SCENA SEGUNDA

MARGARIDA E FERNANDO

Fernando

(Entrando pelo fundo)

Ora até que emfim, linda Margarida!?
Por onde tem andado tão perdida?

Margarida

(Interrompendo n'um estremecimento subito de surpresa e quasi de indignação)

Ah!...

Fernando

(Avançando e continuando)

Por onde se tem tornado preza
E errante a sua graça e gentileza?!

Margarida

(Dissimulando a tristeza)

Em parte alguma, creia...

Fernando

Não parece...
E olhe que o promettido não se esquece.
Mas que tem? Que tem? Vejo que chorou?!

Margarida

Chorar? Eu?! Eu?!

(Á parte, limpando os olhos)

Oh! sim! não se enganou!
(alto) Chorar? Eu?! Não!{52}

Fernando

Mas, seus olhos vermelhos,
São de tal flagrantissimos espelhos!

Margarida

(Dissimulando)

Nada isso diz, embora lhe pareça;
Effeitos só de dôres de cabeça
Que ha dias me apoquentam...

Fernando

E que, espero,
Melhorem ante o meu voto sincero,
E não impeçam minha estada aqui,
Já que de novo me honra, e me sorri
O convite, tornando-se occupado
O logar que me disse ter vagado.

Margarida

(N'um rapido estremecimento)

O que?! Fui eu que o disse?! Eu é que o disse?!

Fernando

(Com estranheza)

Duvída? Mas que grande exquisitice
Representa essa duvida!...

Margarida

Porque?!...

Fernando

(Tirando do bolso um cartão)

Em face do bilhete onde se lê
O seu pedido, e ainda mesmo, quando
Claramente dizendo e bem frizando

(Approximando-se de uma porta latteral)

Certas palavras, junto d'esta porta;
A não ser que, que seja letra morta
O que me affirmou!{53}

Margarida

(Com repulsão)

Não! Não me recorda?!

Fernando

Veremos, n'esse caso, se, se aborda
A phrase muito nitida ao ouvido,
Para que ella jámais tenha esquecido.

Foi aqui, veja, foi n'este logar
Que, apontando-me altiva e sem pezar,

(Olhando para o interior d'um quarto)

Certa vaga que ali dentro existia,
Perguntou o que lá se achava e via.

Respondi... o que ainda vejo:
Um leito.

(Malicioso)

E por signal que estava bem desfeito,
Em contraste com toda a compostura
Que ora se nota. Então, é n'esta altura
Que assim exclama:
«Está ao seu dispôr».

Margarida

Lembra-me com effeito! (Á parte)

Mas que horror!

(Alto e approximando-se de Fernando)

É verdade! E a verdade diz, Fernando!
Mas foi um dito mau, dito execrando!
Dito que não devia proclamar

(Com desespero)

E que fez mal, só mal, em m'o lembrar.

Fernando

(Surprehendido)

Porém, nada percebo, e muito menos
Com taes palavras, cujo modo e acenos
São expostos em termo áspero e rude.

Margarida

(Apontando o leito)

Aquella vaga, occupa-a hoje a Virtude.{54}

Fernando

(Estupefacto)

Como assim?! Isso é dito com ironia?!...

Margarida

Fallo com consciencia e ufania
De a possuir!

Fernando

Verdade?! Isso é verdade?!...

Margarida

Digo-lh'o com a mor sinceridade.
O leito que em orgias se desfez,
Hoje... sómente cobre a honradez!

Fernando

(Approximando-se da meza, sentando-se e com ironia)

Bravo!... Sim senhor! Muito bem! Comtudo,
Espero que me explique por miudo
O que em vida de gran desfaçatez
Se entende por virtude ou honradez.

Margarida

(Approximando-se tambem da meza e sentando-se)

Será um sacrifício, mas, emfim,
Cumprirei seu desejo.

Fernando

(Rindo)

E quanto a mim,
Agradeço a irrisoria explicação,
Que ouvirei com a maxima attenção.

Vamos. Comece. O que é honra e virtude?...

Margarida

(Com amargura)

Sabel-o no passado, eu nunca pude,
Mas no presente, d'ella tenho a fé!
Virtude e honra, meu caro, eu lhe digo... É...{55}

(Com certo desprezo)

É... o que o senhor nunca comprehendeu!...

Fernando

(Cada vez mais surprehendido)

Que nunca comprehendi? Que disse?! Eu?! Eu?!

Margarida

Sim, meu caro senhor! Que nunca, nunca
Comprehendeu; pois quem lança p'ra espelunca
Do vicio a mulher que disse amar,
A virtude não sabe interpretar.

Fernando

Allude então...

Margarida

(Atalhando)

Á minha triste historia
Muito bem reflectida na memoria!

Fernando

Mas isso... já lá vae ha tanto, ha tanto...

Margarida

Ah! Lembra-se? Pois bem! E embora o pranto
Volte a offuscar-me as faces de vergonha,
Rememoro o que em epocha risonha
D'uma vida serviu para o transporte
Da reles existencia e fraca sorte.

Creança, inda bem nova, inexp'riente,
Senti n'alma o que sente toda a gente.
Despertando p'ra quadra d'um amor:
E a pouco extasiada n'esse alvôr,
Deixei que me prendessem sympathias
Que vibravam n'um canto de harmonia:
Tudo então me sorria e tudo amava!
A graciosa manhã que despontava
No melodico trio de avesinhas,
O sol que vivifica as floresinhas,
O declinar da tarde, as noites bellas,
Da lua o brilho, a graça das estrellas,{56}
O conchego, a familia, o trabalho,
A paz, tranquilidade e o agasalho,
A invocação, a biblia e a reza;
Eu amava, emfim, toda a natureza,
Pelo proprio amor da juventude,
A vibrar como cordas de alaúde
N'um peito que se alava para o bem!
Mas de subito, meu Deus! esse alguem
Que me elevara aos paramos do amor;
Quem me ajudara a crel-o no primôr
Da verdade, e guiava o norte meu,
Que devia subir até ao ceu...
Corta, derruba, as azas d'este alar,
E obriga-me a cahir, faz-me tombar
No grande turbilhão da tempestade,
Na hecatombe e na mór fatalidade!
E tudo, tudo então quanto eu amava,
Breve se convertia e se trocava
Pela renegação, pela baixeza,
Deixando já d'amar a Natureza,
Para me filiar em quê? Em quê?
Nas hostes dos que nunca teem fé!

E tombei! E cahi! (chorando).
Sim, sim, tombei!
Á custa de quê? Deus meu! Nem eu sei?!

(A Fernando)

Sei! Sei, senhor! Á custa do abandono
Que me precipitou n'aquelle somno,
Cuja lethargia obra o desvario
N'um corpo molestado e doentio,
Em proveito de todo o esquecimento
Do que de bem havia em sentimento!

Pois se eu amava tanto, e d'esse amor
Em si depositei e puz, senhor,
A esperança ditosa de meus dias,
Sem que se me opposessem phantasias;
Se tudo lhe entreguei: alma, honra e vida,
Para que tornar tão desvanecida
A fraqueza da minha confiança?...

Fernando

(Pretendendo desculpar-se)

Porque eu... porque eu tambem era creança...

(Levanta-se){57}

Margarida

Não! Não! Diga que foi a sêde e fome
De usufruir, e após, pensar que o nome
Humilhava, e jámais lhe serviria
P'ra linda sugestão que me incutia;
Diga: foi o que muita gente faz,
Captivando, prendendo em fórma audaz
O debil ser, a fragil creatura,
Que ora subjugada ante a noite escura
Do vosso infame e vil, e vil narcotico,
Obedece depois ao espasmodico
Furôr de saciar as intenções
Com que se roubam fracos corações.
Não é isto?

Fernando

(Perturbado)

Mas...

Margarida

(Levantando-se)

Mas... senhor Fernando
Queira explicar-me agora quando, quando
Foi por si concebida a qualidade
Virtuosa, por entre a sociedade?!

Fernando

(Succumbido)

Actualmente á face da razão...
Que decerto ditou a reacção
Do mal, d'esse mal que m'inclue nos réus
Do mundo!

(Pausa e estendendo a mão a Margarida)

Margarida... adeus!...

Margarida

(Apertando a mão de Fernando)

Adeus...

(Fernando sae){58}