Contado depressa.

Achei-lhe graça, e não lh'a nego ainda agora, apesar do tempo passado, dos successos occorridos, e da tal ou qual sympathia ao rato que acho em mim; teve graça. Não me pesa dizel-o; os que amam a natureza como ella quer ser amada, sem repudio parcial nem exclusões injustas, não acham nella nada inferior. Amo o rato, não desamo o gato. Já pensei em os fazer viver juntos, mas vi que são incompativeis. Em verdade, um roe-me os livros, outro o queijo; mas não é muito que eu lhes perdoe, se já perdoei a um cachorro que me levou o descanço em peores circumstancias. Contarei o caso depressa.

Foi quando nasceu Ezequiel; a mãe estava com febre, Sancha vivia ao pé della, e tres cães na rua latiam toda a noite. Procurei o fiscal, e foi como se procurasse o leitor, que só agora sabe disto. Então resolvi matal-os; comprei veneno, mandei fazer tres bolas de carne, e eu mesmo inseri nellas a droga. De noite, saí; era uma hora; nem a doente, nem a enfermeira podiam dormir, com a bulha dos cães. Quando elles me viram, afastaram-se, dous desceram para o lado da praia do Flamengo, um ficou a curta distancia, como que esperando. Fui-me a elle, assobiando e dando estalinhos com os dedos. O diabo ainda latiu, mas fiado nos signaes de amizade, foi-se calando, até que se calou de todo. Como eu continuasse, elle veiu a mim, devagar, mexendo a cauda, que é o seu modo de rir delles; eu tinha já na mão as bolas envenenadas, e ia deitar-lhe uma dellas, quando aquelle riso especial, carinho, confiança ou o que quer que seja, me atou a vontade; fiquei assim não sei como, tocado de pena e guardei as bolas no bolso. Ao leitor póde parecer que foi o cheiro da carne que remetteu o cão ao silencio. Não digo que não; eu cuido que elle não me quiz attribuir perfidia ao gesto, e entregou-se-me. A conclusão é que se livrou.


[CXII]