O dia de sabbado.
A ideia saiu finalmente do cerebro. Era noite, e não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. Tambem nenhuma noite me passou tão curta. Amanheceu, quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. Sai, suppondo deixar a ideia em casa; ella veiu commigo. Cá fóra tinha a mesma côr escura, as mesmas azas trepidas, e posto avoasse com ellas, era como se fosse fixa; eu a levava na retina, não que me encobrisse as cousas externas, mas via-as atra vez della, com a côr mais pallida que de costume, e sem se demorarem nada.
Não me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas, comprei uma substancia, que não digo, para não espertar o desejo de proval-a. A pharmacia falliu, é verdade; o dono fez-se banqueiro, e o banco prospera. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior, porque o premio da loteria gasta-se, e a morte não se gasta. Fui a casa de minha mãe, com o fim de despedir-me, a titulo de visita. Ou de verdade ou por illusão, tudo alli me pareceu melhor nesse dia, minha mãe menos triste, tio Cosme esquecido do coração, prima Justina da lingua. Passei uma hora em paz. Cheguei a abrir mão do projecto. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquella casa, ou prender aquella hora a mim mesmo...