SCENA II

D. HELENA, D. CECILIA

D. HELENA

Não me agradeces?

D. CECILIA

O que?

D. HELENA

Sonsa! Pois não adivinhas o que vem cá fazer o barão?

D. CECILIA

Não.

D. HELENA

Vem pedir a tua mão para o sobrinho.

D. CECILIA

Helena!

D. HELENA, imitando-a

Helena!

D. CECILIA

Juro...

D. HELENA

Que o não amas.

D. CECILIA

Não é isso.

D. HELENA

Que o amas?

D. CECILIA

Tambem não.

D. HELENA

Mau! Alguma cousa ha de ser. Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermée. Porta neste caso é coração. O teu coração ha de estar fechado ou aberto...

D. CECILIA

Perdi a chave.

D. HELENA, rindo

E não o pódes fechar outra vez. São assim todos os corações ao pé de todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do logar. Não escolheste mal, não; é um bonito rapaz.

D. CECILIA

Oh! uns olhos!

D. HELENA

Azues.

D. CECILIA

Como o ceu.

D. HELENA

Louro...

D. CECILIA

Elegante...

D. HELENA

Espirituoso...

D. CECILIA

E bom.

D. HELENA

Uma perola. (Suspira.) Ah!

D. CECILIA

Suspiras?

D. HELENA

Que ha de fazer uma viuva, falando... de uma perola?

D. CECILIA

Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza.

D. HELENA

Não tenho, não; meu coração já não quer joias.

D. CECILIA

Mas as joias querem o teu coração.

D. HELENA

Tanto peior para ellas: hão de ficar em casa do joalheiro.

D. CECILIA

Veremos isso. (Sobe) Ah!

D. HELENA

Que é?

D. CECILIA, olhando para a direita.

Um homem desconhecido que lá vem; ha de ser o barão.

D. HELENA

Vou avisar titia. (Sae pelo fundo, esquerda.)