SCENA II

Os Mesmos e D. LEOCADIA

D. LEOCADIA (pára á porta, desce pé ante pé, e mette a cabeça entre os dous.)

Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES, aparte

É isto todos os dias.

D. LEOCADIA

Agora estudam a Grecia; fazem muito bem. O paiz do casamento é que vocês não precisaram estudar.

D. ADELAIDE

A senhora foi a nossa geographia, foi quem nos deu as primeiras licções.

D. LEOCADIA

Não diga licções, diga remedios. Eu sou doutora, eu sou medica. Este (indicando Magalhães), quando voltou de Guatemala, tinha um ar exquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que não; observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solitario...

MAGALHÃES

Já me disse isto cem vezes.

D. LEOCADIA, voltando-se para elle e continuando

Esta (designando Adelaide) andava hypocondriaca. O medico da casa receitava pilulas, capsulas, uma porção de tolices que ella não tomava, porque eu não deixava; o medico devia ser eu.

D. ADELAIDE

Foi uma felicidade. Que é que se ganha em engolir pilulas?

D. LEOCADIA

Apanham-se molestias.

D. ADELAIDE

Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalhães...

D. LEOCADIA

Perdão, o nariz.

ADELAIDE

Vá lá. A senhora disse-me que elle tinha o nariz bonito, mas muito solitario. Não entendi; dous dias depois, perguntou-me se queria casar, eu não sei que disse, e acabei casando.

D. LEOCADIA

Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES

Perfeitamente.

D. LEOCADIA

A proposito, como irá o Dr. Cavalcante? Que exquisitão! Disse-me hontem que a cousa mais alegre do mundo era um cemiterio. Perguntei-lhe se gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro era uma grande cidade. «É a segunda vez que a vejo, disse elle; eu sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifacio é um grande homem, a rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um bello chafariz, o Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias, os Tymbiras, o Maranhão...» Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Elle é doudo?

MAGALHÃES

Não.

D. LEOCADIA

A principio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o perú. Perguntei-lhe que tal achava o perú. Ficou pallido, deixou cair o garfo, fechou os olhos e não me respondeu. Eu ia chamar a attenção de vocês, quando elle abriu os olhos e disse com voz surda: «D. Leocadia, eu não conheço o Perú...» Eu, espantada, perguntei: «Pois não está comendo...?» «Não falo desta pobre ave; falo-lhe da republica.»

MAGALHÃES

Pois conhece a republica.

D. LEOCADIA

Então mentiu.

MAGALHÃES

Não, porque nunca lá foi.

D. LEOCADIA (a D.Adelaide)

Mau! seu marido parece que tambem está virando o juizo. (A Magalhães) Conhece então o Perú, como vocês estão conhecendo a Grecia... pelos livros.

MAGALHÃES

Tambem não.

D. LEOCADIA

Pelos homems?

MAGALHÃES

Não, senhora.

D. LEOCADIA

Então pelas mulheres?

MAGALHÃES

Nem pelas mulheres.

D. LEOCADIA

Por uma mulher?

MAGALHÃES

Por uma mocinha, filha do ministro do Perú em Guatemala. Já contei a historia a Adelaide. (D. Adelaide senta-se folheando o livro de gravuras.)

D. LEOCADIA, senta-se

Ouçamos a historia. É curta?

MAGALHÃES

Quatro palavras. Cavalcante estava em commissão do nosso governo, e frequentava o corpo diplomatico, onde era muito bem visto. Realmente, não se podia achar creatura mais dada, mais expansiva, mais estimavel. Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bella e alta, com uns olhos admiraveis. Cavalcante, dentro de pouco, estava doudo por ella, não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando a via ficava extatico. Se ella gostava delle, não sei; é certo que o animava, e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Perú, onde casou com um primo, segundo me escreveu o pae.

D. LEOCADIA

Elle ficou desconsolado, naturalmente.

MAGALHÃES

Ah! não me fale! Quiz matar-se; pude impedir esse acto de desespero, e o desespero desfez-se em lagrimas. Caiu doente, uma febre que quasi o levou. Pediu dispensa da commissão, e, como eu tinha obtido seis mezes de licença, voltámos juntos. Não imagina o abatimento em que ficou, a tristeza profunda; chegou a ter as idéas baralhadas. Ainda agora, diz alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.

D. LEOCADIA

Quer que lhe diga? Já hontem suspeitei que era negocio de amores; achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?

MAGALHÃES

Coração de ouro.

D. LEOCADIA

Espirito elevado?

MAGALHÃES

Sim, senhora.

D. LEOCADIA

Espirito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido.

MAGALHÃES

Entendido o que?

D. LEOCADIA

Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam?

D. ADELAIDE

De nada.

MAGALHÃES

De nada, mas...

D. LEOCADIA

Mas que?

MAGALHÃES

Parece-me...

D. LEOCADIA

Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei o nariz de um e a hypocondria do outro, como é que põem em duvida que eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou cural-o. Elle virá hoje?

D. ADELAIDE

Não vem todos os dias; ás vezes passa-se uma semana.

MAGALHÃES

Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar, dir-lhe-hei que a senhora é o maior medico do seculo; cura o moral... Mas, minha tia, devo avisal-a de uma cousa; não lhe fale em casamento.

D. LEOCADIA

Oh! não!

MAGALHÃES

Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se ha de casar com a morte... A senhora exponha-lhe...

D. LEOCADIA

Ora, meu sobrinho, vá ensinar o padre-nosso ao vigario. Eu sei o que elle precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já volto.

MAGALHÃES

Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana...

D. LEOCADIA

Pois se eu mesma adivinhei que elle soffria do coração. (Sae; entra Carlota.)