CANTO SEGUNDO.
A tomar vai Leiria, que tomada Fôra mui pouco havia do vencido.
Camões, Lusiadas, C. 3.º, E. 55.ª
ara unir n'um só leito amantes aguas Vem o Liz, sobre os seixos murmurando, O Lena vem, nascido de entre as fraguas; Em seu curso modesto, alegre, e brando, Entre a relva mimosa, entre a verdura Cada qual mollemente serpejando. Jámais turvou a limfa clara, e pura O forte remo, a quilha recurvada Com que a industria mortal dóma a natura; Sómente a braça da arvore quebrada, A folha que no outomno cahe sem vida Pelo placido curso foi levada. Nas margens a aveleira entretecida Com o espinheiro está de flôr fragante, A madre silva co'a roseira unida. No espelho das aguas inconstante Reflectida balança alta ramagem De alamo bicolôr, choupo elegante; Dos vimes, e salgueiros a folhagem, Molles chorões, as braças incurvando, Vedam do sol aos raios a passagem. Alli, na primavera, sussurrando, Recolhe a abelha o mel por entre as flôres, E a borboleta as beija volitando, Quando o cantor sublime dos verdores Da aurora ao despontar, e á tarde canta Em frente ao brando ninho os seus amores. A róda leve as aguas alevanta, Que em canaes variados circulando, Levam frescura á sequiosa planta; Em quanto, dos invernos triumfando, Altos pinheiros sempre verdes frontes Reunidos se vêem aos ceos alçando Na encosta, e cumes dos visinhos montes.
No meio d'este valle a natureza Um penhasco erigiu, morro isolado, Que das aridas rochas a braveza Abruptas volve aos raios do sol nado; Com aridez igual, igual asp'reza Do occaso, e do sul encara o lado; Orna-o do norte apenas a verdura Em mais suave encosta, e menos dura.
Do forte morro ás abas se abrigaram Da destruida Liria os habitantes, Quando da natal terra os expulsaram Dos romanos as armas triumfantes; Para alli seus penates transportaram, E da perdida patria sempre amantes, De Liria ao novo asilo o nome deram, Que os tempos em Leiria converteram.
De Vandalos, e Godos povoada Foi depois, gente forte e valerosa, Que com o tempo tambem cedeu á espada Da sarracena raça bellicosa, Na epocha em que a terra celebrada Das Hespanhas sofreu perda affrontosa, E só cantabrios serros abrigaram Os que ao jugo africano se escaparam.
Mas alfim vencedor da maura gente, Affonso, no penhasco edificára Recinto marcial forte, e potente, Que de Agostinho aos filhos confiára, Quando do rôto Ismar a ira fremente No povo e no presidio se vingára, E unido a Hauzeri, mouro esforçado Tinha de Affonso os muros conquistado.
Ai! daquelle, que atrevido Com temeraria ousadia Do Leão adormecido Os furores desafia! O animal irritado, De crua raiva espumando, Corre o campo, arrebatado Morte e ruina espalhando: Com seus urros espantosos A bronca serra estremece, A luz do raio esplandece Nos seus olhos furiosos. Força não ha tão potente Que a carreira lhe embarace, Que a garra não despedace, Que não rasgue iroso o dente: Té que em fim o imigo alcança, E no côrpo ensanguentado Partido, e dilacerado, Séva as iras e a vingança.
Assim de novo a trompa bellicosa Nos valles retumbava, Assim de Affonso a gente valerosa Já de novo se armava, E as bandeiras, que as Quinas adornavam Os Alferes de novo ao vento davam.
Nobres, e ricos-homens á porfia Se apromptam sem demóra A castigar dos mouros a ousadia, E em lide vencedora Punir os damnos, com que Ismar irado Todo o transito seu tinha marcado.
O escudo embraçou p'ra nobre empreza Pedr'Affonso incansavel, Ao Rei da crua guerra na aspereza Consorte inseparavel, E com elle Ruy para a vingança Com ardor empunhou a herdada lança.
Moveu-se a gente bellica segura Na esperança da victoria, Que a quem temer não sabe a lide dura Nunca desmente a gloria, E n'um teso, ao Castello apropinquado O campo expugnador foi collocado.
De annoso pinheiro, Que em frente se alçava Do campo guerreiro, Nos ramos pousava Um corvo agoureiro Que abrindo o rostro infausto, e ás azas dando, Parecia estar os mouros malfadando.
Os de Agar bramaram Quando alevantadas Em frente enchergaram As Quinas sagradas, E irosos juraram Illeso conservar o logar forte Seus muros defendendo até á morte.
Alcaide da gente Seu brio excitava Hauzeri valente, Que a lança empunhava; Mouro forte e ardente, Entre os do bravo Ismar um dos primeiros Denodados, e intrepidos guerreiros.
Com garbo, e presteza Discorre a muralha, Dispondo a defeza, Prevendo a batalha, O alcaide, e a firmeza A audacia, e o valor no rosto ostenta Com que dos seus a galhardia augmenta.
Ao lado de Hauzeri bella apparece, Piedosa vista em lance tão p'rigoso! Filha linda qual luz quando amanhece Ao romper d'alva em dia caloroso, O turbante, que a frente lhe guarnece Remata alvo penacho precioso Em quanto vão os zephiros brincando Com os anneis sobre os hombros fluctuando.
De seda as calças tem da côr da neve, Sobre ellas desce a tunica bordada, Cerulea faixa a cinta circumscreve, Qual a hastea do lirio delicada, Cobre o virginal seio a tea leve Onde a seda co'a lãa fôra tramada, De vermelhos coraes um fio brando Do collo airoso a base contornando.
Suaves de Fatima os olhos eram, Vivos ao mesmo tempo e magestosos, Quaes unicos os nossos climas geram, Climas caros ao Sol, climas ditosos; Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam Quer languidos, quer meigos, quer irosos; Olhos taes, que se pranto derramaram As mesmas brutas penhas abrandaram.
Nas pudibundas faces reluzia A viva côr da nacarada rosa, Que em leve gradação se esvaecia Pela macia pelle melindrosa; Virgem, filha gentil do meio-dia, A côr tinha morena, e tão formosa, Como a que a luz de um Sol claro e brilhante Communica do prado á flôr fragante.
Da larangeira em flôr com o deleitoso Aroma o ár da tarde embalsamado Cede em suavidade ao amoroso Hálito de seus labios exhalado. O murmurio do arroio saudoso Entro meudos seixos derivado, O meigo sussurrar do brando vento, Menos magia tem que o seu accento.
Quem viu a vermelha rosa N'um ramalhete de flôres De todas a mais formosa Quer nas formas, quer nas côres: Quem da noute socegada No silencioso véo Viu a lua prateada Entre as estrellas do céo: Quem na belleza prestante Do palacio, ou templo santo Viu a corinthia elegante Que remata o molle achanto: Quem entre a familia leve, Habitante da espessura, Viu a pomba côr da neve, Vivo emblema da candura: Não viu mais que uma imperfeita Imagem das maravilhas, Com que Fatima deleita Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.
Porem, já sequiosos da vingança Os Christãos se aparelham p'ra peleija. Em batalhas o Rei divide as lanças, Marcando a cada uma quem a reja: P'ra o assalto prescreve sem tardança De cada Capitão qual dever seja, A qual compete de ir na frente a gloria, A qual mais tarde ha de colher victoria.
A aquelle, que no nome, qual no peito Tem dos fortes a nobre galhardia, Entrega o grande Affonso satisfeito. Entre as batalhas, a que a frente guia: Na mesma linha põe e de igual geito A que o pendão de Mem Moniz seguia; Bem como a forte gente, cujo ousado Valor tem vido a Sousa confiado.
As reservas intrepidas e ardentes, Onde a lucta attrahir maior perigo, Viegas com Martim, e outros valentes Promptos conduzirão sobre o inimigo; Porem de Pedro Affonso armipotente Braço e conselho o Rei quer ter comsigo; Nem desdenha reter junto a seu lado O Joven Escudeiro denodado.
As trompas guerreiras O signal entoam, Ao combatte voam As bravas fileiras. Os mouros defendem Debalde a campina, Debalde pretendem, Que os Christãos bradando Co'a lança arremetem, A quanto accommettem Rompendo e prostrando.
Qual da serra alpina Partiu destacada A rocha gelada, Que o valle domina, E em forças crestando Na queda espantosa Co'a massa assombrosa Vai tudo rompendo; Assim as batalhas Aos mouros forçavam, E em fuga os lançavam Ao pé das muralhas.
Na rocha escarpada O mouro confia; O Christão porfia, E a rocha é trepada. Embora, galgando Por entre os rochedos, Inteiros penedos Descendem troando: As penhas, nas penhas Caindo, arrebentam; Heroicas façanhas Façanhas sustentam; Setas sibilantes Cruzam por milhares Das fundas girantes Com os tiros nos ares.
Em quanto os archeiros A morte arremedam, Mais brava os lanceiros Já lucta começam, O escudo, a couraça, A malha cerrada, De morte esfaimada A lança transpassa, E aos golpes da espada O elmo partido No craneo fendido Lhe franqueia a entrada.
A escada tremente Á muralha erguida Já foi erigida Pela ousada gente; Do escudo coberto, Com o ferro empunhado, Mais de um segue ousado No ár trilho incerto, E sobre as ameias Mais de um temerario, Entrega ao contrario O sangue das veias.
A pugna engrandece, Redobra a fereza, Do ataque e defeza A teima recresce. Já os muros altos Por todos os lados Sentem renovados Continuos assaltos; Hauzeri no emtanto Resiste esforçado, Fero e denodado Desconhece o espanto; Tal, já quasi exangue, Javali ferido Com o dente buido Derrama inda o sangue, E a um tronco acuado, O collo cerdoso Revolve animoso A um, e outro lado.
N'isto o intrepido Affonso, a si chamando As reservas, que cauto tem poupado, O decisivo esforço emfim tentando, Ao assalto as impelle denodado. Mal das gentes desliga o regio mando O valor tanto a custo sopeado Armas, clamor de guerra, e tubas soam, E contra o mouro irrisistiveis voam.
De todos o primeiro ao morro avança O mancebo Ruy leve, e esforçado, Os penhascos transpõe sem mais tardança Que a anta o precipicio congelado; Fere, derriba, e mata a herdada lança, Foge o mauro tropel desordenado, Ruy segue qual raio a rôta gente Pela porta, que aos seus torna patente.
Por ella ruina e morte Penetra, de horror cercada, O valor fallece ao forte, Com a esp'rança abandonada. Cada qual as armas lança, Cada qual arrója a espada. O vencedor na vingança Irritado se enfurece, Céva as iras na matança, A humanidade estremece, Mas a sanha do soldado A sua voz desconhece: Nada p'ra elle ha sagrado, E na crueza incendido Se crê pelo ceo armado, Sobre o infeliz vencido Julgará infidelidade Sentir-se compadecido; Nem o sexo nem a idade Salva do ferro cruento, E de horror e crueldade É o penhasco inteiro um monumento.
O Sol cobriu de horror a clara fronte, Espessas negras nuvens o toldaram; As nevoas sobre a borda do horisonte Da roixa côr do sangue se pintaram; Os córvos carniceiros sobre o monte Com o faro da atroz prêza esvoaçaram, E enlutados os ceos, a noute fria Mais cedo pareceu pôr termo ao dia.
Farto o soldado emfim de crueldade, Extinctos quasi os miseros vencidos, Amainou pouco a pouco a tempestade, Cessaram os clamores, e os gemidos, Já o Chefe recobra a authoridade Sem força entre os primeiros alaridos, E da victoria no seguro goso Abandonam-se as gentes ao repouso.
Mas Ruy, cujo joven peito encerra O preceito da Mãi, do Pai legado, O descanço dos olhos seus desterra, Vagando no Castello desolado. De quente sangue vê fumando a terra, O cadaver encontra abandonado E o misero, que em mais tyranna sorte Sem asar de viver lucta co'a morte.
No peito o coração em horror tanto De Ruy se apertou, a alma sensivel Viu, a um tempo com dôr, terror e espanto, P'ra quanto não é fera a scena horrivel; Não podendo suster amargo pranto, Quasi maldiz victoria tão terrivel, Fugindo ao quadro atroz por mais não ve-lo Se entranha para o centro do Castello.
Da menagem a torre alli se erguia, No mais alto do morro alevantada, Torre rectangular que descobria Em redor a campina variada, Lá na alta noute, inda hoje triste pia Na muralha com o tempo descarnada O infausto mocho, e no seu seio escuro Se abriga contra a luz morcego impuro.
De vigia servia o cume erguido, Na parte media as armas se guardavam, No mais baixo recinto denegrida Em prisão dura os crimes se expiavam. Por caracol estreito, e retorcido Os planos entre si communicavam. Na masmorra o soldado fatigado Não tinha a aquelle tempo penetrado.
Na torre entra Ruy, e parecia Fatidico o instincto que o guiava; Á medida que o caracol descia Ancioso seu peito se agitava, Na escuridão completa se immergia, Palpando o muro os passos tenteava, Quando na marcha subito impedido Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.
Estremece o mancebo co'a surpresa; Mas prompto do repente recobrado, A mão ao corpo estende, e em vez de asp'reza Sente o tacto macio e delicado De anneladas madeichas na leveza, N'um seio feminil brando, agitado; Mais não hesita, o corpo em braços toma, Fóra da torre com o fardo assoma.
Mas o corpo que leva entre seus braços Sem movimento está, e a voz perdida, Pendem-lhe os membros com o mover dos passos Qual a vide de olmeiro desprendida; Se o coração, batendo por espaços, No debil ser não revelára a vida, O mancebo por certo acreditára Que da morte os mysterios profanára.
Mais o fardo apertava contra o peito, Mais do mancebo o peito se agitava. Parecendo-lhe sentir passo suspeito Que apoz elle nas sombras caminhava, A marcha apréssa, e n'um carreiro estreito Entra a mata, que a um lado a serra brava Selvatica produz, e na espessura Mais densa, o fardo põe sobre a verdura.
Qual pasmo sem igual, quando encarando Aquella, que das trevas arrancára, Da lua lhe revéla um raio brando Do peregrino rosto a forma rara; Quando, no vulto immovel attentando, Descobre do mancebo a vista avára As bellezas, que prodiga a natura De Fatima juntou na formosura.
A pallidez da morte realçava Merencoria a expressão de seu semblante; Os apagados olhos lhe cerrava A palpebra de cilias abundante; Do seio, que opprimido palpitava, Parecia que um suspiro a cada instante Ia partir, que o moço a vida déra Se nos labios gentis o recolhera.
Extatico de pasmo e de surpreza Jaz Ruy com tal vista captivado, Sem cogitar de tanta gentileza Qual seja o miserando infausto estado. Co'a alma em goso estranho absorta e preza Ficára o moço alli como encantado, Se na Bella afllicção mais dura e forte Não parecesse estender o véo da morte.
Contrahiram-se as faces melindrosas. Os membros delicados se obduraram, Os labios virginaes, murchas as rosas, Com um moto convulso trepidaram, De suór frio as gotas abundosas Pallida a frente, e o collo lhe banharam, Alevantou-se o seio seu mimoso, Tomou-se o respirar mais afanoso.
O imprudente Ruy sahe do lethargo Recobra com o terror o pensamento, Do abandono da triste se faz cargo Naquelle transe horrivel de tormento; Dos olhos lhe rebenta pranto amargo, A Bella aperta ao peito tão violento Como quem quer partir com ella a vida, Ou com ella a existencia ver perdida.
Não foi do moço inutil o transporte, Que a Bella entre seus braços estreitada; Ou fosse por que assim o quiz a sorte, Ou milagre de amor: reanimada, De subito escapando ás mãos da morte. Move o collo, ergue a frente debruçada, Cessa a suffocação, livre respira, Abre os formosos olhos, e suspira.
Na mesma situação mais de um instante Um e outro ficaram sem fallar-se; Elle de puro goso delirante, Ella como quem busca recordar-se: Mas breve de Ruy vendo o semblante, Sentindo entre seus braços estreitar-se, D'elles se arranca, e em pranto debulhada, Fallando assim, lhe cahe aos pés prostrada.
«Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade «Entrada pode ter dentro em teu peito, «De uma innocente a misera orfandade, «Desamparo, e miseria tem respeito! «Sei que cahi na tua potestade; «Mas antes de sentir o seu effeito «Morrerei!......» Disse, e as renascidas rosas Pudibunda escondeu nas mãos formosas.
«Que do Deus que nos ouve um raio ardente «Te vingue, e me anniquille neste instante, «Se um sentimento indigno esta alma sente «De que haja de córar o teu semblante! «Perde o terror, oh Virgem, tens presente «Um amigo, um irmão cuja constante «Ambição será só de obedecer-te «E contra qualquer perigo defender-te!»
Assim fallou Ruy, e alevantando A prostrada Fatima, em mil maneiras Foi seu terror primeiro dissipando, Com gestos, com palavras verdadeiras. N'um penedo que cobre o musgo brando A Virgem se assentou, co'as lisongeiras Expressões de Ruy cobrando alento, Sentiu raiar a esperança em seu tormento.