ELEGIAS
ELEGIA I.
O sulmonense Ovidio desterrado
Na aspereza do Ponto, imaginando
Ver-se de seus Penates apartado;
Sua chara mulher desamparando,
Seus doces filhos, seu contentamento,
De sua Patria os olhos apartando;
Não podendo encobrir o sentimento,
Aos montes ja, ja aos rios se queixava
De seu escuro e triste nascimento.
O curso das estrellas contemplava,
E aquella ordem com que discorria
O ceo e o ar, e a terra adonde estava.
Os peixes por o mar nadando via,
As feras por o monte procedendo
Como o seu natural lhes permittia.
De suas fontes via estar nascendo
Os saudosos rios de crystal,
Á sua natureza obedecendo.
Assi só, de seu proprio natural
Apartado, se via em terra estranha,
A cuja triste dor não acha igual. [{158}]
Só sua doce Musa o acompanha
Nos soidosos versos qu'escrevia,
E nos lamentos com que o campo banha.
Dest'arte me figura a phantasia
A vida com que morro, desterrado
Do bem qu'em outro tempo possuia.
Aqui contemplo o gôsto ja passado,
Que nunca passará por a memoria
De quem o traz na mente debuxado.
Aqui vejo caduca e debil glória
Desenganar meu êrro co'a mudança
Que faz a fragil vida transitoria.
Aqui me representa esta lembrança
Quão pouca culpa tenho; e m'entristece
Ver sem razão a pena que m'alcança.
Que a pena que com causa se padece,
A causa tira o sentimento della;
Mas muito doe a que se não merece.
Quando a roxa manhãa, dourada e bella,
Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,
E torna a seus queixumes Philomela;
Este cuidado, que co'o somno atalho,
Em sonhos me parece; que o que a gente
Por seu descanso tẽe me dá trabalho.
E despois de acordado cegamente,
(Ou, por melhor dizer, desacordado,
Que pouco acôrdo logra hum descontente)
Daqui me vou, com passo carregado,
A hum outeiro erguido, e alli m'assento,
Soltando toda a redea a meu cuidado.
Despois de farto ja de meu tormento, [{159}]
Estendo estes meus olhos saudosos
Á parte donde tinha o pensamento.
Não vejo senão montes pedregosos;
E sem graça e sem flor os campos vejo,
Que ja floridos víra, e graciosos.
Vejo o puro, suave e rico Tejo,
Com as concavas barcas, que nadando
Vão pondo em doce effeito o seu desejo.
Humas com brando vento navegando,
Outras com leves reinos brandamente
As crystallinas ágoas apartando.
D'alli fallo com a ágoa que não sente
Com cujo sentimento est'alma sae
Em lagrimas desfeita claramente.
Ó fugitivas ondas, esperae;
Que pois me não levais em companhia,
Ao menos estas lagrimas levae.
Até que venha aquelle alegre dia
Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo.
Mas tanto tempo, quem o passaria?
Não póde tanto bem chegar tão cedo:
Porque primeiro a vida acabará,
Que se acabe tão aspero degredo.
Mas essa triste morte que virá,
S'em tão contrário estado me acabasse,
Est'alma assi impaciente adonde irá?
Que se ás portas Tartaricas chegasse,
Temo que tanto mal por a memoria
Nem ao passar do Lethe lhe passasse.
Que se a Tantalo e Ticio for notoria
A pena com que vai, e que a atormenta, [{160}]
A pena que lá tẽe, terão por glória.
Essa imaginação, emfim, me augmenta
Mil mágoas no sentido, porque a vida
De imaginações tristes se contenta.
Que pois de todo vive consumida,
Porque o mal que possue se resuma,
Imagina na glória possuida.
Até que a noite eterna me consuma,
Ou veja aquelle dia desejado
Em que a Fortuna faça o que costuma;
Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
ELEGIA II.
Aquella que d'amor descomedido
Por o formoso moço se perdeo,
Que só por si d'amores foi perdido;
Despois que a deosa em pedra a converteo
De seu humano gesto verdadeiro,
A última voz só lhe concedeo.
Assi meu mal do proprio ser primeiro
Outra cousa nenhũa me consente,
Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.
E se huma pouca vida, estando ausente,
Me deixa Amor, he porque o pensamento
Sinta a perda do bem d'estar presente.
Senhor, se vos espanta o soffrimento
Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, [{161}]
Furto este breve espaço a meu tormento.
Porque quem tẽe poder para soffrê-lo,
Sem se acabar a vida co'o cuidado,
Tambem terá poder para dizê-lo.
Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;
Mas n'alma minha triste e saudosa
A saudade escreve, e eu traslado.
Ando gastando a vida trabalhosa,
E esparzindo a contínua soidade
Ao longo d'huma praia soidosa.
Vejo do mar a instabilidade,
Como com seu ruido impetuoso
Retumba na maior concavidade.
De furibundas ondas poderoso,
Na terra, a seu pezar, está tomando
Lugar, em que s'estenda, cavernoso.
Ella, como mais fraca, lh'está dando
As concavas entranhas, onde esteja
Sempre com som profundo suspirando.
A todas estas cousas tenho inveja
Tamanha, que não sei determinar-me,
Por mais determinado que me veja.
Se quero em tanto mal desesperar-me,
Não posso, porque Amor e saudade
Nem licença me dão para matar-me.
Ás vezes cuido em mi, se a novidade
E estranheza das cousas, co'a mudança,
Poderião mudar huma vontade.
E com isto figuro na lembrança
A nova terra, o novo trato humano,
A estrangeira progenie, a estranha usança. [{162}]
Subo-me ao monte que Hercules Thebano
Do altissimo Calpe dividio,
Dando caminho ao mar Mediterrano;
D'alli'stou tenteando adonde vio
O pomar das Hesperidas, matando
A serpe que a seu passo resistio.
Estou-me em outra parte figurando
O poderoso Anteo, que derribado
Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;
Porém do Herculeo braço sobjugado,
No ar deixando a vida, não podendo
Dos soccorros da mãe ser ajudado.
Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,
Nem com as armas tão continuadas,
D'amorosas lembranças me defendo.
Todas as cousas vejo demudadas,
Porque o tempo ligeiro não consente
Qu'estejão de firmeza acompanhadas.
Vi ja que a Primavera, de contente,
Em variadas côres revestia
O monte, o campo, o valle, alegremente.
Vi ja das altas aves a harmonia,
Que até duros penedos convidava
A algum suave modo d'alegria.
Vi ja que tudo, emfim, me contentava,
E que, de muito cheio de firmeza,
Hum mal por mil prazeres não trocava.
Tal me tẽe a mudança e estranheza,
Que se vou por os prados, a verdura
Parece que se sécca de tristeza.
Mas isto he ja costume da ventura; [{163}]
Porque aos olhos que vivem descontentes,
Descontente o prazer se lhes figura.
Oh graves e insoffriveis accidentes
De Fortuna e d'Amor! que penitencia
Tão grave dais aos peitos innocentes!
Não basta examinar-me a paciencia
Com temores e falsas esperanças,
Sem que tambem me tente o mal de ausencia?
Trazeis hum brando espirito em mudanças,
Para que nunca possa ser mudado
De lagrimas, suspiros e lembranças.
E s'estiver ao mal acostumado,
Tambem no mal não consentis firmeza,
Para que nunca viva descansado.
Ja quieto m'achava co'a tristeza;
E alli não me faltava hum brando engano.
Que tirasse desejos da fraqueza.
Mas vendo-me enganado estar ufano,
Deo á roda a Fortuna; e deo comigo
Onde de novo chóro o novo dano.
Ja deve de bastar o que aqui digo,
Para dar a entender o mais que calo
A quem ja vio tão aspero perigo.
E se nos brandos peitos faz abalo
Hum peito magoado e descontente,
Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;
Não quero mais senão que largamente,
Senhor, me mandeis novas dessa terra;
Que alguma dellas me fara contente.
Porque se o duro Fado me desterra
Tanto tempo do bem, que o fraco esprito [{164}]
Desampare a prisão onde s'encerra;
Ao som das negras ágoas do Cocito,
Ao pé dos carregados arvoredos
Cantarei o que n'alma tenho escrito.
E por entre estes horridos penedos
A quem negou Natura o claro dia,
Entre tormentos asperos e medos,
Com a trémula voz, cansada e fria,
Celebrarei o gesto claro e puro,
Que nunca perderei da phantasia.
O Musico de Thracia, ja seguro
De perder sua Eurydice, tangendo
Me ajudará ferindo o ar escuro.
As namoradas sombras, revolvendo
Memorias do passado, me ouvirão;
E com seu chôro o rio irá crescendo.
Em Salmonêo as penas faltarão,
E das filhas de Belo juntamente
De lagrimas os vasos s'encherão.
Que se amor não se perde em vida ausente,
Menos se perderá por morte escura:
Porque, emfim, a alma vive eternamente,
E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
ELEGIA III.
O poeta Simonides fallando
Co'o Capitão Themistocles hum dia,
Em cousas de sciencia praticando; [{165}]
Hum'arte singular lhe promettia,
Qu'então compunha, com que lh'ensinasse
A lembrar-se de tudo o que fazia;
Onde tão subtis regras lhe mostrasse,
Que nunca lhe passassem da memoria
Em nenhum tempo as cousas que passasse.
Bem merecia, certo, fama e gloria
Quem dava regra contra o esquecimento,
Que sepulta qualquer antigua historia.
Mas o Capitão claro, cujo intento
Bem differente estava, porque havia
Do passado as lembranças por tormento;
Oh illustre Simonides! (dizia)
Pois tanto em teu engenho te confias,
Que mostras á memoria nova via;
Se me désses hum'arte, qu'em meus dias
Me não lembrasse nada do passado,
Oh quanto melhor obra me farias!
S'este excellente dito ponderado
Fosse por quem se visse estar ausente,
Em longas esperanças degradado;
Oh como bradaria justamente,
Simonides, inventa novas artes;
Não midas o passado co'o presente!
Que se he forçado andar por várias partes
Buscando á vida algum descanço honesto,
Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;
E se o duro trabalho, he manifesto
Que por grave que seja, ha de passar-se
Com animoso esprito e ledo gesto;
De que serve ás pessoas o lembrar-se [{166}]
Do que se passou ja, pois tudo passa,
Senão d'entristecer-se e magoar-se?
S'em outro corpo hum'alma se traspassa,
Não como quiz Pythagoras na morte,
Mas como quer Amor na vida escassa;
E s'este Amor no mundo está de sorte,
Que na virtude só d'hum lindo objecto
Tẽe hum corpo, sem alma, vivo e forte;
Onde este objecto falta, qu'he defecto
Tamanho para a vida, que ja nella
M'está chamando á pena a dura Alecto;
Porque me não criára a minha Estrella
Selvatico no mundo, e habitante
Na dura Scythia, e no mais duro della?
Ou no Caucaso horrendo, fraco infante
Criado ao peito d'huma tigre Hircana,
Homem fôra formado de diamante;
Porque a cerviz ferina e inhumana
Não submettêra ao jugo e dura lei
Daquelle que dá vida quando engana.
Ou em pago das ágoas qu'estilei,
As que passei do mar, forão do Lete,
Para que m'esquecêra o que passei.
Porque o bem que a esperança vãa promette,
Ou a morte o estorva, ou a mudança,
Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.
Ja, Senhor, cahirá como a lembrança,
No mal, do bem passado he triste e dura,
Pois nasce aonde morre a esperança.
E se quizer saber como se apura
Em almas saudosas, não s'enfade [{167}]
De ler tão longa e misera escriptura.
Soltava Eolo a redea e liberdade
Ao manso Favonio brandamente,
E eu a tinha ja sôlta á saudade.
Neptuno tinha pôsto o seu tridente;
A proa a branca escuma dividia,
Com a gente maritima contente.
O côro das Nereidas nos seguia;
Os ventos, namorada Galatêa
Comsigo socegados os movia.
Das argenteas conchinhas Panopêa
Andava por o mar fazendo mólhos,
Melanto, Dinamene, com Ligea.
Eu, trazendo lembranças por antolhos,
Trazia os olhos n'ágoa socegada,
E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.
A bem-aventurança ja passada
Diante de mi tinha tão presente,
Como se não mudasse o tempo nada.
E com o gesto immoto e descontente,
Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,
Por não mostrar meu mal a toda a gente,
Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido
Em puro amor tivestes, e inda agora
Da memoria o não tendes esquecido;
Se por ventura fordes algum'hora
Adonde entra o grão Tejo a dar tributo
A Tethys, que vós tendes por Senhora;
Ou ja por ver o verde prado enxuto,
Ou ja por colher ouro rutilante,
Das Tagicas areias rico fruto; [{168}]
Nellas em verso erotico e elegante
Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;
Póde ser que algum peito se quebrante.
E contando de mi memorias tristes,
Os pastores do Tejo, que me ouvião,
Oução de vós as mágoas que me ouvistes.
Ellas, que ja no gesto m'entendião,
Nos meneios das ondas me mostravão
Qu'em quanto lhes pedia consentião.
Estas lembranças, que me acompanhavão
Por a tranquillidade da bonança,
Nem na tormenta triste me deixavão.
Porque chegando ao Cabo da Esperança,
Comêço da saudade que renova,
Lembrando a longa e aspera mudança;
Debaixo estando ja da estrella nova
Que no novo Hemispherio resplandece,
Dando do segundo axe certa prova;
Eis a noite com nuvens s'escurece;
Do ar subitamente foge o dia;
E todo o largo Oceano s'embravece.
A máchina do mundo parecia
Qu'em tormentas se vinha desfazendo;
Em serras todo o mar se convertia.
Lutando Boreas fero e Noto horrendo.
Sonoras tempestades levantavão,
Das naos as velas concavas rompendo.
As cordas co'o ruido assoviavão;
Os marinheiros, ja desesperados,
Com gritos para o ceo o ar coalhavão.
Os raios por Vulcano fabricados [{169}]
Vibrava o fero e aspero Tonante,
Tremendo os Polos ambos de assombrados.
Amor alli, mostrando-se possante,
E que por algum medo não fugia,
Mas quanto mais trabalho, mais constante;
Vendo a morte presente, em mi dizia:
Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,
Nada do que passei me lembraria.
Emfim, nunca houve cousa que mudasse
O firme amor intrinseco daquelle
Em quem alguma vez de siso entrasse.
Huma cousa, Senhor, por certa asselle,
Que nunca amor se affina, nem se apura,
Em quanto está presente a causa delle.
Dest'arte me chegou minha ventura
A esta desejada e longa terra,
De todo pobre honrado sepultura.
Vi quanta vaidade em nós s'encerra,
E nos proprios quão pouca; contra quem
Foi logo necessario termos guerra.
Huma Ilha que o Rei de Porcá tem,
E que o Rei da Pimenta lhe tomára,
Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.
Com huma grossa armada, que juntára
O Viso-Rei, de Goa nos partimos
Com toda a gente d'armas que se achára.
E com pouco trabalho destruimos
A gente no curvo arco exercitada:
Com morte, com incendios os punimos.
Era a Ilha com ágoas alagada,
De modo que se andava em almadias: [{170}]
Emfim, outra Veneza trasladada.
Nella nos detivemos sós dous dias,
Que forão para alguns os derradeiros,
Pois passárão da Estyge as ondas frias.
Qu'estes são os remedios verdadeiros
Que para a vida estão apparelhados
Aos que a querem ter por cavalleiros.
Oh Lavradores bem-aventurados!
Se conhecessem seu contentamento,
Como vivem no campo socegados!
Dá-lhes a justa terra o mantimento;
Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura;
Mungem suas ovelhas cento a cento.
Não vem o mar irado, a noite escura,
Por ir buscar a pedra do Oriente;
Não temem o furor da guerra dura.
Vive hum com suas árvores contente,
Sem lhe quebrar o somno repousado
A grã cobiça d'ouro reluzente.
Se lhe falta o vestido perfumado,
E da formosa côr de Assyria tinto,
E das torçaes Attalicos lavrado;
Se não tẽe as delicias de Corinto,
E se de Pario os marmores lhe faltão,
O pyropo, a esmeralda e o jacinto;
Se suas casas de ouro não s'esmaltão,
Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
Onde os cabritos seus comendo sáltão.
Alli lhe mostra o campo várias côres;
Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;
Alli se affina o canto dos pastores. [{171}]
Alli cantára Tityro e Sileno.
Emfim, por estas partes caminhou
A sãa Justiça para o ceo sereno.
Ditoso seja aquelle que alcançou
Poder viver na doce companhia
Das mansas ovelhinhas que criou!
Este bem facilmente alcançaria
As causas naturaes de toda cousa;
Como se gera a chuva e neve fria:
Os trabalhos do sol, que não repousa;
E porque nos dá lũa a luz alhêa,
Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:
E como tão depressa o ceo rodêa;
E como hum só os outros traz comsigo;
E se he benigna ou dura Cytherêa.
Bem mal póde entender isto que digo,
Quem ha de andar seguindo o fero Marte;
Que sempre os olhos traz em seu perigo.
Porém seja, Senhor, de qualquer arte,
Pois postoque a Fortuna possa tanto,
Que tão longe de todo o bem me aparte;
Não poderá apartar meu duro canto
Desta obrigação sua, em quanto a morte
Me não entrega ao duro Radamanto;
Se para tristes ha tão leda sorte. [{172}]
ELEGIA IV.
Despois que Magalhães teve tecida
A breve historia sua, que illustrasse
A Terra Santa Cruz, pouco sabida;
Imaginando a quem a dedicasse,
Ou com cujo favor defenderia
Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;
Tendo nisto occupada a phantasia,
Lhe sobreveio hum somno repousado,
Antes que o sol abrisse o claro dia.
Em sonhos lhe apparece todo armado
Marte, brandindo a lança furiosa,
Com que fez quem o vio todo enfiado;
Dizendo em voz pezada e temerosa:
Não he justo que a outrem se offereça
Obra alguma que possa ser famosa,
Senão a quem por armas resplandeça
No largo inundo com tal nome e fama,
Que louvor immortal sempre mereça.
Disse assi: quando Apollo, que da flama
Celeste guia os carros, de outra parte
Se lhe presenta, e por seu nome o chama,
Dizendo: Magalhães, postoque Marte
Com seu terror t'espante, todavia
Comigo deves só de aconselhar-te.
Hum Varão sapiente, em quem Thalia
Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,
Defender tuas obras poderia. [{173}]
He justo que a escriptura na prudencia
Ache só defensão; porque a dureza
Das armas he contrária da eloquencia.
Assi disse: e tocando com destreza
A cithara dourada, começou
A mitigar de Marte a fortaleza.
Mas Mercurio, que sempre costumou
Pacificar porfias duvidosas,
Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,
Determina compor as perigosas
Opiniões dos deoses inimigos
Com suaves razões e ponderosas.
E disse: Bem sabemos dos antigos
Heroes, e dos modernos, que provárão
De Belona os gravissimos perigos,
Como tão bem mil vezes concordárão
As armas com as letras; porque as Musas
A muitos na milicia acompanhárão.
Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas
Guerras o estudo deixão grande espaço;
Que as armas jamais delle são escusas.
N'huma mão livros, n'outra ferro e aço;
Aquella rege e ensina; est'outra fere:
Mais co'o saber se vence, que co'o braço.
Pois, logo, hum Varão grande se requere,
Que com teus dões (Apollo) illustre seja,
E de ti (Marte) palma e glória espere.
Este vos darei eu, em quem se veja
Saber e esfôrço no sereno peito,
Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.
Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, [{174}]
Todas nove nos braços o tomárão,
Criando-o co'o seu leite no seu leito:
As Artes e as Sciencias lh'ensinárão;
Inclinação divina lh'influírão
Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.
Daqui nos exercidos o seguírão
Das armas no Oriente, onde primeiro
Hum soldado gentil instituírão.
Alli taes provas fez de Cavalleiro,
Que, de Christão magnanimo e seguro,
A si mesmo venceo por derradeiro.
Despois, ja Capitão forte e maduro,
Governando toda a Aurea Chersoneso,
Lhe defendeo co'o braço o debil muro.
Porque vindo a cercá-la todo o pêso
Do poder dos Achens, que se sustenta
De alheio sangue, em furia todo acceso;
Este só que a ti, Marte, representa,
O castigou de sorte, que vencido
De ter quem vivo fique se contenta.
E logo qu'este Reino defendido
Deixou, segunda vez com maior glória
Para o ir governar foi elegido.
Mas não perdendo ainda da memoria
Os amigos o seu govêrno brando,
Os imigos o damno da victoria;
Huns com amor intrinseco esperando
Estão por elle, e os outros congelados
O estão com frio medo receando.
Vêde pois se serião debellados
Por seu claro valor, se lá tornasse, [{175}]
E dos Indicos mares degradados.
Porqu'he justo que nunca lhe negasse
O conselho do Olympo alto e subido
Favor e ajuda com que pelejasse.
Aqui só póde ser bem dirigido
De Magalhães o estudo: este só deve
Ser de vós, claros deoses, escolhido.
Assi Mercurio disse; e em termo breve
Conformados se vem Apollo e Marte;
E voou juntamente o somno leve.
Acorda Magalhães, e ja se parte
A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,
Tudo o que nelle poz sciencia e arte.
Tẽe claro estylo, e engenho curioso,
Para poder de vós ser recebido,
Com mão benigna, de ânimo amoroso.
Pois se só de não ser favorecido
Hum alto esprito fica baixo e escuro;
Este seja comvosco defendido,
Como o foi de Malaca o debil muro.
ELEGIA V.
Aquelle mover de olhos excellente,
Aquelle vivo espirito inflammado
Do crystallino rosto transparente;
Aquelle gesto immoto e repousado,
Qu'estando n'alma propriamente escrito,
Não póde ser em verso trasladado; [{176}]
Aquelle parecer, que he infinito
Para se comprender d'engenho humano;
O qual offendo em quanto tenho dito;
Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,
E tanto a engrandecer-me a phantasia,
Que não vi maior glória que meu dano.
Oh bem-aventurado seja o dia
Em que tomei tão doce pensamento,
Que de todos os outros me desvia!
E bem-aventurado o soffrimento
Que soube ser capaz de tanta pena,
Vendo que o foi da causa o entendimento!
Faça-me quem me mata, o mal que ordena,
Trate-me com enganos, desamores;
Qu'então me salva, quando me condena.
E se de tão suaves desfavores
Penando vive hum'alma consumida,
Oh que doce penar! que doces dores!
E se huma condição endurecida
Tambem me nega a morte por meu dano,
Oh que doce morrer! que doce vida!
E se me mostra hum gesto lindo humano,
Como que de meu mal culpada se acha,
Oh que doce mentir! que doce engano!
E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,
Mostrando refrear o pensamento,
Oh que doce fingir! que doce cacha!
Assi que ponho ja no soffrimento
A parte principal de minha glória,
Tomando por melhor todo tormento.
Se sinto tanto bem só co'a memoria [{177}]
De ver-vos, linda Dama, vencedora;
Que quero eu mais que ser vossa victoria?
Se tanto a vossa vista mais namora,
Quanto eu sou menos para merecer-vos;
Que quero eu mais que ter-vos por senhora?
Se procede este bem de conhecer-vos,
E consiste o vencer em ser vencido,
Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?
S'em meu proveito faz qualquer partido,
Só na vista d'huns olhos tão serenos,
Que quero eu mais ganhar que ser perdido?
Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,
A merecer não chegão seu tormento,
Que quero eu mais, que o mais não seja menos?
A causa, pois, m'esforça o soffrimento;
Porque, a pezar do mal que me resiste,
De todos os trabalhos me contento;
Que a razão faz a pena alegre, ou triste.
ELEGIA VI.
Entre rusticas serras e fragosas,
Compostas d'asperissimos rochedos,
De salitradas lapas cavernosas;
Onde gretando os humidos penedos
Orvalhados de neve branca e fria,
Brotando estão de si mil arvoredos;
Huma floresta fez verde e sombria
A natureza experta, que rodeia, [{178}]
Como elevado muro, a serrania.
Neste formoso sítio se recreia
O lascivo Cupido entre as boninas,
Que sempre hum brando Zephyro meneia.
Da candida cecem, das clavellinas,
Da salva, mangerona e das mosquetas,
Das rubicundas flores hyacinthinas,
Muitas capellas tece, que de setas
Lhe servem contra peitos de donzellas,
A quem d'inveja traz sempre inquietas.
Não são d'huma só côr as flores bellas;
Que humas esmalta verde, outras rosado,
Entre as azues crescendo as amarellas.
Dos agrestes loureiros rodeado,
Faz o valle huma sombra deleitosa,
Quando apparece o sol mais levantado.
E por cima da relva bem graciosa
As gottas de crystal quasi imitando
Estão do aljofar puro a luz formosa.
As crystallinas fontes, que brotando
Por entre alvos seixinhos se derivão,
Das árvores os troncos vão banhando.
Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão
O formoso pastor que se perdeo,
Preso das falsas mostras que o captivão,
Cresce a por cuja causa s'esqueceo
A linda Cytherêa de Vulcano,
Quando presa d'Amor se lhe rendeo.
Na brancura do rosto soberano,
Inda as crueis feridas apparecem
Do javali cerdoso e deshumano. [{179}]
As rosas que de sangue resplandecem,
As candidas boninas marchetadas,
Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.
Do matutino orvalho rociadas,
As flores rutilantes e cheirosas
Estão como por cima prateadas.
Os humidos botões abrindo as rosas,
Que os agudos espinhos vão cercando,
No prado se vem rindo deliciosas.
A mellifera abelha, susurrando
Por cima das boninas que rodeia,
Está co'o som das ágoas concertando.
Do trémulo regato a branda areia
De jacinthos se cobre e de vieiras,
Qu'encrespão da corrente a branca veia.
Os álamos s'abração co'as videiras
De sorte, que s'enxérga escassamente
Se são os cachos seus, se das parreiras;
E pendendo por cima da corrente,
Outro formoso bosque debuxando
Estão no fundo della brandamente.
Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando
Do perfido cunhado a crueldade,
Mágoas em melodias transformando.
A solitaria rôla com soidade
Desfaz o rouco peito, ja cansada
De que não move a morte a piedade.
A domestica Progne anda banhada
No sangue de seus filhos, em vingança
Da triste Philomela profanada.
De competir co'o merlo não descança [{180}]
O garrulo calhandro, qu'enrouquece
Por não perder callado a confiança.
Em quanto o pobre ninho ajunta e tece
O sonoro canario, modulando
Engana a grave pena que padece.
Alguns versos s'escuta derramando
O vário pintasirgo, tão saudaveis,
Que produzem memorias d'amor brando.
Por os direitos troncos ha notaveis
Epigrammas; alguns d'antigua historia,
Que contra o duro tempo são duraveis.
Huns de cruel tormento, outros de glória,
Conforme a liberdade do qu'escreve,
Estranhos casos mostrão á memoria.
O que neste lugar contente esteve,
Contente declarou seu pensamento,
E os prazeres tambem que nelle teve.
Mas outros, declarando o sentimento
Que dos olhos destila tristes ágoas,
Deixárão mil lembranças de tormento.
Abrazando-se alguns em vivas frágoas,
Escrevêrão do bosque em muitas partes
Gostos d'Amor agora, agora mágoas.
Porque, cruel menino, o premio partes
A quem serás[2] tyranno se lho negas, [{181}]
E injusto e desigual, se lho repartes?
Porqu'enganas as almas que tão cegas
Arrastas apos ti, de error captivas?
Porque a crueis rigores as entregas?
Para que contra hum peito assi t'esquivas,
Que humilde se sujeita a teu cuidado,
Com enganos de sombras fugitivas?
Levas, como a menino, hum pobre a nado,
N'huma apparencia falsa embevecido,
Quando co'os braços corta o mar inchado.
Querendo-se tornar, vê-se perdido;
Ja grita que se affoga; e tu zombando,
Da praia entre os penedos escondido!
O triste, que conhece ir-se affogando,
No meio da arriscada zombaria
Por divino soccorro está clamando.
Mas eu de que m'espanto, se dizia
Hum sabio que d'enganos se temesse
O que tomasse a hum cego tal por guia?
Nunca nelle a firmeza permanece;
Se nos dá gôsto algum, muda-se logo;
Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.
Anda co'os corações sempre em hum jôgo;
Humas vezes os faz de pedra fria,
Outras os faz de neve, outras de fogo.
Tornando ao bosque meu que descrevia,
Despois de ter contado da frescura
Que nelle tão pomposa apparecia,
Referir quero agora huma aventura
Que nelle ao vão Narciso aconteceo,
Digna de se chorar com mágoa pura. [{182}]
Castigo foi que o moço mereceo
Por se mostrar esquivo com aquella,
Qu'em viva pedra Juno converteo.
Ardia em fogo d'alma a vãa donzella,
Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,
Quando ella mais se abraza, mais congela.
E quando a fraca Nympha mais de siso
Mostrava hum signal certo de firmeza,
Então se provocava o moço a riso.
Ja d'huma profundissima tristeza
A descora o rigor que a consumia.
Como diz desfavor mal com belleza!
O gelado pastor folgava e ria;
Mas vendo-a de seu gôsto andar contente,
Por não a contentar s'entristecia.
He tal o seu rigor, que não consente
Que seja o gôsto proprio festejado;
Antes disso se mostra descontente.
Mas o cego Cupido, d'affrontado,
Em vingança da fé que desprezou,
Fez que fosse de si mesmo enganado.
Casualmente hum dia se chegou
A beber n'huma fonte crystallina,
Que de si nova sêde lhe causou.
Vendo a sua figura peregrina
Que a fonte dentro em si representava,
Se perdeo por imagem tão divina.
Como ja, d'enlevado, não cuidava
Nos enganos que a sombra lhe fazia,
Vendo o formoso rosto, suspirava.
Por as avaras ágoas se metia; [{183}]
E quanto mais molhava os tenros braços,
Então mais vivamente o fogo ardia.
Vendo-se assi prender em duros laços,
Ao sentimento obriga a paciencia,
Dando, fóra de si, ao vento abraços.
Embevecido todo n'apparencia,
Sem saber de cuidado o que sentia,
Não fez ao doce engano resistencia.
Ao ver-se longe mais, mais perto via
O peregrino gesto; e se chegava,
Então para mais longe lhe fugia.
Vendo, emfim, como em tudo o remedava
Cahio no torpe engano que tivera,
A tempo que de si ja preso estava.
A belleza que a tantas morte dera,
De si mesma se abraza e se captiva.
Quão longe então de si ver-se quizera!
Ella se abranda propria; ella se esquiva;
E sendo ella somente a que se amava,
Ella se chama ingrata e fugitiva.
A formosura, pois, que namorava,
Com tal difficuldade era seguida,
Qu'estando dentro em si, mui longe estava.
A solitaria Nympha, qu'escondida
Ja nas cavernas concavas se via,
Dos males que lhe ouvio foi commovida.
Das namoradas mágoas que dizia
O namorado moço, ella somente
Os ultimos accentos repetia.
Elle vendo-se estar alli presente,
As crystallinas ágoas accusava [{184}]
De que ellas o fazião descontente.
Outras vezes á fonte, quando a olhava,
Ja cego, e sem juizo, agradecia
A figura que dentro lhe mostrava.
Mas vendo qu'ella em nada se dohia
De seu grave tormento, grita e chora.
Quanto erra quem de sombras se confia!
Ja lhe pede que saia para fóra.
Ignorando que sempre fóra esteve
A belleza que nelle proprio mora.
Despois que longo espaço se deteve
Nestes queixumes seus tão lastimosos,
Que com tão longo ser, julgou por breve;
Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,
Do valle se despede e da espessura,
Dando soluços da alma vagarosos.
Entregue na vontade da ventura,
Ou, por melhor dizer, de seus enganos,
Ao centro se arrojou da fonte pura.
Dest'arte feneceo em tenros anos
Narciso, dando exemplo á formosura
De que tema, se he tal, tambem seus danos.
Sentimento mostrou da sorte dura
O namorado Jupiter, mudando
Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.
Aquellas claras ágoas rodeando,
Onde por seus amores se perdeo,
Está despois da morte acompanhando.
Tanto no seu engano procedeo,
Que não sabe na morte inda apartar-se
Dos erros que na vida commetteo. [{185}]
Bem póde o coração desenganar-se,
Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,
Não costuma na morte resfriar-se.
Porque despois do corpo sepultado,
Prisão onde s'encerra o fraco esprito,
Eternamente chora o seu cuidado.
E das escuras ágoas do Cocito
A rapida corrente refreando,
Celebra o lindo gesto n'alma escrito.
Lá se está co'os favores recreando;
E se foi desprezado, lá padece,
As duras esquivanças lamentando.
Nem dos avaros olhos lá s'esquece,
Que de formoso verde a terra esmaltão,
Por não ver os do triste qu'endoudece.
Assi que os desfavores nunca faltão,
Até despois da morte perseguindo
Hum triste coração que desbaratão.
Triste de quem em vão lhe vai fugindo!
[2] Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que parece, corrigido por mão estranha. A versificação está certa, mas o sentido he absurdo: e se a verdadeira lição não he:
Porque, cruel menino, o premio partes
De modo que es tyranno, quando o negas,
E injusto e desigual, quando o repartes?
não podemos adivinhar qual seja. Nota dos Editores.
ELEGIA VII.
Ao pé d'hum'alta faia vi sentado,
N'hum valle deleitoso e bem florido,
A Almeno, pastor triste e namorado.
Outro no mundo póde haver nascido
Mui queixoso de Amor; porém não tanto,
Como este amante, por amar perdido.
Ja Venus hia recolhendo o manto [{186}]
Escuro com que a terra se mostrava,
Para ajudar d'Almeno o triste pranto.
Apollo sôbre os montes derramava
Seus dourados cabellos, que fazião
Ao triste inda mais triste do qu'estava.
As flores por o prado s'estendião.
E das que finas mais erão as côres,
Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.
Ja guiavão seus gados os pastores,
Que, deixando-os no campo deleitoso,
Com ellas praticavão só d'amores.
Mas era esta alegria hum perigoso
Estado para Almeno entristecido;
E por isso a deixava pressuroso,
Buscando outro lugar: contra Cupido
Claramente exclamava, e o arguia
De contrário, d'astuto e fementido.
De quando em quando a frauta que tangia.
Numeros dava ao ar tão docemente,
Que as aves provocava a melodia.
Cego assi desta dor, deste accidente,
Com os olhos em lagrimas banhados,
Postos no ceo, dizia tristemente:
Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,
Porque mos déste tu para offender-te,
Quando livre vivia nestes prados?
Não vês quanto me negas merecer-te
O bem que me mostravas, se deixasse
Ferir meu coração para soffrer-te?
Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?
Ou qual me has promettido, que hajas dado? [{187}]
Ou qual déste, que muito não custasse?
Mostra-me quem puzeste em tal estado,
Que pudesse viver de ti contente,
Ou quem de ti não fosse lastimado?
Inimigo cruel de toda a gente,
Ja não quero teu bem, só meu mal quero;
Se de ti nem meu mal se me consente.
Inda que de teus bens ja desespéro,
Não desprézo dos males o tormento;
Antes o prezo mais, quando he mais fero.
Arrebatado deste pensamento
Hia o triste pastor com hum contino
Pranto, que lhe avivava o sentimento.
Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,
Qu'era de Amor plantado; e parecendo
Lhe está menos humano que divino.
Nelle a dor sua esteve suspendendo:
Porém não, como cervo, está ferido,
Reparo ao mal que leva pretendendo.
Apparecia o sítio tão florído,
Que provocava a não vulgar espanto,
Entre huns altos ulmeiros escondido.
D'hum crystallino orvalho tinha o manto,
Quando entrou nelle o misero pastor,
E as tenções explicou neste seu canto.
Ó bellas rosas, vós que sois amor,
He por dita humildade, ou he baixeza,
O ter apar de vós murta, que he dor?
Papoulas conversais, que são tristeza!
Não desprezais o cardo, que he tormento!
Admittis a hortelãa, sendo crueza! [{188}]
Dos goivos longe vejo o sentimento;
Dos jasmins perto estou vendo o perigo;
Dos malmequeres vejo o soffrimento.
Deste me temerei como inimigo;
Mas traz por armas salva, que he razão:
Com ella acabará tambem comigo.
As minhas vem a ser huma affeição,
Que são os puros cravos misturados
Co'a vontade sujeita, que he limão.
Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!
Ai crespa mangerona, que es prazer!
Vós sós devieis adornar os prados.
Não pódem dous oppostos juntos ser:
Onde se põe giesta, que he lembrança,
Junto do rosmaninho, que he 'squecer?
Bem peza do leve álamo a mudança;
Do roxo goivo anima o pensamento
Do cypreste odorifero a esperança.
O trevo, que he sentido apartamento,
Cérca o mangericão, que se interpreta
Memoria a quem offende o esquecimento.
Mais importuna que o jardim de Creta,
A ameixieira a flor está soltando:
A segurelha vejo, que he discreta.
As hervas que daqui irei tomando,
São a pura cecem, qu'he saudade;
Cravos, medo de ver qual de amor ando.
E, de ter mui perdida a liberdade,
Tomarei madresylva entendimento;
Legação tomarei, porqu'he verdade.
Marmeleiro me dá arrependimento: [{189}]
Por a salva, que he gôsto, tomarei
Coentro opposto ao meu contentamento.
Conhecimento firme nunca achei,
Que violetas são; e, quando o houvera,
Qual meu damno então fôra, bem o sei.
Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera
Ver-vos aqui menor, pois sois victória,
Que de mi alcançou chamma severa!
Mas se quereis que tenha alguma glória,
Por galardão d'amar e ser sujeito,
Perderei de tormentos a memoria.
Porém, pois mo negais, de todo engeito
A palma, qu'he ventura; e na parreira,
Qu'he'sperança perdida, me deleito.
Entretanto co'a flor da laranjeira,
Qu'he desafio duro e arriscado,
Posso arguir da hora derradeira.
Ja não se quer deter o meu cuidado
Com a romãa descanso: a brevidade
Das maravilhas só tẽe desejado.
E vós, ovelhas minhas, sem piedade
Vos apartae de mi, se algum desejo
Tendes de ter do pasto mais vontade.
Se muita de me verdes em vós vejo,
Toda a minha de ver-vos hei perdido
Á força do poder d'amor sobejo.
Lograe do Tejo o placido ruido;
Sós lograe estas veigas florecidas:
Pois se perde o pastor vosso querido,
Não gosteis de com elle ser perdidas. [{190}]
ELEGIA VIII.
Belisa, unico bem desta alma triste,
Descanso singular de minha vida,
Throno donde o poder d'Amor consiste;
Formosa fera, a quem está rendida
D'Amor a que he mais livre liberdade,
Ganhada mais, se mais por ti perdida;
Quão contrário parece na beldade,
Que os corações captiva com brandura,
Alguma nódoa haver de crueldade!
Quão contrário parece em formosura,
Que deixa muito atraz quanto he humano,
Esquiva condição, ou alma dura!
Quão mal parece em quem só co'hum engano
Póde dar vida ao coração sujeito,
Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!
Quão mal parece que hum amor perfeito
Não seja d'outro igual remunerado,
Inda que seja, acaso, contrafeito!
Quão mal parece estar desesperado
Quem tanto por ti soffre e tẽe soffrido,
Devendo estar de penas alliviado!
Porém peor parece quem rendido
Não for a hum parecer que tudo rende,
Por mais qu'em seu rigor viva offendido.
E inda peor parece quem defende
O ser essa belleza sempre amada,
Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.
Se quem te mostra amor te desagrada,
Só pódes pretender o não ser vista, [{191}]
Mas não despois de vista o ser deixada.
Quão mal sabe o valor de tua vista
Quem cuida que o que della acaso alcança
Póde achar coração que lhe resista!
Quão bem pareceria huma esperança
Ja concedida a meu amor ardente,
Não sempre huma mortal desconfiança!
Se hum padecer por ti constantemente
Pudesse ser reparo a quem mais te ama,
Inda esperar pudera o ser contente.
Mas eu temo que aquella immensa chama
Com que a teu bello imperio me levaste,
Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.
Se a Olympica belleza assi imitaste,
Que brandamente move hum amor puro,
Porque tão dura condição tomaste?
Qual elevado, qual soberbo muro
Este mal, que m'occupa o pensamento,
Contado, não tornára menos duro?
Tu, qu'es a causa só de meu tormento,
Tu, que somente podes gloriar-me,
Queres que as minhas queixas leve o vento?
Tu, que me pagarias com matar-me,
Inda a morte me negas vezes tantas?
Ai, que me deras vida em morte dar-me!
Usa piedade, tu, que o mundo espantas
Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,
Se acaso a vê-lo brandos os levantas.
Estende-se na terra o negro manto,
E á noute dá alegria a luz alheia;
Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. [{192}]
Torna a manhãa despois alegre e cheia
Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora;
Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.
Lagrimas ja não são qu'esta alma chora,
Mas amor he vital que dentro arde,
E por a luz dos olhos salta fóra.
Como inda a morte quer que mais aguarde?
Não tarde ja, mas corra a mal tão fero.
Mas ja por mais que corra virá tarde.
Nem no supremo trance de ti 'spero
Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto
Queiras, crua, entender quanto te quero.
Ai! se volveres esse bello rosto
Ao lugar triste em que morrer me vires,
Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,
Não quero de ti, não, que alli suspires,
Nem que de dar-me a morte te arrependas,
Mas que os olhos de ver-me então não tires.
Assi nunca pastor a quem te rendas,
Te faça conhecer o que me fazes,
Para que com teu mal meu mal entendas!
Como ja agora não te satisfazes
Das penas deste amor, que por querer-te,
De teu merecimento são capazes?
Pois quem com outro merito render-te
Presume, (oh raro monstro de belleza!)
Muito mais longe está de merecer-te.
Este si, que merece a grã crueza
Com que tu d'acabar-me a vida tratas,
Pois diante de ti, de si se preza.
Se cuidas que com isto desbaratas [{193}]
O meu constante amor, porque não viva,
Elle mais vive quando mais me matas.
Se o dar-me morte tens por glória altiva,
Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina
A matar mais de branda que d'esquiva.
S'esta alma tua julgas por indina
Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,
Do descoberto mal a faze dina.
Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,
A poder reduzir-te a ser piedosa?
Ou m'acaba de todo, ou me responde.
Mas por mais que te mostres rigorosa,
Deixar meu pensamento m'he impossivel,
Igualmente que a ti não ser formosa.
E por mais qu'esta dor seja terrivel,
Somente o contemplar a causa della,
Inda que a faz maior, a faz soffrivel
Porém chegando a não poder soffrê-la,
Perdendo a vida; quando a morte chame,
Não perderei o gôsto de perdê-la.
He justo qu'eu por ti mil mortes ame:
Mas vê tu se te illustra, quando offensa
Minha mortal o teu valor se chame.
Bem vês que huma beldade tão immensa
De vencer-me tẽe glória bem pequena,
Pois só render-me tomo por defensa.
Mas ja que amor tão puro me condena,
Contente fico assaz desta victoria;
Que não me dão meus males tanta pena,
Quanto o serem por ti me dá de glória. [{194}]
ELEGIA IX.
A vida me aborrece, a morte quero:
Será eterno o meu mal, segundo entendo,
Pois na mor esperança desespéro.
Sem viver vivo, por morrer vivendo
Por não verdes, Senhora, como eu vejo,
Quanto de mi por vós me ando esquecendo.
Seja-me agradecido este desejo;
Ingrata não sejais a quem vos ama
Com puro e honestissimo despejo.
A culpa que me pondes, ponde-a á fama,
Que pregôa de vós celeste vida
Que os corações d'amor divino inflama.
Humana, quando não agradecida,
Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,
Antes que a alma do corpo se despida.
Mas que posso eu fazer, pois ja não posso
Hum tormento domar tão forte e duro,
Homem formado só de carne e de osso?
Em minha fé segura me asseguro;
Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,
Se resulta d'amor sincero e puro.
Essa beldade santa me faz guerra;
Por ella hei de morrer, inda que veja
Tornar o brando rio em dura serra.
Que cousa tenho eu ja que minha seja?
Quem não deseja a vossa formosura,
Não póde assegurar que o ceo deseja.
De qu'eu sempre a deseje estae segura: [{195}]
Neste desejo meu nunca mudança
Hão de ver as mudanças da ventura.
A vida tenho posta na balança
Da glória singular, do damno esquivo;
Que o perdê-la por vós he mor bonança.
Se vos offendo, cuido que não vivo:
Olhae se muito mais que de offender-vos,
Das esperanças do viver me privo.
O que temo somente he só perder-vos;
O que quero somente he só adorar-vos;
O que somente adoro he só querer-vos.
Querer-vos sem deixar de venerar-vos;
Desejar-vos somente por servir-vos;
Por servir a amor vil não desejar-vos:
Somente ver-vos, e somente ouvir-vos
Pretendo; e pois somente isto pretendo,
Deveis a estes sentidos permittir-vos.
Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,
Como se fôra pouco isto somente!
Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?
Se o não merece o meu amor decente;
Se morte por amar-vos se merece,
Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.
Se vos aggrava quem por vós padece;
Se vos vẽe a offender quem vos quer tanto,
Quem desta sorte errou não desmerece.
Que quando os olhos da razão levanto
Ao ceo d'essa rarissima belleza,
De não morrer por ella só m'espanto.
Deixae-me contentar desta tristeza,
E fazer de meus olhos largo rio; [{196}]
Se algum póde abrandar vossa dureza.
Correndo sempre as lagrimas em fio,
Farei crescer as hervas por os prados,
Pois ja d'outra alegria desconfio.
No monte darei pasto a meus cuidados;
E serão de mi sempre entre os pastores
Esses divinos olhos celebrados.
Aprenderão de mi os amadores
Aquillo que se chama amor sublime,
Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.
E nenhum havera que a pena estime
Mais soberana por a causa della,
Que a que teve até então não desestime;
E qu'inveja não mostre á minha estrella.
ELEGIA X.
Que tristes novas, ou que novo dano,
Qu'inopinado mal incerto sôa,
Tingindo de temor o vulto humano?
Que vejo? as praias humidas de Goa
Ferver com gente attonita e turbada
Do rumor que de boca em boca vôa!
He morto D. Miguel (ah crua espada!)
E parte da lustrosa companhia
Que alegre s'embarcou na triste Armada:
E d'espingarda ardente e lança fria
Passado por o torpe e iniquo braço,
Que nossas altas famas injuría. [{197}]
Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço,
Não ânimo d'avós claros herdado,
Com que temer se fez por longo espaço.
Não ver-se em de redor todo cercado
D'irados inimigos, qu'exhalavão
A negra alma do corpo traspassado.
Não as fortes palavras que voavão
A animar os incertos companheiros,
Que timidos as costas lhe mostravão.
Mas ja postos, nos termos derradeiros,
(Rotos por partes mil e traspassados
Os membros, no valor somente inteiros)
Os olhos (de furor acompanhados,
Qu'inda na morte as vidas amedrentão
Dos duros inimigos espantados)
Postos no ceo, parece que presentão
A alma pura á suprema Eternidade,
Por quem os ceos e a terra se sustentão.
E pedindo dos erros, que na idade
Immatura e innocente ja fizera,
Perdão á pia e justa Magestade,
As rosas apartou da neve fria;
E, como debil flor, a quem fallece
O radical humor de que vivia,
Nas mãos do Coro Angelico, que dece,
S'entrega; e vai lograr a vida eterna,
Que com morte tão justa se merece.
Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna;
Vai, que quem por a Lei sacra e divina
A sólta, áquelle a dá que o ceo governa.
Mas se de tal valor foi morte dina, [{198}]
A ausencia que do gôsto nos saltêa,
A perpétua saudade nos inclina.
Deixa pois tu, formosa Cytherêa,
Do gentil filho e neto de Cyniras
O pranto por a morte horrida e fêa.
E tu, dourado Apollo, que suspiras
Por o crespo Jacintho, moço charo,
Por quem a clara luz ao mundo tiras;
Vinde e chorae hum moço em tudo raro,
Não de ferino dente vulnerado,
Nem de risco sujeito a algum reparo:
Mas só de ferro imigo traspassado;
Que sem duvida incerta, ou frio medo,
A vida poz nas mãos de Marte irado.
Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo;
Deixa de dar o venenoso mel
A beber por os olhos, triste e ledo.
Pois os formosos olhos de Miguel
Ja cobertos se vem do escuro manto
Da lei geral a todos mais cruel.
E vós, filhas de Thespis, que co'o canto
Podeis bem mitigar a dor immensa
Dos irmãos generosos e alto pranto;
Não consintais que fação larga offensa
Á grande integridade, a que se devem
Ágoas não só, do damno recompensa.
Que ja diante os olhos me descrevem,
Quando as bocas da Fama voadora
Ao patrio e claro Tejo as novas levem,
A profunda tristeza; qu'em hum'hora
Tal posse tomará dos altos peitos, [{199}]
Que delles o discurso lance fóra.
Alli de dor os corações sujeitos
Hão de lançar de si toda a memoria
D'exemplos claros, solidos respeitos.
Mas, porém se igualais a vida á glória,
Ó claro Dom Philippe, e pretendeis
Deixar-nos de acções vossas larga historia;
Eu não vos persuado a que estreiteis
O coração na Estoica disciplina,
Onde livre d'affectos vos mostreis.
Que mal a natureza determina
Medo, esperanças, dores e alegria,
Como o Cynico velho nos ensina.
Immanidade estupida (dizia
O Sulmonense canto) e vil rudeza,
He não sentir affectos que a alma cria.
Porém se o sentir nada for bruteza,
E se paixão devida se consente,
Tambem o sentir muito he ja fraqueza.
Em vós hum soffrer alto s'exprimente,
Qual nos fortes Varões foi conhecido,
Como em estranha, em Lusitana gente.
Bem conheço que o corpo assi perdido,
Como de illustre tumulo carece,
Será de brutas feras consumido.
Mas consola-me, emfim, que se parece
Ao grande bisavô, que por a vida
Real, a sua á Maura lança offrece.
Em pedaços a gente enfurecida
O corpo alli lhe deixa; e com mão dura
Lhe nega a sepultura merecida. [{200}]
Facil he a perda aqui da sepultura:
Diogenes prudente, e Theodoro
Pouco sentem do corpo essa jactura.
Assi formoso e inteiro, assi decoro
Adorna quem o tẽe, como o tomou,
Quando se ouvir o extremo som canoro.
Mas ai! qual terror subito occupou
O vosso claro peito, ó Portuguezes?
Qual pavido temor vos congelou?
Que lançadas, que golpes, que revézes
Vos fizerão fazer tamanha injúria
Aos fortes Lusitanicos arnezes?
Ou ja de Capitão sobeja incuria,
Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava
Com seu peito dos barbaros a furia.
Ou ja do ferreo cano a fôrça brava
Com estrondos que atroão mar e terra,
Os corações ardentes congelava?
Ah! quem vos fez que os impetos da guerra
Não sustentasseis com valor ousado,
Desprezando o temor que a vida encerra?
A vida por a Patria e por o Estado
Pondo nossos avós, a nós deixárão,
Em terra e mar, exemplo sublimado.
Elles a desprezar nos ensinárão
Todo temor. Pois como agora os netos
Subitamente assi degenerárão?
Não pódem, certo, não, viver quietos
Com feia infamia peitos generosos,
Ja em publicos lugares, ja em secretos.
Mortos d'Esparta os Héroes valerosos [{201}]
Da fera multidão, fazendo extremos,
Taes Epitaphios tinhão gloriosos:
Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos
Passados do inimigo ferro, em quanto
Ás santas Leis da Patria obedecemos.
Fugindo os Persas vão com frio espanto,
Mas achão as mulheres no caminho,
Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.
Pois do damno fugís, vendo-o visinho,
Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião)
Outra vez no materno e escuro ninho.
Vêde quaes com mais glória ficarião,
Se aquelles que morrêrão por o Estado,
S'estes a quem mulheres injurião?
Mas tu, claro Miguel, que ja acordado
Deste sonho tão breve, estás naquella
Tôrre do ceo, seguro e repousado;
Onde, com Deos unida a forte e bella
Alma, com teus Maiores reluzindo,
Trocaste cada chaga em clara estrella;
Co'os pés o crystallino ceo medindo,
Nada d'essas altissimas Espheras,
Nem da terreste aos olhos encobrindo;
Agora hum curso e outro consideras,
Agora a vaidade dos mortaes,
Que tu tambem passáras se vivêras,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .[{202}]
ELEGIA XI.
Se quando contemplamos as secretas
Causas, por que este mundo se sustenta,
E o revolver dos ceos e dos planetas;
E se quando á memoria se presenta
Este curso do sol tão bem medido,
Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta;
Aquelle effeito, tarde conhecido,
Da lua na mudança tão constante,
Que minguar e crescer he seu partido;
Aquella natureza tão possante
Dos ceos, que tão conformes e contrarios
Caminhão, sem parar hum breve instante;
Aquelles movimentos ordinarios,
A que responde o tempo, que não mente,
Co'os effeitos da terra necessarios;
Se quando, emfim, revolve subtilmente
Tantas cousas a leve phantasia,
Sagaz escrutadora e diligente;
Bem vê, se da razão se não desvia,
Aquelle unico Ser, alto e divino,
Que tudo póde, manda, move e cria.
Sem fim e sem princípio, hum Ser contino;
Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,
Por mais que o difficulte humano atino:
Hum saber infinito, incomprehensibil;
Huma verdade que nas cousas anda,
Que mora no visibil e invisibil.
Esta potencia, emfim, que tudo manda, [{203}]
Esta Causa das causas, revestida
Foi desta nossa carne miseranda.
Do amor e da justiça compellida,
Por os erros da gente, em mãos da gente
(Como se Deos não fôsse) deixa a vida.
Oh Christão descuidado e negligente!
Pondera-o com discurso repousado;
E ver-te-has advertido facilmente.
Ólha aquelle Deos alto e increado,
Senhor das cousas todas, que fundou
O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;
Não do confuso caos, como cuidou
A falsa Theologia, e povo escuro,
Que nesta só verdade tanto errou;
Não dos atomos leves d'Epicuro;
Não do fundo Oceano, como Thales,
Mas só do pensamento casto e puro.
Ólha, animal humano, quanto vales,
Pois este immenso Deos por ti padece
Novo estylo de morte, novos males.
Ólha que o sol no Olympo s'escurece,
Não por opposição de outro Planeta;
Mas só porque virtude lhe fallece.
Não vês que a grande máchina inquieta
Do mundo se desfaz toda em tristeza,
E não por causa natural secreta?
Não vês como se perde a Natureza?
O ar se turba? o mar batendo geme,
Desfazendo das pedras a dureza?
Não vês que cahe o monte, a terra treme?
E que lá na remota e grande Athenas [{204}]
O docto Areopagita exclama e teme?
Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,
Por o mal em qu'eu só sou o culpado,
A tamanhas affrontas, tantas penas?
Por mi, Senhor, no mundo reputado
Por falso, e violador da sacra Lei?
A fama a ti se põe do meu peccado?
Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei.
Pois como entre ladrões eu não padeço?
A pena a ti se dá do qu'eu errei?
Eu servo sem valor, tu immenso preço,
Em preço vil te pões, por me tirares
Do captiveiro eterno que mereço?
Eu por perder-te, e tu por me ganhares
Te dás aos soltos homens, que te vendem,
Só para os homens presos resgatares?
A ti, que as almas sóltas, a ti prendem?
A ti summo Juiz, ante Juizes
Te accusão por o error dos que te offendem?
Chamão-te malfeitor; não contradizes:
Sendo tu dos Prophetas a certeza,
Dizem que quem te fere prophetizes.
Rim-se de ti; tu choras a crueza
Que sôbre elles virá: a gente dura,
Por quem tu vens ao mundo, te despreza.
O teu rosto, de cuja formosura
Se veste o ceo e o sol resplandecente,
Diante quem pasmada está a Natura,
Com cruas bofetadas da vil gente,
De precioso sangue está banhado,
Cuspido, atropellado cruelmente. [{205}]
Aquelle corpo tenro e delicado,
Sôbre todos os Santos sacrosanto,
A açoutes rigorosos desangrado;
Despois coberto mal d'hum pobre manto,
Que se pegava ás carnes magoadas
Para dobrar-lhe as dores outro tanto.
Magoavão-no as chagas não curadas,
Hum tormento causando-lhe excessivo
Ao despir por as mãos crueis e iradas.
As venerandas barbas de Deos vivo
De resplandor ornadas, s'arrancavão
Para desempenhar a Adão captivo.
Com cordas por as ruas o levavão,
Levando sôbre os hombros o trophéo
Da victoria qu'as almas alcançavão.
Ó tu, que passas, homem Cyrenêo,
Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,
Que agora, como humano, enfraqueceo.
Ólha que o corpo afflicto do marteiro,
E dos longos jejuns debilitado,
Não póde ja co'o pêso do madeiro.
Oh não enfraqueçais, Deos incarnado!
Essas quédas, que tanto vos magôão,
Supportae Cavalleiro sublimado.
Aquellas altas vozes, que lá sôão,
Dos Padres são, que o Limbo tẽe escuro,
E ja de louro e palma vos corôão.
Todos vos bradão que subais o muro
Da cidade infernal, e que arvoreis
Em cima essa bandeira mui seguro.
Oh Santos Padres! não vos apresseis; [{206}]
Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão
Essas duras prisões em que jazeis.
Aquellas mãos que o mundo edificárão,
Aquelles pés que pízão as estrellas,
Com durissimos pregos s'encravárão.
Mas qual será o humano qu'as querellas
Da angustiada Virgem contemplasse,
Sem se mover a dor e mágoa dellas?
E que dos olhos seus não destillasse
Tanta cópia de lagrimas ardentes,
Que carreiras no rosto sinalasse?
Oh quem lhe víra os olhos refulgentes
Convertendo-se em fontes, e regando
Aquellas faces bellas e excellentes!
Quem a ouvíra com vozes ir tocando
As estrellas, a quem responde o ceo,
Co'os accentos dos Anjos retumbando!
Quem víra quando o puro rosto ergueo
A ver o Filho, que na Cruz pendia,
Donde a nossa saude descendeo!
Que mágoas tão chorosas que diria!
Que palavras tão miseras e tristes
Para o ceo, para a gente espalharia!
Pois que sería, Virgem, quando vistes
Com fel nojoso, e com vinagre amaro
Matar a sêde ao Filho que paristes?
Não era este o licor suave e claro,
Que para o confortar então darieis
A quem vos era, mais que a vida, charo.
Como, Virgem Senhora, não corrieis
A dar as puras tetas ao Cordeiro, [{207}]
Que padecer na Cruz com sêde vieis?
Não era só, não, esse o verdadeiro
Poto, que vosso Filho desejava,
Morrendo por o mundo em hum madeiro;
Mas era a salvação que alli ganhava
Para o misero Adão, que alli bebia
Na fonte que do peito lhe manava.
Pois, ó pura e Santissima Maria,
Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto
A grave causa della o requeria;
D'essa Fonte sagrada e peito santo
M'alcançae huma gotta, com que lave
A culpa que me aggrava e pesa tanto.
Do licor salutifero e suave
M'abrangei, com que mate a sêde dura
Deste mundo tão cego, torpe e grave.
Assi, Senhora, toda criatura
Que vive e vivirá, e não conhece
A Lei de vosso Filho, a abrace pura;
O falsissimo herege, que carece
Da graça, e com damnado e falso esprito
Perturba a Santa Igreja, que florece;
O povo pertinaz no antiguo rito,
Que só o destêrro seu, que tanto dura,
Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;
O torpe Ismaelita, que mistura
As Leis, e com preceitos tão viciosos
Na terra estende a seita falsa e impura;
Os idolatras maos, supersticiosos,
Varios de opiniões e de costumes,
Levados de conceitos fabulosos; [{208}]
As mais remotas gentes, onde o lume
Da nossa Fé não chega, nem que tenhão
Religião alguma se presume;
Assi todos, emfim, Senhora, venhão
A confessar hum Deos crucificado,
E por nenhum respeito se detenhão.
E d'hum e d'outro o vício ja deixado,
O seu Nome, co'o vosso nesse dia,
Seja por todo o mundo celebrado;
E respóndão os ceos: JESUS, MARIA.
ELEGIA XII. ACROSTICA.
Juizo extremo, horrifico e tremendo,
E Juiz sempiterno, alto e celeste,
Significará a terra, humedecendo.
Ver-se-ha nella hum suor que manifeste
Como em carne vem Deos, para que o veja
Homem toda esta máchina terreste;
Rei justo, que dos corpos e almas seja
Juiz; e quando o mundo cego e inculto
Sôbre espinhos crueis deitado seja,
Todo vão simulacro e gentil culto
Ousará engeitar a gente; e guerra
Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto.
Immensa luz, que as carnes desenterra,
Lançará fóra as portas vãas do Averno,
Hum Justo e outro alçando á santa terra. [{209}]
Outros, que são os maos, no fogo eterno
Deitará, descobrindo-se os segredos,
E sendo claro todo feito interno.
Desfeitos serão montes e penedos,
E será tudo pranto e estridor duro;
Obras de grande dor e tristes medos.
Será tornado o sol de todo escuro,
E destruida a máchina do mundo,
Sem luz as luzes todas do Orbe puro;
Altos serão os valles, e em profundo
Lugar se abaterão os altos montes;
Vibrará mares vento furibundo:
Haverá só de chammas vivas fontes:
De trombeta tremenda som terribil,
Ouvido, fara pallidas as frontes.
Responderá dos maos gemido horribil. [{210}]