PROLOGO.
Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa.
Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com outras ja feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: Vós outros estudastes para praguejar, e eu para desprezar praguentos? Eu com tudo quero saber da Farça, em que ponto vai. Lançarote? [{256}]
MOÇO.
Senhor.
MORDOMO.
São ja chegadas as figuras?
MOÇO.
Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.
MORDOMO.
Como assi?
MOÇO.
Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do alheio.
MORDOMO.
Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela porta fóra, para o metteres em tua casa.
MOÇO.
Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o havia mister para si.
MORDOMO.
Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga comsigo o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre [{257}] o Canto-chão botemos nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por fôrça.
Indo-se o Moço diz:
Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma bolsa com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que são pouco, e valem muito?
MORDOMO.
Moço, que estás fazendo que não vás?
MOÇO.
Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?
MORDOMO.
Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá.
Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e diz o Mordomo:
Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em [{258}] palanques, será bom mandar fazer outro alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer mal: este só desgôsto tẽe hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por villão ruim.
Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:
MARTIM.
Entre v. m.
AMBROSIO.
Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou diante. Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de fazer consciencia.
MORDOMO.
Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder, porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu nome he.
MARTIM.
Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho traz mais somno comsigo que huma prégação comprida.
MORDOMO.
Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum villão, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que [{259}] huma pera-pão, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.
MARTIM.
Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de si enfadamento.
MOÇO.
O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro. Ora sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás rebatinhas: ora sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana.
MORDOMO.
Moço, falla bem ensinado.
MOÇO.
Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tẽe privilegio de Moedeiro.
AMBROSIO.
Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar.
MOÇO.
Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.
AMBROSIO.
Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural?
MOÇO.
Donde quer que me acho.
AMBROSIO.
Pergunto-te onde nasceste. [{260}]
MOÇO.
Nas mãos das parteiras.
AMBROSIO.
Em que terra?
MOÇO.
Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida daquella hora, que não havia palmo de terra nella.
MARTIM.
Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para ver com que disparate respondes.
MOÇO.
A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.
MARTIM.
Vem cá. De teu tio! E isso como?
MOÇO.
Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e daqui me ficou a mi ser filho de meu tio.
MARTIM.
Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?
MORDOMO.
Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e mais tẽe outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como eu, ou como o Chiado. [{261}]
AMBROSIO.
Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?
MORDOMO.
Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor de mi!
MOÇO.
Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender.
MARTIM.
Como! Tão escura he ella?
MOÇO.
Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever senão com carvão; e porém diz assi:
Por amor de vós, Briolanja,
Ando eu morto,
Pezar de meu avô torto.
MARTIM.
Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te tẽe teu avô nos desfavores que te tua dama dá?
MOÇO.
Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos meus parentes, que dos alheios?
MORDOMO.
Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que trombeta de Serenissimo de la Valla. [{262}]
MOÇO.
A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão mais huma sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe calçará melhor: e todavia palra assi:
Vossos olhos tão daninhos
Me tratárão de feição,
Que não ha em meu coração
Em que atem dous reis de cominhos.
Meu bem anda sem focinhos
Por vós morto,
Pezar de meu avô torto.
MARTIM.
Ora bem: que tẽe de ver os cominhos com o teu coração?
MOÇO.
Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era tendeira; e este he o verdadeiro entendimento.
MARTIM.
E aquella regra que diz, Meu bem anda sem focinhos, me dá tu a entender; que ella não dá nada de si.
MOÇO.
Nunca vossas mercês ouvirão dizer: Meu bem e meu mal lutárão hum dia; meu bem era tal, que meu mal o vencia? Pois desta luta foi tamanha a quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por ficarem tão esfarrapados, que lhe [{263}] não podião botar pedaço; por conselho dos Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui ficou: Meu bem anda sem focinhos, como diz o texto.
AMBROSIO.
Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S. Nicolao.
MARTIM.
Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico.
MOÇO.
Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas mercês.
MORDOMO.
Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira da arca de cedro.
MARTIM.
Senhor, elle parece que aprende a cirurgião.
AMBROSIO.
Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos verdes.
MORDOMO.
Emfim, parece figura de Auto em verdade.
Entra o Representador.
He lei de direito, assaz verdadeira,
Julgar por si mesmos aquillo que vem;
Peloque, se cuidão que zombo de alguem,
Eu cuido que zombão da mesma maneira. [{264}]
E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer seu proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha mais que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos, metidos em hum covão, cantando: Quem os amores tẽe em Cintra; e despois de cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver: entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas mercês cada hum para suas pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi houver. Parece-me que nenhum diz que não. Ora pois ficareis in vanum laboraverunt, porque atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da representação, como quem diz, digo-to, antes que mo digas.
AMBROSIO.
Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi; porque jagora representações, todas he [{265}] darem por praguentos; e são tão certas, que he melhor errá-las, que acertá-las.
MORDOMO.
Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na prática, como nos vestidos.
—
Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica.
REI.
Senhora, desque a ventura
Me quiz dar-vos por mulher,
Me sinto emmeninecer;
Porqu'em vossa formosura
Perde a velhice seu ser.
Hum homem velho, cansado,
Não tẽe fôrça, nem vigor,
Para em si sentir amor:
Se não he qu'estou mudado
Com ser vosso n'outra côr.
Muito grande dita tem
A mulher que he formosa.
RAINHA.
Senhor, grande: mas porém
Se a tal he virtuosa,
Quer-lhe a ventura mor bem.
REI.
Si, mas porém nunca vemos
A natureza esmerar
Adonde haja que taxar;
Que quando ella faz extremos, [{266}]
Em tudo quer-se extremar.
Eu fallo como quem sente
Em vós está calidade,
Pelo que vejo presente;
E se me esta mostra mente,
Mente-me a mesma verdade.
Huma só tristeza tenho
Que não tẽe a meninice,
Que no mor contentamento
O trabalho da velhice
Me embaraça o sentimento.
RAINHA.
Senhor, novidades tais
Far-me-hão crer de verdade...
REI.
Novidades lhe chamais!
Folgo, Senhora, que achais
Na velhice novidades.
RAINHA.
Senhor, dias ha que sento
Em o Principe Antiôcho
Certo descontentamento:
Dera alguma cousa a trôco
Por saber seu sentimento.
Vejo-lhe amarello o rosto,
Ou de triste, ou de doente:
Ou elle anda mal disposto,
Ou lá tẽe certo desgôsto
Que o não deixa ser contente.
Mande, Senhor, vossa Alteza
A chamá-lo por alguem, [{267}]
Saberemos que mal tem,
Se he doença de tristeza,
De que nasce, ou de que vem.
REI.
Certo qu'eu me maravilho
Do que vos ouço dizer.
Que mal póde nelle haver?
Ide dizer a meu filho
Que me venha logo ver.
RAINHA.
Se curar não se procura
Huma cousa destas tais,
Vem despois a crescer mais.
Quando ja não se acha cura,
Toda a cura he por demais.
Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio.
PRINCIPE.
Leocadio, se es avisado,
E não te falta saber,
Saber-me-has dar a entender,
Quem ama desesperado,
Que fim espera de haver?
PAGEM.
Senhor, não.
Mas porém porque razão
Lhe avem sabê-lo, ou de que?
PRINCIPE.
Pergunto-te a conclusão;
Não me perguntes porque. [{268}]
Porque he minha pena tal,
E de tão estranho ser,
Que me hei de deixar morrer;
E por não cuidar no mal
O não ouso de dizer.
Que maneira de tormento
Tão estranho e evidente,
Que nem cuidar se consente!
Porque o mesmo pensamento
Ha medo do mal que sente.
PAGEM.
Não entendo a Vossa Alteza.
PRINCIPE.
Assi importa á minha dor.
PAGEM.
E porque razão, Senhor?
PRINCIPE.
Para que seja a tristeza
Castigo do meu temor.
Porque ordena
O Amor, que me condena,
Que se haja de sentir,
E sem dizer nem ouvir.
Bem-aventurada a pena
Que se póde descobrir!
Oh caso grande e medonho!
Oh duro tormento fero!
Verdade he isto, qu'eu quero?
Não he verdade, mas sonho
De que acordar não espero.
Quero-me chegar a ElRei [{269}]
Meu pae, que ja m'está vendo.
Mas onde vou? Não m'entendo.
Com que olhos eu olharei
Hum pae, a quem tanto offendo?
Que novo modo de antolhos!
Porque neste atrevimento
Devêra meu sentimento
Para elle não ter olhos,
Nem para ella pensamento.
Chega aonde está ElRei, e diz:
REI.
Filho, como andais assi?
Que tanto desgôsto tomo
De vos ver como vos vi!
PRINCIPE.
Não sei eu tanto de mi,
Que possa saber o como.
Dias ha ja, Senhor, que ando
Mal disposto, sem saber
Este mal que possa ser;
Que se nelle estou cuidando,
Quasi me vejo morrer.
REI.
Pois, filho, será razão
Que meus Physicos vos vejão.
PRINCIPE.
Os Physicos, Senhor, não;
Que os males qu'em mi estão,
São curas que me sobejão. [{270}]
RAINHA.
Deite-se; que na verdade
Hum corpo, deitado e manso,
Descansa á sua vontade.
PRINCIPE.
Senhora, esta enfermidade
Não se cura com descanso.
RAINHA.
Todavia, bom será
Que lhe fação huma cama.
PRINCIPE.
(Hum coxim abastará,
Que assi não descansará
O repouso de quem ama.)
REI.
Vamos, filho, para dentro,
Em quanto a cama se faz:
Repousae como capaz;
Que a mi me dá cá no centro
A pena que assi vos traz.
Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e diz:
MOÇA.
Mimos de grandes Senhores,
E suas extremidades,
Me hão de matar de amores,
Porque de meros dulçores
Adoecem.
Então logo lhes parecem
Aos outros, que são mamados;
E os que são mais privados, [{271}]
Sôbre elles estremecem.
Certo (e assi Deos me ajude!)
Que são muito graciosos,
Porque de meros viçosos,
Não podem com a saude.
Mas deixallos,
Porque elles darão nos vallos,
Donde mais não se erguerão,
Inda que lhe dem a mão
Os seus privados vassallos.
Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:
PORTEIRO.
Traz, traz.
MOÇA.
Jesu! Quem'stá ahi?
PORTEIRO.
Ja vós, mana, ereis mamada:
Para vos levar furtada
Nunca tal ensejo vi.
E vós estais descuidada!
MOÇA.
E meus descuidos que fazem?
PORTEIRO.
Vossos descuidos? cadella!
Ah minh'alma! Sois tão bella,
Qu'esses descuidos me trazem
Dous mil cuidados á vela.
Pois sou vosso ha tantos annos,
Mana, tirae os antolhos,
E vereis meus tristes dannos. [{272}]
MOÇA.
Não tenhais esses enganos.
PORTEIRO.
Nem vós tenhais esses olhos;
Que de vossos olhos vem
Esta minha pena fera.
MOÇA.
De meus olhos? Assim era.
PORTEIRO.
Moça, que taes olhos tem,
Nenhuns olhos ver devêra.
MOÇA.
E porque?
PORTEIRO.
Porque cegais
A quantos olhos olhais,
Postoque por vós padecem.
Olhos, que tão bem parecem,
Porque não os castigais?
MOÇA.
Deos dê siso, pois de vós
Tirou o que aos outros deu.
PORTEIRO.
Desatae-me lá esses nós.
Que mais siso quero eu,
Que não ter siso por vós?
MOÇA.
Fallais d'arte; eu vos prometo
Que a resposta vem á vela.
Isso he ôlho de panella.
Quanto ha ja que sois discreto? [{273}]
PORTEIRO.
Quanto ha ja que vós sois bella?
MOÇA.
Dais-me logo a entender
Que eu sou feia, a meu ver.
PORTEIRO.
E isso porque o entendeis?
MOÇA.
Porque? Porque me dizeis
Que só de meu parecer
Vos procede o que sabeis.
PORTEIRO.
He verdade.
MOÇA.
Pois bem sento
Que o vosso saber he vento.
Fica a cousa declarada,
Meu parecer não ser nada.
PORTEIRO.
Olhae aquelle argumento:
Além de bella, avisada!
Oh nem tanto, nem tão pouco!
Vêde vós o que fallais.
MOÇA.
Cego no saber andais.
PORTEIRO.
No siso, mas não tão louco
Como vós, mana, cuidais.
Ora dizei, duna má:
Que não amais, quem vos ama? [{274}]
MOÇA.
Ouvistes vós cantar ja,
Velho malo, em minha cama?
Ja m'entendereis.
PORTEIRO.
Ha, ha.
Senhora, estais enganada;
Que com huma capa e espada,
E com este capuz fóra...
MOÇA.
Ora bem: tirae-o ora,
E fazei huma levada.
PORTEIRO.
Não: se m'eu hoje alvoróço,
Achar-me-heis d'outra feição.
Aqui tira o capuz e diz:
PORTEIRO.
Tenho má disposição?
Estas obras são de moço,
Se as mostras de velho são.
MOÇA.
Tendes mui gentis meneios.
PORTEIRO.
Não, Senhora; faço extremos.
MOÇA.
Passeae ora, veremos
Se tendes tão bons passeios.
PORTEIRO.
Tudo, Senhora, faremos. [{275}]
MOÇA.
Virae ora a essoutra mão.
PORTEIRO.
Esta disposição vêde-a;
Que tenho gentil feição.
MOÇA.
Tendes vós mui boa redea.
Soffreis ancas?
PORTEIRO.
Isso não.
MOÇA.
Por certo que tendes graça
Em tudo quanto fizerdes.
Fazei mais o que souberdes.
PORTEIRO.
Não sei cousa que não faça,
Senhora, por me quererdes.
MOÇA.
Tendes vós muito bom ar.
PORTEIRO.
Mais qu'isto faz quem quer bem.
MOÇA.
I-vos asinha, que vem
O Principe a se deitar.
PORTEIRO.
Nunca huma pessoa tem
Hum'hora para fallar!
Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:
PRINCIPE.
Seja a morte apercebida, [{276}]
Porque ja o Amor ordena
A dar a meu mal sahida;
Porque o fim da minha vida
O seja da minha pena.
Não tarde, para tomar
Vingança de meu querer,
Pois não se póde dizer
Que não tẽe ja que esperar,
Nem com que satisfazer?
Os Physicos vem e vão,
Sem saberem minhas mágoas,
Nem o pulso me acharão;
E se o querem ver nas ágoas,
As dos olhos lho dirão.
Se com sangrias tambem
Procurão ver-me curado;
O temor de meu cuidado
O mais do sangue me tem
Nas veias todo coalhado.
Quero-me aqui encostar,
Que ja o esprito me cae.
Leocadio, vae-me chamar
Os Musicos de meu Pae;
Folgarei de ouvir cantar.
Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:
PRINCIPE.
Senhora, qual desatino
Me trouxe a tanta tristura?
Foi, Senhora, por ventura [{277}]
A fôrça do meu destino,
Como vossa formosura?
Bem conheço que não posso
Ter tão alto pensamento;
Mas disto só me contento,
Que se paga com ser vosso
O mor mal de meu tormento.
Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:
ALEXANDRE.
Senhor, de que se acha mal
O Principe, ou que mal sente?
PAGEM.
Senhor, sei que está doente;
Mas sua doença he tal,
Qu'entender se não consente.
Os Physicos vem e vão,
Huns e outros a meude,
Sem o poderem dar são.
Quanto mais cura lhe dão,
Então tẽe menos saude.
O Pae anda em sacrificios
Aos deoses, que lhe dem
A saude que convem;
Dizendo que por seus vicios
O mal a seu filho vem.
Eu suspeito qu'isto são
Alguns novos amorinhos,
Que tera no coração. [{278}]
ALEXANDRE.
Amores! com quem serão,
Que lhe não dem de focinhos?
PORTEIRO.
Senhores, que lhe parece
Da doença de Antiôcho?
ALEXANDRE.
Diga-lha quem lha conhece.
PAGEM.
Que toma morrer a trôco
De callar o que padece.
PORTEIRO.
Isso he estar emperrado
Na doença; que he peor.
Tẽe-no os Physicos curado?
ALEXANDRE.
Oh! que de mal del amor
No ha, Señor, sanador.
PORTEIRO.
Fallais como exprimentado;
Qu'eu cuido que esta fadiga,
Que o faz com que desespere;
Y por mas tormento quiere
Que se sienta, y no se diga.
ALEXANDRE.
Pois, Senhor meu, isso asselle,
Porque a pena, que sabeis,
Que eu cuido que está nelle,
Dar-lhe-ha penas crueis,
Pues no hay quien la consuele. [{279}]
PORTEIRO.
Folgo, porque m'entendeis.
PAGEM.
Hemo-nos, Senhores, de ir,
Porque nos está 'sperando.
PORTEIRO.
Pois eu tambem hei de ir;
Que não me posso espedir
Donde vejo estar cantando.
PRINCIPE.
Cantae, por amor de mi,
Alguma cantiga triste;
Que todo meu mal consiste
Na tristeza em que me vi.
PORTEIRO.
Mande-lhe cantar hum chiste.
ALEXANDRE.
Chiste não, que he deshonesto,
E não tẽe esses extremos:
Outro canto mais modesto;
Porém não sei que diremos.
PAGEM.
Gaoleão o dirá presto.
PORTEIRO.
Dá licença V. Alteza
Que diga minha tenção?
PRINCIPE.
Dizei: seja em canto-chão.
PORTEIRO.
Pois crede qu'he subtileza.
Qu'os Anjos a comerão. [{280}]
Digão esta:
Enforquei minha esperança,
E o Amor foi tão madraço,
Que lhe cortou o baraço.
ALEXANDRE.
Não me parece essa boa.
PORTEIRO.
Haja eu perdão,
Porque não a entenderão.
ALEXANDRE.
Entender!
PORTEIRO.
Bofé qu'he boa:
Não lhe cahis na feição?
ALEXANDRE.
Dizei ora outra melhor,
Com que nos atarraqueis.
PORTEIRO.
Ora esperae, e ouvireis:
Se a esta não dais louvor,
Quero que me degolleis.
Cantiga.
Com vossos olhos Gonçalves,
Senhora, captivo tendes
Este meu coração Mendes.
ALEXANDRE.
Essa parece mui taibo,
Porque mostra bom indicio.
PORTEIRO.
Vós cuidareis qu'eu que raivo. [{281}]
ALEXANDRE.
Todavia tẽe mao saibo.
Ora mal lhe corre o offício.
PRINCIPE.
Tá, não vá mais por diante
A zombaria, que he má:
Cantae qualquer dellas ja;
Qu'esse Porteiro he galante,
Ninguem o contentará.
Aqui cántão, e em acabando, diz o
PAGEM.
Parece que adormeceo.
PORTEIRO.
Pois será bom que nos vamos.
ALEXANDRE.
Senhor, quer que nos vejamos?
PORTEIRO.
Senhor vir-me-ha do ceo:
Releva-me que o façamos.
Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:
RAINHA.
Frolalta, como ficava
Antiôcho em te tu vindo?
FROLALTA.
Ficava-se despedindo
Da vida qu'então levava,
E assi seus dias cumprindo.
RAINHA.
Oh grave caso d'amor! [{282}]
Desesperada affeição!
Oh amor sem redempção,
Que alli te fazes maior
Onde tens menos razão!
No mais alto e fundo pégo
Alli tens maior porfia:
Razão de ti não se fia.
Quem a ti te chamou cego,
Mui bem soube o que dizia.
Por ventura hia chorando?
FROLALTA.
Chorando hia e chamando
Ao Amor, Amor cruel;
E em, Senhora, se deitando
Lhe cahio este papel.
RAINHA.
Que papel?
FROLALTA.
Este, Senhora.
RAINHA.
Amostra, que quero lê-lo.
Agora acabo de crê-lo;
Que ao que mostra por fóra,
Aqui lhe lançou o sello.
Aqui lê o papel e diz:
RAINHA.
Oh estranha pena fera!
Desditosa vida chara!
Oh quem nunca cá viera, [{283}]
E com seu Pae não casára,
Ou em casando morrêra!
FROLALTA.
Aindaque eu pêca são,
Senhora, tudo bem vejo.
Attente, que na eleição
O que lhe pede o desejo
Não consente o coração.
RAINHA.
Frolalta, pois qu'es discreta
Nada te posso encobrir;
Porque, se queres sentir,
A huma mulher discreta
Tudo se ha de descobrir.
O dia qu'entrei aqui,
Que a Seleuco recebi,
Logo nesse mesmo dia
No Principe filho vi
Os olhos com que me via.
Este principio soffri-lho,
Para ver se se mudava;
Antes mais se accrescentava:
Eu amava-o como filho,
E elle d'outr'arte me amava.
Agora vejo-o no fim
Por se me não declarar.
E pois ja que a isso vim,
A morte que o levar,
Me leve tambem a mim.
Porque ja que minha sorte
Foi tão crua e desabrida, [{284}]
Que me não quer dar sahida;
Sejamos juntos na morte,
Pois o não somos na vida.
Oh quem me mandou casar,
Para ver tal crueldade!
Ninguem venda a liberdade,
Pois não póde resgatar
Onde não tẽe a vontade.
Que não ha mor desvario,
Que o forçado casamento
Por alcançar alto assento;
Que, emfim, todo o senhorio
Está no contentamento.
Não sei se o vá ver agora,
Se será tempo conforme,
Ou se imos a deshora.
FROLALTA.
Despois iremos, Senhora,
Que agora dizem que dorme.
Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:
PHYSICO.
Su madrasta oyó nombrar,
Y el pulso se le alteró:
Esto no entiendo yo,
Porque para le alterar
El corazon le obligó.
Pues que el corazon se altere,
Es porque en un momento
Algun nuevo vencimiento
De aficion terrible le hiere, [{285}]
Que causa tal movimiento.
Pues que aficion cabe así
Con madrasta? Digo yo,
Dos razones hay aqui:
La una dice, que sí,
La otra dice, que no.
Empero yo determino
De exprimentar la verdad,
Y hacer una habilidad,
Que declare es agua, ó vino
Esta su enfermedad.
Porque toda esta mañana
Tengo estudiado su mal,
Sin ver causa efectual
De su dolencia inhumana,
Ni otra de su metal.
Llamar quiero este asnejon;
Mas aun debe de dormir,
Segun que es dormilon.
Sancho? ó Sancho?
SANCHO.
Ah Señor.
PHYSICO.
Ea, aun estás dormiendo?
SANCHO.
Estoyme, Señor, vestiendo.
PHYSICO.
Pues vellaco y sin sabor,
No me respondes dormiendo?
Vestios presto, ladron.
Oh qué mozo, y qué ventura! [{286}]
SANCHO.
(Mas qué amo y qué cabron!)
Embíeme acá el ropon,
Que no hallo mi vestidura.
PHYSICO.
Que embie el ropon acá?
Parece que os desmandais.
SANCHO.
Que vaya, Señor? ha, ha.
Que buenos dias hayais.
Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:
PHYSICO.
Di como vienes así
Con la manta, y para qué?
SANCHO.
Yo, Señor, se lo diré:
Por venir presto vestí
Lo que mas presto me hallé:
Porque viendo que él me llama,
Dormiendo yo sin afan,
Salté presto de la cama,
Que parezco un gavilan,
Hermoso como una dama.
PHYSICO.
Mas es tu bovedad tanta,
Que vienes desta facion?
SANCHO.
De mi vestido se espanta?
De noche sirve de manta,
Y de dia de ropon. [{287}]
PHYSICO.
Embióme ElRey á llamar
Otra vez.
SANCHO.
Y á mí?
PHYSICO.
Y á ti!
SANCHO.
Y él qué presta allá sin mí?
PHYSICO.
Qué puedes tu aprovechar?
SANCHO.
Yo se lo diré de aqui:
Si por la ventura quiere
Para que le dé consejo,
Cuando doliente estuviere;
Digo, coma, si pudiere,
Y beba buen vino anejo;
Porque este es el licor
Que dá fuerza, y es sabroso;
Que segun dicen, Señor,
Vinum lœtificat cor
Hominis, y le es provechoso.
PHYSICO.
Ya sabes la medicina,
Que Avicena nos refiere.
SANCHO.
Pues, Señor! porque es divina.
Pero ElRey qué le quiere,
Qué manda, ó qué determina? [{288}]
PHYSICO.
El Principe está doliente.
SANCHO.
Oh mesquino! Y qué mal ha?
PHYSICO.
Y á ti, necio, que te vá?
SANCHO.
O Señor, que es mi pariente!
PHYSICO.
Gracioso el bovo está.
Y pues díme por tu fé:
Llorarás si se muriere?
SANCHO.
No, Señor, no lloraré;
Empero, Señor, haré
La peor cara que pudiere.
PHYSICO.
Ea, bovo, vé corriendo,
Y ensilla la mula ayna.
SANCHO.
Véngala ensillar mejor.
PHYSICO.
Oh velhaco, y sin sabor!
SANCHO.
Yo por cierto no lo entiendo.
Pero una medicina
Le he de pedir, Dios queriendo,
(Porque ando atribulado,
Y no sé parte de mi
Con este nuevo cuidado) [{289}]
Para un sayo esfarrapado,
Que me dicen hay allí.
PHYSICO.
Ora ensilla; y nunca viva,
Pues sufro tus desatinos.
SANCHO.
Señor, pasion no reciva:
Ya cavalga Calaínos
A la sombra de una oliva.
Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe e diz:
PRINCIPE.
Oh bella vista e humana,
Por quem tanto mal sostenho!
Oh Princeza soberana!
Como? nos braços vos tenho,
Ou este sonho m'engana?
Pois como, sonho, tambem
Me queres vir magoar?
E para me atormentar
Mostras-me a sombra do bem
Para assi mais m'enganar?
Assi que, com quanto canso,
Ja não posso achar atalho,
Pois que o somno quieto e manso,
Que os outros tẽe por descanso,
Me vem a mi por trabalho.
Pois ha hi tantos enganos
Que condemnão minha sorte;
Não o tenho ja por forte, [{290}]
Se á volta de tantos danos
Viesse tambem a morte.
Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:
REI.
Andae e vêde se achais
O rasto deste segredo,
Que me dizem que alcançais;
Ainda que tenho medo
Que lhe seja por demais.
PHYSICO.
Plega á Dios que aqueste sea
Para salud y remedio
Desta dolencia tan fea.
Yo buscaré todo el medio,
Que presto sano se vea.
Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:
PHYSICO.
Aflojen, Señor, sus ais.
Como se halla en su penar?
PRINCIPE.
Como me acho perguntais?
E como se póde achar
Quem sempre se perde mais?
PHYSICO.
(La respuesta abre el camino.)
Imagina de contino?
PRINCIPE.
Não tenho outro mantimento, [{291}]
Nem outro contentamento,
Senão o em que imagino.
Aqui entra a Rainha e diz:
RAINHA.
Como se sente, Senhor?
Tẽe a febre mais pequena?
PRINCIPE.
Responda-lhe minha pena.
PHYSICO.
(Conocido es su dolor.
Ora sea en hora buena,
Tomada está la tristeza
Á las manos.) Qué sentió?
(Usaré de subtileza.)
Diz contra ElRei:
Cúmpleme que solo yo
Platique con Vuestra Alteza.
REI.
Cheguemos-nos para cá.
RAINHA.
Não deve desesperar,
Qu'em fim, se bem attentar,
Para tudo o tempo dá
Tempo para se curar.
PRINCIPE.
Que cura poderá ter
Quem tẽe a cura, Senhora,
No impossivel haver? [{292}]
RAINHA.
Ficae-vos, Senhor, embora,
Que vos não sei responder.
Vai-se a Rainha, e diz ElRei:
REI.
Neste mal, que não comprendo,
Que meio dais de conselho?
PHYSICO.
Señor, nada entiendo dello;
Y supuesto que lo entiendo,
Yo quisiera no entendello.
REI.
Porque?
PHYSICO.
Porque he entendido
Lo mas malo de entender,
Para lo que puede ser,
Porque anda, Señor, perdido
De amores por mi muger.
REI.
Santo Deos! que! tal amor
Lhe dá doença tão fera!
Que remedio achais melhor?
PHYSICO.
Forçado será que muera,
Porque no muera mi honor.
REI.
Pois como! a hum só herdeiro
Deste Reino não dareis
Vossa mulher, pois podeis; [{293}]
Que tudo faz o dinheiro?
Pois este não o engeiteis;
Dae-lha, porque eu espero
De vos dar dinheiro e honra,
Quanto eu para elle quero.
PHYSICO.
No tira el mucho dinero
La mancha de la deshonra.
REI.
Ora bem pouco defeito!
He pequice conhecida,
Quando deixa de ser feito;
Porque com elle dais vida
A quem vos dara proveito.
PHYSICO.
Cuan facilmente aporfia
Quien en tal nunca se vió!
Del consejo que me dió,
Vuestra Alteza que haria
Si agora fuese yo?
REI.
A mulher que eu tivesse
Dar-lha-hia. Oxalá
Que elle a Rainha quizesse!
PHYSICO.
Pues déla, si le parece,
Que por ella muerto está.
REI.
Que me dizeis?
PHYSICO.
La verdad. [{294}]
REI.
Sem dúvida, tal sentistes?
PHYSICO.
Sin duda, sin falsedad.
Pues, Señor, ahora tomad
Los consejos que me distes.
REI.
Certamente, qu'eu o via
Em tudo quanto fallava.
Como o vistes? porque via?
PHYSICO.
Nel pulso, que se alterava
Si la via, ó si la oia.
REI.
Que maneira ha de haver?
Qu'eu certo me maravilho,
Possa mais o amor do filho,
Do que póde o da mulher.
Finalmente hei-lha de dar,
Que a ambos conheço o centro.
Quero-o ir alevantar,
E iremos para dentro
Neste caso praticar.
Diz contra o Principe:
Levantae-vos, filho, d'hi
O melhor que vós puderdes,
E vindo-vos para aqui;
Porque, emfim, o que quizerdes
Tudo havereis de mi. [{295}]
PAGEM.
Ah Senhores, oulá, ou?
PORTEIRO.
Viestes em conjunção
A melhor que póde ser:
Haveis aqui de fazer
A tosquia a hum rifão.
PAGEM.
Deixae-me, Senhor, dizer:
Haveis isto de acabar,
Coração, hi bugiar,
No esteis preso en cadenas,
Que pois o amor vos deo penas,
Que vos lanceis a voar.
PORTEIRO.
Por certo que bem comprou.
PAGEM.
Ora sabeis o que vai?
Antiocho que casou
Com a mulher de seu Pai,
E o mesmo Pae o ordenou.
PORTEIRO.
Isso como?
PAGEM.
Não o sei;
Porque dizem que a amava,
E que só por ella andava
Para morrer; e ElRei
Deo-a a quem a desejava.
PORTEIRO.
Se o casa por querer bem [{296}]
Com a moça, a quem elle ama,
Direi eu que a mim me inflama
O amor mais que a ninguem.
PAGEM.
Pois pedi-lhe a nossa dama.
PORTEIRO.
Por São Gil, que ei-los cá vem,
Elle pela mão com ella.
Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e diz:
REI.
Que mais ha hi que esperar?
Olhae qu'estranheza vai!
O muito amor ordenar,
Ir-se o filho namorar
D'huma mulher de seu Pai!
Querer bem foi sua dor,
Negar-lha será crueldade;
Assi que ja foi bondade
Usar eu de tal amor,
E de tal humanidade.
Ella deixou de reinar
Como fazia primeiro
Por se com elle casar;
E por amor verdadeiro
Tudo se póde deixar.
Eu que nella tinha pôsto
Todo o bem de meu cuidado,
Deixei mais que ella ha deixado;
Que mais se deixa no gôsto,
Que no poderoso estado. [{297}]
Mas ja que tudo isto vemos,
Hajão festas de prazer,
As que melhor possão ser;
Porqu'em tão grandes extremos,
Extremos se hão de fazer.
Hajão cantos para ouvir,
Jogos, prazeres sem fundo;
Porque, se quereis sentir,
Deste modo entrou o mundo,
E assi ha de sahir.
Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem, sahem-se todas as figuras, e diz
MARTIM CHINCHORRO.
Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos; ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor festa que póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das figuras nos acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz escuro, não vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço e as canastras.
ESTACIO DA FONSECA.
Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta pousada; e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento as leva. [{298}] [{299}]