O defuncto.

Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. A loja era escura, e o interior da casa menos luz tinha, agora que as janellas da área estavam cerradas. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando; á porta da alcova duas creanças olhavam espantadas para dentro, com o dedo na bocca. O cadaver jazia na cama; a cama...

Suspendamos a penna e vamos á janella espairecer a memoria. Realmente, o quadro era feio, já pela morte, já pelo defuncto, que era horrivel... Isto aqui, sim, é outra cousa. Tudo o que vejo lá fóra respira vida, a cabra que rumina ao pé de uma carroça, a gallinha que marisca no chão da rua, o trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega e passa, a palmeira que investe para o ceu, e finalmente aquella torre de egreja, apesar de não ter musculos nem folhagem. Um rapaz, que alli no becco empina um papagaio de papel, não morreu nem morre, posto tambem se chame Manduca.

Verdade é que o outro Manduca era mais velho que este, pouco mais velho. Teria dezoito ou dezenove annos, mas tanto lhe darias quinze como vinte e dous, a cara não permittia trazer a edade á vista, antes a escondia nas dobras da... Vá, diga-se tudo; é morto, os seus parentes são mortos, se existe algum não é em tal evidencia que se vexe ou dôa. Diga-se tudo; Manduca padecia de uma cruel enfermidade, nada menos que a lepra. Vivo era feio; morto pareceu-me horrivel. Quando eu vi, estendido na cama, o triste corpo daquelle meu visinho, fiquei apavorado e desviei os olhos. Não sei que mão occulta me compelliu a olhar outra vez, ainda que de fugida; cedi, olhei, tornei a olhar, até que recuei de todo e saí do quarto.

—Padeceu muito! suspirou o pae.

—Coitado de Manduca! soluçava a mãe.

Eu cuidei de sair, disse que era esperado em casa, e despedi-me. O pae perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro; respondi com a verdade, que não sabia, faria o que minha mãe quizesse. E rapido saí, atravessei a loja, e saltei á rua.


[LXXXVI]