O enterro.

A viuva... Poupo-vos as lagrimas da viuva, as minhas, as da outra gente. Sai de lá cerca de onze horas; Capitú e prima Justina esperavam-me, uma com o parecer abatido e estupido, outra enfastiada apenas.

—Vão fazer companhia a pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro.

Assim fizemos. Quiz que o enterro fosse pomposo, e a affluencia dos amigos foi numerosa. Praia, ruas, praça da Gloria, tudo eram carros, muitos delles particulares. A casa, não sendo grande, não podiam lá caber todos; muitos estavam na praia, falando do desastre, apontando o logar em que Escobar fallecèra, ouvindo referir a chegada do morto. José Dias ouviu tambem falar dos negocios do finado, divergindo alguns na avaliação dos bens, mas havendo accordo em que o passivo devia ser pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco; estavamos em Março de 1871. Nunca me esqueceu o mez nem o anno.

Como eu houvesse resolvido falar no cemiterio, escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias, que as achou realmente dignas do morto e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando as palavras, e confirmou a primeira opinião; no Flamengo espalhou a noticia. Alguns conhecidos vieram interrogar-me:

—Então, vamos ouvil-o?

—Quatro palavras.

Poucas mais seriam. Tinha-as escripto com receio de que a emoção me impedisse de improvisar. No tilbury em que andei uma ou duas horas, não fizera mais que recordar o tempo do seminario, as relações de Escobar, as nossas sympathias, a nossa amizade, começada, continuada e nunca interrompida, até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas creaturas que promettiam ficar por muito tempo unidas. De quando em quando enxugava os olhos. O cocheiro aventurou duas ou tres perguntas sobre a minha situação moral; não me arrancando nada, continuou o seu officio. Chegando a casa, deitei aquellas emoções ao papel; tal seria o discurso.


[CXXIII]