ACTO QUINTO.

SCENA I.

Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião.

JUPITER.

Quem he o tão atrevido,
Que aqui ousa de fazer
Tão revoltoso arruido
Com meus moços, sem temer,
Que fui sempre tão temido?
Quem aqui faz união,
Toma mui grande despejo.

BELFERRÃO.

Oh grande admiração!
Vejo eu outro Amphitrião,
Ou he sonho isto que vejo?

SOSEA.

No mirais la encantacion,
Que aquel hizo á mi Señor?
El que sale, Belferron,
Es el cierto Amphitrion,
Que estotro es encantador.

JUPITER.

Sósea?

SOSEA.

Mi Señor, ya vó.

JUPITER.

Patrão, só por vós espero. [{372}]

SOSEA.

No os lo dicia yo,
Que este era el verdadero,
Y esse que allá queda, no?

AMPHITRIÃO.

Bargante, aonde te vás?
Fazes teu Senhor sandeu?
Pois espera, e levarás.

JUPITER.

Ó lá, tornae por detrás,
Não deis no moço, que he meu.

AMPHITRIÃO.

Vosso?

JUPITER.

Meu.

AMPHITRIÃO.

Póde isto haver,
Que outrem minhas cousas tome?
Vós galante haveis de ser,
O que me tomais o nome,
Casa, moços e mulher.
Eu vos farei conhecer
Com quem tendes esse trato.

JUPITER.

Sósea?

SOSEA.

Señor.

JUPITER.

Vae dizer,
Que apparelhem de comer,
Em quanto este doudo mato. [{373}]

BELFERRÃO.

Oh Senhor, não seja assim,
Haja em vós concêrto algum!
E senão, pois aqui vim,
Farei que só tome em mim
Os golpes de cada hum.

JUPITER.

Patrão, vossa boa estrella
Me fara deixar com vida
Quem me não merece tella.

AMPHITRIÃO.

Não a tenho eu merecida,
Pois que vos deixo com ella.

BELFERRÃO.

O homem que for sisudo,
N'huma tão grande questão
Ha de tomar por escudo
A justiça, e a razão;
Que estas armas vencem tudo.
E pois essa natureza
Muitos homens faz iguais,
Dê qualquer de vós signais
De quem he, para certeza
Da fórma que ambos mostrais.

JUPITER.

Sou contente de mostrar
Polos sinaes que vos dou,
Que são estes sem faltar.

AMPHITRIÃO.

Que sinaes podeis vós dar,
Para que sejais quem sou? [{374}]

JUPITER.

Estes, que logo vereis
Se são vãos, se de raiz.
Patrão, vós sêde juiz,
Que vós logo enxergareis
Qual mais verdade vos diz.

BELFERRÃO.

Eu não sinto onde consista
A cura desta doença,
Que ha tão pouca differença,
Que aquelle em que ponho a vista,
Por esse dou a sentença.
Mas, Senhor, vós que ordenastes
Que o juiz disto fosse eu,
Quando se a batalha deu,
Dizei, que m'encommendastes
Que ficasse a cargo meu?

JUPITER.


Dei-vos cargo, qu'estivesse
Toda a Armada a bom recado,
E, se mal nos succedesse,
Que para os vivos houvesse
O refugio apparelhado.

BELFERRÃO.

Ora vós quantos dobrões
Esse dia m'entregastes?

AMPHITRIÃO.

Tres mil; e vós os contastes.

BELFERRÃO.

Ambos sois Amphitriões
Pelos sinaes que mostrastes. [{375}]

JUPITER.

Para ser mais conhecida
A tenção deste sandeu,
Vêde est'outro sinal meu,
Que he neste braço a ferida
Que me ElRei Terela deu.

BELFERRÃO.

Mostrae vós, Senhor, tambem.

AMPHITRIÃO.

Aqui o podeis olhar.

BELFERRÃO.

Oh cousa para espantar!
Que ambos a ferida tem
D'hum tamanho, em hum lugar!

SCENA II.

Jupiter, Amphitrião e Sosea.

SOSEA.

Dice mi Señora Alcmena
Que no se ha de así de estar
Con un bobo á razonar,
Que se le enfria la cena.

JUPITER.

Belferrão, vamos cear.

AMPHITRIÃO.

Belferrão, não me deixeis.
Como? tambem me negais?

JUPITER.

Andae, não vos detenhais, [{376}]
Vamos comer, se quereis,
Não ouçais hum doudo mais.

AMPHITRIÃO.

Ah maos! assi me ordenais
Offensa tão mal olhada?
Eu farei, se m'esperais,
Com que todos conheçais
Os fios da minha espada.

JUPITER.

As portas prestes fechemos,
Não entre este doudo cá.

SOSEA.

De fuera se dormirá:
Entre tanto que cenemos,
Puede pasearse allá.

SCENA III.

AMPHITRIÃO .

Oh ira para não crer,
Em que minh'alma se abraza,
Que me faz endoudecer,
E não me ajuda a romper
As paredes desta casa!
E porque? Não tenho eu
Forças, que tudo destrua?
Pois que tanto a salvo seu,
Outrem acho que possua
A melhor parte do meu;
Eu irei hoje buscar [{377}]
Quem me ajude a vir queimar
Toda esta casa sem pena,
Donde veja arder Alcmena,
Com quem a vejo enganar.

SCENA IV.

Aurelio e Moço.

AURELIO.

No hallo á mis males culpa,
Para que merezca pena
La causa que me condena.

MOÇO.

Essa está gentil desculpa
Para hoje dar a Alcmena!
Tẽe-no mandado chamar,
E elle está tão descuidado!

AURELIO.

Moço, queres-me matar?
Que desculpa posso eu dar
Melhor qu'este meu cuidado?

MOÇO.

E não ha mais que fazer?
Com isso a boca me tapa
Para mais nada dizer?

AURELIO.

Ora dá-me cá essa capa
E vamos ver o que quer:
Não trates de mais razão,
Pois não ha quem te resista.
Que vejo? outra novação! [{378}]

MOÇO.

Que he?

AURELIO.

Ou me mente a vista,
Ou eu vejo Amphitrião.

MOÇO.

Eu ouvi a Feliseo,
Quando cá trouxe o recado,
Como elle era chegado,
E quiz-me dizer que veo
Do siso desconcertado.

AURELIO.

Isso quero eu ir saber,
Pois que tal cousa se sôa.

SCENA V.

Aurelio e Amphitrião.

AURELIO.

Senhor, póde-se dizer
Que a vinda seja mui boa?

AMPHITRIÃO.

Essa não póde ella ser.

AURELIO.

Porque não?

AMPHITRIÃO.

Porque he roubada
Minha honra sem temor,
E minha casa tomada,
E vossa Prima enganada
Por hum grande encantador. [{379}]

AURELIO.

Isso he certo?

AMPHITRIÃO.

E manifesto:
E tudo tẽe ja por seu
Adúltero e deshonesto:
Tẽe-me tomado o meu gesto,
E faz-lhe crer que sou eu.

AURELIO.

Contais hum caso d'espanto!
E pois não podeis entrar,
Defendei-me por em tanto,
Que eu hei lá de chegar
Para ver quem póde tanto,

SCENA VI.

AMPHITRIÃO .

Se ver deshonra tão clara
Me não tivera o sentido
Totalmente endoudecido,
Que gravemente chorára
Ver tão grande amor perdido!
E quando vejo a verdade
Do nosso amor e amizade
Desfeita com tanta mágoa
Enchem-se-me os olhos d'ágoa,
E a alma de saudade.
Assi que quiz minha estrella,
Para nunca ser contente, [{380}]
Que agora, estando presente
Viva mais saudoso della,
Que quando della era ausente.
Esta porta vejo abrir
Com impeto demasiado,
Que poderei presumir,
Que vejo Aurelio sahir,
Como homem desatinado?

SCENA VII.

Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea.

AURELIO.

Oh estranha novidade!
Oh cousa para não crer!

BELFERRÃO.

Venho cego de verdade,
Que não puderão soffrer
Meus olhos a claridade.

SOSEA.

Oh triste, que vengo ciego
Con rayos, y con visiones!
Y destas encantaciones,
Si nuestra casa arde en fuego,
Han se de arder mis colchones.

AURELIO.

Vamos a Amphitrião
Contar-lhe cousas tamanhas.

AMPHITRIÃO.

Que vai lá? que cousas vão? [{381}]

AURELIO.

Maravilhas tão estranhas,
Que me treme o coração.
Porque aquelle homem, que assi
Tantos enganos teceo,
Como era cousa do Ceo,
Tanto qu'eu appareci,
Logo desappareceo.
E em desapparecendo
Com ruido grande e horrendo,
Toda a casa allumiou;
E de arte nos inflammou,
Que nos vimos acolhendo
Do raio que nos cegou.
Estes acontecimentos
Não são de humana pessoa.
Vós ouvis a voz que soa?
Escutae, estae attentos;
Vejamos o que pregôa.

JUPITER, de dentro.

Amphitrião, qu'em teus dias
Vês tamanhas estranhezas,
Não t'espantem phantasias,
Que ás vezes grandes tristezas
Parem grandes alegrias.
Jupiter sou manifesto
Nas obras de admiração,
Que por mi causadas são:
Quiz-me vestir em teu gesto,
Por honrar tua geração.
Tua mulher parirá [{382}]
Hum filho de mi gerado,
Que Hercules se chamará,
O mais valente e esforçado,
Que no mundo se achará.
Com este, teus successores
Se honrarão de serem teus;
E dar-lhe-hão os escriptores,
Por doze trabalhos seus,
Doze milhões de louvores.
E dessa illustre fadiga
Colherás mui rico fruito:
Enfim, a razão me obriga
Que tão pouco delle diga,
Porque o tempo dirá muito. [{383}]

[{385}]