O ultimo superlativo.

Não foi o ultimo superlativo de José Dias. Outros teve que não vale a pena escrever aqui, até que veiu o ultimo, o melhor delles, o mais doce, o que lhe fez da morte um pedaço de vida. Já então morava commigo; posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança, veiu dizer-me que, com legado ou sem elle, não se separaria de mim. Talvez a esperança delle fosse enterrar-me. Correspondia-se com Capitú, a quem pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel; mas Capitú ia adiando a remessa de correio a correio, até que elle não pediu mais nada, a não ser o coração do joven estudante; pedia-lhe tambem que não deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pae e do avô, «destinado pelo ceu a amar o mesmo sangue.» Era assim que elle preparava os cuidados da terceira geração; mas a morte veiu antes de Ezequiel. A doença foi rapida. Mandei chamar um medico homeopatha.

—Não, Bentinho, disse elle; basta um allopatha; em todas as escolas se morre. Demais, foram ideias da mocidade, que o tempo levou; converto-me á fé de meus paes. A allopathia é o catholicismo da medicina...

Morreu sereno, após uma agonia curta. Pouco antes ouviu que o ceu estava lindo, e pediu que abrissemos a janella.

—Não, o ar póde fazer-lhe mal.

—Que mal? Ar é vida.

Abrimos a janella. Realmente, estava um ceu azul e claro. José Dias soergueu-se e olhou para fóra; após alguns instantes, deixou cair a cabeça, murmurando: Lindissimo! Foi a ultima palavra que proferiu neste mundo. Pobre José Dias! Porque hei de negar que chorei por elle?


[CXLIV]