SCENA PRIMEIRA
HENRIQUE E MARGARIDA
Henrique
Ora aqui tem os novos aposentos
Que servirão de galla aos meus intentos.
Repare? Veja o luxo d'esta salla,
Que a nada, mesmo a nada mais se eguala.
Hein! Hein! Que lhe parece?!
Margarida
(Admirada)
Realmente,
É soberbo! ideal! Mas, francamente,
Acho bello de mais: bello de mais
P'ra quem se entrega a gosos tão vestaes!...
Henrique
Engano, Margarida, puro engano;
Tudo isto é impostura e só profano!
Apenas a mudança de scenario,
Com quanto lhe pareça um relicario
O que está vendo, creia. Tão sómente{32}
D'aspecto a mutação, mas apparente
E falso, no que indica, pois de facto,
Quanto vê, é traidor e bem ingrato;
Senão vejâmos: Ha n'este conjuncto
O mais completo, o mais perfeito assumpto,
Para que se analyse e fundamente
Toda, toda a ironia d'este ambiente;
E descrever, eu vou, essa ironia,
Sem lhe oppôr a mais leve phantasia.
Queira ouvir:
Margarida
Ouvirei...
Henrique
Repare então:
O que se nota n'esta perfeição,
Unicamente serve p'ra esconder
A cynica existencia da mulher!
Margarida
(Interrompendo)
Minha rival? Talvez!?
Henrique
Nem mais, diz bem!
Sua rival, que arrojo mostra e tem
Para se apresentar envaidecida
No luxo de que a salla é guarnecida.
Conhece-a?...
Margarida
Talvez não... eu nunca a vi...
Henrique
Pois para isso a conduzo eu hoje aqui:
Mas antes, extasie-se no espavento
D'estas decorações, cujo elemento
Só pretende encobrir o que lá fóra
Se chama a todo o instante e a toda a hora
Miseria, corrupção e tudo o mais
Que tanto affronta e insulta bons mortaes!
Admire-se perante as bambinellas{33}
Que, pendentes das portas e janellas,
Servem para vedar todo este centro
A bachanaes, passadas aqui dentro!
Reveja-se em vestaes tapeçarias
Soffucando o ruido das orgias;
Nos estofos que abafam enthusiasmos,
Os gritos de volupia, os espasmos
D'uma lubricidade illimitada...
Margarida
(Interrompendo)
Mas diga? Não será exagerada
A affirmativa?
Henrique
Como assim? Duvida?
Margarida
(Admirada)
É que, em verdade, nunca em minha vida
Soube como se possa conjugar
Toda a revolução do lupanar
Com esta ordem e acceio que estou vendo;
E com effeito, Henrique, não entendo,
Não percebo a harmonia que se avista,
Sómente discordante e antagonista
Ao meio onde se espalha a corrupção.
Henrique
É o que lhe parece...
Margarida
Qual? Não; não
Posso acreditar, não, no que me diz,
Pois que a nossa existencia jámais quiz
Acceitar os cuidados d'este apuro.
Henrique
(Interrompendo)
E comtudo, affirmo, é um lar prejuro...
Margarida
(Em duvida)
Será, mas... mas para isso não se admitte{34}
A apparencia do arranjo, que transmitte
Não sei que, de completa opposição
Á anarchia da nossa profissão;
E eu sinto que d'instante para instante
O esp'rito se consulta, inquietante,
Na atmosphera que aqui dentro respiro...
Diga? Diga? Onde estou eu?!...
Henrique
N'um retiro
Cuja devassidão bem se proclama,
Repito, muito embora tenha a fama
D'honesto, muito embora elle se incense
D'um perfume que nunca lhe pertence.
Duvida ainda?
Margarida
Sim! eu... eu duvido!
Porque não póde ter aqui vivido
A mulher que appelida de devassa;
E affirmarei, senhor, que a nossa raça
Foge a toda e qualquer preoccupação,
Que não seja gosar devassidão!
(Olhando para tudo)
Tudo isto que a meus olhos se depara,
É coisa que se torna muito rara
A nossos olhos! Coisa vaga, inutil,
Sem valôr, pueril, impropria, futil,
Para quem como nós, p'ra quem como eu,
Se ceva nos instinctos que me deu
A sorte, e se refaz insaciada
Na sêde d'uma vida depravada!
Henrique
(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a Margarida para se sentar)
Está bem Margarida, venha cá;
Sentemo-nos, que mui não tardará
Que momento opportuno e bom ensejo
Apresente mil provas de sobejo,
Destrahindo, negando e desmentindo
Tão errada impressão que está sentindo.{35}
Margarida
(Sentando-se)
Impressão tal, senhor, que, na verdade,
Se apossa de mim com necessidade
De profundar o fim deste recanto,
Receosa de crêr que seja o manto
Da deshonra que o cobre. Pois! Pois quê!
Aonde e em que parte é que ella se vê
Vegetando assim? Diga-me: em que parte
Ella pode adorar a belleza e arte
Do conjuncto tão bem disposto aqui?
Não, Henrique! A deshonra folga e ri
No turbilhão d'immenso desalinho,
Não lhe sobrando tempo p'ra o carinho
E trato da vivenda que se habita;
A deshonra sómente tem escripta
Na mansarda a legivel taboleta
Que annuncia onde pára, onde vegeta.
E as nossas mãos, que apenas tem o dom
De sentir, do dinheiro, o timbre e o som,
Não sabem como tudo isto se faz
Dentro da ordem e d'esta santa paz.
As nossas mãos têm o unico mister
De procurar os gosos e o prazer
Do ouro, que só se emprega na razão
Do luxo, necessario á attracção
Da vista indagadora das orgias,
E indispensavel para a concorrencia
Da prostituidora residencia!...
As nossas mãos sómente se utilisam
Nos postiços que tanto symbolisam
O antro por onde sempre rezidi,
E já n'elle então, uma vez ali,
Quando na ausencia, quando no despojo
Das seducções, só tudo logo é nojo
No labyrintho d'horas viciosas,
Na balburdia de noites amorosas!
Uma vez ali, tudo vem dizer
Do estado social d'uma mulher!
E quer, senhor, fazer-me convencer,
Que possa n'esta casa só viver
Alguem que a minha classe represente?
Henrique
Quero sim; quero, e muito facilmente...{36}
Margarida
Porém, como? No luxo do aposento
Não, porque n'elle ha todo o sentimento
Que eu ignoro. Na graça e harmonia
Muito menos, por quanto a apostasia
De virtudes se não traduz assim,
E nem ella se adquire com tal fim!
Henrique
Porque o sabe?
Margarida
No exemplo d'esta vida,
Que uma outra aniquilou e fez perdida!
Nas provas da existencia que atravesso,
Demonstrando que tudo isto é avesso
Á desorganisada habitação
De quem só s'expõe á prostituição!
(Levantando-se e puxando Henrique pelo braço)
Ouça: se, como diz e me affiança,
Estamos sob um tecto d'aliança
Deshonesta; se, como bem proclama
A devassidão n'este lar se inflama
Por impudica e má camaradagem...
(Apontando para um Christo que está na parede e para a imagem da Virgem, n'um quadro)
Que faz, senhor, além, aquella imagem?
E inda est'outra aqui? tanto a destoar
Do cortejo que envolve o lupanar?
Henrique
São os taes attributos da mentira,
Ante os quaes se revê e mui se admira!
Margarida
Mentira?! Mas onde, onde apparece ella?
E como e de que fórma se revella,
Se, por muito que faça, inda a não vi...{37}