A presilha.
Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam, um sentado, outro andando e parando. A vista de José Dias lembrou-me o que elle me disséra no seminario: «Aquillo emquanto não pegar algum peralta da visinhança que case com ella....» Era certamente allusão ao cavalleiro. Tal recordação aggravou a impressão que eu trazia da rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispoz a crer na malicia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola, leval-o ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hypothese; mas José Dias, que parára ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir á casa ao pé, imaginava que Capitú saisse da janella assustada e não tardasse a apparecer, para indagar e explicar.... E os dous falavam, até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente, e José Dias veiu ter commigo, ao vão da outra janella.
Ha um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitú e os peraltas do bairro; agora, imaginando que vinha justamente dizer-m'o, fiquei com medo de ouvil-o. Quiz tapar-lhe a bocca. José Dias viu no meu rosto algum signal differente da expressão habitual, e perguntou-me com interesse:
—Que é, Bentinho?
Para não fital-o, deixei cair os olhos. Os olhos, caindo, viram que uma das presilhas das calças do aggregado estava desabotoada, e, como elle insistisse em saber o que é que eu tinha, respondi apontando com o dedo:
—Olhe a presilha, abotoe a presilha.
José Dias inclinou-se, eu saí correndo.