NOTAS.

Pag. 16. V. 17. Não do sol, mas da candea.] Todas as ed.; mas he lição viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em Deos está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos seduz e encanta. Corrigimos portanto:

Não do sol, nem da candea.

P. 67. V. 4. De mim tão longe.] Todas as ed.; mas he êrro, porque o poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos:

De si tão longe.

P. 123. V. 25.

Vós na minha gloria posto.
Eu na vossa sepultura.
]

Todas as ed. Mas he justamente o contrário:

Vós na vossa gloria posto,
Eu na minha sepultura.

P. 124. V. 9.

Mas se esse rosto fingido
Quizereis representar,
Houvera por bom partido
Dar-lho a alma do sentido
Para a gloria do lugar.
]

Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos: [{504}]

Mas se esse rosto fingido
Quizerão representar,
E houverão por bom partido
Dar-vos a alma do sentido
Para a gloria do lugar:
Víreis etc.

P. 148. V. 1. Vai o bem fugindo etc.] Estas endeixas, que evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as restituimos.

P. 164. V. 23. E amor he effeito d'alma.] Todas as ed. Parece que deve ser affeito d'alma.

P. 183. V. 7. Sem saber do cuidado o que sentia.] Todas as ed.; mas he êrro: corrigimos:

Sem saber de cuidado o que sentia;

isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia.

P. 185. V. 20. Ao pé d'uma alta faia etc.] Esta que inadvertidamente aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edições, propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás mais.

P. 185. V. 24. Tão queixoso d'Amor] Faria e Sousa. He vicio: corrigimos: Mui queixoso d'Amor.

P. 186. V. 8. As roxas brancas Nymphas] Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos:

Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,

porque se entende flores.

P. 188. V. 15. Junto do rosmaninho, que he crescer] Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos:

Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.

P. 191. V. 25. Ai que me deras vida a morte dar-me] Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos:

Ai que me deras vida em morte dar-me.[{505}]

P. 197. V. 23. E como debil flamma a quem fallece O radical humor de que vivia] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor só pode faltar as plantas: corrigimos:

E como debil flor etc.

P. 215. V. 15.

Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de mais grandeza]

Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: por qual algum: devem portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições:

Por que Rei, por que duque eu me trocára,
Por que Senhor de grande fortaleza?

P. 220. V. 30.

Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o desvio]

Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos:

Se o successo he contrário da vontade
Nas obras que são boas, e ha desvio etc.

P. 221. V. 41. Quanto de infamia] Faria e Sousa. Quãmanha infamia, 3.ª ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta.

P. 222. V. 29. Populares a Pallas.] Todas as ed. He vicio de texto: corrigimos:

Populares (ó Pallas) etc.

P. 223. V. 17. E pois que tudo em vos se permittio] Faria e Sousa. No qual, pois tudo em vós etc.] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que nos parece ser a do poeta.

P. 224. V. 11.

O querido de Deos por quem peleja
O ar tambem, e o vento socegado, [{506}]
Ao atambor acode, porque veja
Que quem a Deos ama, he de Deos amado

Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de Faria corrigio:

Oh querido de Deos, por quem peleja
O ar tambem, e o vento socegado!
Ao tambor acode, porque veja
Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado.

Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar; porque o poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa, observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos erão imitação dest'outros de Claudiano:

O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris
Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether,
Et conjurati veniunt ad classica venti.

julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não accommodá-los ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem ao menos saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: Yo dudo si esta exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian. E assim estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a lição antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue vicio de cópia, corrigimos:

O querido de Deos, por quem peleja,
O ar tambem e o vento socegado
Ao atambor lhe acodem, porque veja
Que o que a Deos ama, he de Deos amado.
[{507}]

P. 225. V. 3. Com louvores de Apollo celebrado.] Todas as ed.; mas aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:

Com louvores de Apollo, e celebrado.

P. 228. V. 1. Depois que a clara aurora a noite escura.] Esta glosa do Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he obra do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição.

P. 257. L. 7. Que são muito e valem pouco.] Todas as ed.; mas o que o poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:

Que são pouco, e valem muito.

P. 258. L. 17. Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal.] Todas as ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:

Que tal dizem, que he?

P. 259. L. 1. E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.] Todas as ed.; mas he vicio: corrigimos:

Que vem podre de amor etc.

P. 259. L. 8. Olá, Senhores.] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:

Olá, Senhoras.

P. 286. V. 1. Mas qué amo y cararon.] Lição vulgar. He grande estrago de texto: corrigimos:

Mas qué amo y qué cabron!

P. 369. V. 11. Esperai, dir-vo-lo-ha.] Faria. He êrro: deve ler-se:

Dir-se-vos-ha.

P. 370. V. 14.

Pois só desse encantador
Me quero vingar de ti.
] [{508}]

Lição vulgar: he viciosa: corrigimos:

Pois so desse encantador
Me quero vingar em ti.

P. 374. V. 48. E se mal vos succedesse.] Lição vulgar: he êrro de cópia ou de impressão: corrigimos:

E se mal nos succedesse.

P. 386. L. 11. O qual informado pelo pastor que a achára, (que era homem sabio na arte magica) e como a criára.] Lição vulgar; mas a oração esta imperfeita: corrigimos: O qual informado pelo pastor etc.; de como a achára e como a criára.

P. 402. V. 17. E levar-me a lenha o vento.] Lição vulgar: He viciosa, porque falta a clausula da oração: corrigimos:

He levar-me a lenha o vento.

P. 418. L. 5. Pois não devia assi de ser posantos e vanselos.] Lição vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos:

Pois não devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.

P. 418. V. 6. Que os amos e os cangrejos.] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:

Que o amor e os cangrejos.

P. 447. V. 16.

Que das montanhas erguidas
D'algum monte não sahisse.
]

Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos:

Que das montanhas erguidas
Algum monstro não sahisse.

P. 453. V. 20. Se tanto amasse.] Lição vulgar; mas aqui ha vicio de texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma exprimir-se. Corrigimos:

Se eu tanto amasse. [{509}]

Pag. 467. V. 12.

Que quando por accidente
Da fortuna desastrado
Fosse apartado da gente
N'um lugar onde somente
Das feras fosse guardado:
E por ferro, fogo e ágoa
Buscar minha morte iria.
]

Lição vulgar. Mas a corrupção de texto não póde ser mais visivel. Comtudo não difficil atinar-se com o sentido do poeta.

Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomára ver-se dalli cem mil leguas, pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que isso desejava tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria occasião de fazer por ella uma fineza, que fosse mais de agradecer; e vem a ser, que quando ella por algum caso da fortuna fosse apartada da gente n'um deserto onde não tivesse por guarda, senão as feras; por ferro, fogo e ágoa lá iria elle buscar a sua morte. E porque não póde ser outro o sentido do poeta, corrigimos:

Que quando por accidente
A fortuna desastrada
Vos apartasse da gente
N'um deserto, onde somente
Das feras fosseis guardada;
Lá por ferro, fogo e ágoa
Buscar minha morte iria etc.

P. 475. L. 20. Que estas cidras não se desistem em nove dias, senão em nove mezes.] Lição vulgar. Não ha maior corrupção de texto. Que tem as cidras que desistir? Que o poeta não disse um tal absurdo, he fóra de toda a dúvida. O que elle disse foi isto:

E porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc. [{510}]

Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando passa ao estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como diz o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras.

P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a tres dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem su amada yedra de si arrancada, y en otro muro asida... Aqui ha lacuna porque falta o verbo da oração.

P. 489. V. 28.

A quem não assopre a morte
Nem sopre o fogo da vida.
]

Lição vulgar; mas a do poeta he:

A quem o assôpro da morte
Não sopre o fogo da vida.

P. 490. L. 26. Tres cousas não se soffrem sem discordia; companhia, namorar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse.] Todas as ed. Mas o vicio he palpavel: corrigimos: Duas cousas não se soffrem sem discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse. [{511}]