SCENA VII
CAVALCANTE, D. LEOCADIA
D. Leocadia, ao fundo, aparte.
Está pensando (Desce.) Bom dia, Dr. Cavalcante!
CAVALCANTE
Como passou, minha senhora?
D. LEOCADIA
Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?
CAVALCANTE
Foi buscar charutos, já volta.
D. LEOCADIA
Os senhores são muito amigos.
CAVALCANTE
Somos como dous irmãos.
D. LEOCADIA
Magalhães é um coração de ouro, e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o senhor fala trocado.
CAVALCANTE
Disse-lhe hontem algumas tolices, não?
D. LEOCADIA
Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.
CAVALCANTE
Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.
D. LEOCADIA, pegando-lhe nas mãos.
Olhe bem para mim (Pausa.) Suspire. (Cavalcante suspira.) O senhor está doente; não negue que está doente,—moralmente, entenda-se; não negue! (Solta-lhe as mãos.)
CAVALCANTE
Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um grandissimo desgosto...
D. LEOCADIA
Jogo de praça?
CAVALCANTE
Não, senhora.
D. LEOCADIA
Ambições politicas mallogradas?
CAVALCANTE
Não conheço politica.
D. LEOCADIA
Algum livro mal recebido pela imprensa?
CAVALCANTE
Só escrevo cartas particulares.
D. LEOCADIA
Não atino. Diga francamente; eu sou medico de enfermidades moraes, e posso cural-o. Ao medico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo, tudo. Não se trata de amores?...
CAVALCANTE, suspirando.
Trata-se justamente de amores.
D. LEOCADIA
Paixão grande?
CAVALCANTE
Oh! immensa!
D. LEOCADIA
Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente, bonita?
CAVALCANTE
Como um anjo!
D. LEOCADIA
O coração também era de anjo?
CAVALCANTE
Póde ser, mas de anjo mau.
D. LEOCADIA
Uma ingrata...
CAVALCANTE
Uma perversa!
D. LEOCADIA
Diabolica...
CAVALCANTE
Sem entranhas!
D. LEOCADIA
Vê que estou adivinhando. Console-se; uma creatura dessas não acha casamento.
CAVALCANTE
Já achou!
D. LEOCADIA
Já?
CAVALCANTE
Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.
D. LEOCADIA
Os primos quasi que não nascem para outra cousa. Diga-me, não procurou esquecer o mal nas folias proprias de rapazes?
CAVALCANTE
Oh! não! Meu unico prazer é pensar nella.
D. LEOCADIA
Desgraçado! Assim nunca ha de sarar.
CAVALCANTE
Vou tratar de esquecel-a.
D. LEOCADIA
De que modo?
CAVALCANTE
De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e archaico. Penso em fazer-me frade. Ha de haver em algum recanto do mundo um claustro em que não penetre sol nem lua.
D. LEOCADIA
Que illusão! Lá mesmo achará a sua namorada. Ha de vel-a nas paredes da cella, no tecto, no chão, nas folhas do breviario. O silencio far-se-ha boca da moça, a solidão será o seu corpo.
CAVALCANTE
Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?
D. LEOCADIA
Póde ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remedio naturalmente indicado é ir prégar... na China, por exemplo. Va prégar aos infieis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos de chinezas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez annos está curado. Volte, metta-se no convento e não achará lá o diabo.
CAVALCANTE
Está certa que na China...
D. LEOCADIA
Certissima.
CAVALCANTE
O seu remedio é muito amargo! Porque é que me não manda antes para o Egypto? Também é paiz de infieis.
D. LEOCADIA
Não serve; é a terra daquella rainha... Como se chama?
CAVALCANTE
Cleopatra? Morreu ha tantos seculos!
D. LEOCADIA
Meu marido disse que era uma desmiolada.
CAVALCANTE
Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende amor nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que elle adorava a V. Ex.
D. LEOCADIA
Ah! ah! Já o doente começa a adular o medico. Não, senhor, ha de ir á China. Lá ha mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança em mim?
CAVALCANTE
Oh! tenho, tenho. Mas ao doente é permittido fazer uma careta antes de engolir a pilula. Obedeço; vou para a China. Dez annos, não?
D. LEOCADIA, levanta-se.
Dez ou quinze, se quizer; mas antes dos quinze está curado.
CAVALCANTE
Vou.
D. LEOCADIA
Muito bem. A sua doença é tal que só com remedios fortes. Vá; dez annos passam depressa.
CAVALCANTE
Obrigado, minha senhora.
D. LEOCADIA
Até logo.
CAVALCANTE
Não, minha senhora, vou já.
D. LEOCADIA
Já para a China!
CAVALCANTE
Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma, depois sigo immediatamente para a China. Até daqui a dez annos. (Estende-lhe a mão.)
D. LEOCADIA
Fique ainda uns dias...
CAVALCANTE
Não posso.
D. LEOCADIA
Gosto de ver essa pressa; mas, emfim, póde esperar ainda uma semana.
CAVALCANTE
Não, não devo esperar. Quero ir ás pilulas, quanto antes; é preciso obedecer religiosamente ao medico.
D. LEOCADIA
Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no medico. O peior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre delle.
CAVALCANTE
Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!
D. LEOCADIA
No fim de dous annos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido a namorada, consentirei que volte.
CAVALCANTE
Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas.
D. LEOCADIA
Então não volta mais a esta casa?
CAVALCANTE
Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou tomar passagem no paquete de amanhã.
D. LEOCADIA
Jante, ao menos, comnosco.
CAVALCANTE
Janto na cidade.
D. LEOCADIA
Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me: o senhor merece estar doente. Ha pessoas que adoecem sem merecimento nenhum; ao contrario, não merecem outra cousa mais que uma saude de ferro. O senhor nasceu para adoecer; que obediencia ao medico! que facilidade em engolir todas as nossas pilulas! Adeus!
CAVALCANTE
Adeus, D. Leocadia. (Sae pelo fundo.)