O velho Padua.
Ja agora conto tambem os adeuses do velho Padua. Logo cedo veiu á nossa casa. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.
—Dá licença? perguntou mettendo a cabeça pela porta.
Fui apertar-lhe a mão; elle abraçou-me com ternura.
—Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Todos nós estimamos muito o senhor, como merece. Se lhe disserem outra cousa, não acredite. São intrigas. Tambem eu, quando me casei, fui victima de intrigas; desfizeram-se. Deus é grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio,—cousa que eu, por esta luz que me allumia, não desejo, porque são boas pessoas, excedentes pessoas, e eu sou grato ás finezas recebidas... Não, eu não sou como outros, certos parasitas, vindos de fóra para desunião das familias, aduladores baixos, não; eu sou de outra especie; não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia... Emfim, são os mais felizes!
—Porque falará assim? pensei. Naturalmente sabe que José Dias diz mal delle.
—Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus parentes, póde contar com a nossa companhia. Não é sufficiente em importancia, mas a affeição é immensa, creia. Padre que seja, a nossa casa está ás suas ordens. Quero só que me não esqueça; não esqueça o velho Padua...
Suspirou e continuou:
—Não esqueça o seu velho Padua, e, se tem algum trapinho que me deixe em lembrança, um caderno latino, qualquer cousa, um botão de collete, cousa que já lhe não preste para nada. O valer é a lembrança.
Tive um sobresalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabellos, tão grandes e tão bonitos, cortados na vespera. A intenção era leval-os a Capitú, ao sair; mas tive ideia de dal-o ao pae, a filha saberia lomal-o e guardal-o. Peguei do embrulho e dei-lh'o.
—Aqui está, guarde.
—Um cachinho dos seus cabellos! exclamou Padua abrindo e fechando o embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dai-o á velha, para guardal-o, ou á pequena, que é mais cuidadosa que a mãe. Que lindos que são! Como é que se corta uma belleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus!
Tinha os olhos humidos devéras; levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê sair branco o maldito numero,—um numero tão bonito!