputa: e lhe-deixo considerar, se, quando eles provam o que lhe-negam, ou discorrem familiarmente; o-fazem porque se-lembram das-regras; ou se o-fazem, porque asim se-costuma discorrer no-mundo: e a lisam que tem tido, lhe-suministra os argumentos e meios termos: e a natural penetrasam que cadaum tem, lhe-mostra, com a maior promtidam, a conexam das-partes? O que eu poso dizer neste particular é, que muitos Escolasticos, como ja apontei, me-diseram, que era inutil toda aquela machina de regras: e li alguns, damesma opiniam. O P. Arriaga no-prologo da-sua Filozofia diz claramente, que nam ditou muitas questoens da-fórma Silogistica, porque lhe-parecèram escuzadas: e que avendo vinte anos que era mestre; nunca vîra, que pesoa alguma se-servise da-ponte dos-Asnos, para argumentar, ou responder. E quanto a esta parte da-Ponte dos-asnos, achará V. P. muitos, que dizem ser inutil.

Mas eu paso adiante com o discurso, e creio, que nem menos me-mostrarám omem, que se-sirva das-Figuras, ou de alguma das-outras regras; quando quer provar alguma coiza seria. Conheso, que os que argumentam nesta materia, para mostrarem que a-tem estudado; ou os que nam querem argumentar com razoens, mas com palavrinhas, àmaneira dos-sofistas; poderám fazer algum uzo delas: o que digo é, que quando um omem quer provar, o que lhe-negam, nunca se-serve, de tais arengas. Se ele tem ingenho, e doutrina, mais de presa se-lhe-oferece o meio termo, e modo de o-dizer; doque a regra, que o-ensina. Se nam tem ingenho, estou certo que nem regras, nem figuras, nem modos, nem coiza alguma lhe-ocorrerá; com que posa discorrer fundadamente. Nunca me-sucedeo que, discorrendo comigo, me-viese à imaginasam, servir-me do-silogismo. nunca vi tratar negocio algum grave, com o meio da-Dialetica: ainda sendo as partes, pesoas de toda a penetrasam; e tendo perdido muito tempo, com a Dialetica. Isto da-Logica é o mesmo, que a Retorica: os ignorantes das-regras, se tem ingenho e alguma lisam, oram e provam melhor o que dizem, doque os Logicos e Oradores da-Escola. O omem ignorante das-regras, nam perde tempo com palavrinhas, mas vai direito à razam, e busca aquelas que conduzem, ao seu intento. Ora é sem duvida, que as razoens, e nam as palavras, sam as que persuadem, e provam o que se-quer. Poderám as palavras, e modo com que se-diz, dar mais luz às razoens: mas palavras sem razoens nada provam. E esta é a razam, porque os Logicos finos discorrem pior, que os que nam sam Logicos. E esta mesma razam me-dá fundamento para dizer, que é melhor que nam se-fale, em tais regras.

Acho ainda outra razam, e cuido ser mais forte, para nam seguir este metodo do-silogismo; vem aser, que o silogismo nam serve em modo algum, de ajudar a razam, para que aumente os seus conhecimentos, e neles discorra bem. Quando se-á-de persuadir, e discorrer bem, o primeiro e principal ponto está, em descobrir as provas: o segundo, em dispolas com tal ordem, que se-conhesa clara e facilmente, a conexam e forsa delas: o terceiro, em conhecer claramente, a conexam de cada parte da-dedusam: o quarto, em tirar uma boa concluzam do-todo. Estes diferentes graos se-conhecem muito bem, em qualquer demonstrasam matematica. Uma coiza é, perceber a conexam de cada parte, ao mesmo tempo que um mestre vai explicando a demonstrasam: outra coiza diferente, conhecer a dependencia, que a concluzam tem, de todas as partes da-demonstrasam: terceira coiza muito diferente, conhecer por-simesmo clara e distintamente, uma demonstrasam: e finalmente uma quarta coiza, totalmente diferente das-trez, ter achado as provas, de que se-compoem a demonstrasam. O que suposto, o silogismo nam faz mais, que mostrar a conexam das-partes, sem ensinar a buscar as provas: onde fica claro, que nam é de grande socorro à razam. Muito mais, porque a alma pode conhecer, e conhece, muito mais facilmente por-simesmo, a conexam das-partes; doque por-nenhum silogismo. Quantos omens nam vemos todos os dias, que intendem mui bem, toda a forsa de uma razam; a falacia, e eficacia de um discurso comprido; e discorrem mui acertadamente; sem terem ouvido falar em silogismos? E nam digo somente, entre os omens de boa educasam; mas quem quizer considerar, a maior parte da Africa, e America; achará omens que discorrem tam sutilmente, como os nosos Europeos; sem saberem reduzir um argumento à fórma. Achei negros vindos de la, tam maliciozos, e fingidos; que nam se-pode dizer mais. Ja eu dise a V. P. em outra parte, que me-tem feito muitas vezes mais forsa, as razoens de muitos rusticos, doque de alguns Logicos, e Oradores de profisam.

Ainda daqueles mesmos que estudam Logica, rarisimos sam que cheguem a conhecer, por-que razam trez propozisoens, combinadas de um certo modo, produzam uma conduzam justa: e que saibam com toda a individuasam, por-que razam de mais de 60. combinasoens diferentes, só umas 14. sejam boas. A maior parte destes estudantes contentam-se, com uma Dialetica tradicional: e nada mais fazem doque crer, o que lhe-dise seu mestre, que certos Modos reduzidos a certas Figuras, sam bons; outros, sam maos: sem chegarem a certificar-se, que na verdade asim é. Ora daqui saie por-legitima consequencia, que, se é verdade o que eles dizem, que o silogismo é o verdadeiro e unico instrumento da-razam, com o qual é que se-pode chegar, ao conhecimento das-coizas; antes de Aristoteles, ninguem raciocinou bem, nem teve conhecimento certo; e despois dele, entre vintemil omens nam se-achará um, que goze esa fortuna.

Mas eu creio que serîa louco, quem tiráse tal consequencia: observando-se claramente, que os Omens intendem as coizas bem, sem o dito socorro. Tomára que me-disesem, com que outra Dialetica conheceo Aristoteles, que muitos daqueles Modos eram certos, e outros falazes; senam com a penetrasam da-sua mente, que reconheceo a conveniencia que se-dava, entre umas ideias, e disconveniencia entre outras? A nosa mente tem de sua natureza a facilidade, de conhecer a conexam destas ideias, a polas em boa ordem, e tirar delas concluzoens justas; sem que para isto a-preparem, com artificio algum. Dizei a uma molher rustica, convalecente de uma grande infermidade, que asopra um nordeste agudo, e que o Ceo ameasa grande chuva: ela facilmente perceberá, que nam é tempo para sair de caza. O seu juizo une com toda a facilidade, estas diferentes ideias; Nordeste, Nuvens, Chuva, Umidade, Frio, Recaida, Perigo de morte: e isto em um abrir de olhos; sem ter necesidade daquela fórma artificial, e embarasada de quinze ou vinte silogismos. Ora é certo, que o silogismo nam suministra esta faculdade de perceber, e ordenar as ideias; nem suministra as ideias para iso: e como destas duas coizas dependa tudo; fica bem claro, que nam serve para discorrer bem.

Se V. P. observa o que dizem os doidos, achará, que eles nam se-inganam nas consequencias, mas nos-principios: e por-iso discorrem mal. Unîram-se por-alguma cauza, no-intendimento de um doido, duas ideias; v. g. a que tem de si, e a que tem de um Rei: postas as quais, discorre o omem mui bem: quer Magestade: quer gentilomens, e treno de soberano &c. Estas consequencias decem mui bem, daquele principio: todo o mal está, nas ideias que ele abrasou, e unio mal. Damesma sorte os que nam sam doidos: nam consiste o ingano nas consequencias, porque a alma com toda a facilidade as-infere, e percebe a conexam delas com os meios: todo o ponto está, nos-principios, e pòr as ideias em boa ordem. Isto nam suministra a Silogistica, e asim nam me-parece que pode servir, para o que se-pertende.

A nosa mente naturalmente inclina, para admetir uma propozisam por-verdadeira, em virtude de outra admetida por-tal; ao que chamam inferir: e acha com facilidade, uma terceira ideia, que tenha conexam, com ambas as duas. Progunto agora: ou a mente buscando a ideia terceira, se-certificou da-conexam dela, com as primeiras, ou nam? Se a-procurou asim, fez um conhecimento certo: se a nam-procurou, fez um erro: mas em ambos os cazos fez tudo, sem silogismo. Se o omem nam tivese conhecido, a conveniencia da-terceira ideia, com as duas extremas; nunca pudera afirmar, a consequencia. Ora é certo, que o silogismo em nada contribue a mostrar, e fortificar, a conexam do-meio com os extremos: ele mostra somente, a uniam dos-extremos entre si, em virtude da-conexam com o meio, que ja está conhecida. Em uma palavra, aindaque eu conhesa, a quantidade, e qualidade de duas propozisoens, nam sei se sam verdadeiras: e a Silogistica somente ensina, a inferir; nam a conhecer as premisas: se uma delas for falsa, será falsa a concluzam. Asimque nam é o silogismo o que ensina, a discorrer bem: antes tudo o contrario; conhece mais facilmente o juizo, a conexam de muitas ideias, todas as vezes que estam postas em ordem natural; doque reduzindo-se às embrulhadas do-silogismo: como a experiencia todos os dias ensina.

Acrecento a isto, que sem a boa ordem das-ideias, nam se-pode dar boa ordem, aos silogismos. Ponha V. P. um juizo embrulhado, com mil ideias incoerentes, e verá se pode fazer algum silogismo. Polo contrario, ponha em boa ordem, as ideias de um silogismo; e verá com que facilidade se-intendem sem silogismo, que sempre é mais embarasado. Mais facilmente se-intende a conexam de omem, e vivente, pondo as ideias nesta ordem, natural; omem, animal, vivente: doque nesta; animal, vivente, omem, animal: que é a forma do-silogismo.

Quanto aos que dizem, que o silogismo serve, para descobrir os inganos dos-sofismas, e discursos retoricos; é certo que se-inganam muito. O motivo por-que nos-inganamos nos-tais discursos é, porque ocupados da-beleza daquela metafora, ou pensamento delicado, nam examinamos a conexam das-ideias, de que se-compoem. Explique V. P. o que diz o sofista, separe umas ideias das-outras; e verá que se-acaba o sofisma, sem necesidade de silogismo: porque postas elas na sua ordem natural, intendem-se maravilhozamente, se sam, ou nam coerentes. E que outra coiza fazem os Dialeticos vulgares, quando respondem a algum sofisma? V. P. oporá um sofisma; e respondem-lhe logo: Distinguo minorem, v.g. materialiter, concedo: formaliter, nego. pede V. P. a explicasam dos-tais termos; e eles lha-dam com um discurso longo, ou curto, mas sem genero algum de silogismo. Onde parece-me que sem injuria podemos dizer, que os que defendem a necesidade do-silogismo, como de uma famoza arma contra os sofismas; ou zombam, ou nam intendem o que dizem.

Desorteque examinando bem o silogismo, ele nam dá ideias; que sam os principios dos-nosos conhecimentos: nam dá a boa ordem das-ideias, e da-percesám, porque iso faz a alma por-si só. Serve fomente de pór em certa ordem, as poucas ideias que nós temos: e o maior uzo que tem é, nas disputas dos-Escolasticos; aonde às vezes dá a vitoria. O mais informado nesta arte, confunde com eles, e convence o que nam é tanto: e ainda em tal cazo nam o-reduz ao seu partido: porque nunca se-vio, que os silogismos produzisem ese bom efeito; que aquele que fica convencido, pasáse para a opiniam do-contrario. Conhecerá que nam sabe responder: mas nam receberá tanta luz, que aja pasar para a parte do-seu adversario. Esta é a natureza do-silogismo.

Mas aindaque esta razam seja mui forte, cuido que dos-mesmos principios dos-Escolasticos, se-tira nova razam, para se-excluirem, e vem aser; que as tais regras do-silogismo só servem, para estes silogismos simplezes, feitos de propozisoens que constam de dois termos, e Verbo: v. g. Todo o omem é animal = Pedro é omem = Logo Pedro é animal. Quando porem intramos nos-silogismos, compostos de varias propozisoens, e com mil termos obliquos; é loucura persuadir-se, que neles valham tais regras, tomadas no-rigor da-Logica. Incontram-se mil discursos de evidencia tal, que nenhum omem de juizo, pode duvidar da-sua verdade: vemos cada momento discursos, a que os Logicos chamam Sorites, compostos de dez, e doze propozisoens; tam claros e manifestos; que todos os-devem admetir, ainda aqueles que nunca lèram Logica: que é a maior prova da-verdade, e evidencia: e contudo nam pertencem, a Figura alguma das-ditas. Sei, que alguns destes Logicos antigos se-amofinam, para lhe-descobrir a Figura, e Modo; mas superfluamente: pois aindaque dizem muitas coizas, e apontam outras propozisoens, que expoem as ditas; e nas quais exponentes querem mostrar de alguma maneira, as regras; nam provam o que dizem, nem respondem ao que se-lhe-progunta: ficando sempre em pé a dificuldade, que o dito silogismo, do-modo que se-propoem, nam pertence a Figura alguma: e contudo é verdadeiro, e todos o-intendem com facilidade. E como nos-discursos familiares, nos-discursos oratorios, e quando se-impugnam propozisoens ou concluzoens; somente se-uze destes discursos compostos; fica claro, que em nenhuma destas partes podem ter lugar, as tais Figuras: e que nam só sam inutis, mas imposiveis.

Seguro a V. P. que tendo lido muito, visto, e ouvido muito, e asistido a disputas de toda a considerasam; nam vi ninguem, que se-servise da-dita Fórma. Nunca vi converter Ereje algum com fórma Silogistica, nem Ebreo, ou Ateista. E contudo tenho-me achado em algumas partes, com estas trez sortes de pesoas, e conversado com eles larguisimamente. Eles me-respondèram sempre com razoens ou boas, ou más; mas nunca com fórma Silogistica: e quando alguma vez sucedia, que o discurso caîa em questam de nome; logo me-advertiam, que deixase a Dialetica, e argumentáse com razoens. Nem menos falei com algum, que me-disese, ter-lhe sucedido o contrario: nem acho dogma algum, que necesite da-fórma Silogistica, para se-poder intender, ou explicar. Nam leio que Cristo, ou os Apostolos se-servisem do-silogismo, para persuadir as verdades, que defendiam; e propunham: nem acho que a Igreja Romana, ou os Concilios uzasem desta fórma, para declarar alguma materia controversa: antes tudo o contrario. Vejo que os SS. PP. encomendam muito, que os Dogmas se-próvem com razoens solidas, fugindo de todas as sutilezas da-Dialetica: e que eses mesmos Padres praticam muito bem, o que encomendam. O que mostra bem, a nenhuma necesidade, ou utilidade destes termos da-Escola, na Teologia.

Alem disto acho outra nova razam, para desprezar totalmente estas doutrinas: vem aser, o enfadonho metodo que introduzem, em todo o genero de discursos. Nam á coiza mais dezagradavel e confuza, que um longo discurso Dialetico: e nam á discurso, que, reduzido ao metodo da-Escola, nam seja longuisimo. Um paragrafo de discurso familiar mui breve e claro, reduzido a silogismos, enche boa meia folha de papel. Ouvem-se cem vezes os mesmos termos: porque cada silogismo deve repetir, uma das-propozisoens do-antecedente. E tudo aquilo se-pode dizer, em breves palavras, e com muita clareza, sem nem menos introduzir um silogismo. Polo contrario, quando entra o silogismo, é necesario recorrer, a propozisoens gerais, que nam toam bem, nem provam muito: e tem mais aparencia de declamasam, que de prova filozofica, e discurso sensato.

Esta simplez propozisam: Quero-vos bem, pois vos-tenho obedecido, e nam podeis duvidar, da-sinceridade comque vos-sirvo: porque tendes experiencia constante, deque a nenhum outro o-faso: pode dar de si bastantes silogismos, se ouver quem a-dilate. v. g. Quem faz a outro, tudo o que lhe-pede; dá sinal certo, de lhe-querer bem. Eu tenho-vos feito, quanto me-tendes pedido: logo tenho-vos dado um sinal certo, deque vos-quero bem. O sinal certo do-querer bem, nam pode separar-se, do-mesmo querer bem: logo se eu vos-dou um sinal certo, deque vos-quero bem, obedecendo ao que me-ordenais; é certo, que vos-quero bem. Provo a maior. Quem faz a outro, tudo o que lhe-pede, e o outro nam pode duvidar, da-sinceridade com que lhe-obedece; dá-lhe um sinal certo, de lhe-querer bem. Eu tenho-vos feito quanto me-pedistes, e alem diso vós nam podeis duvidar, da-sinceridade do-afeto, com que vos-sirvo: logo fazendo-vos o que me-pedis, dou-vos um sinal certo, de vos-querer bem. Provo esta maior. Quem tendo uma experiencia constante, deque um sugeito que conhece, a ninguem costuma servir; nam obstante iso tem outra experiencia constante, deque este mesmo sugeito o-serve a ele; recebe um sinal certo, da-sinceridade com que lhe-obedece. Vós tendo constante experiencia, deque eu nam sirvo a ninguem; nam obstante iso tendes outra experiencia constante, que eu sempre vos-sirvo, e obedeso: Logo tendo vós estas duas experiencias, recebeis um sinal certo, da-sinceridade com que vos-obedeso. Nam quero continuar mais, os silogismos da-maior: e nem menos quero continuar, as provas da-primeira menor subsumpta: o que dise basta para provar, que qualquer pequena propozisam composta, pode produzir mil silogismos. Ora é certo, que a primeira propozisam é clara, e todos a-intendem: e aquela longa enfiada de silogismos é oscura, e só a-intendem, os que sabem a fórma Silogistica: e contudo iso nam diz mais, doque dizia a primeira propozisam. Do-que se-conclue, que o dito metodo se-deve desprezar, quando nam fose por-outra razam mais, que por-ser enfadonho, e cauzar molestia sem utilidade.

Dirmeá V. P. que este meu discurso tem por-fim, condenar todo o silogismo: e desterrar do-mundo todos os livros, que se-explicam por-silogismos: e mostrar, que nam só sam inutis, mas prejudiciais: como ja me-respondeo um Dialetico. Mas a isto respondo, que nam é esa a minha intensam. Confeso, que todos os nosos discursos, se-podem reduzir em silogismos: um sermam, um discurso familiar, uma escritura que persuade, um inteiro livro, pode-se chamar, silogismo composto de infinitos termos obliquos: nas mesmas demonstrasoens matematicas, se-podem descobrir silogismos. Ainda digo mais, nam á discurso que persuada, que nam seja em vigor de um silogismo, ou claro, ou oculto. Contudo iso defendo, que de pouca ou nenhuma utilidade é o silogismo, para quem á-de discorrer bem. Nam é o mesmo intervir o silogismo em tudo, que ser a unica arma, com que se-discorre bem; desorteque quem nam tem esa noticia, seja obrigado a discorrer mal. Quando Aristoteles escreveo, as suas reflexoens sobre o silogismo; nam nos-quiz ensinar, a fazer silogismos; porque iso fazemos nós sem reflexam, nem estudo algum: quiz somente mostrar-nos, em que se-fundava, a verdade dos-nosos conhecimentos discursivos: e como procedia o intendimento, quando consentia em algum objeto. Porem nam devemos daqui inferir, que sem praticar advertidamente, tudo o que ele propoem, nam posamos discorrer bem: nam senhor: a dita noticia é mais especulativa, que pratica. Abráse V. P. bons principios, e evidentes; e verá que perfeitos raciocinios fórma, sem noticia alguma da-Silogistica: explicarmeei com um exemplo. Para comer alguma coiza, e com iso sustentar-se um omem, é necesario mover uma grande quantidade de musculos, que se-movem matematicamente. Quer-se uma particular dispozisam da-lingua, para empurrar o comer para os-dentes, e despois para a goela: quer-se a saliva, para ajudar a triturasam, e o fermento no-estomago: e finalmente mil outras coizas, que agora me-nam-ocorrem. Tudo isto é tam necesario, e estas coizas estam tam unidas, que faltando uma, nam sucederia o cazo. Seria porem louco quem, ouvindo isto, nam quizese comer, sem saber primeiro tudo, quanto tem dito os Matematicos, sobre as leis do-movimento, e sobre a Mecanica: como tambem tudo o que tem dito os Anatomicos; sobre os ditos musculos, umores, fermentasoens &c. Este omem morreria de fome, no-mesmo tempo que outro, rindo-se da-sua loucura, comeria mui descansado, e com muito gosto. A razam disto é: porque sem tanta erudisam, a machina do-noso corpo está disposta em modo, que metendo o comer na boca, e querendo mastigar, (fóra dos-impedimentos) tudo aquilo se-faz, sem estudo ou reflexam alguma. Damesma sorte a machina espiritual da-nosa alma, (se me-é licito, servir-me desta expresam) recebeo tal faculdade de Deus, que conhece todas as coizas evidentes, e especialmente a conexam de umas ideias com outras, sem estudo ou artificio algum: aindaque nese mesmo ato de conhecer, pratique aquilo, que superfluamente aprenderia de outro.

Daqui fica claro, que servindo-nos do-silogismo para persuadir, nem por-iso somos obrigados, a saber estas coizas. Contudo aprovo que se aprenda, alguma noticia mais geral: o que se-pode fazer em duas palavras. Pode alem diso o silogismo ter seu uzo entre aqueles, que desde rapazes estam acostumados a ele. Quizera porem que a gente reconhecèse, que o silogismo vale dez, e nam cem, nem mil: e que nam nos-quebrasem a cabesa com o silogismo, como uma invensam singular, para conhecer a verdade, e aumentar os conhecimentos, nas Ciencias. Explico isto com outro exemplo, de que ja se-servio um grande omem, do-seculo pasado. Vemos omens de vista tam curta, que nam podem ver distintamente os objetos, em alguma distancia, sem uns oculos sumamente concavos de uma, ou de ambas as partes. Mas porque eles nam vem sem eles, nem por-iso devem julgar o mesmo, dos-outros: porque á muitos, que vem maravilhozamente, sem tal socorro. Damesma sorte a alma dos-Escolasticos, nam ve sem os oculos do-silogismo: que lhe-fasa muito bom proveito, e se-sirvam deles quanto quizerem: a alma porem dos-outros omens, exercitando-se em discorrer com advertencia, pode ver a conexam das-ideias, sem aquele socorro. Sirva-se cadaum do-que quizer, e mais lhe-convier: o que importa é, que os Peripateticos nam julguem todos, pola mesma medida: e da-falta de oculos nos-outros, nam infiram, que todo o mais mundo anda às cegas.

Conheso, que algumas vezes se-pode uzar do-dito metodo, com utilidade; quando se-quer introduzir um dialogo, para evitar os discursos compridos, e oratorios. Mas em tal cazo sam necesarias varias cautelas, para ser util o dito metodo: porque se deixamos provar a cadaum o que quer; caimos no-defeito, que queria-mos evitar. Deve pois evitar-se toda a superfluidade, e tocar unicamente o ponto da-questam. Mas neste cazo, nam é tanto estimado o tal metodo, por-ser Escolastico, mas por-ser metodo de dialogo: no-qual se-propoem a dificuldade, por-uma parte, e da-outra se-lhe-dá a resposta. Temos um belo exemplo, no-Concilio geral Florentino, congregado por-Eugenio IV. Como nele se-avia tratar, da-uniam da-Igreja Grega, com a Latina; sobre alguns pontos em que diversificavam; escolhèram-se seis omens de cada parte, para examinarem a questam, e dizerem o que se-avia propor, por-uma e outra parte: e lhe-ordenáram, que, deixados os discursos compridos, seguisem um metodo breve, e dialetico. Mas quem examina nos atos do-tal Concilio, que coiza era este metodo dialetico, acha, que nada mais era, senam um dialogo sem rodeios, nem prolixidades: no-qual de uma parte, um punha a dificuldade: e da-outra, o seu opozitor respondia sim, ou nam: ou brevemente dava a razam, porque duvidava &c. Esta foi toda a Dialetica, que se-praticou na dita disputa: o que bem mostra, que muitas vezes se-chamou dialetico, o estilo de falar concizo e breve; sem aquelas Figuras que constituem, o estilo retorico: e isto é o mesmo que eu digo, ser muito util. Mas nam achará V.P. que se-fizese cazo, das-ridicularias da-Logica vulgar: ou que, fazendo-se, rezultáse daî utilidade alguma: que era o que eu asima dizia.

Nem cuido que V. P. me-mostrará, que às Ciencias rezultase utilidade alguma, do-uzo do-silogismo. A falar verdade, nenhum omem douto cuidou nunca nestas ridicularias: os sofistas sim. Os seculos do-silogismo foram os mais barbaros, e ignorantes. Ele comesou cá no-Ocidente no-IX. seculo: aumentou-se com muito mais exceso no-XI. e durou até o meio do-XVI. E que coiza boa acha V.P. neses tempos? Polo contrario, desde o principio do-XVII. em que o silogismo se-comesou a deixar, e se-procurou outro metodo; o aumento é tam sensivel, que serîa loucura mostrálo: muito mais neste ultimo seculo, em que os olhos estam mais abertos. Asimque, com estes exemplos à vista, nam parecerá maravilha que eu diga, que o silogismo vale pouco, e tem servido de muito pouco: e que avendo outra ideia melhor, é loucura, demorar-se com ele. De tudo isto concluo, que a Logica que pode servir no-mundo, é mui diversa, desta chamada Logica das-escolas: a qual por-muitos principios nem menos se-deve ler. Creio que V.P. me-perdoará esta digresam, com que interrompi, o que lhe-queria dizer da-Logica; se-quizer refletir, que nam é alheia do-meu argumento: antes justifica o que abaixo lhe-direi, e me-poupa algumas repetisoens. Torno à ideia, que lhe-queria dar da-Logica.

Digo pois, que o metodo de filozofar nam se-deve seguir, porque o diz este, ou aquele autor: mas porque a razam e experiencia mostram, que se-deve abrasar. Isto é o que eu nam poso meter em cabesa, a muita gente: porque a maior parte do-mundo, nam examina os principios das-coizas; mas vam uns detraz dos-outros como carneiros; sem mais eleisam, que o costume: e antes querem errar, por-cabesa alheia, que acertar pola propria. Persuadem-se, que os velhos nam podem ensinar, coiza alguma má: e recebem os tais ditames, com a posivel venerasam. Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opiniam é boa, ou má: uma vez que a-diseram os antigos mestres, é o que basta. De que nace, que omens de ingenho mui perspicaz, seguem doutrinas contrarias a toda a boa razam; e que eles mesmos dezaprovam, quando lhas-explicam bem. Entre tantos Peripateticos, que V.P. conhece, nam achará algum que duvidáse uma só vez, se Aristoteles na sua Logica dise bem, ou mal: como conste que o-dise Aristoteles, é o que basta: nam faltará modo de explicar, a dita doutrina, ou texto. E deste principio nacem, aqueles grandes comentarios, com que amofinam a paciencia ao mundo; e fazem perder o tempo, nas escolas.

Bem claro é que um omem, que escrupulozamente comenta um autor, supoem ser verdade, quanto ele diz: pois de outra sorte, devia fazer um rigorozo exame, na materia que comenta. E eisaqui tem V.P. que estes tais, querendo ensinar aos outros a discorrer bem, eles sam os primeiros, que discorrem muito mal. Falava eu em certa ocaziam, com um mestre Peripatetico, e caindo o discurso sobre uma destas materias, me-produzio ele um texto do-Filozofo, em uma questam bem controversa. Respondi eu, que nam me importava, o que dizia o Filozofo, mas o que ele na dita conversasam me-provava. Aqui admirado o omem clama logo, V.P. nam pode negar o texto: deve explicálo. ao que eu pontualmente respondi: Quem lhe-dise a V.P. que eu nam poso negar o texto? dise-lho algum concilio Ecumenico, ou algum texto da-Escritura? Se V.P. me-citáse, alguma propozisam de Euclides; em tal cazo lha-admetiria; nam porque Euclides o-dise, mas porque a evidencia mostra, que dise bem; e todos reconhecem a verdade, das-ditas propozisoens: fóra daqui nam admito senam aquilo, que me-provam com clareza, e verdade. Onde é necesario que V.P. primeiro que tudo, me-prove trez coizas. 1. Que Aristoteles nam podia dizer uma parvoice, advertidamente. 2. que nam podia inganar-se. 3. que o que nós oje achamos nos-seus escritos, seja verdadeiramente o que ele dise: postas estas circunstancias considerarei entam, o que ei-de responder ao texto. Até aqui o discurso, que eu tive com o dito Padre. Agora acrecento, que o dito mestre, ouvindo estas minhas razoens, nam se-aquietou: mas continuou de admirar-se damesma sorte, que se nam lhe-tivesem respondido coiza alguma.

Concluo pois, que é necesario seja bem louco, quem nam conhece, quam grande impedimento seja, para discorrer bem, seguir as pizadas de um autor só, ou seja Aristoteles, ou algum moderno. A Verdade, e a Razam é uma só. Todos podemos discorrer, e intender o que nos-dizem: e quem fala em maneira que melhor o-intendam, e prova melhor o que diz, ese é que se-deve seguir, com preferencia aos outros. Se acazo nam prova o que diz, antes o que diz nam parece bem, ou á razoens para se-intender, que é mao; nam se-deve fazer cazo, de tais discursos. Esta é a pedra de toque, nam só da-Logica, mas de qualquer outra Faculdade: tomar por-principios coizas tais, que as-intendam todos, os que dam alguma atensam às ditas regras: mas principalmente é necesario, na Logica. Certamente que a Logica nam foi feita, para Clerigos, ou Frades, ou pesoas de uma exquizita erudisam: deve servir a todos os que falam, e raciocinam: e nam só em discursos estudados; mas em qualquer sorte de discurso, publico ou particular; serio ou agradavel. Se ela serve, para ensinar a discorrer bem, deve dar ditames, que posam servir em toda a parte, em que se-discorre, e se-deve discorrer bem. Importa pouco, o que dise este ou aquele, da-Logica: o que importa é, facilitar os meios, para nam se-inganar: e buscar para isto um metodo, que a boa razam persuade ser util, e os omens que tem voto na materia, reconhecem com razam, e experiencia, ser o unico meio, para conseguir aquele fim. Alem diso propolo de um modo, que qualquer pesoa de juizo, se-capacite da-dita verdade. Isto suposto, farei a V.P. algumas reflexoens, sobre o metodo de dirigir o juizo. Mas devo supor, que falo com um omem, sem nenhuma preocupasam: e que nam tenha lido Logica alguma: ou, se a-tem lido, que procure esquecer-se de tudo: mas no-mesmo tempo que tenha juizo claro, para conhecer as coizas. a este omem farei, as seguintes reflexoens.

IDEIA DA LOGICA

Nós temos uma alma capaz de conhecer, todas as coizas deste mundo. Recebemos do-Criador esta alma, dotada de maior perspicacia, doque oje nam temos. O pecado de noso primeiro pai, nos-trouxe por-castigo, sermos sugeitos ao ingano: e por-pena do-mesmo pecado se-nos-limitou, a esfera da-nosa perspicacia: nam conhecemos tam bem como ele, e somos mais sugeitos, a conhecer mal. Contudo a alma é a mesma, que era ao principio: foi criada para conhecer a Verdade, e ficou-lhe sempre a propensam para ela: em modo que, quando a alma ve uma verdade clara, nam pode deixar de conhecèla, e abrasála. Nenhum omem de juizo duvîda, se é omem: nenhum duvîda, se fala, ou está calado; se está em pé, ou asentado: por-forsa á-de admetir uma destas coizas, porque sam mui claras; e uma delas á-de ser verdade. Por-iso nós pecamos, e pecando nos-desviamos da-verdade da-lei divina, que é tam conforme à boa razam; porque nam damos atensam, à dita verdade: que se a-desemos, sem duvida ficariamos persuadidos, que se-devia praticar, o que ela diz. Mas a rebeldia que experimentamos, no-noso corpo, que com dificuldade se-sugeita, aos ditames d’alma; é a cauza deste mal. Ele nos-inclina sempre, para a parte contraria, com a isca de coizas agradaveis: e a alma, divertida com outras considerasoens, dificultozamente volta os olhos para a verdade: e por-iso a-nam-recebe: e por-iso peca. Esta é a origem, de todos os nosos inganos, e de todos os nosos danos. Se a alma nam fose arrastada, polos tumultos da-fantezia, que comumente a-ingana; conheceria mui bem toda a verdade: nam só aquelas que conduzem, para posuir um bem eterno; mas tambem, estas verdades indiferentes das-coizas naturais: e discorreria sem ingano, em toda a materia: mas as cauzas dos-inganos sam tam frequentes, nesta vida mortal; que nam é maravilha, se os omens ajuizam tam mal: e ajuizando asim, obrem em tudo mal.

Isto suposto, a unica medicina que se-tem achado, para ajuizar bem, é desviar as cauzas, que nos-conduzem ao ingano. Ponho de parte, o ajuizar bem para conseguir, a bemaventuransa sobrenatural: (aindaque daqui posa receber muita luz; contudo como necesita de outras coizas, e nam é ese o meu argumento; por-iso o-deixo) e falo somente do-discorrer bem, em todas as outras materias. Digo pois, que o verdadeiro segredo de ajuizar bem, é desviar as cauzas que nos-inganam, e fazem julgar mal. Para fazer isto, é necesario examinar os modos, com que a alma conhece; e meios de que se-serve, para se-explicar.

Nós nam trazemos da-barriga da-maen, conhecimento algum: todos os-adquerimos despois de nacidos. Basta olhar, para o que faz um menino; para ver a sua ignorancia, e que nace despido de todo o conhecimento. Ele aprende a sua lingua, como nós aprendemos uma lingua estrangeira: quero dizer, asimcomo nós, aprendendo uma lingua estrangeira, só formamos ideia dos-nomes que vamos aprendendo, e nam daqueles que ainda nam ouvimos: asim tambem um menino, só tem ideia das-palavras que ouve, e nenhuma das-outras, que nunca ouvio. Mas alem diso nem menos tem ideia das-coizas, que significam os tais nomes, senam das-que ve, ou ouve. Um menino nam profere, senam as palavras que ouve: só intende e fala daquilo, que lhe-tem dito, ou visto. o que mostra claramente, que nam tem outros conhecimentos, senam os que entram polos sentidos. Os que defendem ideias inatas, que mostrem alguma, que nam entre polos sentidos; ou nam se-deduza das-ideias, que intráram por-eles: estou certo, que nam aparecerá alguma, a que nam posamos descobrir, esta origem.

Sam pois os sentidos, as principais portas, polas quais entram as ideias, na alma. Umas destas ideias entram, por-um só sentido: v. g. a Solididade dos-Corpos, que entra polo tato: outras entram por-dois sentidos: v. g. a figura, que pode intrar polo tato, e juntamente polos olhos. Algumas ideias originam-se em nós, com a meditasam, ou reflexam: deste genero é a vontade, percesam &c. Outras entram umas vezes por-sensasam; outras, pola reflexam: v.g. o gosto, dor, existencia, unidade, potencia, sucesam. Finalmente muitas ideias simplezes, se-originam em nós, por-meio das-cauzas privativas; tais sam as ideias que nós temos, das-qualidades dos-corpos: v.g. a ideia de negrura &c. O exame dilatado deste negocio, pertence a outro lugar: basta por-agora que o Logico conhesa, que por-todas estas vias podemos receber, ideias simplezes.

Admiravel é a virtude que a alma tem, para unir, e combinar estas diferentes ideias simplezes, que por-este modo recebe. Verdade é, que alma nace despida, de todo o conhecimento atual: mas fica mui bem recompensada, com a virtude de-que Deus a-dotou, de poder conseguir muitas, e novas ideias, com diferentes combinasoens. Unindo as ideias, que intráram polos sentidos, fórma a alma muitas outras ideias: outras vezes examinando as proprias ideias, nacem diferentes ideias na alma. Desta diferente combinasam de ideias, nacem todas as ideias compostas, que nesta vida experimentamos.

Mas aindaque sejam infinitas as ideias compostas, que a alma fórma, podem-se reduzir, a trez sortes de ideias: que sam as ideias dos-Modos, das-Sustancias, e das-Relasoens. As ideias dos modos sam aquelas ideias que nós formamos, de diversas coizas que nam existem por-si, mas sam dependencias de outras coizas. v.g. a ideia que eu tenho de um triangulo, de uma coluna, de um circulo &c. Estas ainda sam de duas maneiras: ou sam ideias de modos simplezes, ou de modos mixtos. Chamo modos simplezes, às ideias dos-modos, que sam compostas, de duas ideias damesma especie: v.g. a ideia que eu tenho de doze, de cem &c. que é composta das-ideias, de muitas unidades juntas: a ideia de imensidade, que é composta, da-repetisam de diferentes ideias de distancia, repetidas sem fim: e como cada distancia se-supoem ser, uma modificasam de espacio; a dita ideia é uma ideia composta. Chamo modo mixto, uma ideia composta, de modos de diferente especie: v. g. a ideia de beleza, que é um composto de diferentes cores, e proporsoens, que dá gosto vendo-se. tambem a idea de amizade, mentira, obrigasam &c. Estas ideias une o intendimento, sem examinar se existem, ou nam: e a estas dá o nome, que lhe-parece. Os omens porem comumente, recebem estas ideias dos-outros, que lhe-explicam o significado, de muitos termos. Desorteque ou por-aplicasam, ou por-experiencia recebemos as ideias, dos-modos mixtos.

A segunda especie de ideias, sam as das-Sustancias. Nam podendo nós intender, como as ideias simplezes existam por-si só, nos-acostumamos a supor alguma coiza, que as-sustenta: ao que damos o nome, de Sustancia. Digam o que quizerem, os que falam de Sustancia, como de uma coiza, que eles intendem bem o que é; certo é, que nam tem os omens, mais clara ideia de sustancia. Onde ideia de sustancia, é ideia de uma certa coiza incognita; a qual, quando nós queremos explicar, nam sabemos dizer o que é: mas somente dizemos; que é uma coiza, que nós supomos ser a baze, daquelas ideias que vemos. E esta ignorancia é aplicavel, a qualquer sorte de ideia de sustancia. Quanto às ideias das-particulares sustancias, esas formamos nós, unindo quantas ideias podemos ter de uma coiza. v.g. unindo a ideia de cristalino, durisimo &c. formamos ideia, do-diamante. Mas alem destas, devemos unir-lhe, a ideia confuza que nós temos, de uma coiza que as-sustenta: e daquelas ideias, e desta, rezulta a ideia composta, que nós temos neste mundo, da-sustancia do-diamante. Do-que se-segue, que tam clara ideia temos nós, da-sustancia do-Corpo, como do-Espirito: pois nenhuma outra ideia temos mais, que dos-modos ou efeitos, que se-observam; unidos à dita ideia de uma coiza, que supomos sustantála: cujos efeitos tam claramente se-conhecem do-Espirito, como do-Corpo. Alem destas ideias de sustancia, formamos outra ideia composta, ou complexa de sustancia, unindo diferentes ideias de sustancias. v. g. unindo diferentes ideias de naos, pesas de artilharia, marinheiros, almirante &c. fazemos a ideia complexa de armada: e damesma sorte de exercito, mundo &c. A estas damos um só nome, porque na verdade é uma só ideia.

A terceira sorte de ideias, sam as Relasoens. Estas fórma a alma, comparando uma coiza com outra: de que nacem mil denominasoens, que tem proprios nomes, e nos-conduzem a conhecer, outra coiza: e sem os tais nomes, nam conhecemos muitas relasoens. Estes nomes só se-podem dar, quando se-poem o fundamento deles. v. g. Pedro é omem: mas se ele se-caza, este contrato serve para lhe-dar o nome, de marido. Estas ideias de relasoens, sam muitas vezes mais claras, que as ideias das-coizas, que estam sugeitas às ditas relasoens; ou das-sustancias. A ideia de pai, e irmam é mais clara, que a ideia de omem: e com muita mais facilidade eu intendo, que coiza é um irmam; doque intendo, que coiza é um omem. Conhece-se mais claramente, que coiza é um amigo, doque que coiza é Deus. Porque o conhecimento de uma asám, ou de uma simplez ideia, basta muitas vezes, para me-dar o conhecimento, de uma relasam. Polo contrario, para conhecer um ser sustancial, é necesario um exato conhecimento, de uma colesam de ideias. Devemos porem advertir, que todas estas relasoens se-terminam, em ideias simplezes: aindaque nos-paresa, tudo o contrario: e os nomes que conduzem a mente, para conhecer outra coiza, alem do-sugeito da-denominasam; sempre sam relativos. Que todas as relasoens sejam compostas, de ideias simplezes, é coiza para mim certa: mas para o-provar, serîa necesario, fazer um longo discurso, sobre todas as especies de relasoens: para mostrar, donde vem a ideia de Cauza, Efeito, Lugar, Extensam, Identidade, Diversidade &c. como tambem as relasoens morais: v. g. Bem, Mal, Crime, Inocencia &c. Mas rezervo-me para explicar iso a V. P. em outra ocaziam: e agora continuo as minhas reflexoens. Esta em breve é a origem, de todas as nosas ideias.

Daqui fica claro, que das-nosas ideias umas sam simplezes, outras compostas: umas adventicias, que entram polos sentidos, e outras que a mente faz, a que chamam faticias. Destas umas sam claras, outras confuzas; umas adequadas, e outras inadequadas. Finalmente reais, e chimericas; singulares, particulares, e universais.

De todas as ideias, as que mais frequentemente faz a alma, sam as universais. Estas fórma a alma, considerando uma coiza, que tem outras semelhantes: onde considerando todas em uma masa, sem considerar diferensa alguma particular, formamos ideia universal. v. g. Temos trez sortes de triangulos: um se-chama Equilatero, outro Isosceles, e o terceiro Escaleno: cada um dos-quais tem suas particulares propriedades. Mas considerando os ditos triangulos somente, como uma figura de trez angulos, sem determinar as propriedades de cadaum, formamos uma ideia universal, que se-pode aplicar, a cada triangulo de per-si. Este modo de considerar, se-chama nas escolas precizam: palavra tirada do-verbo Præscindo, ou Præcido, que é o mesmo que cortar, separar: porque separamos os triangulos, das-suas propriedades.

Estas ideias universais tem entre os Logicos, diversos nomes. Chamam a uma, Genero: a outra, Especie, Diferensa, Proprio, Acidente. Basta intender brevemente, o significado destas vozes, para poder servir-se na ocaziam; e intender o que os Logicos, querem dizer com elas: nam considero outra utilidade, nestes cinco Predicaveis. Polo contrario, tudo quanto deles dizem os Logicos, comumente é falso: pois supoem claramente, que nós temos perfeito conhecimento, das-Esencias: o que é manifesta falsidade.

Sendo pois, que as nosas ideias, só se-podem comunicar aos outros, por-meio daqueles sinais, a que chamamos vozes; devemos fazer alguma reflexam, sobre esas mesmas vozes, ou palavras: o que pode conter, alguma coiza util. As palavras nam significam os pensamentos, por-virtude natural; mas porque asim o-determináram os Omens. A maior parte das-palavras sam gerais, quero dizer, significam ideias gerais: porque serîa imposivel, e inutil, que cada coiza particular, tivese um nome distinto: o comercio umano farseia insuportavel, e os Omens nam aumentariam os seus conhecimentos. Acostumando-se os Omens, a fazerem ideias abstratas, deram-lhe nomes, a que chamam gerais, ou universais. Á nomes para as ideias simplezes, para os-modos, e relasoens &c. e todos estes é necesario saber, como se-formam, e que coizas particulares tem. Sucede às vezes, que se-introduzam imperfeisoens nas palavras, por-cauza que as ideias que significam, sam mui complexas, e sam cauza que os nomes fiquem duvidozos. Sucede tambem, que os Omens abuzem das-palavras, servindo-se de umas, a que nam dam significado certo, ou lho-dam mui oscuro &c. Devem-se remediar estes defeitos: tendo prezente a origem deles, e o modo com que se-remedeiam: o que se-observa nos-autores, que explicam isto. Isto é o que pertence, à Percesam.

Alem da-faculdade que a mente tem, de formar ideias, a cuja damos o nome de Percesam; tem mais outra faculdade, de comparar uma ideia com outra, e reconhecer a conveniencia, e disconveniencia delas: ao que chamamos Consentimento, ou Juizo. Asimque o julgar nada mais é, que certificar-se a mente, que uma coiza convem a outra, ou nam convem: e comparando ela uma ideia com outra; reconhece, e se-certifica da-conveniencia, ou disconveniencia. Se o juizo se-explica, com as vozes; chama-se Propozisam, ou Enunciasam: e em tal cazo, tanto aquilo a que convem uma coiza, como as vozes porque se-explica; chama-se sugeito da-propozisam: e o que convem, chama-se predicado.

Decendo pois à diversidade de juizos, digo, que se a mente se-certifica, da-conveniencia entre duas propozisoens, chama-se juizo afirmativo; se da-disconveniencia, chama-se negativo. Nam digo, que aja juizos negativos, no-sentido em que o-tomam os Logicos vulgares: mas chama-se afirmativo, ou negativo, segundo a coiza que afirma. Esta diversidade de propozisoens, ou juizos, alcansa-se do-sentido, nam das-palavras: as quais sendo negativas, podem ter sentido afirmativo. O que muitos nam advertindo, fazem mil disputas, e arengas sobre coizas bem claras.

Qualquer dos-nosos juizos, (o mesmo digo das-propozisoens, que sempre correspondem aos juizos) afirmativo, ou negativo, ou explica o nome; ou explica as nosas ideias; ou explica alguma outra coiza que existe: ao primeiro chamamos, juizo Nominal: ao segundo, Ideial: ao terceiro, Real. v.g. Quando eu digo: O oiro nam é pedra: este juizo é real. quando digo: A ideia que eu tenho de pedra, é diferente da-ideia, que tenho de oiro: este juizo é ideial. quando digo: Este nome Amor significa, um afeto da-alma, ou um juizo que formo, da-excelencia de uma pesoa em algum genero, e utilidade que me-pode rezultar dela: este juizo chama-se nominal. Do-conhecimento destas trez sortes de juizos, depende o bom ou mao uzo, que fazem os Omens, das-suas faculdades, em qualquer materia que se-lhe-propoem. A maior parte das-disputas nace, de que nam intendemos bem, as definisoens dos-nomes: e cadaum as-toma, no-seu sentido. O mesmo digo das-definisoens, que explicam as ideias dos-outros, principalmente dos-mortos. Atribuimos aos autores que lemos, mil coizas que eles nunca diseram. Servimo-nos dos-Dicionarios, como de oraculos: sem advertir, que aqueles que os-compuzeram, podiam sofrer o mesmo ingano, procurando a verdadeira inteligencia deste nome. O mesmo sucede nas definisoens reais, tanto nas da-esencia, como de algum acidente ou modo. Persuadimo-nos, que sempre sam verdadeiras: e deste modo abrasando-as sem exame, establecemos um principio, que por-forsa nos-á-de conduzir ao ingano.

Sobre isto das-definisoens, é bem vulgar o erro dos-Logicos comuns, que dizem, que a definisam se-pode fazer por-uma ideia, ou simplez percesam, a que eles chamam, Apreensam. Isto é falso por-muitos principios: nem se-pode fazer definisam alguma, que nam seja, reconhecendo a conveniencia dela, com o seu objeto. Quando dizemos, Animal racional: (suponho agora, que esta seja a verdadeira definisam do-Omem: de que duvido muito, e com razam) ou a mente conhece a conveniencia daquela ideia, com a ideia de Omem; ou nam. Se a-conhece, define: mas em tal cazo produz um conhecimento, ou consentimento, a que chamamos Juizo: porque o expremir, ou nam expremir, com a boca o Est, nam faz ao cazo. Se a-nam-conhece, nam define; mas profere duas ideias separadas. É necesario intender, e advertir tudo isto muito bem, para nam se-inganar, com o que eles dizem.

Alem destes juizos, fórma a mente infinitos outros, damesma sorte, que disemos das-ideias. Temos juizos simplezes, compostos, singulares, e universais. A estas se-reduzem todas as sortes de juizos, ou propozisoens vocais. Conhece-se a especie a que pertence, pola qualidade do-sugeito.

Faz tambem a mente juizos verdadeiros, e falsos. E aqui é necesario o criterio, para nam se-inganar. Consiste o criterio da-verdade, na evidencia com que se-propoem uma coiza, desorteque nam deixe duvidar, de ser asim. Nisto se-inganavam manifestamente os Pirronicos; que chegáram, ou fingîram de duvidar daquilo mesmo, que viam com toda a evidencia. Sobre isto da-evidencia, á diversos graos: se a propozisam é evidente sem prova, chama-se axioma: se em vigor das-provas se-faz evidente, chama-se ilasam, ou concluzam evidente. Tambem estas concluzoens evidentes, segundo as materias recebem diversos nomes: umas vezes dizemos, que tem evidencia metafizica; outras fizica; e outras moral; as quais sem muito trabalho se-intendem. Finalmente acham-se juizos duvidozos, verosimeis, e inverosimeis: cuja natureza se-intende, com a simplez explicasam, e um breve exemplo.

Estas sam as duas operasoens diferentes da-mente, Percesam, e Juizo. nem á alguma outra de diferente especie. Tudo o que a mente faz é, variar estas duas em diferentes maneiras: fazendo de muitas ideias, uma composta: e reconhecendo a conveniencia ou disconveniencia, de uma com outra: e pondo-as em ordem proporcionada, para se-conhecerem. Quando os Dialeticos dizem, que nestas trez afirmasoens.

Todo o omem é animal.

Pedro é omem.

Logo Pedro é animal.

a ultima propozisam é de diferente especie, das-primeiras; dizem uma coiza, que nam poderám nunca provar. O que eu acho é, que tanto a ultima, como as primeiras, sam juizos, com que o intendimento reconhece, a conveniencia de duas ideias. Se o estar em ultimo lugar, ou reconhecer esta, porque ja tenho reconhecido as outras, faz mudar de especie; serîa necesario admetir, outras muitas operasoens do-intendimento.

Isto suposto, a principal operasam livre da-mente, é o Raciocinio, ou Discurso. Consiste ele em que, dadas duas, ou trez, ou dez, ou vinte ideias, se a primeira convem à segunda; e esta à terceira; e esta à quarta &c. a primeira á-de convir à ultima. Desta sorte o intendimento corre da-primeira, para a segunda: desta, para a terceira &c. E ao juizo com que reconhece, a conveniencia da-primeira com a ultima; se-dá o nome, de raciocinasam, inferencia, concluzam, discurso, e alguns outros nomes: o que nam faz mudar a especie: pois na verdade é um juizo, com que eu afirmo esta coiza, porque tenho afirmado, as antecedentes. Onde pode a consequencia ser boa, e ser falsa, se uma das-premisas é falsa: e somente será verdadeira, se as premisas o-forem tambem. O que importa pois é, julgar primeiro bem, e nam se-inganar nas premisas: porque só asim é, que nam se-inganará na concluzam. Para fazer isto, é necesario notar, com infinita diligencia, as cauzas e ocazioens dos-nosos erros, para os-poder evitar.

A primeira ocaziam de ingano, sam as nosas mesmas ideias. Nós percebemos mal, e contudo queremos discorrer com seguransa: os nosos sentidos sam falazes, e suministram-nos frequentes ocazioens de ingano, em materia fizica. O notar estes erros, pedia uma longa disertasam. Basta notar, que nos-inganamos nas ideias de gravidade, levidade, aspereza, gosto, cheiro, e som &c. Cuidamos que estas coizas existem nos-objetos, quando na verdade nada mais sam, que modificasoens do-noso corpo, e espirito. As ideias que recebemos polos olhos, tem mais outra razam, para serem falsas: pois segundo a diversa figura dos-olhos, de diferentes pesoas, devem reprezentar os objetos ou majores, ou menores doque sam. E asim nam nos-devemos fiar sempre delas, para julgar.

A segunda cauza, sam as ideias que formamos: em virtude das-quais mil vezes nos-inganamos. Chamo aqui ideias, àquelas supozisoens que fazemos, para explicar os efeitos da-natureza. Uma vez que nos-ocorre, uma supozisam ou sistema, que nos-parece racionavel, sem demora alguma o-abrasamos como verdadeiro; sem advertir, que muitos sistemas diferentes, podem explicar provavelmente, a mesma coiza. Outra especie de ideias que fazemos, sam as abstrasoens: seguindo as quais, muitos julgam imprudentemente. Atribuimos a diversos efeitos, diversas cauzas: sem advertir, que a mesma cauza pode produzir diferentes, e às vezes incontrados efeitos. Daqui nacem, mil inganos na Fizica, v.g. as virtudes que atribuimos, a muitos medicamentos, que nunca sonháram telas.

A terceira cauza de ingano, sam as palavras, de que nos-servimos. Intendemos, que muitos termos significam o mesmo, quando na verdade nam sam sinonimos. As vozes servem, para explicar os pensamentos: e como nem todos intendem o mesmo, nem todos vem a explicar o mesmo. Das-sustancias inviziveis, nem todos sentîram o mesmo: temos o exemplo nestas vozes, Deus, Animus, Spiritus, Angelus &c. às quais alguns antigos unîram certas ideias, e outros unîram diferentes. O que intende um Deus, de figura umana: o que supoem, um Deus igneo: o que o-julga, de um corpo sutilisimo: o que o-cre espiritual: todos se-servem do-mesmo nome: o mesmo digo de outros nomes. Tambem os Omens se-diversificam, na ideia das-sustancias corporeas: uma ideia fórma o ignorante, do-Corpo: e outra mui diferente, o Filozofo. Tambem nas definisoens de Vicio, Virtude, Piedade, Santidade, Justisa, Obrigasam &c. se-diversificam muito os omens: de que a Istoria suministra, famozos exemplos. Os mesmos Dicionarios apontam vozes, a que nós oje damos um sentido; e antigamente tinham outro: v. g. Navis, Triremis &c. Onde quem nam distingue com cuidado isto, frequentemente se ingana, e discorre mal.

A quarta cauza dos-nosos inganos, sam os afetos do-animo; que produzem infinitos erros. Eles impedem-nos muitas vezes, examinar bem as materias, e por-consequencia, julgar bem. E muitas vezes fazem-nos amar, ou dezejar o duvidozo por-certo. Os que abrasáram de todo o seu corasam, uma doutrina; nam só nam se-cansam em examinar, as razoens contrarias; mas nem o-podem fazer, porque as-nam-vem. Acrecento a isto, que nem menos as-querem ver, aindaque lhas-oferesam: nem ainda outras obras indiferentes, que saiem damesma pena, in odium auctoris. Este justamente é o cazo que sucedeo neste Reino, a um Teologo meu conhecido, que tinha abrasado a Ciencia media. Introu em uma livraria, onde cazualmente abrio um livro, que tratava dos-prolegomenos da-Escritura: lidos alguns paragrafos, louvou muito a materia, e o metodo; e proguntou quem era o autor: e quando ouvio dizer, que era um Dominicano, fechou logo o livro, e nam dise mais palavra. Comque, será necesario despir-se, de todos os prejuizos; para intender as coizas bem, e poder discorrer com acerto.

Conhecidos os erros, é necesario evitalos, procurando a verdade. Para o-fazer, é precizo observar algum metodo. É pois o metodo aquela operasam do-intendimento, tam necesaria em todo o genero de Ciencias: e sem a qual nam se-pode discorrer bem. O discurso é aquele progreso, que o intendimento faz, de um conhecimento para outro: o metodo é o que prepara a materia, ao discurso. Desorteque a mente com o metodo dispoem as ideias, em boa ordem: e com o discurso reconhece a conveniencia delas. De duas sortes é o metodo. Dispomos as vezes os nosos conhecimentos, de uma tal maneira, que dividimos a coiza que queremos conhecer, nas suas partes: paraque asim as-posamos conhecer todas, e consequentemente o todo. Este metodo chama-se rezolutivo, ou analitico, que vale o mesmo. Emprega-se comumente, para reconhecer a verdade de muitas questoens, e para descobrir, e adquerir conhecimentos. A outra sorte de metodo é, quando devendo ensinar uma doutrina aos outros, detal-sorte dispomos, os nosos conhecimentos; que intendendo cada um deles, venha o dicipulo a conhecer, todo o corpo da-Ciencia, que se-compoem, daquelas particulares doutrinas. Este metodo chama-se compozitivo, ou sintetico, que sam sinonimos: ou tambem metodo de doutrina, ou didatico, ou didascalico: que vale o mesmo. E deste uzam comumente os bons mestres, quando ensinam alguma materia.

Para nam nos-inganarmos no-metodo, é necesario ter diante dos-olhos, que nós ignoramos a esencia, de todas as coizas. Onde ignoramos, a esencia da-Materia, do-Corpo, das-Fórmas, do-Espirito, e das-nosas mesmas ideias: é necesario antes de tudo, pór esta advertencia. Isto suposto, fazem-se questoens indisoluveis, a que nam podemos responder: que sam as que dependem, do-conhecimento da-esencia das-coizas: e destas nam falamos. Temos alem diso questoens soluveis, que se-dividem em trez especies: I. posto um atributo, progunta-se qual é o sugeito que lhe-compete. II. posto o sugeito, progunta-se qual atributo determinado lhe-compete. III. dado o atributo e sugeito, progunta-se se um compete a outro. Trez sam as fontes donde se-tiram, as solusoens de todas as questoens: Razam, Experiencia, e o Testemunho dos-autores.

As leis do-metodo Analitico sam estas. Intender os vocabulos: determinar as questoens: separar as partes delas: fugir de todo o genero de equivocos: fugir das-oscuridades: establecer termos comuns, e claros: intender os testemunhos e autoridades, em que se-funda. Alem diso, saber os requizitos que sam necesarios, para intrar em uma questam: v.g. para a Istoria, as Antiguidades, Cronologia, Geografia &c. para a Fizica, a noticia das-melhores experiencias &c. Ler o contexto, e ver as mais coizas que apontam os outros, para nam errar no-criterio. Ter prezentes os canones, que comumente se-asinam, para distinguir as obras supostas, das-verdadeiras.

O metodo Sintetico, ou metodo de mostrar a verdade, tem estas leis. Nam admetir voz sem a-explicar: nam mudar o significado das-vozes: nam concluir sem evidencia: nam inferir senam de principios provados. Quem observa estas regras, pode ter a consolasam, que tem boa Logica.

Tendo visto o modo, com que o estudante se-deve regular, no-metodo das-Ciencias; fica claro, como se-deve conter nas disputas publicas, tanto argumentando, como respondendo. Deve pois argumentar com razoens, e nam com palavras: fugindo de sofismas, como indignos de um Filozofo, que sinceramente ama a verdade. Se quizer servir-se do-silogismo para argumentar, pode fazèlo. Digo porem, que muitas vezes sem silogismo, exporá melhor as suas razoens: servindo-se de um metodo de dialogo curto, e claro.

No-que toca a responder, se o arguente se-servir de silogismos, com boas razoens, pode seguir o mesmo metodo: se pois ele comesar com o sofisma, é melhor reduzilo fóra da-Fórma, para lhe-ensinar a argumentar. Em todo o cazo nam se-deve deixar pasar propozisam oscura, que nam se-explique. Se V.P. obriga a explicar-se um sofista, e pòr em pratos limpos, o que quer dizer nesta, ou naquela propozisam; acabou-se o sofisma. Esta nam é ideia nova, de que se-devam admirar os Dialeticos: eles o-praticam todos os dias argumentando, e respondendo. Se o que distingue uma propozisam, uza de termos incognitos; ou se o que argumenta, se-serve de semelhantes propozisoens; verá V. P. que os mais advertidos Peripateticos, sam os primeiros a dizer-lhe, que explique a propozisam, ou distinsam. Julgo pois, que o mesmo deve fazer qualquer defendente, que tem a infelicidade, de ter um Dialetico por-arguente. Ponha-se o estudante neste primeiro principio, de nam deixar pasar palavras confuzas, como fazem os Geometras; e verá que se-acabam, todas as disputas: as quais comumente versam, sobre a diversa inteligencia dos-termos; e nam tem mais forsa, que aquela que lhe-dá, a dispozisam artificial do-silogismo. Desorteque reduzido a proza corrente, o que estava armado em silogismo, nam tem forsa alguma.

Tenho dado em breve a V.P. uma ideia da-Logica, que pode ser util neste mundo, para todos os empregos. Isto necesitava ser provado, com mais extensam; mas iso excede o metodo de uma carta. Do-que aponto, compreende V. P. muito bem, como se-deve dispor a Logica, para servir em todo o genero, de bom discurso. Digno é de admirasam, que aja quem intenda, que a Logica somente deve servir, para a Teologia: e que por-iso a-encham, de todos aqueles termos, que se-acham na Escolastica comua: e fasam uma Logica, que nam serve para coiza alguma. Como se os omens somente na Fizica, ou Teologia devesem discorrer bem; e nas outras coizas mal! Persuado-me, que importa igualmente discorrer bem, em todas as materias da-vida civil, que naquelas duas. A maior parte dos-Omens, nam seguem aquela profisam, mas outras diferentes, e nam menos utis à Republica; tanto nos-empregos altos, como baixos; e asim é necesario, que tenham regras, para se-regular em todos os seus empregos; quero dizer na politica publica, e privada, a que chamam vulgarmente Economia. Cuido, que a Logica que apontei a V. P. suministra meios proprios, para nam se-inganar em ideia alguma, quanto é posivel ao Omem evitar os inganos, nesta vida mortal: e que por-este principio se-deve preferir, a todas as outras. Toda a dificuldade oje consiste em determinar, qual destas modernas, (porque das-Peripateticas nenhuma se-deve ler) posa suministrar, as ideias que procuramos. Nisto direi a V. P. o meu parecer, no-qual tenho alguns companheiros: vem aser, que ainda até aqui nam tem aparecido alguma, que satisfasa inteiramente, ao que dezejamos. Tenho lido quazi todas as modernas impresas, algumas bem raras, e tambem algumas manuscritas: e achei que muitos copiáram-se fielmente. Dos-outros que podemos chamar autores, todos tem coizas boas, e deles se-pode tirar muito; mas nem tudo neles é bom: alem diso algum deles é só para omens consumados, e nam para rapazes: e sam mui difuzos. Onde para os principiantes, asento, que ainda nam apareceo, a Logica dezejada. E asim será necesario, servirse de alguma das-melhores, emendando-lhe os defeitos. Chegando eu aqui, veio vizitar-me o Senhor * * * e proguntando-lhe com confiansa de amigo, se sabia de alguma boa Logica; me respondeo, que o * * compoz ultimamente toda a Filozofia, por-um modo excelente, que ele tinha visto. Proguntei-lhe que me-explicáse, o metodo da-Logica: e despois de o-ouvir, e considerar, asento que se-uniforma muito, à minha opiniam: e pode ser que seja ainda mais claro, e mais util para os principiantes, que este que asima apontei. Comque tem V. P. a Logica que dezejava: sabe V. P. mui bem, de que pezo é o juizo deste amigo. Dise-me que vencidas certas dificuldades ** faz conta impremila. Deus o-permita. Isto é o que me-ocorre por-agora dizer a V. P. pedindo ao Senhor, o-conserve por-muitos anos.