ACTO PRIMEIRO.
SCENA I.
Filodemo e Vilardo.
FILODEMO.
Moço Vilardo?
VILARDO.
Ei-lo vae.
FILODEMO.
Fallae era má, fallae,
E sahi cá para a sala.
O villão como se cala!
VILARDO.
Pois, Senhor, sahi a meu pae,
Que quando dorme não fala.
FILODEMO.
Trazei cá huma cadeira:
Ouvis, villão? [{388}]
VILARDO.
Senhor, sim.
(Se m'ella não traz a mim.
Vejo-lh'eu ruim maneira.)
FILODEMO.
Acabae, villão ruim.
Que moço para servir
Quem tẽe as tristezas minhas!
Quem pudesse assi dormir!
VILARDO.
Senhor, nestas manhãzinhas
Não ha hi senão cahir:
Por demais he trabalhar
Qu'este somno se me ausente.
FILODEMO.
Porque?
VILARDO.
Porque ha d'assentar
Que se não for com pão quente,
Não ha de desaferrar.
FILODEMO.
Ora hi pelo que vos mando,
Villão feito de fermento. Sahe Vilardo.
Triste do que vive amando
Sem ter outro mantimento,
Qu'estar só phantasiando!
Só hũa cousa me desculpa
Deste cuidado que sigo,
Ser de tamanho perigo,
Que cuido que a mesma culpa
Me fica sendo castigo. [{389}]
Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante
FILODEMO.
Ora quero praticar
Só comigo hum pouco aqui;
Que despois que me perdi,
Desejo de me tomar
Estreita conta de mi.
Vae para fóra, Vilardo.
Torna cá: vae-me saber
Se se quer ja lá erguer
O Senhor Dom Lusidardo,
E vem-mo logo dizer. Vai-se o moço.
Ora bem, minha ousadia,
Sem azas, pouco segura,
Quem vos deo tanta valia,
Que subais a phantasia
Onde não sobe a ventura?
Por ventura eu não nasci
No mato, sem mais valer,
Que o gado ao pasto trazer?
Pois donde me veio a mi
Saber-me tão bem perder?
Eu, nascido entre pastores,
Fui trazido dos currais,
E d'entre meus naturais
Para casa dos Senhores,
Donde vim a valer mais.
E agora logo tão cedo
Quiz mostrar a condição
De rustico e de villão!
Dando-me ventura o dedo, [{390}]
Lhe quero tomar a mão!
Mas oh! qu'isto não he assi,
Nem são villãos meus cuidados,
Como eu delles entendi;
Mas antes, de sublimados,
Os não posso crer de mi.
Porque como hei eu de crer
Que me faça minha estrella
Tão alta pena soffrer,
Que somente pola ter
Mereço a gloria della?
Senão se amor, d'attentado,
Porque me não queixe delle,
Tẽe por ventura ordenado
Que mereça o meu cuidado,
Só por ter cuidado nelle.
SCENA II.
Vilardo e Filodemo.
VILARDO.
O Senhor Dom Lusidardo
Dorme com todo o convento;
E elle com o pensamento
Quer estar fazendo alardo
De castellinhos de vento!
Pois tão cedo se vestio,
Com seu damno se conforme,
Pezar de quem me pario;
Que ainda o sol não sahio: [{391}]
Se vem á mão, tambem dorme.
Elle quer-se levantar
Assi pela manhãzinha!
Pois quero-o desenganar:
Nem por muito madrugar
Amanhece mais asinha.
Filodemo.
Traze-me a viola cá.
VILARDO.
(Voto a tal que me vou rindo.)
Senhor, tambem dormirá.
FILODEMO.
Traze-a, moço.
VILARDO.
Si, virá,
Se não estiver dormindo.
FILODEMO.
Ora hi polo que vos mando:
Não gracejeis.
VILARDO.
Eis-me vou:
Pois, pezar de São Fernando!
Por ventura sou eu grou?
Sempre hei d'estar vigiando? Sahe.
FILODEMO.
Ah Senhora, que podeis
Ser remedio do que peno,
Quão mal ora cuidareis
Que viveis e que cabeis
N'hum coração tão pequeno!
Se vos fosse apresentado [{392}]
Este tormento em que vivo,
Crerieis que foi ousado
Este vosso, de criado
Tornar-se vosso captivo?
SCENA III.
Filodemo e Vilardo.
VILARDO.
Ora eu creio, se he verdade
Qu'estou de todo acordado,
Que meu amo he namorado;
E a mi dá-me na vontade
Que anda hum pouco abalado.
E se tal he, eu daria
Por conhecer a donzella
A ração d'hoje este dia;
Porque a desenganaria,
Somente por ter dó della.
Havia-lhe perguntar:
Senhora, de que comeis?
Se comeis d'ouvir cantar,
De fallar bem, de trovar,
Em boa hora casareis.
Porém se vós comeis pão,
Tende, Senhora, resguardo;
Qu'eis-aqui está Vilardo,
Qu'he como hum camaleão,
Por isso, bus, fazei fardo.
E se vós sois das gamenhas, [{393}]
E houverdes d'attentar
Por mais que por manducar,
Mi cama son duras peñas,
Mi dormir siempre es velar.
A viola, Senhor, vem
Sem primas, nem derradeiras:
Mas sabe o que lhe convem?
Se quer, Senhor, tanger bem,
Ha de haver mister terceiras.
E se estas cantigas vossas
Não forem para escutar,
E quizerdes espirar;
Ha mister cordas mais grossas,
Porque não possão quebrar.
FILODEMO.
Vae para fóra.
VILARDO.
Ja venho.
FILODEMO.
Qu'eu só desta phantasia
Me sostenho e me mantenho.
VILARDO.
Quamanha vista que tenho,
Que vejo a estrella do dia! Sahe.
SCENA IV.
FILODEMO, cantando.
Adó sube el pensamiento,
Seria una gloria inmensa
Si allá fuese quien lo piensa. [{394}]
Falla.
Qual espirito divino
Me fará a mi sabedor
Deste meu mal, se he amor,
Se por dita desatino?
Se he amor, diga-me qual
Póde ser seu fundamento,
Ou qual he seu natural,
Ou porque empregou tão mal
Hum tão alto pensamento.
Se he doudice, como em tudo
A vida me abraza e queima,
Ou quem vio n'hum peito rudo
Desatino tão sisudo,
Que toma tão doce teima?
Ah Senhora Dionysa,
Onde a natureza humana
Se mostrou tão soberana!
O que vós valeis me avisa,
Mas o qu'eu peno m' engana.
SCENA V.
Solina e Filodemo.
SOLINA.
Tomado estais vós agora,
Senhor, co'o furto nas mãos.
FILODEMO.
Solina, minha Senhora,
Quantos pensamentos vãos
Me ouvirieis lançar fóra? [{395}]
SOLINA.
Oh Senhor, quão bem que sôa
O tanger de quando em quando!
Bem sei eu huma pessoa,
Que haja huma hora, e boa,
Que vos está escutando.
FILODEMO.
Por vida vossa, zombais?
Quem he? quereis-mo dizer?
SOLINA.
Não o haveis vós de saber,
Bofé se me não peitais.
FILODEMO.
Dar-vos-hei quanto tiver,
Para taes tempos como estes.
Quem tivera voz dos Ceos,
Pois escutar me quizestes!
SOLINA.
Assi pareça eu a Deos,
Como lhe vós parecestes.
FILODEMO.
A Senhora Dionysa
Quer-se ja alevantar?
SOLINA.
Assi me veja eu casar,
Como despida em camisa
Se ergueo por vos escutar.
FILODEMO.
Em camisa levantada!
Tão ditosa he minha estrella?
Ou mo dizeis refalsada? [{396}]
SOLINA.
Pois bem me defendeo ella
Que vos não dissesse nada.
FILODEMO.
Se pena de tantos annos
Merecer algum favor,
Para cura de meus dannos
Fartae-me desses engannos,
Que não quero mais de Amor.
SOLINA.
Agora quero eu fallar
Neste caso com mais tento;
Quero agora perguntar:
E de siso his vós tomar
Hum tão alto pensamento?
Certo he minha maravilha,
Se vós isto não sentis
Bem: vós como não cahis
Que Dionysa qu'he filha
Do Senhor a quem servis?
Como? Vós não attentais
Os Grandes, de qu'he pedida?
Peço-vos que me digais
Qual he o fim que esperais
Neste caso, em vossa vida.
Que razão boa, ou que côr
Podeis dar a esta affeição?
Dizei-me vossa tenção.
FILODEMO.
Onde vistes vós amor
Que se guie por razão? [{397}]
Se quereis saber de mi
Que fim, ou de que theor
O pretendo em minha dor;
S'eu neste amor quero fim,
Sem fim me atormente Amor.
Mas vós com gloria fingida
Pretendeis de m'enganar,
Por assi mal me tratar:
Assi que me dais a vida
Somente por me matar.
SOLINA.
Eu digo-vos a verdade.
FILODEMO.
Da verdade fujo eu,
Porque se o Amor me deu
Pena de tal qualidade,
Assaz me custa do meu.
SOLINA.
Fólgo muito de saber
Que sois amante tão fino.
FILODEMO.
Pois mais vos quero dizer,
Que ás vezes no imaginar
Não ouso de m' estender.
Na hora que imaginei
Na causa de meu tormento,
Tamanha gloria levei,
Que por onças desejei
De lograr o pensamento.
SOLINA.
Se me vós a mi jurardes [{398}]
De me terdes em segredo
Huma cousa... mas hei medo
De logo tudo contardes.
FILODEMO.
A quem?
SOLINA.
Áquelle enxovedo.
FILODEMO.
Qual?
SOLINA.
Aquelle mao pezar,
Que ant'hontem comvosco hia.
Quem se fosse em vós fiar!
O que vos disse o outro dia,
Tudo lhe fostes contar.
FILODEMO.
Que lhe contei?
SOLINA.
Ja lh'esquece?
FILODEMO.
Por certo qu'estou remoto.
SOLINA.
Hi, que sois hum cesto roto.
FILODEMO.
Esse homem tudo merece.
SOLINA.
Vós sois muito seu devoto.
FILODEMO.
Senhora, não hajais medo:
Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. [{399}]
SOLINA.
Senhor, o homem sisudo,
Se em taes cousas tẽe segredo,
Saiba que alcançará tudo.
A Senhora Dionysa
Crede que mal vos não quer:
Não vos posso mais dizer.
Isto tende por balisa
Com que vos saibais reger.
Qu'em mulheres, se attentais,
O querer está visibil;
E se bem vos governais,
Não desespereis do mais,
Porque, emfim, tudo he possibil.
FILODEMO.
Senhora, póde isso ser?
SOLINA.
Si, que tudo o mundo tem:
Olhae não o saiba alguem.
FILODEMO.
E que maneira hei de ter
Para crer tamanho bem?
SOLINA.
Vós, Senhor, o sabereis;
E ja que vos descobri
Tamanho sogredo aqui,
Huma mercê me fareis
Em que me vai muito a mi.
FILODEMO.
Senhora, a tudo me obrigo
Quanto for em minha mão. [{400}]
SOLINA.
Pois dizei a vosso amigo
Que não gaste tempo em vão,
Nem queira amores comigo.
Porque eu tenho parentes,
Que me podem bem casar;
E mais que não quero andar
Agora em boca de gentes
A quem s'elle vai gabar.
FILODEMO.
Senhora, mal conheceis
O que vos quer Duriano:
Sabei-o, se o não sabeis,
Qu'em sua alma sente o dano
Do pouco que lhe quereis;
E que outra cousa não quer,
Que ter-vos sempre servida.
SOLINA.
Pola sua negra vida,
Isso havia eu bem mister.
FILODEMO.
Vós sois desagradecida!
SOLINA.
Si, que tudo são enganos
Em tudo quanto fallais.
FILODEMO.
Não quero que me creais:
Crede o tempo; que ha dous anos
Que vos serve, e inda mais.
SOLINA.
Senhor, bem sei que m'engano; [{401}]
Mas a vós, como a irmão,
Descubro este coração:
Sabei que a Duriano
Tenho sobeja affeição.
Olhae que lhe não digais
Isto que vos aqui digo.
FILODEMO.
Senhora, mal me tratais:
Inda que sou seu amigo,
Sabei que vosso sou mais.
SOLINA.
E ja que vos confessei
Aquestas fraquezas minhas,
Que ha tanto que de mi sei;
Fazei vós nas cousas minhas
O qu'eu nas vossas farei.
FILODEMO.
Vós enxergareis, Senhora,
O qu'eu por vós sei fazer.
SOLINA.
Como me deixo esquecer!
Aqui estivera agora
Fallando té anoitecer.
Vou-me; e olhae quanto val
O que passou entre nós.
FILODEMO.
E porque vos ides vós?
SOLINA.
Porque parece ja mal
Estar aqui ambos sós.
E mais vou vestir agora [{402}]
A quem vos dá tão má vida.
Ficae-vos, Senhor, embora.
FILODEMO.
Nessa ide vós, Senhora,
Que ja vos tenho entendida.
SCENA VI.
FILODEMO só.
Ora se póde isto ser
Do qu'esta moça me avisa,
Que a Senhora Dionysa,
Por me ouvir, se fosse erguer
Da sua cama em camisa!
E diz que mal me não quer.
Não queria maior gloria;
Mas o que mais posso crer,
Que nem para lhe esquecer
Lhe passo pela memoria.
Mas ter Solina tambem
Em Duriano o intento,
He levar-me a lenha o vento;
Porque s'ella lhe quer bem,
Para bem vai meu tormento.
Mas foi-se este homem perder
Neste tempo, de maneira,
Por huma mulher solteira,
Que não me atrevo a fazer
Que hum pequeno bem lhe queira.
Porém far-lhe-hei hum partido, [{403}]
Porqu'ella não se querelle:
Que se mostre seu perdido,
Inda que seja fingido,
Como lh'outrem faz a elle.
E ja que me satisfaz,
E tanto nisto se alcança,
Dê-lhe fingida esperança:
Do mal que lhe outrem faz,
Tomará nella vingança.
SCENA VII.
VILARDO só.
Ora boa está a cilada
De meu amo com sua ama,
Que se levantou da cama
Por ouvi-lo! Está tomada:
Assi a tome má trama.
E mais crede que quem canta,
Ainda descantará;
E quem do leito, onde está,
Por ouvi-lo se levanta,
Mor desatino fará.
Quem havia de cuidar,
Que dama formosa e bella
Saltasse o demonio nella,
Para a fazer namorar
De quem não he igual della?
Que me dizeis a Solina?
Como se faz Celestina, [{404}]
Que por não lhe haver inveja
Tambem para si deseja
O que o desejo lh'ensina!
Crede que se me alvoróço,
Que a hei de tomar por dama;
E não será grão destrôço,
Pois o amo quer a ama,
Que a moça queira o moço.
Vou-me; que vejo lá vir
Venadoro, apercebido
Para a caça se partir:
E voto a tal, que he partido
Para ver e para ouvir.
Que he razão justa e rasa
Que seu folgar se desconte
Em quem arde como brasa;
Que se vai caçar ao monte,
Fique outrem caçando em casa.
SCENA VIII.
VENADORO só.
Aprovada antiguamente
Foi, e muito de louvar
A occupação do caçar,
E da mais antigua gente
Havida por singular.
He o mais contrário officio
Que tẽe a ociosidade,
Mãe de todo o bruto vício: [{405}]
Por este limpo exercicio
Se reserva a castidade.
Este dos grandes Senhores
Foi sempre muito estimado;
E he grande parte do estado
Ter monteiros, caçadores,
Como officio qu'he prezado.
Pois logo porque razão
A meu pae ha de pezar
De me ver ir a caçar?
E tão boa occupação
Que mal me póde causar?
SCENA IX.
Venadoro e o Monteiro.
MONTEIRO.
Senhor, venho alvoroçado,
E mais com muita razão.
VENADORO.
Como assi?
MONTEIRO.
Que me he chegado
O mais extremado cão,
Que nunca caçou veado.
Vejamos que me ha de dar.
VENADORO.
Dar-vos-hei quanto tiver;
Mas ha-se d'exprimentar,
Para se poder julgar
As manhas que póde ter. [{406}]
MONTEIRO.
Póde assentar qu'este cão,
Que tẽe das manhas a chave.
Bem feito? Em admiração.
Pois em ligeiro? He huma ave.
Em commetter? Hum leão.
Com porcos? Maravilhoso.
Com veados? Extremado.
Sobeja-lhe o ser manhoso.
VENADORO.
Pois eu ando desejoso
D'irmos matar hum veado.
MONTEIRO.
Pois, Senhor, como não vae?
VENADORO.
Vamos, e vós mui ligeiro
O necessario ordenae;
Qu'eu quero chegar primeiro
Pedir licença a meu pae.