Panegyrico de Santa Monica.

No seminario... Ah! não vou contar o seminario, nem me bastaria a isso um capitulo. Não, senhor meu amigo; algum dia, sim, é possivel que componha um abreviado do que alli vi e vivi, das pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos cincoenta annos, não despega mais. Na mocidade é possivel curar-se um homem della; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminario tive um companheiro que compoz versos, a maneira dos de Junqueira Freire, cujo livro de frade poeta era recente. Ordenou-se: annos depois encontrei-o no còro de S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.

—Que versos? perguntou meio espantado.

—Os seus. Pois não se lembra que no seminario...

—Ah! sorriu elle.

Sorriu, e continuando a procurar n'um livro aberto a hora em que tinha do cantar no dia seguinte, confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. Foram cocegas da mocidade; coçou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de cousas do dia, a vida cara, um sermão do padre X... uma vigairaria mineira...

Contrario a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso dizer o nome; baste o caso. Tinha composto um Panegyrico de Santa Monica, elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. Alcançou licença de imprimil-o, o dedicou-o a Santo Agostinho. Tudo isso é historia velha; o que é mais moço é que um dia, em 1882, indo ver certo negocio em repartição de marinha, alli dei com este meu collega, feito chefe de uma secção administrativa. Deixára seminario, deixára lettras, casára e esquecera tudo, menos o Panegyrico de Santa Monica, umas vinte e nove paginas, que veiu distribuindo pela vida fóra. Como eu precisasse de algumas informações, fui pedir-lh'as, e seria impossivel achar melhor nem mais prompta vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso. Naturalmente conversamos do passado, memorias pessoaes, casos de estudo, incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá fóra, e rimos juntos, e suspiramos de companhia. Vivemos algum tempo do nosso velho seminario. Ou porque eram delle, ou porque eramos então moços, as recordações traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra contraria houve então, não appareceu agora. Elle confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminario.

—Tambem eu, quasi todos; uma vez ordenados, voltaram naturalmente ás suas provincias, e os daqui tomaram vigairarias fóra.

—Bom tempo! suspirou elle.

E, após alguma reflexão, fitando em mim uns olhos murchos e teimosos, perguntou-me:

—Conservou o meu Panegyrico?

Não achei que dizer; tentei mover os beiços, mas não tinha palavra; afinal, perguntei:

—Panegyrico? Que panegyrico?

—O meu Panegyrico de Santa Monica.

Não me lembrou logo, mas a explicação devia bastar; e depois de alguns instantes de pesquiza mental, respondi que por muito tempo o conservára, mas as mudanças, as viagens...

—Hei de levar-lhe um exemplar.

Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis annos, encardido, manchado do tempo, mas sem lacuna, e com uma dedicatoria manuscripta e respeitosa.

—E o penultimo exemplar, disse-me; agora só me resta um, que não posso dar a ninguem.

E como me visse folhear o opusculo:

—Veja se lhe lembra algum pedaço, disse-me.

Vinte e seis annos de intervallo fazem morrer amizades mais estreitas e assiduas, mas era cortezia, era quasi caridade recordar alguma lauda; li uma dellas, accentuando certas phrases para lhe dar a impressão de que achavam echo em minha memoria. Concordou que fossem bellas, mas preferia outras, e apontou-as.

—Recorda-se bem?

—Perfeitamente. Panegyrico de Santa Monica! Como isto me faz remontar os annos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminario, creia. Os annos passam, os acontecimentos vêm uns sobre outros, e as sensações tambem, e vieram amizades novas, que tambem se foram depois, como é lei da vida... Pois, meu caro collega, nada fez apagar aquelle tempo da nossa convivencia, os padres, as licções, os recreios... os nossos recreios, lembra-se? o padre Lopes, oh! o padre Lopes...

Elle, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente ouvia, mas só me disse uma palavra, e ainda assim depois de algum tempo de silencio, recolhendo os olhos e um suspiro!

—Tem agradado muito este meu Panegyrico!


[LV]