O imperador.

Em caminho, encontrámos o imperador, que vinha da Escola de Medicina. O omnibus em que iamos parou, como todos os vehiculos; os passageiros desceram á rua e tiraram o chapeu, até que o coche imperial passasse. Quanto tornei ao meu logar, trazia uma ideia fantastica, a ideia de ir ter com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria. esta ideia a Capitú. «Sua Majestade pedindo, mamãe cede,» pensei commigo.

Vi então o imperador escutando-me, reflectindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lagrimas. E logo me achei em casa, á espera, até que ouvi os batedores e o piquete de cavallaria; é o imperador! é o imperador! toda a gente chegava ás janellas para vel-o passar, mas não passava, o coche parava á nossa porta, o imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na visinhança: «O imperador entrou em casa de D. Gloria! Que será? Que não será? «A nossa familia saía a recebel-o; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,—não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,—pedia a minha mãe que me não fizesse padre,—e ella, lisongeada e obediente, promettia que não.

—A medicina,—porque lhe não manda ensinar medicina?

Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade...

—Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi á nossa Escola? É uma bella Escola. Já temos medicos de primeira ordem, que pódem hombrear com os melhores de outras terras. A medicina é uma grande sciencia; basta só isto de dar a saude aos outros, conhecer as molestias, combatel-as, vencel-as... A senhora mesma ha de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e elle não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira; mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?

—Mamãe querendo.

—Quero, meu filho. Sua Majestade manda.

Então o imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janellas atopetadas, um silencio de assombro; o imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: «A medicina, a nossa Escola.» E o coche partia entre invejas e agradecimentos.

Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fertil que a das creanças e dos namorados, nem a visão do impossivel precisa mais que de um recanto de omnibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.


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