NOTAS DE RODAPÉ:
[16] Patrio sermone tantum declaranda Rudimenta, Genera, Declinationes, Anomala, Præterita, Supina: ne simul & ligata & soluta oratione præcepta memoriter recitare cogantur. Quod etiam in Syntaxi, quando ea primum explicatur, observandum est.
[17] Veja-se a sua Gramatica da-edisam de Scavenio, na Prefasam.
[18] In Ver. act. 3.
[19] 2. Agrar.
[20] Terent. in Andria.
CARTA TERCEIRA.
SUMARIO.
Abuzos que se-introduzîram em Portugal, no-ensinar a lingua Latina. Mao modo que os mestres tem, para instruir a Mocidade. Propoem-se o metodo, que se-deve observar, para saber com fundamento, e facilidade o que é pura Latinidade. Necesidade da-Geografia, Cronologia, e Istoria, para poder intender os livros Latinos. Apontam-se os autores, de que os mestres se-devem servir na Latinidade: e como devem servir-se deles; e explicálos com utilidade: e as melhores edisoens. Aponta-se o modo de cultivar a Memoria, e exercitar o Latim nas escolas.
Meu amigo e senhor, Tardei em escrever a V.P. porque tive legitimas ocupasoens. Continuando pois o fio das-minhas reflexoens, da-Gramatica paso para a Latinidade: porque me-persuado, que este mesmo caminho deve seguir o estudante, que quer ter perfeita noticia, da-lingua Latina. Esta noticia certamente nam se-consegue, com a pura Gramatica: mas com a continua lisam de bons autores, e reflexam sobre as suas melhores obras. Aliud est grammatice, aliud latine loqui: advertio ja no-seu tempo Quintiliano. e com muita razam: porque a escrupuloza sugeisam às regras da-Gramatica impede, saber falar a lingua. A Gramatica é a porta, pola qual se-entra na Latinidade: e quem pára no-vestibulo, nam pode ver as singularidades do-Palacio. Quantos omens acha V. P. que, com terem sido mestres de Gramatica muitos anos, saibam pegar na pena, e escrever uma pagina em bom Latim? responder a uma carta com facilidade? e fazer qualquer outra coiza, em que seja necesario, uzar da-lingua Latina? Eu conheso infinitos sugeitos, que pasáram a sua vida neste exercicio, e quando ám-de escrever Latim, servem-se de expresoens em tudo barbaras, e indignas do-seu exercicio. Outros, aindaque tenham eleisam de palavras, nam se-despem dos-idiotismos da-sua lingua: que é o mesmo que falar Portuguez, com palavras Latinas. Uma vez que observam, aquela regencia gramatical que estudáram, parece-lhe que fazem a sua obrigasam. Os que se-querem apartar deste uzo, declinam para outro extremo viciozo, que é a afetasam: e nam buscam, senam palavras grandes e sonoras, sesquipedalia verba, com as quais atroem os ouvintes, ou leitores. E daqui entam nace, aquele estilo ridiculo, que tanto dominou nos-seculos da-ignorancia; e oje em Italia chamamos, estilo do-seculo XVI.
A estes ultimos chama o comum dos-Gramaticos, grandes Latinos. É um louvar a Deus, ver a prezunsam de uns, e a ignorancia de outros. Achei-me prezente em algumas orasoens Latinas, que se-recitáram sobre diversos asumtos; e nam podia asás admirar, a afetasam, e estilo dezigual, que reinava em toda a orasam. Despois diso, li muitas compozisoens, feitas por-eses mesmos: li muitas postilas de diversos leitores, que tinham pasado com louvor, por-aqueles bancos: e em tudo notei o mesmo defeito. E tudo isto provèm, de se-contentarem com a erudisam de quatro temas, que lhe-mandam compor: e de nam se-internarem na lisam dos-bons autores, e que escrevèram no-tempo da-mais pura Latinidade. É coiza imposivel, que um omem que tenha tomado o gosto, à verdadeira Latinidade, com facilidade o-perca. Ainda quando trata asumtos umildes, e argumentos em que è obrigado servir-se, de expresoens barbaras, v.g. na Filozofia, ou Teologia Peripatetica; ou ainda quando despreza o falar elegante; la mostra sempre, o conhecimento que posûe daquela lingua. Nos-seus escritos conhecem muito bem os omens inteligentes, o que ele podia fazer. caiem-lhe da-pena palavras proprias. um estilo facil e natural é o carater das-suas obras. Mostra a experiencia o que digo: e convem nisto os omens de alguma doutrina. Daqui vem, que os que querem fazer progreso na Latinidade, procuram logo um autor facil e elegante, como qualquer dos-que na minha ultima apontei; e desorte se-familiarizam com ele, que tomam e imitam a sua fraze, e modo de falar. Quem quer falar uma lingua, deve conversar com os omens que a-falam bem. ora os que oje falam bem Latim, sam eses quatro livros, que nos-deixou a Antiguidade: e com eles é necesario conversar tanto, que aprendamos o que se-pode aprender.
Pode tambem aver perigo, na lisam deses mesmos bons livros: e pode suceder, que com bons livros, se-saiba mal Latim: Digo isto, polo que tenho observado, em grande parte deste Reino. Omens á, que lem indiferentemente, todos os livros antigos; e pola vaidade de quererem saber tudo, nam sabem nada. Formam um estilo dezigual, que nam é de seculo algum: e com grande trabalho, nam conseguem o fim que queriam. Neste defeito, nam só caiem os pouco doutos; mas chegáram a cair, omens de grande doutrina. Erasmo, que foi um omem tam douto como V.P. sabe, é censurado neste ponto. A grande lisam que tinha, dos-antigos autores, e Padres, impedio-lhe formar um estilo determinado. Contudo iso, nam sei se achará V.P. muitos no-seu Reino, que escrevam como ele. O certo é, que Erasmo nam lia os Antigos por-vaidade, mas por-necesidade dos-seus estudos: mas estes de quem eu falo, nam se-livram deste pecado. Outros, furtam indiferentemente, de todos os autores que lem; para poderem encher as suas compozisoens: servido-se imprudentemente, destes livros de Fraseologia: sem advertirem, que sempre á-de ser capa de romendos: e que os diversos mantimentos primeiro se-ám-de digirir, para se-converterem em uma sustancia, que seja uniforme e simplez.
A outra razam que á, para que se-posam enganar, é a diversidade de estilo, e merecimento deses mesmos Antigos. Quanto ao estilo, é certo que os querem ser Istoricos, faram mal em ler as Filipicas de Cicero, as Comedias de Terencio, os Epigramas de Catúlo, e outras semelhantes compozisoens: porque nam conduzem ao seu fim; aindaque sejam escritas, no-seculo da-bela Latinidade. omesino digo das-outras proporcionadamente. Podem-se ler estes autores: mas cada um deve aplicar-se ao que é insigne, na materia que ele trata. Se bem ouso dizer, que Terencio serve-se das-expresoens, no-seu proprio significado: que Cezar falou melhor, que nenhum dos-Romanos: nem por-iso ei-de logo meter Cezar, e Terencio em toda a parte. para o conhecimento da-lingua, todos me-podem servir: nam asim para o exercicio particular, que eu quero. Quanto ao merecimento é certo, que nem todos os Antigos sam iguais. antes muitos que escrevèram no-seculo de Augusto, e em tempo de Tiberio, fizeram-no com tal negligencia, que mal tem lugar, na idade de prata da-lingua Latina: e sem injuria se-podem colocar, na idade de bronze.
Esta advertencia é mais necesaria em Portugal, que em outros Reinos: porque os mestres aqui, tem pouca noticia destas coizas. Nas escolas da-Latinidade, verá V.P. traduzir livros, de merecimento mui dezigual: e pasar de um para outro sem eleisam, nem advertencia, somente para encher tempo, e completar o ano. Na 3. e 4. em que os rapazes comesam a traduzir, explicam pola menhan, as Filipicas de Cicero &c. e de tarde, a Eneide, ou Ovidio de Trist. Na 2. e 3. pola menhan, Suetonio; de tarde Oracio. Mas eu vi mais: vi um mestre que explicava aos dicipulos, as Orasoens de Cicero, Marcial, e o Thesaurus Poeticus. E que coiza boa pode sair daqui? Nam ensinam aos estudantes, qual é o merecimento de cada autor, que lhe-mandam traduzir: e como pode o estudante advinhálo? Alem diso, aquilo de explicar no-mesmo tempo, proza, e verso, e isto a principiantes, nam pode menos, que produzir monstruozidades. O pobre estudante, com a memoria cheia de tam diferentes especies, nam pode distinguir o branco, do-negro: nem chegar a conhecer bem, qual é o estilo da-proza, e qual o do-verso. Muito pior ainda é, comesar por-tais livros: porque as Filipicas, e Eneide, nam é Latim para rapazes, mas para omens feitos. por-estes livros devem acabar o estudo, e nam principiálo. Tambem o Suetonio, nam é livro proprio da-Escola, porque nam escreve com a pureza dos-outros da-idade de oiro. era melhor Livio, Nepote &c. que, alem da-pureza de lingua, sam perfeitos modelos de eloquencia. Outros mandam traduzir lisoens do-Breviario, ou Concilio de Trento: dizendo que sam necesarias, para quem á-de seguir a Igreja. E isto tambem é uma solenisima loucura. Cada lisam do-Breviario é de seu autor, e de estilo diferente. Ainda das-que se-tiram da-Escritura, se-deve dizer o mesmo: umas sam oscuras, que sam as dos-livros profeticos; outras mais claras, que sam as dos-istoricos: e o Latim delas nam é bom, porque a fraze é barbara. E querer, que um estudante traduza isto, é querer, que nam saiba Latim. Tambem o Concilio nam é próprio, para dar boa doutrina: porque se-serve de um estilo Forense proprio de Roma, que nam é Latino. Se o-fazem para intender estes livros, é superfluo explicálos. Nam á omem nenhum tam decepado, que, se intende bem Latim, nam intenda as Bulas; aindaque nunca as-tenha lido. Estar o verbo vizinho ou distante, nam muda, ou dificulta o sentido, a quem le todo o periodo: e quem tem alguma pratica delas, intende-as maravilhozamente, aindaque seja mao Latino, como vi muitas vezes em Roma. O que suposto, é muito mao emprego, obrigar o estudante a traduzir Bulas, ou Constituisoens: e principalmente a traduzilas palavra por-palavra, como fazem estes mestres. O Ecleziastico, nam é necesario que traduza; basta que as-intenda. Antes é muito mal feito, obrigálos a traduzir asim: porque o tal Latim nam se-deve traduzir ad verbum, mas ad sensum. O que bastava que o mestre advertise, quando quizese dar-lhe alguma noticia diso: pois em tal cazo bastaria, que mandáse ler alguns periodos, e explicar o sentido. Isto basta: o mais é perder tempo.
Contudo iso sam poucos os que conhecem, que com isto se-perde o tempo: antes blazonam, quando procuram embrulhar os rapazes, com coizas oscuras. Achava-me eu em uma parte, em que certo M. de Filozofia, para examinar um rapaz, mandou-lhe traduzir aquelas palavras de S. Paulo ad Cor. Aemulor enim vos Dei æmulatione &c. que era o capitulo da-Ora, que estava rezando. O rapaz, que nam era mao estudante, traduzio literalmente: mas como nam fazia bom sentido, o mestre dito deu grandes rizadas, e fez escarneo do-rapaz. Eu calei-me por-prudencia: mas tive meus impetos de lhe-dizer, V.P. ri-se de um pobre rapaz, que nam é obrigado a saber, o sentido da-Escritura, nem os ebraismos, que se-acham na Vulgata: e eu apostarei, que V.P. é o primeiro que nam intende, o que nisto diz S. Paulo. Com efeito se eu apertava os negalhos, estava certo, que serîa mui mao interprete, da-dita Epistola. O certo é, que nam á maior parvoice, que mandar traduzir palavras oscuras: e que esta pedanteria se-devia desterrar de lugares, onde se-sabe falar. Alem disto, é obrigado o estudante, a compor varios periodos, a que chamam orasoens: repetir uma quantidade de regras Latinas, e Portuguezas: e se o pobre rapaz nam pode responder a tudo, em vez de lhe-aliviar o pezo, e mostrar-lhe a estrada, e animálo a proseguila; dam-lhe muita palmatoada; e obrigam-no a odiar, todo o genero de estudos. De que nace, aquela grande ignorancia, que se-observa nestes paizes.
Daqui fica claro, que com tal metodo, pouco se-pode saber de Latim. É lastima que os Profesores, nam cheguem a conhecer por-uma vez, o ridiculo deste costume. Todos os primeiros estudos naturalmente dezagradam, porque sam cansados: e paraque avemos enfastiar mais os pobres rapazes? Um omem consumado nos-estudos, quando estuda uma lingua estrangeira, v.g. Grego, Ebraico, ou Caldaico, nam pode menos que enfastiar-se, daqueles primeiros elementos. Tem grande dezejo de sabèla: conhece o metodo de aprender a dita lingua: reconhece a necesidade que tem dela, para intender as Escrituras Santas: contudo iso quando se-aplica a ela, mil vezes deita fóra os mesmos livros: e nam-se-acha com rezolusam, de tornar a servir-se deles. Falo pola experiencia propria, e pola de alguns amigos, que se-aplicáram às linguas estrangeiras. E nam acha V.P. que é uma crueldade, castigar rigorozamente um rapaz, porque nam intende logo a lingua Latina? que de si mesmo é dificultoza, e ainda o-parece mais, na confuzam comque lha-explicam. Isto é o mesmo, que meter um omem, em uma caza sem luz, e dar-lhe pancadas, porque nam acerta com a porta.
V. P. está em uma Universidade, onde é facil dezenganar-se com os seus olhos. Entre no-Colegio das-Artes, corra as escolas baixas; e verá as muitas palmatoadas, que se-mandam dar aos pobres principiantes. Penetre porem com a considerasam, o interior das-escolas: examine se o mestre lhe-ensina, o que deve ensinar: se lhe-facilita o caminho, para intendèla: se nam lhe-carrega a memoria, com coizas desnecesariisimas: e achará tudo o contrario. O que suposto, todo este pezo está fóra, da-esfera de um principiante. Ora nam á lei que obrigue um omem, a fazer mais do-que pode: e que castigue os defeitos, que se-nam-podem evitar. Nam nego, que deve aver castigo: mas deve ser proporcionado. Um estudante que impede, que os outros estudem: que faz rapaziadas pezadas &c. é justo que seja castigado: e, avendo reincidencia, que seja despedido. Serîa bom, que nesa sua Universidade, se-dese um rigorozo castigo, ainda de morte, aos que injustamente acometem os Novatos; e fazem outras insolencias. A brandura comque se-tem procedido neste particular, talvez foi cauza, do-que ao despois se-fez, e ainda se-faz. Nese particular serîa eu inexoravel: porque a paz publica, que o Principe promete, aos que concorrem para tais exercicios, pede-o asim: e em outros Reinos, executam-no com todo o rigor. Falo somente do-castigo que se dá, por-cauza de nam acertar com os estudos. a emulasam, a repreensam, e algum outro castigo deste genero faz mais, que os que se-praticam. É necesario ter muita paciencia com os rapazes, e ensinálos bem: nam seguindo a opiniam daquele Bispo de Vizeo D. Ricardo Rosel, que em um exame reprovou XVI. estudantes afio, porque pronunciáram Idolum, com a segunda breve. Isto só faz, quem nam conhece o que deve. Um omem pode ignorar, a quantidade de muitas silabas, e ser um grande Latino. Todos os dias se-oferecem duvidas na quantidade delas, aos omens doutos: principalmente naquelas palavras, que tem origem Grega: na qual lingua o O, e E sam de duas sortes, breves, e longos. Este rigor é censuravel. deve-se praticar outro estilo.
Acho ainda mais outro inconveniente, para saber Latim, praticado nas escolas: que é, compor muito naquela materia, que intendem mui pouco. Um pobre estudante ainda nam intende Latim, e ja lhe-dam varios temas, que sam certas orasoens vulgares, para traduzir na lingua Latina. ou dam a orasam Portugueza, com partes Latinas; ou uma sentensa Latina, para eles a-dilatarem, e provarem. Mas um e outro metodo, é um erro masicho. Que coiza boa á-de fazer um rapaz, que ainda nam sabe Latim? Dar as partes conrespondentes ao Portuguez, e obrigar o estudante, a que se-sirva delas em uma orasam longa; é o mesmo que querer, que ele siga os despropozitos do-seu mestre. Ainda quando o estudante acertáse com tudo, nam acertaria com os idiotismos, isto é, com os modos de falar, que sam proprios da-lingua Latina: e falaria Portuguez, com palavras Latinas. Pode-se permetir o dar as partes, em uma breve orasam; e isto a um rapaz que comesa: mas nam se-deve obrigar outro mais adiantado, a seguir tal metodo.
Devia o mestre ensinar ao dicipulo, compor bem uma orasam Portugueza breve, uma carta, um comprimento, ou coiza semelhante. Para isto tem o estudante, toda a facilidade posivel, porque o-faz em uma lingua que sabe; e na qual o mestre pode claramente mostrar-lhe os erros. Quando o estudante soubése fazer isto bem, entam lhe-aconselharia, que a-convertèse em Latim, deixando-lhe toda a liberdade da-compozisam. Emendados os erros de Gramatica, se os-ouvèse, emendaria os erros da-lingua: e lhe-mostraria, a diferensa que á, entre estas duas linguas: e a diversidade que aparece, entre escrever segundo as regras de Gramatica, e segundo o estilo da-boa Latinidade. Mas nisto procederia com advertencia. Primeiro, nam procuraria que escrevesem, senam em estilo familiar e facil. despois, segundo o adiantamento que tivesem, pasaria aos argumentes ou asumtos mais dificultozos; os quais explicaria muito bem. Desta sorte, acompanhando a tradusam com a compozisam, facilitaria muito o estudo, e conseguiria promtamente o intento.
Deste estilo rezultariam muitas utilidades. Primeiramente, sairiam os omens da-escola, nam só sabendo a lingua Latina, mas tambem a sua. É lastima, que omens que pasáram tantos anos, nas escolas pequenas, e grandes; omens que estam oje ensinando a outros, e ocupam cargos de Letras, e Politica; nam saibam escrever uma carta! Pois isto é coiza, que sucede todos os dias. Eu me lembro, que V.P. se-queixou ja disto: e me-dise, que achava muitos Religiozos, que tinham o mesmo defeito: e reconheceo comigo, que a origem destes danos era, a que aponto. Cometem-se mil erros de Gramatica, na propria lingua, e infinitos de Ortografia. Preparam-se muitos para escrever uma carta, como para fazer um ato publico. Procuram palavras bem dezuzadas, ou estrangeiras; e verbos que nam á no mundo. E com isto compoem uma carta, sumamente afetada, e de um estilo, que é mais declamatorio, que epistolar. Estes sam os que sabem mais: e os que sabem menos, pedem a estes, que lhas-componham. E tudo isto provèm, de nam terem uzo de compor na sua lingua: e de nam terem quem lhe-ensine, qual é o estilo de Carta, qual o de Orasam: e nam aver uma alma cristan, que lhe-persuada, que a afetasam deve-se evitar, em todos os generos de eloquencia, mas muito principalmente, no-estilo familiar.
A segunda utilidade é, sobre a inteligencia da-lingua Latina. Um rapaz que de sua cabesa escreve uma carta, ou comprimento, ou oferecimento Portuguez, com palavras proprias; ja sabe, o que á-de dizer em Latim: só lhe-falta, ter as palavras Latinas, para as-colocar. A isto pois deve suprir o mestre. Suponho, que lhe-tem ja ensinado a Gramatica: e tambem a traduzir de Latim, em Portuguez, para intender os termos: e supondo estes principios, facilmente o rapaz intenderá, quais sam as palavras, de que á-de uzar: ou ao menos será facil ao mestre, mostrar-lhas. Eu no principio seguiria esta regra. Comporia diante dele em Latim, parte da-dita carta, ou toda: e lhe-daria a razam do-que fazia: explicando-lhe, porque uzo daquele verbo, e nam de outro: porque uzo daquela fraze, mais doque outra. Capacitando-o, que a todas as palavras Portuguezas, nam pode conresponder uma Latina: mas é necesario uzar de perifraze, ou rodeio de palavras, para as-poder explicar. Este é o defeito que nós achamos, no-metodo de dar as partes: porque nam conrespondendo elas sempre umas a outras, por-forsa á-de sair uma embrulhada. Sabido tudo isto, darlheîa a incumbencia, de escrever a dita carta em Latim, sem lhe-mostrar, a que eu tinha composto: e pedirlheia a razam, de tudo o que tinha feito.
Alem disto, com este metodo aprende-se o que significa, escrever Latim com propriedade. Um mestre que se-contenta, com a Arte do-P.Alvares, e com a noticia do-Dicionario do-P.Bento Pereira, nam sabe distinguir entre muitos sinonimos, qual é o proprio, para o que quer explicar. Figuro um exemplo. Tenho necesidade de uzar, do-Verbo Pedir: para isto ocorrem logo mil Verbos: Postulo, Posco, Peto, Flagito, Efflagito, Oro, Rogo, Precor, Obsecro, e alguns outros. Quem sabe pouco, intende que sam rigorozos sinonimos; e nam tem dificuldade, de servir-de indiferentemente de todos: mas quem sabe mais, conhece que nem todos o-sam: porem que alguns daqueles Verbos, significam mais, ou menos. v.g. Postulo significa pedir aquilo, que se-me-deve: postulare jure. Flagito significa pedir com instancia, e injuriozamente. Efflagito pedir com grande instancia; e acrecenta sobre Flagito, alguma coiza. O mesmo dos-outros com sua proporsam. Do-que fica claro, que querendo eu explicar, que peso com instancia; direi muito mal: Vehementer postulo. cum clamore & magna instantia obsecro. basta que diga, Flagito. O mesmo digo, em diversas outras materias. Isto nam ensina o Alvares, nem o Pereira: mas isto deve ensinar o mestre, mostrando ao estudante, quais sam os vocabulos proprios, para explicar o que quer. Desta sorte acostuma-se o rapaz desde o principio, a servir-se de termos proprios, e frazes naturais à Lingua: E com isto insensivelmente toma o gosto da-boa Latinidade, e da-sua mesma lingua: e aprende as leis da-Tradusam, mui necesarias a quem á-de ler, e servir-se de autores estrangeiros.
Dirmeá V.P. que eu peso muito: e que isto nam é facil, praticálo nas escolas: porque nem todos os mestres, tem a erudisam que aponto; e nem todos os estudantes, sam capazes desa doutrina: E eu respondo, que nam á coiza mais facil de se-executar. Ponha-me V. P. nas escolas outra Arte: um bom Calepino dos-modernos, reduzidos à grandeza do-Dicionario do-P. Pereira; que tudo se-remedeia. Estas duas coizas sam sumamente necesarias. A Arte comua, ensina muita coiza má: e a Prozodia, tem muito erro. Nam distingue as idades dos-vocabulos: mas com uma simplez estrelinha quer, que nós suspeitemos mal, de tudo o que dezagradou ao corretor: o qual às vezes erra, como ouvi queixar os mesmos Jezuitas. Alem diso, desterra da-Latinidade muitos nomes, que sam Latinos; e introduz outros, puramente barbaros. Nam explica a forsa das-vozes: nem mostra com exemplos, os significados proprios, e figurados de cada palavra: alem de muitas outras coizas, que se-podem notar. E asim serîa necesario, compor um Dicionario pequeno para os rapazes; ou servir-se de algum estrangeiro. v.g. o de Danet, ou ainda melhor, o que ultimamente se-compoz em Turin, por-ordem d’El-Rei de Sardanha, para uzo das-escolas: que sam dois tomos in 4o. Italiano e Latim, Latim e Italiano: e traduzir as palavras Italianas em bom Portuguez. Establecido isto, conheso eu entre os doutisimos Jezuitas, mosos de toda a erudisam, e capacidade, proprios para executarem dignamente, este emprego. Comque, tire V.P. das-escolas, os que sabem pouco; e em seu lugar ponha estoutros: prescreva-lhe o metodo apontado: fasa com que o executem sem epikeas, (como fez ultimamente o dito Duque de Saboia aos seus suditos, determinando-lhe o metodo, de ensinar Latim, e Leis &c.) e verá, com que facilidade se-reformam as escolas. Todos os estudantes, asim como sam capazes de sofrerem, aquele mao metodo, com mais razam receberám outro, que seja mais claro e facil, e seguiloám com mais boa vontade. O dano desta era consiste em quererem, que um estudante, que sabe pouco, e a quem nam ensinam a saber mais, mostre que sabe muito; e, para o-mostrar, componha muito. Eu nam peso tanto. Suponho que tem ja, um bom ano de Gramatica, e que tem pasado parte do segundo ano, traduzindo de Latim em Portuguez: onde nam me parece que peso muito, se quero que no-resto do-ano, se-empreguem em compor Latim, polo metodo que asima digo. Este tal estudante nam è noviso, mas adiantado; e pode com fruto aplicar-se a este estudo. Falando-lhe em Portuguez, e compondo polo metodo que aponto; muda-se de sistema. Nas escolas comuas sabe-se pouco, quando os-obrigam a compor: v.g. na quarta, e terceira, em que comesam a traduzir de Latim, em Portuguez; nesa mesma clase, e no-mesmo tempo comesam a fazer tema. E isto nam pode produzir bom efeito. Mas neste sistema, quando se-compoem, ja o negocio está adiantado: e vai-se adiantando mais, com a dita compozisam.
Acha-se tambem outro inconveniente bem grande, nestas escolas, sobre isto da-compozisam; que é, obrigar os estudantes a fazerem, ou indireitarem versos rotos: e castigálos rigorozamente, se os-nam-fazem. desorteque ou sejam, ou nam aptos para a Poezia, todos ám-de fazer, o mesmo numero de versos. Mostra pouco intender de versos, quem pratîca isto: porque nam é facil, obrigar o entuziasmo a que venha, quando quer o mestre. Mas o que mais é para rir é, que fasam isto omens, que prezumem muito de ser Poetas, e matam gente com as suas poezias. Falando com alguns mestres neste particular, responderam-me que o-faziam, para que os estudantes tivesem alguma erudisam, dos-Poetas Latinos. Proguntei-lhe, que necesidade avia desa noticia: responderam-me: Que era necesaria, para a inteligencia da-lingua Latina. Poisque, continuei eu, quando V.V.P.P. intendesem bem Cicero, Cezar, Cornelio Nepote, Livio, Paterculo &c., e pudesem explicálos com facilidade, e escrever como eles; tinham medo de nam saber Latim; ou serîa necesario, recorrer a eses Poetas? Aqui nam souberam que responder mais, doque recorrer ao costume, das-Universidades da-Europa. Mas eu, que nam queria deixar fugir a preza, pedi-lhe, que me-provasem, que nesas Universidades, emque se-sabe ensinar, (avemos de concordar, que á algumas que seguem, o estilo de Portugal, aindaque mais moderado) explicavam os Poetas, só para intender a lingua: ou que obrigavam os estudantes, a que fizesem versos como eles. Aqui ficáram calados. E, na verdade, era dificil coiza, que quem nunca saîra de Portugal, ou nam tinha examinado com grande atensam, os estudos estrangeiros, discorrese fundadamente sobre eles.
Mas a verdade é, que nam á coiza mais contraria à boa razam, que esta pratica de fazer versos. Os omens nam tem capacidade igual; e nem todos sam capazes de tudo: antes às vezes acham-se mosos tam rudes, que dificultozamente podem intender o Latim. E como ám-de estes compor versos elegantes? Asentamos, que, para a inteligencia da-lingua Latina, é loucura, obrigar a fazer versos. O mais que podem fazer, e que eu nam reprovo, é, quando o estudante sabe bem a lingua Latina, mandar-lhe traduzir, alguns dos-Poetas antigos melhores, como Lucrecio, Virgilio, Ovidio, Oracio, Catûlo, e algum outro: mas raro; porque nisto se-compreende o melhor. E isto para mostrar, as frazes particulares dos-Poetas, e tambem o bom gosto da-lingua. sendo certo que alguns destes escrevèram, com purisima Latinidade, como Virgilio nas Georgicas, e Eglogas: Oracio nas Epistolas, e Satiras: Ovidio nas Epistolas às Damas ilustres.
Quanto ao Verso, é querer perder tempo, obrigar os omens a fazèlos: e serîa melhor, empregar aquele tempo, em coiza mais util. Ouveram omens doutisimos, e os-á prezentemente, que nam sabiam fazer versos. No-tempo de Cicero avia omens, que faziam versos, com grande facilidade, e insignes na dita profisam: e contudoiso estavam mui longe, do-merecimento de Cicero. Este grande omem nam ignorava, o como se-faziam os versos: e com efeito alguns fez, cujos fragmentos ainda oje existem: mas o seu talento, e a sua maior propensam era, para a Retorica. Nam que eu julgue, que os versos de Cicero sejam maos; como muitos ignorantes, e que querem falar do-que nam intendem, se-persuadem. Os versos de Cicero, principalmente os Fenomenos de Arato, sam tam elegantes e tam belos, como os de Lucrecio: nem eu acho diversidade sensivel entre uns, e outros: e igualmente admiro ambos, principalmente olhando para a materia, sobre que compuzeram. Pois se todos admiram em Lucrecio, explicar com tanta naturalidade, coizas tam dificultozas, conservando a elegancia, e o espirito de Poeta; o mesmo louvor, e polas mesmas razoens, compete a Cicero: o qual com a frequencia de ler, e emendar Lucrecio, tinha aquistado a mesma facilidade, e estilo. Para conhecer o que nisto podia Cicero, basta lelo nas partes, em que nam é violentado, pola esterilidade da-materia. Nam sei se se-podem achar na Antiguidade, versos mais armoniozos, que os que ainda oje lemos, do-livro segundo do-seu Consulado. Este bocado somente mostra bem, na minha estimasam, o que Cicero podia. Nem obsta, que Marcial, Juvenal, Quintiliano, zombasem de um certo verso de Cicero: isto, como nota bem o doutisimo Turnebo[21], nada prova. O que nam agradava a estes, agradava no-tempo de Augusto: e muitos omens grandes, (como advertio um grande critico daqueles tempos) estimavam mais os Antigos, que outros bem nomiados[22]. Se em muitas partes, Cicero nam se-asemelha a Virgilio, nem por-iso perde nada do-seu merecimento. Nem menos é semelhante Oracio nas suas Satiras, e Epistolas: nem em tudo Lucrecio; e com tudo sam famozos Poetas: e a naturalidade com que se-explicam, e acomodam o verso exametro, a tudo o que querem, é mais estimada, entre os criticos de bom gosto, doque a elevasam de Virgilio. O estilo daquele tempo pedia, grande naturalidade nas-compozisoens. E nam falta quem censure Virgilio, em ser tam elevado e artificiozo nos-versos: no-que alguma coiza se-desvia de Omero. Contudo ninguem nega, que, se na Eneide, e Georgica observou bem o decoro; e sustentou a dignidade do-argumento; nas Eglogas pecou muito, porque nam observa a simplicidade natural no-estilo pastoril: mas procura que falem os pastores, com toda a civilidade, e arrogancia de cidadoens: o que nam é verosimel. Mas, tornando a Cicero, ficaria prejudicada a Republica de tam grande talento, se, pola Poezia, deixáse a Oratoria. Conheceo aquele grande omem o seu talento: cultivou-o: e saio aquele oraculo, que entam venerou Roma, e oje admira o mundo. Esta, é uma grande lisam para os Modernos, consultar o talento; e nunca violentar a natureza. Onde neste particular, deve-se consultar, a inclinasam dos-rapazes: e avendo-a, explicar-lhe brevemente, as diferentes sortes de compozisoens metricas: nam os-ocupando senam em asumtos brevisimos: deixando-lhe toda a liberdade no-compor: mas emendando-os, e dando-lhe distintamente, a razam da-emenda.
Até aqui tenho falado a V.P. em alguns abuzos, das-escolas deste Reino, que impedem saber a lingua Latina. Agora falarei nos-requizitos, para a inteligencia da-dita lingua: a falta dos-quais, nam se-deve contar, entre os menores abuzos: e tambem apontarei o modo, comque se-deve regular, o estudo do Latim; e a eleisam de livros, para o-conseguir com brevidade. Parecerá um paradoxo, se eu diser a V.P. que, ainda observando tudo quanto asima digo, nam se-pode saber Latim, (nam digo com toda a perfeisam; porque uma lingua morta, nam se-chega a saber bem: mas sabèlo no-melhor modo posivel) sem alguma noticia da-Geografia, e Cronologia, e das-Antiguidades, em que entram os Costumes, a Fabula &c. e contudo, nam á coiza mais verdadeira doque esta. Eu nam quero sair do-livro mais uzual, que nas escolas se explica, que é Quinto Curcio. Nele ocorrem todos os momentos nomes, de Gentes, de Povos, Regioens, Cidades &c. fala-se de guerras entre Nasoens e Nasoens. E que conceito á-de formar do-escritor, aquele que o-explica, se ele nam sabe, se diz bem, ou mal? porque, ignorando a Geografia, nam sabe, nem chega a compreender, em que parte do-mundo, estejam as tais Gentes, se vizinhas, ou distantes. Como á-de o leitor intender, as conquistas de Alexandre, se ele nam sabe por-onde foi, que Nasoens venceo, que dificuldades superou? Alem diso, sucede muitas vezes, que ese escritor, que o estudante le, se-enganáse nos-lugares: e isto entam é erro sobre erro, que o leitor nam poderá decifrar. Nam è isto cazo metafizico, mas engano bem comum em muitos escritores. Q. Curcio enganou-se muitas vezes, por-ignorancia da Geografia: Plinio, e alguns outros: como admiravelmente mostra o douto Jozé Escaligero, nos-Prolegomenos de Manilio. O mesmo Manilio, Virgilio, Lucano, Floro erráram algumas vezes na Geografia, e podem cauzar o mesmo erro no-juizo, de quem for ignorante dela.
Dirmeá V. P. que este conhecimento, parece ser mais necesario, para nam se-enganar na leitura dos-autores, doque para intender a lingua: para a Critica, e nam para a Latinidade. Confeso, que para a Critica, é de indispensavel necesidade: mas o que digo é, que nam pode o estudante, intender com facilidade um autor, que trata a istoria de um conquistador, sem a noticia dos-paîzes de que fala: e nem menos o-poderá intender com gosto. Polo contrario, se é informado, aindaque superficialmente, desta noticia, percebe maravilhozamente o fato: facilita-se a inteligencia do-autor: e por-este meio a da-dita lingua. Um moso, que ignora totalmente a Geografia, toma limpamente um nome de Cidade, polo de um Reino, e polo de uma Pesoa: e outros destes enganos, que vam acompanhados, da-ignorancia da-lingua. Quem nam souber v.g. que Napoles, é nome de uma Cidade, e de um Reino juntamente; nam só confundirá os termos, mas tambem as coizas, que a ambas se-aplicam. E isto nam é somente dano da-Istoria, mas tambem impedimento, para a inteligencia da-lingua Latina. Acham-se alem diso muitas Cidades do-mesmo nome, em Regioens bem distantes. v. g. a antiga Geografia mostra-nos na Azia muitas, com o nome de Alexandria, de Seleucia, de Ecbatana, e bem longe umas de outras. O que quem nam sabe, persuade-se, que se-fala somente de uma: e nam intende a materia de que se-fala. E destes exemplos, de que abunda muito a Istoria antiga, se-colhe a necesidade da Geografia, ainda para a lingua. Serîa coiza ridicula, que um omem lese Q. Curcio, para intender as palavras, e nam para o sentido da-Istoria: ou que, sem a inteligencia desta, prezumise que poderia alcansar, a propriedade das-palavras. Muito mais sendo certo, que com o socorro da-Istoria, se-intendem muitas coizas, que sem ela é imposivel intender; e a inteligencia do-contexto abre a porta, para se-intenderem muitos nomes. É bem vulgar aquele lugar de Lucano,[23] em que, falando dos-Arabios, que sairam do-seu païz, diz = Umbras mirati nemorum non ire sinistras =: o que, sem Geografia, é imposivel intender. Virgilio diz lá em certa parte[24]: Gens inimica mihi Tyrrhenum navigat æquor =: Como se-pode saber sem Geografia, que coiza é aquele mar Tirreno? quem a-ignora, pode-o tomar polo mar Baltico, ou Etiopico, ou Pacifico. De que vimos a concluir, que, alem do-sentido istorico, a mesma propriedade das-palavras Latinas, nam se-alcansa em varias ocazioens, sem Geografia.
Parece-me pois, que uma breve noticia da-Geografia, deve ser o preludio, da-lisam dos-autores. A observasam das-principais Cidades, de que fala o autor, que se-á-de ler: das-viagens, que fizeram os conquistadores: os fins e limites dos-seus imperios: isto deve primeiro observar-se. Mas porque esta noticia serîa de-minuta, se a-nam-unisem com a noticia, da-Geografia de toda a terra; deve-se aprender esta noticia brevemente em um Mapamundo: ajuntando-lhe a noticia da-Esfera Armilar: das-divizoens do-Ceo, e da-Terra &c. O que com grande facilidade se-pode fazer: pois, como diz um omem douto, este estudo nam pede mais, doque olhos, e alguma memoria. Na Esfera Armilar conhece-se, a dispozisam do-Ceo, respetivamente à Terra: no-Globo, a dos-Reinos: e em uma carta particular, a da-Provincia, ou Reino de que se-trata. Advertindo, que quando se-falar em alguma Cidade, deve-se notar, de quais delas se-mudáram os nomes antigos, em alguns modernos. Acham-se cartas, que apontam os antigos nomes, das-Cidades da-Grecia, e Italia: e estas sam, as que principalmente se-deverám notar, para intender os escritores antigos, que faláram destas Regioens. Sophianus descreveo bem, a antiga Grecia: e Cluverius, a antiga Italia. E isto é precizo saber, comparando os nomes daquelas antigas Cidades, com os das-modernas; e procurando nas cartas modernas, os sitios das-antigas Cidades, muitas das-quais ja nam existem. Celario publicou um belisimo Compendio da-antiga Geografia, em 2. volumes de 4.o Tambem compuzeram Introdusoens Latinas Cluverio, principalmente para a antiga; e Luitz. Quem quizese maiores noticias deveria ler, o Petrus Bertius==Theatrum Geographiæ Veteris. fol. &c. e este mesmo autor compoz: Veteris Geographiæ Tabulæ. fol. &c. Este autor, que escreveo nos-principios do-seculo pasado, é famozo. Oje á muitos modernos que escrevèram bem, em Francez, ou Italiano. Duplessis, e Buffier escrevèram bons Compendios; que temos oje nas ditas duas linguas. Jacobo Ode fez tambem um belo compendio Latino: e é mais moderno. Os Senhores Sanson, e de l’Isle compuzeram cartas Geograficas, nam só de todas as partes do-mundo, mas especialmente, das-antigas divizoens do-Imperio Grego, e Romano &c. E isto é o que deve fazer o mestre, e ensinálo quando é necesario: porque desta sorte, acostumando os rapazes a buscar na carta, que deve ter na escola, a dita Cidade; imprime-se a Geografia na memoria, como quem brinca.
Em segundo lugar entra logo a Cronologia, que nam é menos necesaria, para intender os autores, e fugir os anacronismos, ou confuzam de tempos. Nam é necesario nestes principios entrar, nas disputas que á, sobre os principios dos-Reinos &c. isto é negocio, que pede grande estudo, e doutrina, e se-rezerva para outra idade. Basta apegar-se ao calculo mais recebido e comum, que poem a vinda de Cristo no-ano 4000. da-criasam do-Mundo: a que chamam o calculo de Usserius por-ser este autor, o que o explicou melhor. Aqui pois é necesario ler, em um breve compendio, a serie dos-tempos, desde o principio do-Mundo, até agora: notando os maiores sucesos, em que ano acontecèram: v.g. Diluvio de Noé, Vocasam de Abram, Saida dos-Ebreos do-Egito, Destruisam do-primeiro Templo de Jeruzalem, Vinda de Cristo, Paz da-Igreja &c. Especialmente deve notar o que emporta, para a inteligencia dos-autores, que quer explicar: e sempre que mudar de autor, deve notar, em que tempo escreveo, e de que tempo escreveo. para o que nam servem pouco, os Dicionarios Istoricos de Hofman, e Moreri &c.
Quanto aos Compendios de Istoria á tantos, que é superfluo, que eu aponte nenhum. Neste principio deve-se buscar, o mais breve. Por-iso me-parece, que o Petavio é mui longo. o Celario é bom, mas tambem nam é curto. Turselino, e alguns outros escrevem bem; mas em Latim. o Bossuet parece-me melhor para o principio; e acha-se em Italiano, ou Francez. Tambem o Valemont, no-primeiro tomo, traz uma carta Cronologica geral, que pode bastar para o intento. E como este volume está traduzido em Portuguez, parece-me, que por-ele deve ler o estudante: e o mestre pode servir-se, de quaisquer dos-apontados asima, que sam dos-melhores. Em quanto nam aparece alguma istoria Portugueza, proporcionada aos rapazes, que estudam nas escolas: aos quais basta dizer, o que é somente precizo, sem tantos rodeios: o que me dizem está atualmente fazendo, um omem douto meu conhecido.
É superfluo que eu mostre, a confuzam que nace, no juizo dos-pobres principiantes, por-falta de alguma noticia de Cronologia: e quanto podem errar, se derem credito a tudo, o que dizem os antigos escritores. Eles erráram em muitas partes, por-nam terem noticia dos-tempos: e para nós nam cairmos nos-mesmos erros, é que julgam todos os omens doutos, que sam necesarios, estes requizitos. Um omem que ouve falar em Alexandre Macedonio, e nam sabe, em que tempo ele floreceo; confundiloá com muita facilidade, com Alexandre Severo Imperador dos-Romanos. Filipe Macedonio, e Filipe Romano nam se-distinguem polo nome, mas polo diverso tempo em que florecèram. os dois Romanos tambem foram Reis de Macedonia: e a diversidade está, em que foram juntamente, Imperadores Romanos, e florecèram alguns seculos despois dos-primeiros. Esta confuzam se-aumenta, quando se-fala de omens do-mesmo nome, da-mesma Nasam, e talvez do-mesmo tempo. Ouveram alguns Marcos Catoens, Marcos Antonios, Marcos Brutos, Marcos Valerios, Marcos Ciceros, Apios Claudios &c. todos Romanos, e alguns contemporaneos. E quem nam distingue isto, nam pode formar conceito das-coizas. Isto suposto, alguma tintura de Cronologia é necesaria, para intender a Istoria, e, sem a inteligencia desta, nam se-pode intender o Latim, dos-que escrevèram nesta lingua.
Para facilitar este estudo é grande segredo, ter em caza uma carta Cronologica, de que se-tem feito algumas Latinas, em duas folhas grandes de papel. Acham-se umas tiradas das-obras do-P. Petavio, Latinas: estas, com a diferensa de poucos anos antes de Cristo, uniformam-se com as de Usserius. O Delfini fez umas em Roma, segundo a Cronologia do-Usserius, em 4 folhas grandes, que eu tenho, e sam boas. Lanceloti fez outras em Pariz, segundo a Vulgata, quero dizer, segundo o Usserius: e sam otimas, principalmente despois de Cristo. O P. Pedro de S.Catarina Religiozo Bernardo, fez outras em Fransa, seguindo o Usserius: sam boas, aindaque alguma coiza extensas. O Musanzio Jezuita Italiano fez umas, em quatro folhas grandes, se me-nam-engano, porque averá anos que as-vi; em que segue a Cronologia do-Labbé Jezuita, que poem a vinda de Cristo no-ano 4053. do-Mundo: mas nam sam más. Outro Jezuita, que é o P. Cassini, acrecentou-as por-ordem de Benedito XIII. O Sanson, e Perizonio &c. compendiáram tambem taboas boas. As do-Senhor Langloit sam otimas, mas cuido que nam sam para rapazes; porque unem os trez calculos Grego, Ebraico, Samaritano: o que carrega muito a memoria. O ponto está que o estudante abráse, uma Cronologia certa: e nam mude de cartas todos os dias; mas meta umas na memoria. Toda a diversidade está, antes da-vinda de Cristo: porque despois dele todos concordam, e é rarisima a disensam. Se algum curiozo traduzise, umas destas melhores taboas, em Portuguez, para uzo da-Mocidade, emendando-as em alguma parte, e acomodando-as à necesidade do-Reino; faria grande serviso à Republica. Eu comecei á tempos este trabalho, e tinha ideiado uma carta mui facil: mas impedido com outras ocupasoens, nam pude acabála. se V. P. tiver gosto, porlheei a ultima mam. Feito isto, deve-se ler um compendio de Istoria. Neste principio basta o Valemont, que já se-acha em Portuguez: e o mestre no-emtanto pode ler um compendio da-Istoria universal: v. g. o que fez o Cluverio em 4.o que é bom: e principalmente o que se-impremio em 1672. que é mais correto: E preparar-se para saber explicar, estas noticias aos dicipulos, quando falam na Cronologia. Mas disto falaremos em outra ocaziam.
Quanto pois às antiguidades Gregas, e Romanas, ou aos Uzos, e Costumes destas Nasoens; sam indispensaveis para perceber, os autores antigos. Um destes escritores nam escrevia para nós, mas para os seus: aos quais eram notorios os costumes, nam só publicos, mas tambem privados da-sua Nasam. onde aludindo aos ditos, nam se-cansa em os-explicar. Entam intendiam-no todos: mas oje nam. e é necesario para o-intender-mos, que procuremos esta noticia naqueles, que as-recolhèram. Um Istorico que na prezente era, contando as virtudes de um servo de Deus, disèse, que celebrava Misa todos os dias, tinha Extazis &c. como falava com gente, que o-intendia, nam tinha necesidade, de se-explicar. Se pudese suceder, que daqui a mil anos nam ouvese Misa, ou aquele livro caise em maons de outra Nasam, que nam tivese noticia de Misa; é certo, que nam intenderia, o que se-dizia; ainda que intendese a lingua: e serîa necesario, que primeiro intendèse, que coiza era Misa, e outros destes nomes; para dizer, que intendia bem a istoria, em que se-achavam estas expresoens.
Os antigos escritores em quazi todas as paginas, aludem aos seus costumes civis, e ecleziasticos. Falam de Flamines, Augures, Paterpatratos, Sacrificios, Apoteozes, Vestais &c. Encontram-se mil nomes pertencentes à guerra, Tribunus Militum, Tribunus Plebis, Centurio, Quinquagenarius, Decanus, Triarius, Primipilus &c. como tambem de machinas, e aparelhos belicos de muitas especies. A cada paso se-tropesa com o nome, de Consul, Proconsul, Prætor, Proprætor, Quæstor, Legatus, Edilis &c. cada emprego dos-quais tinha seu particular exercicio; sem a noticia do-qual, nam é posivel intender, a forsa da-expresam que o-significa. Quem nam sabe, que os Consules, que prezidiam aquele ano no-Senado, eram os mesmos aquem se-distribuîam as Provincias, onde se-fazia a guerra; e a quem se-entregava o governo do-exercito; nam poderá intender, como uma dignidade, que parece civil, se-introduza nas-materias militares. Quem nam sabe, que no-tempo dos-Consules, ouveram Tribunos Militares, os quais governáram a Republica em lugar dos-Consules, com imperio consular; e continuáram muitos anos com suas interrusoens; intenderá, que Tribunus Militaris nam era magistrado; mas valia o mesmo, que Tribunus Militum: que conrespondia aos Coroneis dos-nosos Regimentos. Quem nam tem lido, que no-mesmo ano se-elegiam muitos Consules, e Proconsules, ou muitos Tribunos Militares, para abrangerem a todas as necesidades da-Republica; justamente se-persuadirá, que, em se-falando de Consul, discorre-se damesma e unica pesoa. Quem nam souber, que os Pretores mandavam-se para as provincias pequenas, com imperio consular; intenderá, que se-fala somente do-Pretor Urbano, ou Peregrino, que administravam a justisa em Roma. Finalmente só os ignorantes, é que podem negar esta necesidade: os doutos todos a-reconhecem.
Nós nam temos Istoricos Latinos que escrevesem, os seus costumes patrios: sam os Gregos de quem recebemos, o que oje sabemos: porque como os Gregos escreviam, para os seus Gregos, aos quais nam eram notos, os estilos Romanos; tinham cuidado de lhe-advertir, tudo o que era necesario, para a inteligencia da-Istoria. Polibio deixou-nos uma particular descrisam, da-Diciplina militar, dos-Costumes domesticos, das-Leis publicas dos-Romanos. Dionizio de Halicarnasso, dos-Sacrificios, Magistrados, e toda a politica da-Religiam, e do-Estado. Plutarco tambem nos-ensina muita coiza. Mas como nem todos sam capazes, de lerem estes autores, por-iso será bom recorrer, aos Compendios. Joam Rossino fez uma boa colesam das-Antiguidades Romanas, em Latim: que oje se-acha acrecentada por-Dempsterus. Estima-se pola brevidade, a Republica Romana do-Cantelio: mas eu intendo que é melhor o Neuport=Rituum qui olim apud Romanos &c. Quem quizer maiores noticias pode-as ler, no-Corpus Antiquitatum Romanarum do-Grevio, em 12. tomos fol. que compreende todos, os que escrevèram nesta materia: e onde pode consultar-se alguma dificuldade, que ocorrer.
Tambem é bom, ter alguma noticia das-Religioens diversas dos-Antigos: e para isto pode servir, Alexander Sardi = de Moribus, & Ritibus Gentium. 12.o ou Joannes Bohemus Aubanus de eodem 16.o ou Van-Dalen = de Oraculis Ethnicorum. 4.o o mesmo de Idolatria 4.o obra moderna: ou o Barclai = Icon Animorum; para os costumes das-Nasoens: ou o P.Pomei = Pantheon Mythicum. Nam aponto outros livros, porque sam em linguas vulgares estrangeiras: aindaque estes, talvez sejam os melhores, porque expoem tudo com clareza, e brevidade. O mesmo digo da-Fabula, a que aludem todos os momentos, os Antigos. É necesario saber, esta mitologia dos-Antigos, para os-intender; e buscar autores que a-expliquem, sem a qual noticia, falarám muito, e nam saberám nada. Dos-Modernos é melhor, o Jovet = Istoria de todas as Religioens do-Mundo = 3. tomos de 4ᵒ que se-acha em Francez, ou Italiano.
Esta noticia é necesaria, senam aos rapazes, que se-divertem com outras coizas, ao menos aos mestres, que explicam os ditos autores: e, se a-nam-tiverem, por-forsa ám-de dizer muito des-propozito: e mostrarám ensinar, o que nam chegáram a intender. Ja sei, que chegando V.P. a este emportante ponto, me-proguntará, qual mestre conheso eu, que tenha toda esta erudisam: ou se me-persuado, que um rapaz, que saie das-escolas, e que nam tem no-corpo mais, que quatro anos de Filozofia, asim ou asado, quando entra a ensinar nas escolas baixas; seja capaz desta doutrina tam necesaria, para fazer bem a sua obrigasam? A isto respondo, que quanto à capacidade, ninguem lha-pode negar: pois este pezo nam é maior, que as suas forsas. Bastaria que o-obrigasem, e ensinasem a estudar isto que digo, mostrando-lhe a necesidade que á de o-intender, para poder fazer a sua obrigasam; que ele faria tudo, o que era necesario. E se acazo introduzisem, este metodo nas escolas, e o-protegese quem pode fazèlo, continuarseîa, damesma sorte que se-conserva, o metodo ordinario. Reconheso, que serîa alguma coiza dificultozo, persuadir a muitos omens mosos, que, aindaque ensinem o Latim, nam só tem pouca noticia dele, mas nem menos tem noticia, do-que é necesario, para o-saber: o que serîa facil provar-lhe, fazendo-lhe uma exata lista dos-requizitos; e proguntando-lhe, se os-posuiam. Mas emfim tudo se-vence, tratando-se com pesoas de juizo, piedade, e docilidade: e as razoens que apontamos, poderiam obrar muito, se tivesem a paciencia, de as-quererem ler, e intender.
Suponho pois que o estudante, tem alguma noticia, do-que asima apontamos, ou que polo menos a-tem o mestre, que seja capaz de lhe-explicar em poucas palavras; e apontar-lhe os livros, onde se-podem beber estas noticias: (as quais podem-se ir aprendendo no-mesmo tempo, que se-explicam os autores, explicando uma ora cada menham, alguma parte delas) Apontarei agora o modo, com que se-deve regular, no-estudo da-Latinidade. Em primeiro lugar, deve somente procurar de saber, a propriedade dos-vocabulos: para o que deve buscar autores, que falasem mui naturalmente, e com estilo familiar. Para isto nam á melhores autores que Plauto, e Terencio: porque ainda-que em alguns lugares sejam, ou paresam oscuros; falam porem com estilo familiar, e com fraze naturalisima, e longe de ornamentos: que é toda a dificuldade na inteligencia da-lingua. Certamente Terencio é um autor, que nam tem preso, pola pureza da-lingua: e tambem é certo, que estes Comicos parecem mais Prozadores, que Poetas. Onde nam poso asás rir-me, quando ouso a alguns mestres responder, que Terencio nam é para rapazes, porque é oscuro. Os que asim falam, nam leram Terencio, nem sabem Latim. Proguntára-lhe eu, se é mais oscuro Terencio, que Oracio: ou se prezumem eles, que este, e Virgilio sejam mais claros, e proprios para rapazes, doque um Comico. Se bem considerasem estes, quanto é necesario para dizer, que intendem Oracio, e a Eneide; certamente julgariam diferentemente. Mas com estes omens nam falamos. O certo é, que Cicero julgou,[25] que a poezia Comica, nam se-distinguia da-Proza, senam em ser escrita como verso: mas nam na dificuldade. e tambem ninguem duvîda, que a Proza é mais facil, que qualquer Poema.
Em todo o cazo devem-se ler estes autores, com os Comentarios: e o mestre deve suprir com a explicasam; nam traduzindo muito; mas ese pouco com tal clareza, que nam fique dificuldade alguma ao rapaz. Quem nam souber explicar bem Terencio, pode contentar-se com Fedro. Este autor tratou argumentos simplezes, que sam certas fabulas, com uma disam pura e natural: e, aindaque Poeta, parece Prozador; e para principiantes é famozo. É estimada a edisam, que o douto Gronovio nos-deu, de Plauto. Sobre Terencio muitos tem escrito, mas nem todos bem. Com razam se-dise, que Farnabio, e-Minelio, afetando brevidade, deixáram mil coizas emportantes. Madame le Fevre publicou a mais bela tradusam, e notas sobre Terencio, que até o seu tempo tinha aparecido: mas é em Francez, lingua que nem todos intendem: como tambem Monsieur le Fevre seu Pai, tinha ilustrado eruditamente Fedro. No-estado prezente servirmeîa da-edisam de qualquer deles, ad usum Delphini, &c. que parece ser a mais toleravel, das-modernas.
Estes primeiros autores nam se-devem ler correndo, como muitos fazem; mas devem-se ler, e reler atentisimamente. v.g. lendo Fedro deve o mestre, nam deixar de explicar coiza alguma, que seja necesaria, para intender a lingua. Onde deve notar e explicar, todas as dificuldades de Sintaxe: porque aindaque na Gramatica se-expliquem, somente lendo os autores se-intendem bem. E terá cuidado, de reduzir a construisam embarasada e figurada, ao modo de falar natural: explicando a Figura, em que se-funda. Despois, notará a propriedade das-palavras. E quando encontrar algumas, que paresam sinonimas, deve ensinar, se verdadeiramente o-sam, ou que coiza acrecentam. Em terceiro lugar deve ensinar-lhe, a pronunciar bem o Latim: que é o que comumente nam sabem em Portugal: pois ainda os mesmos mestres, pronunciam as palavras corrutamente. v. g. Em Omnis nam proferem o m: os tt finais pronunciam como dd: o m final pronunciam como n: e entre e, e a sempre pronunciam superfluamente um i. v. g. Meam, Deam &c. os ss finais como x. O que sem duvida é grande defeito da-pronuncia: deixando por-agora outros erros, que se-podem notar. Alem diso oferecendo-se-lhe algum termo, do-Latim antigo, deve ensinar, o modo antigo de pronunciar. v.g. Maxumus, Militiai &c. Estas noticias dam muita erudisam, a quem estuda o Latim: e como muitos nam fazem cazo delas, por-iso ignoram, o que é Latim, e todos os momentos encontram, dificuldades novas. Isto que digo de Fedro, deve-se intender de qualquer outro autor: Mas isto é o que muitos nam intendem: antes querem ler muito, intendendo poco; doque saber bem a lingua, com um só livro. De que vem, que a Mocidade nam aprende nada, com o seu metodo: pasam-se os anos nas escolas baixas, que se-deviam empregar, em coizas mais utis: pois na verdade quem nam reflete, como deve, no-que le, tanto emporta que leia Cicero, como os atos de Maria Parda.
O que emporta muito no-principio é, nam dar aos rapazes livros, que tenham periodos longos: mas breves, e com fraze natural. Por-esta razam alguns Italianos doutos, e despois deles os Francezes, aconselham, que no-principio devem-se fugir, as istorias difuzas, os Oradores, e coizas semelhantes: especialmente os Poetas Eroicos &c. e que é melhor, tirar de Cicero, e outros autores elegantes e claros; tirar, digo, alguns paragrafos melhores: indireitar as frazes, e transpozisoens dos-Verbos: e polas na ordem natural. Sendo breves, e elegantes, podem os rapazes intendè-las, e tirar daî grande utilidade. A experiencia mostrou-me, que diziam bem: pois vendo eu, que alguns rapazes nam intendiam, os discursos compridos, e as figuras da-orasam; feita esta experiencia, intendèram tudo facilmente.
Mas isto que a estes aconselho, acha-se feito ja por-omens doutos: os quais escolhèram entre os autores, as coizas mais facis, e melhores, e reduziram-nas a capitulos diferentes: v. g. às quatro virtudes principais: para que os rapazes, nam só aprendam a lingua, mas tambem o moral das-asoens. A maior parte sam de Cicero: mas tambem se-acham de outros autores. Sam trez livrinhos pequeninos, impresos em Pariz: e tambem se imprimîram em Italia na Cidade de Pezaro, em 1740. Estes livros valem um mundo, e tem aproveitado a infinitas pesoas: e quem ajudáse com eles os seus dicipulos, conheceria a verdade do-que dizemos. E por-esta mesma razam digo, que a leitura dos-Comicos, é infinitamente util aos rapazes: v. g. a de Terencio. todos os periodos sam breves: rarisima vez se-acha transpozisam mui oscura: e os modos de falar, sam tirados do-estilo comum: motivo polo qual, sem trabalho se-intendem. Plauto tambem serîa bom: mas como tem bastantes palavras antigas, ou escritas no-antigo modo, nam é tam proprio, para principiantes. Oracio nam o-aconselho: nem outros semelhantes, que pedem maior erudisam. Em lugar de Oracio nestes principios, aconselharia Catúlo, que é nam só purisimo Latinista, mas mui natural, e com infinitas grasas. Devem-se separar, os poemas impudicos, e explicar os outros, com todo o cuidado, e diligencia.
Mas, supondo que o mestre, nam tem os ditos livros, direi o que deve fazer, despois da-leitura de Fedro, e Terencio. Deverá pois explicar em outra clase, as cartas de Cicero, a que chamam Familiares, com os comentários de Manucio, ou ad usum Delphini, que sam otimas: nam todas juntas, mas saltiadas. Onde deverá preferir, as que escreve a sua molher Terencia, e a seu liberto Tiro: como tambem as de recemendasam. Estas sam as mais naturais, breves, e claras: desorteque nam enfadam o estudante: porque sam compostas naquele estilo familiar, que todos intendem. Vi nam á muito tempo uma pequena colesam, destas mais facis epistolas de Cicero, cuido que impresas em Padova; que eram otimas, para estes principios. Despois, na mesma clase pode ler, os Istoricos mais facis: como sam Caio Cezar, Cornelio Nepote, Veleio Paterculo. Estes trez escrevèram no-seculo da-mais pura Latinidade, e sam incomparaveis: principalmente os dois primeiros, que sam sumamente naturais, e claros. Mas estes autores nam se-devem ler seguidos: sim interrompidos, e tirando deles os lugares mais singulares. Se o estudante, tiver feito aproveitamento no-Terencio, e tiver ja lido alguns extratos, reduzidos à ordem natural; basta explicar-lhe estes autores, sem mudar a ordem das-palavras: paraque pouco a pouco das-coizas facis, vá intrando nas dificultozas. E terá o mestre a advertencia, de nam obrigar sempre os rapazes, a que traduzam de repente: mas em dias alternados. E comumente deve ordenar-lhe, que escrevam em caza a sua tradusam: e quando vierem à escola, fará que dem a razam, de tudo o que traduzîram. Este modo de ensinar, aproveita muito, e imprime as coizas na memoria. polo contrario o metodo comum, de dizer de cór, é falar como papagaio, e exposto a mil enganos. Onde deverá o mestre cuidar muito, em que escrevam as suas tradusoens; pois com o tempo serve isto, para ensinar a traduzir bem: que é o que muitos nam sabem.
Quando o estudante chega a este estado, pode-lhe ordenar, que componha alguma coiza: mas sempre asumtos breves: pola maior parte tirados das-obras, que traduz: o que pode fazer trez vezes na semana. Eu comecaria polas cartas: que é um modo de compor facil. Uma ou duas vezes darlheîa as partes: tendo cuidado de escrever primeiro, uma carta Portugueza pequena, e com ordem natural. Ou traduzir uma pequena de Cicero, que serîa o mais acertado: obrigando-os a que compuzesem outra semelhante, sem porem se-servir em tudo, das-mesmas palavras, e fraze. Despois, daria outra carta facil, sem partes: obrigando-o a que as-buscáse: e ensinando-lhe o modo. Em 3.o lugar daria uma carta mais elegante, sem a ordem natural: porque se acazo se-acostumam, a escrever o Latim conrespondente ao Vulgar, nunca saberám fazer outra coiza. Despois diso, pasaria a outro asumto mais dificultozo, e sempre breve. v.g. a discrisam, ou carater, de uma pesoa determinada: no-que é singular Velleio Paterculo. ou obrigalosîa a referir, algum pequeno suceso: dando-lhe primeiro o Portuguez; e deixando-lhe a incumbencia, de pòr o Latim. Isto é quanto pode fazer um rapaz, no-dito tempo: e se o-chega a fazer, nam faz pouco. Com o tempo, e quando for lendo outros autores mais dificultozos, é que lhe-podem dar outros asumtos: porque o rapaz, em quanto estiver na Latinidade, deve fazer duas coizas, compor, e traduzir. Deve porem o mestre fugir, de lhe-dar pensamentos e sentensas oscuras, por-tema; porque as-nam-intendem: e neste tempo nada mais se-procura, que ensinar-lhe que coiza é, pura Latinidade. Quando o mestre ler as compozisoens, deve emendálas, e dar-lhe a razam, de tudo o que faz. Ao principio somente cuidar, na propriedade: com o tempo ensinar-lhe tambem, o que é elegancia, e particular idiotismo da-lingua Latina: mostrando-lhe como se-deve traduzir, tanto de Latim em Portuguez, como de Portuguez em Latim. Serîa bom que o mestre algumas vezes, traduzise ele mesmo, algum paso de Cicero &c. e o-propuzese ao estudante por-tema: nam lhe-deixando ver o original, senam despois de feita a compozisam: paraque asim reconhecese o moso a diversidade, entre o que tinha feito, e devia fazer. Mas isto somente se-pode fazer, nas clases altas, e quando ja o rapaz tem noticia bastante, da-Latinidade: porque desta sorte, é que se-aprende, qual é o estilo dos-bons autores.
Pode, despois dos-ditos autores, explicar os Istoricos mais dificultozos: que sam Tito Livio, Salustio, ou tambem Quinto Curcio. O qual Curcio, aindaque se-suponha ter escrito, no-reinado de Vespaziano, que era a idade de prata; ou, como diz Scioppio, o principio da-idade de bronze da-lingua Latina; contudo, é escrito com a mais pura Latinidade do-seculo de Augusto: e o estilo é belisimo. Livio é mais copiozo, e magestozo, e digno da-grandeza do-Imperio Romano. Quanto a Salustio, convem todos, que as suas frequentes Ellipsis, e o demaziado laconismo, fazem-no duro, e oscuro: mas é escritor de sumo pezo, e singular eloquencia. Nam me-parece porem, proprio para rapazes, polas muitas e mui fortes metaforas, e bastante oscuridade. Onde o meu parecer serîa, que dos-dois primeiros, se-tirasem alguns lugares escolhidos, para se-explicarem aos principiantes. Na mesma ultima clase podem-se explicar, alguns extratos das-orasoens de Cicero, principalmente das-mais facis, que sam: Pro Archia Poeta: Pro lege Manilia: Pro Marcello: e as Catilinarias. Mas obrigar um rapaz, a que as-vá traduzindo seguidamente, e inteiramente, como costumam muitos, é intender mal o negocio. Nenhum omem pode ler com gosto, uma inteira orasam de Cicero, se nam é um grande Latino, e Retorico: e á orasoens de Cicero tam longas, v.g. as Verrinas, que ainda um omem douto, nam as-le, sem se-cansar. Ler uma pagina oje, e no-seguinte dia outra; é ainda pior: porque se-perde o sentido, e nam se-intende o que se-explica: de que nace o enfado, nam só nos-rapazes, mas nos-grandes. Onde o melhor é, procurar alguns pasos breves, e escolhidos: uma descrisam: um inteiro argumento: um inteiro periodo do-exordio. O mesmo digo, daqueles que explicam, o Somnium Scipionis, o livro de Senectute, Amicitia, &c. quem faz isto, nam intende o que faz. Os ditos livros nam se-podem intender, sem saber a istoria: da-antiga Filozofia: o que nam deve, nem pode um rapaz. Eu, tendo lido algumas vezes Cicero inteiramente, só o-cheguei a intender, (se é que o-intendo) quando li em Laercio, e Plutarco, a istoria das-setas dos-Filozofos. Os que introduziram o estilo comum, e que achamos no-livro a que chamam, Selecta, certamente ou nam refletîram, ou nam intendiam isto: porque dam aos rapazes, livros muito diferentes, e que só sam para omens adiantados. Salustio nam é para rapazes. Ouvîram dizer, que os livros pequenos de Cicero, eram perfeitisimos no-seu genero; e sem mais reflexam os-traduzem. Mas polo mesmo principio deviam explicar, os livros de Oratore ad Q. Fratrem: Orator ad M. Brutum: e os trez de Officiis: que sam a melhor coiza que ele fez, neste genero. Acho porem outras razoens, que se-devem atender, quando se-fala com principiantes.
Quando o rapaz traduz estes autores mais dificultozos, com a mesma ordem que se-acha neles, entam é precizo, que escreva a sua tradusam. A razam é, porque estes autores uzam de muitas transpozisoens, frazes, e figuras, as quais nem sempre se-podem traduzir literalmente: e asim querer que um rapaz, de repente ache o verbo, ou perifraze propria, é loucura: e vale o mesmo que ignorar, que coiza seja tradusam. Os mestres ao seu bofete, muitas vezes nam acham, a palavra propria, para a boa tradusam: como mostra bem o famozo Monsieur Huet, no-seu livro==de Claris Interpretibus==: em que, aponta os defeitos, em que caîram os omens grandes: E se isto sucede aos doutos; como é posivel, que o-fasa derepente um principiante? O que suposto, deve o mestre dar-lhe tempo, para escrever em caza a sua tradusam: ou ao menos na escola. E despois ensinar-lhe, como se-deve traduzir bem de Latim em Portuguez: porque intendido isto bem, conhece-se como se-devem converter as mesmas frazes Portuguezas, em outras Latinas: ao que chamamos, boa Latinidade. Por-esta razam digo, que o que fez aquele livro, a que chamam, Pai Velho; que poem a tradusam de Virgilio, ou o que quer que é, palavra por-palavra; merecia ser asoitado polas ruas publicas: e tambem os mestres, que se-servem dele: e o livro, queimado em prasa publica. Nam á coiza mais prejudicial para a Mocidade, que semelhantes livros: pois mostrando ensinar a traduzir, sam a cauza, de que se-nam-saiba. O pior é, que os mestres praticam o mesmo, que diz o livro, nas suas tradusoens. Cujo metodo é tal, que ou os rapazes estejam dez, ou vinte anos nas escolas, nunca intenderám Latim: como na-verdade sucede: pois traduzindo todos Virgilio, nenhum o-intende. Achei-me em certa parte, emque um celebre mestre traduzia, o principio do-quarto livro da-Eneida: At Regina gravi jamdudum saucia curæ &c. palavra por-palavra: e tam pago de si mesmo, como se fose, o melhor interprete do-mundo. Dise eu a um-discipulo, que escrevese a tradusam do-seu mestre, e despois lha-mostráse, proguntando-lhe, se era boa aquela tradusam. Asim o fez: e o mestre, cuidando que era coiza do-dicipulo, foi o primeiro que dise, que nam prestava para nada. Pois esta, replicou o discipulo, é a que V.P. ontem dise. Envergonhado o mestre, quiz saber, quem lhe-dera o conselho, e respondeo: Que uma coiza era, compor na banca, e outra, explicar na escola. Que parvoice! esta propozisam vale o mesmo que dizer: Que na banca se-deve compor bem: e na escola explicar mal. A falar a verdade quem explica a rapazes o dito livro, ou coiza semelhante, sabe mui pouco: porque pola maior parte aquelas palavras, nam se-devem tomar no-proprio sentido, mas metaforicamente: e explicálas segundo o sentido do-Poeta. E por-este motivo torno a dizer, que os Poetas, principalmente Eroicos, nam sam para rapazes, que estudam Latim. Confeso a V.P. que ainda nam ouvi um mestre, que na escola disese: Esta palavra, nam se-pode traduzir bem: é necesario explicála asim. mas todos seguem o comum estilo, que é muito mao. Onde a minha regra geral é esta: Quando ouso um mestre, que, explicando livros eloquentes, traduz asim: Petrus Pedro: Amat, ama: Joannem, a Joam: sem mais outro exame asento, que nam sabe Latim. Deve o mestre praticar outro estilo, se quer que aproveite aos estudantes: e o melhor é, o que aponto. Isto basta por-agora, sobre a tradusam.
Quando digo, que se-devem ler estes livros, nam quero dizer, que se-leiam todos: mas um, ou outro dos-que aponto; que sam os melhores, e mais proporcionados ao noso cazo. Mas tambem é certo, que, lendo-os como digo, quazi se-podem ler todos. O principal ponto está, em seguir a ordem que insinuo: porque sem ela, nacerá confuzam e impedimento, como todos os dias observamos no-metodo vulgar: sendo certo, que primeiro se-devem ler, os que faláram a lingua naturalmente, doque os que abundam muito de metaforas, e mil outros ornamentos dificultozos. Mas nem menos isto basta, se o mestre nam explicar o que deve. Onde o ponto de toda a consideram consiste, no-modo da-explicasam. Quando pois o estudante estiver adiantado, deve o mestre, alem das-coizas que asima apontei, explicar outras. v.g. a sintaxe dificultoza: a forsa das-palavras: o modo de pronunciar antigo: e notar outras coizas, que se-encontrarem. Porque os rapazes das-escolas maiores devem saber, nam só o que é Latim puro, mas tambem as outras particularidades, que constituem a elegancia. Acham-se autores, que se-servem de palavras Latinas, e contudo nam tem aquela particular grasa, a que chamam os inteligentes, boa Latinidade. Consiste esta às vezes, em uma fraze inteira: tambem em um diminutivo, ou frequentativo &c. coizas que dam infinita grasa ao estilo Latino; e frequentemente se-acham, nos-melhores autores Latinos, como Terencio, Cicero &c. Onde, este deve ser o cuidado do-mestre: mostrálas quando ocorrem: e notar a particular grasa que tem, naquele lugar. Deve tambem notar o modo, com que os bons autores comesam, ou acabam o discurso, ou os unem entre si, quando compoem uma orasam inteira. Esta uniam consiste às vezes, em uma conjunsam: às vezes, em outra particula. E este é o particular estilo da-boa Latinidade: que necesariamente se-deve ensinar aos rapazes, paraque o-executem, quando compoem. Alem disto, quando encontrar alguma expresam oscura, ou porque é fundada em uma fabula, ou coiza semelhante, deve explicála. Desta sorte se-intenderám os autores, e se-poderá tirar proveito da-sua leitura. E isto é o que um mestre douto faz, com muito gosto, porque conhece a utilidade, que daqui rezulta: e só entam pode repreender com justisa os rapazes, quando da-sua parte faz tudo o que deve, para os-ensinar.
Mas antes de concluir isto, quero dizer alguma coiza, sobre as edisoens deses mesmos autores, que tambem é noticia util. Em todo o cazo devem-se procurar, as melhores edisoens destas obras, as mais corretas, e com boas notas. Todos os livros comentados ad usum Delphini, aindaque uns sejam melhores que outros, comumente, e principalmente para o noso cazo, sam bons. mas devem ser da-edisam de Pariz, ou de Olanda: porque as de Italia modernas, nam prestam para nada. Emporta muito ter o texto correto, para se-nam-enganar, neste particular. Os Olandezes sam famozos. As edisoens de Grevio, e Gronovio, e outros omens doutos, aindaque nam tenham notas, (mas quazi todas as-tem) sam corretisimas. a edisam de Cicero por-Verburgio, cum notis variorum, em Olanda é exatisima. Em Inglaterra tambem fizeram algumas boas: e a imprensa de Inglaterra, e Pariz é mais negra, que a de Olanda: e por-iso agrada mais. Isto que digo das-edisoens, se-intenda, nam só dos-Prozadores, mas dos-Poetas. O que porem encomendo muito ao estudante é, que, nestes principios, se quer saber Latim, leia poucos livros: mas eses que escolher, leia-os tantas vezes, e com tanta atensam, como se ouvesem de ser eles, o seu unico estudo. na segunda vez achará menores dificuldades: e asim nas outras. Isto basta, para ser um grande Latino. Nem aconselharei a rapaz algum, que leia os Poetas. Para saber Latim, é escuzado, e serve de impedimento: na Retorica é melhor que se-leiam: mas é melhor quando sam grandes. Porem por-nam deixar de dar metodo, na leitura dos-autores, direi brevemente o modo: e servirá, para os que se-quizerem aplicar totalmente a isto.
Digo pois, que os que quizerem aplicar-se à leitura dos-Poetas, podem fazèlo, despois de ter feito estas preparasoens: procurando somente, os mais estimados polos doutos. Para intender estes é necesario, ler algum tratado, que explique a Mitologia dos Antigos: e que nos-de uma noticia breve das-fabulas, à que eles todos os momentos aludem. Isto posto, deve-se ler Ovidio nas Metamorfozes, e Fastos, em que explica toda a Mitologia: despois as Eroidas, que sam as suas melhores obras, e as mais facis. as outras podem-se rezervar para outro tempo. Despoîs, ler Virgilio todo atentisimamente: ao qual deve seguir Oracio, nas suas Odes; melhor direi, todo, porque é um autor inimitavel. Querem muitos, que com este se-leia, Gracio Falisco, Olimpio, e Nemesiano, Poetas Bucolicos: aindaque na verdade sejam muito inferiores, a Oracio. E finalmente, Estacio, e Lucano. Isto basta para ter, uma grande noticia de Poetas: principalmente lendo-se, com a devida atensam. E quem tiver bem estudado os ditos, pode, sem mais mestre, ler qualquer dos-outros, que se-oferecer: mas apontarei alguns. Quem pois quizer ler amores, veja Ovidio, de Arte amandi, Catûlo, Tibûlo, Propercio: que sam todos no-seu genero famozos. Os melhores satiricos sam, despois de Oracio, que é o mestre; Juvenal, e Persio. Marcial é um autor, que entre mil coizas insulsas, tem algumas boas. agradam mais aos omens inteligentes de Poezia, e Latinidade os Epigramas de Catûlo. Quanto a Lucrecio, e Manilio, sam juntamente Filozofos, e Poetas: e o primeiro sempre teve, e ainda conserva, muitos admiradores; e é um puro Latinista. Nisto se compreende, o melhor da-Antiguidade.
Sobre as edifoens á pouco que dizer. Todos estes autores foram comentados, para uzo do-Delfim de Fransa, por-ordem de Luiz XIV. Estas edisoens sam melhores que as antecedentes: e as concordancias que se-fizeram, de cada um destes autores, valem infinito, para a inteligencia dos-vocabulos da-lingua: pois mostram os diferentes uzos, e a forsa das-expresoens. Alem das-Delfinas, á outras edisoens anteriores, que tem seu merecimento. Por-pouco que um omem se-familiarize com os livros, e consulte os Bibliotecarios impresos, e trate os omens que sam verdadeiramente doutos; conseguirá todas as noticias necesarias, para se-regular na eleisam dos-livros, e edisoens. Mas quem quizer ler estes autores, advirto-lhe, que os-nam-leia seguidos, sim interrompidos: pois nem tudo neles é igualmente bom. Onde, devem-se colher as coizas melhores: porque esta sorte de leitura agrada: uma longa leitura enfastia, e só serve para um omem, que nam fasa outra coiza. Nam aconselho, que se-expliquem Poetas nestas escolas: mas que aja uma ou duas separadas, em que somente se-trate esta materia.
E ja che falamos de livros, necesarios para a inteligencia do-Latim, deve tambem o estudante saber, de quais se-deve servir, para compor &c. Nisto á muito abuzo; porque comumente alguns aconselham livros, que nam prestam. O Cardial Adriano = de Sermone Latino; Huberto Gifanio, nas suas Observasoens, Tomaz Linacer, sam autores famozos, para ensinar o modo, de escrever bem: principalmente o ultimo. Enrique Estevam, e o Vossio, escrevèram bem sobre as palavras, que nam sam Latinas, ou que o-parecem. O Ducange fez um belo Dicionario, de Infima Latinitate: que oje se-acha mui acrecentado, polos Beneditinos de S. Mauro, e cuido que sam, alguns seis tomos de folha. O Dicionario Etimologico de Vossio, pode dar grande e fundada noticia, da-Latinidade. Nizolio, e Carlos Estevam, compoz cadaum seu Dicionario, para as vozes que se-acham em Cicero: mas o ultimo é melhor, que o primeiro. Para ter noticia de toda a Latinidade, e ver o uzo dos-vocabulos, é necesario consultar, o Tezoiro da-Lingua Latina, de Roberto Estevam. 4. tom. para os rapazes, pode servir o Calepino de Facciolati, que é mais breve. Para ver as diferensas das-palavras, é utilisimo Anzonio Popma, e o P. Vavassor Jezuita, e tambem o Borrichio. Para saber o uzo, e forsa das-Particulas da-Latinidade, é famozo o Stevvechio, e despois dele o P. Turselino, da-edisam do-Facciolati. Os mestres podem ler o Tomasio, e Schvvartio, que sam amplisimos. As Fraseologias nam as-aconselho a ninguem: mas das-melhores, é a de Manucio, que compendiou as de Terencio, e Tullio: e melhor que este, o Pareo, que acrecentou as de Plauto: e fez mais outras obras utis, para a Latinidade. Acham-se mais alguns autores, como o Schorus, Cellarius &c. que escrevèram nestas materias: mas estes que apontamos, sam os melhores. E estas noticias bastam ao principiante: as outras aprenderá com o tempo.
Tenho dito o meu parecer, sobre o modo facil de aprender, a boa Latinidade. Mas antes que acabe, direi a V.P., que para conseguir este fim, e saber compor com facilidade, conduz muito, ter a memoria cheia de muitas especies. Sem ela nada vale a aplicasam: vistoque a nosa ciencia nada mais é, que a simplez memoria, do-que temos estudado. Ninguem duvîda, que a memoria com o exercicio se-aperfeisoa, principalmente nos-rapazes: e que todo o trabalho, que nisto se-poem na mocidade, serve muito, para quem á-de seguir os estudos. Mas a dificuldade está, em saber cultivar a memoria. Quem obriga os rapazes, a aprender muito verso, e muita arenga; faz-lhe mal, cuidando fazer-lhe bem. Eu comparo a memoria, cheia de semelhantes ideias, a uma livraria grande, cujos livros nam estam nas estantes, mas amontoados no-meio, e polos cantos: quem nela procura um livro determinado, nam o-encontra: mas ofrecem-se-lhe cem mil, que nada fazem ao cazo. Damesma sorte a memoria mal regulada: quando lhe-pedem uma ideia, ofrece tantas, e tam fóra do-propozito; que é o retrato da-confuzam: de que nace, que nunca se-aprendem bem, as outras Ciencias. Isto suposto, deve cuidar o mestre, em exercitar a memoria dos-principiantes, em algumas determinadas materias. Primeiro, acostumálos a dizerem em breves palavras a lisam, que ám-de explicar. Despois, explicará aos ditos, alguns pasos seletos de autores, principalmente Poetas: v.g. alguma das-fabulas de Fedro, ou Ovidio: mas curtas, e sempre agradaveis; pois só asim entram. Nestas, os rapazes devem dizer primeiro, o que contem: despois, poco a pouco ir repetindo, todas as palavras: com o tempo pode-se aumentar, o numero dos-versos. E este exercicio pode-se fazer dois, ou trez dias da-semana. Quando o rapaz tem algum exercicio; entam tem lugar, servir-se de metodo, nas coizas que decora. Onde tera cuidado de lhe-ensinar, algumas descrisoens, algumas exortasoens, ou-breves orasoens &c. mas primeiro explicar-lhas bem: pois sem iso é querer, que pronunciem como papagaios. Nisto nam devem molestar os rapazes, com pancadas: mas animálos com premios, a que decorem bem algumas coizas: remunerando ou louvando, os-que o-fazem melhor: sempre coizas utis, e que posam servir com o tempo. Mas deve cuidar muito o mestre, de nam permetir aos rapazes, a leitura destes livros de Fraseologia, antes banilos, como coiza mui prejudicial. Sam càpas de romendos, cadaum de sua cor, que nam podem fazer coiza boa. cauzam preguisa aos estudantes: e arruinam o bom gosto da-Latinidade. Devem-se escolher as descrisoens &c. nos-mesmos livros que estudam: e mandar-lhe aprender as frazes, nos-mesmos autores que traduzem. O mais é madrasaria, e ignorancia.
Tenho ainda outra reflexam que fazer: é esta, sobre o falar Latim nas escolas. Nisto á dois vicios: alguns falam sempre a sua lingua: de que vem, que saiem das-escolas, sem saber dizer, um comprimento Latino: e este é o defeito, que reina em Portugal. Outros, que pola maior parte sam Polacos, Ungaros, Alemaens, obrigam a falar sempre Latim: ainda antes de intenderem bem Latim. Tambem isto é um grande defeito: pois se os que sabemos bem Latim, nam podemos falar com dezembaraso; que fará um rapaz, que ainda o-nam-sabe! Esta é a razam, por-que vemos muitos destes Estrangeiros, (e eu vi tambem molheres) que falam Latim corrente. mas que Latim? um Latim tal, que é melhor nam intendèlo. Para falar Latim depresa, servem-se de frazes barbaras, e termos vulgares: e enchem a cabesa com aquilo, em modo tal, que em nenhum tempo podem deixar, o dito estilo. Nam sei que grasa tem cansar-se, para escrever Latim bem, e cansar-se tambem, para falar Latim mal: nem menos intendo, que necesidade aja, de falar semelhante Latim. Quem á-de fazer jornadas, por-paizes Estrangeiros, se sabe bem Latim, nunca tem dificuldade em se-explicar, se acazo tem algum uzo. que o-fale mais ou menos depresa, iso nada emporta. Nem menos aprovo, aquela afetasam de alguns Portuguezes, que, querendo falar Latim com algum Estrangeiro, estam meia ora a considerar, um periodo Ciceroniano: e desprezam as vozes vulgares. Este tambem é outro defeito consideravel. Se os que falam Portuguez afetado, nam se-podem suportar; que faram os que falam com afetasam, o Latim? O Latim das-conversasoens deve ser, o mais natural de todos. o ponto está ter palavras puras: a sintaxe delas deve ser natural, e clara. V.P. nam verá afetasoens em Terencio, ou Plauto, ou Fedro, porque falavam com estilo familiar. A lingua Latina tem isto de bom, que se-caza com a elevasam, e naturalidade. Onde, devemos saber aplicar o estilo, à materia; para conseguir o fim, de falar com muita naturalidade, e nam falar mal.
Isto supposto, parece-me que deve aver nas escolas, algum exercicio de Latim: mas requerem-se algumas cautelas. Primeiro, nam se-deve falar Latim, senam na ultima escola da-Latinidade, ou da-Retorica: quando ja os rapazes, intendem bem o Latim. Em segundo lugar, nam devem falar Latim sempre, mas em dias determinados. Primeiro, podem ensinar-lhe a dizer, alguns comprimentos de uma, e outra parte: despois, pode-se introduzir algum Dialogo, sobre a materia que se-estuda: em que de uma parte, um rapaz progunte alguma coiza: da-outra, responda outro, sempre em Latim. Mas primeiro deve o mestre explicar, como isto se-deve fazer: e ser ele o primeiro, a dar exemplo. E nam deve obrigar todos, a que falem no-mesmo dia: mas comesar polos melhores: despois por-turno os outros, em dias determinados: avizando-os primeiro, para que venham preparados. Desorteque cada estudante ousa falar muitas vezes, os outros: e asim vá aprendendo, para quando lhe-chegar a sua vez. Pode o mestre falar a miudo, algumas coizas Latinas, com algum dos-estudantes, que forem mais capazes, ainda fóra dos-dias asinados: tendo cuidado, de falar bem; e ensinar-lhe sempre, o como se-deve falar. Desta sorte pode ajudar muito, os estudantes: principalmente se souber excitar entre eles, a emulasam, louvando muito os que o-fazem bem, e remunerando-os. Este é o verdadeiro metodo, de ensinar a falar Latim. Comesando desta sorte, mais facilmente o falarám, nas escolas da-Filozofia: e deste modo aquistarám aquela facilidade, que é necesaria, a quem á-de seguir as letras.
Isto é o que me-ocorre dizer, sobre o estudo da-lingua Latina: poderia acrecentar muita coiza; mas estas bastam, para o que se-quer. Prouvera a Deus, que estas se-puzesem em execusam; entam me-diria V.P. se me-enganava eu no-meu conceito. Deixando para a vista outras razoens, com que podia persuadir, o que digo; insinuarei uma bem clara. Entre tantos que se-aplicam, ao estudo da-Lingua Latina, mostre-me V.P. quantos sam capazes de se-apontarem, como exemplo de boa Latinidade. Examine V.P. quantos autores tem cá, nos seus paîzes, que componham Latim, como milhares, que eu poso apontar, nos-Reinos estrangeiros; e ainda alguns em Espanha, que escrevéram asombrozamente. Se me-mostrar um ou dois, que nam ignoro que aja, asente que o-nam-trouxeram das-escolas; mas custou-lhe boas fadigas em caza: ou talvez porque saîram fóra do-Reino, e tratáram, com quem lhe-abrise os olhos, como o Bispo Ozorio &c. Quazi todos os outros falam Latim das-escolas. E tantas testemunhas, que todos os dias saiem das-escolas, provam bem, que esta ignorancia, é influencia do-mao metodo.
Disto podia eu citar muitos, e muitos exemplos, se mo-nam-impedise a modestia. * * * porque aindaque tenham doutrina, e talento, o mao metodo que bebéram na mocidade, impede o aproveitamento. Certo Religiozo douto, devendo dar conta de si, em um congreso erudito, queixando-se de lhe-nam-terem dado, certos papeis, concluia asim: Quæ ad nostram faciunt historiam monumenta omnia: sive scripta, sive transcripta, sive præscripta; sive congesta, sive digesta, sive indigesta; peto, expeto, repeto: posco exposco, reposco: quæro, exquiro, requiro: flagito, efflagito: oro, peroro. Todo o corpo do-discurso era semelhante. Nam sei se se-pode fazer, coiza pior: e apostarei eu, que os seus Religiozos doutos, seram os primeiros, a condenar este Latim. O pior é, que afetando tanto, saber a forsa dos-Verbos, enganou-se em alguns. Porque o flagito, e efflagito, nam só significam, pedir com istancia, mas pedir com injuria[26], e com pouca vergonha: o que suponho, ele nam quiz dizer. Tambem o peroro, nunca ouvi, nem achei em autor Latino, que significáse pedir. tambem Orare monumenta, é fraze que nunca achei nos-Latinos. Os primeiros trez nomes significam a mesma coiza, no-noso cazo: pois ele nam pedia cazas, nem estatuas; mas coizas escritas: e asim o sive, parece mal inserido. Damesma sorte o congesta, nam se-opoem, a digesta, e indigesta; pois a cadaum destes se-pode aplicar: sendoque é generica. As outras examinará V.P. com mais vagar, que eu nam tenho. E nam somente os que se aplicam, a diferentes materias, mas aqueles mesmos, que se-empregam na Latinidade, muitas vezes nam sam iguais. v. g. Antonio Rodriguez da-Costa, Conselheiro do-Vltramar, que escrevia Latim com muita facilidade, esquecido ás vezes de simesmo, escreve algumas cartas Latinas, fóra do-estilo familiar, que paresem orasoens academicas. Mas pior que este, o Marquez Manoel Teles da-Silva, e o Conde de Vilarmaior, os quais ambos tropesam terrivelmente nesta materia, de elevasam afetada. O primeiro, na carta com que aprova, os Epigramas do-P. Reis, que comesa Cum nullum &c. uza de um estilo, que ainda nam vi coiza mais impropria: O segundo, nas cartas que escreve, a Antonio Roïz da-Costa, é afetado por-um novo modo; e inclina muito para a declamasam, demora-se muito com os lugares comuns, e nam observa, o verdadeiro estilo epistolar &c. Confeso a V.P. que lendo, e examinando Cicero, nam achei nele nem orasoens, nem cartas afetadas. Somente na idade de prata é, que comeso a ver, a afetasam, porque ja degenerava a eloquencia. De que concluo, que os que lem bem polos Antigos, e sabem imitálos, escrevem com muita naturalidade, e no-mesmo tempo sublimidade. Quando porem nam se-lem os Antigos, ou, lendo-se, nam se-faz como se-deve; nam se-pode fazer coiza boa. o que, como asima dizia, nace do-mao metodo, de quem ensina.
Quando em um paîz, florecem com grande aplicasam as Artes, é coiza observavel, que saiem muitos excelentes. No-tempo de Cicero, nam só ele falava bem Latim; mas avia uma infinidade que o-falavam, com a mesma pureza, e grasa; e muitos Oradores, de grande merecimento. Se V.P. tira das-cartas de Cicero, os nomes de muitos, que lhas-escrevèram; entre elas, e as de Cicero, nam achará diferensa alguma. O bom gosto naquele tempo, era tam rafinado, que Cezar, e Atico, repreendèram alguma palavra de Cicero: e o modo de orar deste ultimo, nam agradava a Bruto, a Calvo, e Pollio, que eram omens doutisimos. Toda a magestade, e pureza da-lingua de Tito Livio, nam o-livrou, de ser censurado em Roma, por-aqueles delicados criticos. O grande Asinio Pollio achou neste escritor, certas palavras, e estilo do-paîz em que nacèra; que os omens cultos de Roma, nam lhe-queriam perdoar. tal era o delicado gosto daqueles Senadores, e Cortezoens! Os mesmos Romanos, tinham um demaziado escrupulo, neste ponto. Um Comico, que no-teatro errava uma silaba, e um acento, levava grandisimas surriadas[27]. tal era a fineza do-juizo daquela Republica!
Se damos um paso mais atraz, e entramos em Atenas, onde as Artes, e Ciencias tanto florecèram, que dali se-espalháram, polo resto da-Europa; acharemos, que nesta grande escola, até a gente plebeia, polo costume de ouvir orar, e falar bem em publico, aqueles grandes Oradores; tinha aquistado, um tam exquizito gosto da-lingua, que quando os Oradores subiam à tribuna, temiam ofender, com alguma menos boa expresam, orelhas tam delicadas. Avia muitos anos, que o Filozofo Teofrastro abitava em Atenas, e tinha feito um particularisimo estudo, de falar a sua lingua, segundo o dialeto de Atenas: comtudo iso diz a Istoria, que da-pronuncia de uma palavra, conheceo que era estrangeiro uma molher, que vendia legumes em Atenas[28]. Achamos na istoria Grega, mil outros exemplos, que confirmam, quam geral era, o bom gosto da-eloquencia, entre os Gregos. Nas asembleias publicas da-Grecia, em que se-recitavam Poemas, e Istorias ao Povo; sabemos, que muitas vezes regeitáram algumas, por-nam chegarem, à fineza de outras. Dionizio o velho, Rei de Saragosa nam era mao Poeta: vistoque com uma das-suas compozisoens, alcansou o premio, nos-jogos da-Grecia, digo, nos-jogos Olimpicos: mas porque mandára primeiro duas, que nam chegavam ao merecimento, da-terceira, foi escarnecido por toda a asembleia. Deixo outros Antigos.
E, se decemos a estes ultimos seculos, e ao prezente, poso mostrar a V. P. com toda a evidencia, que em Londres, Amsterdam, Leiden, Pariz, Roma, Napoles, Padoa, Bolonha, Piza, e outras muitas partes, onde se-cultivam os bons estudos; os que neles sam instruidos, por-pouco que saibam, aquistam um particular gosto, em todo o genero: e que neses mesmos empregos de Ciencias, e Artes, á infinitos omens excelentes. Do-que manifestamente se-prova, que onde se-ensina bem, sempre á omens grandes: e que onde os-nam-á, é uma prova manifesta, do-mao metodo, de quem ensina.
Tenho dito a V. P., quanto a brevidade de uma carta permite, o que me-parece deve fazer, quem quer saber Latim. Poderia acrecentar outras coizas; mas esas sam somente necesarias, aos que querem ser insignes, nas letras umanas. Para V. P. que é tam versado nelas, o que digo, parece ainda superfluo: e para os-outros, muito mais: vistoque nam acho muitos, que queiram esta gloria, e queiram conseguila, com estes meios. Comque páro aqui: E dezejando a V. P. felicisimas festas, e boas intradas de anos; com todo o corasam me-asino &c.