SCENA XII

D. CARLOTA, CAVALCANTE

CAVALCANTE, ao fundo.

D. Leocadia! (Entra e fala de longe a Carlota, que está de costas.) Quando eu ia a sair, lembrei-me...

D. CARLOTA

Quem é? (Levanta-se.) Ah! doutor!

CAVALCANTE

Desculpe-me, vinha falar á senhora sua mãe para lhe pedir um favor.

D. CARLOTA

Vou chamal-a.

CAVALCANTE

Não se incommode; falar-lhe-hei logo. Saberá por acaso se a senhora sua mãe conhece algum cardeal em Roma?

D. CARLOTA

Não sei, não, senhor.

CAVALCANTE

Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais tarde (Corteja, sae e pára.) Ah! aproveito a occasião para lhe perguntar ainda uma vez em que é que a offendi?

D. CARLOTA

O senhor nunca me offendeu.

CAVALCANTE

Certamente que não; mas ainda ha pouco, falando-lhe de um tio meu, que morreu no Paraguay, tio João Pedro, capitão de engenharia...

D. CARLOTA, atalhando.

Porque é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?

CAVALCANTE

Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já ha de saber que eu tenho distracções repentinas, e quando não caio no ridiculo, como hoje de manhã, caio na indiscreção. São segredos mais graves que os seus. É feliz, é bonita, póde contar com o futuro, emquanto que eu... Mas eu não quero aborrecel-a. O meu caso ha de andar em romances. (Indicando o livro que ella tem na mão) Talvez nesse.

D. CARLOTA

Não é romance. (Dá-lhe o livro.)

CAVALCANTE

Não? (Lê o titulo) Como? Está estudando a Grecia?

D. CARLOTA

Estou.

CAVALCANTE

Vae para lá?

D. CARLOTA

Vou, com prima Adelaide.

CAVALCANTE

Viagem de recreio, ou vae tratar-se?

D. CARLOTA

Deixe-me ir chamar mamãe.

CAVALCANTE

Perdôe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (Dá alguns passos para sair.)

D. CARLOTA

Doutor! (Cavalcante pára.) Não se zangue commigo; sou um pouco tonta, o senhor é bom...

Cavalcante, descendo.

Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é toda sua. Ha poucos dias que nos conhecemos, e já nos zangámos, por minha causa. Não proteste; a causa é a minha molestia.

D. CARLOTA

O senhor está doente?

CAVALCANTE

Mortalmente.

D. CARLOTA

Não diga isso!

CAVALCANTE

Ou gravemente, se prefere.

D. CARLOTA

Ainda é muito. E que molestia é?

CAVALCANTE

Quanto ao nome, não ha accordo: loucura, espirito romanesco e muitos outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida commigo!

D. CARLOTA

Oh! não, não, não. (Procurando rir.) É o contrario; estou até muito alegre. Diz-me então que está doente, louco...

CAVALCANTE

Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro amor, por ser mais bonito, mas a molestia, qualquer que seja a causa, é cruel e terrivel. Não póde comprehender este imbroglio; peça a Deus que a conserva nessa boa e feliz ignorancia. Porque é que me está olhando assim? Quer talvez saber...

D. CARLOTA

Não, não quero saber nada.

CAVALCANTE

Não é crime ser curiosa.

D. CARLOTA

Seja ou não loucura, não quero ouvir historias como a sua.

CAVALCANTE

Já sabe qual é?

D. CARLOTA

Não.

CAVALCANTE

Não tenho direito de interrogal-a; mas ha já dez minutos que estamos neste gabinete, falando de cousas bem exquisitas para duas pessoas que apenas se conhecem.

D. CARLOTA, estendendo-lhe a mão

Até logo.

CAVALCANTE

A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achal-a agitada. Socegue um pouco, sente-se (Carlota senta-se.) Eu retiro-me.

D. CARLOTA

Passe bem.

CAVALCANTE

Até logo.

D. CARLOTA

Volta logo?

CAVALCANTE

Não, não volto mais; queria enganal-a.

D. CARLOTA

Enganar-me porque?

CAVALCANTE

Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são duas palavras. Eu gostava muito de uma moça que tinha a sua belleza, e ella casou com outro. Eis a minha molestia.

D. CARLOTA, erguendo-se

Como assim?

CAVALCANTE

É verdade; casou com outro.

D. CARLOTA, indignada

Que acção vil!

CAVALCANTE

Não acha?

D. CARLOTA

E ella gostava do senhor?

CAVALCANTE

Apparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.

D. CARLOTA, animando-se aos poucos

Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua unica ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplal-o por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas cousas que pareciam cair do ceu, e suspirava...

CAVALCANTE

Sim, suspirava, mas...

D. CARLOTA, muito animada

Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação, fugiu e foi casar com uma viuva hespanhola!

CAVALCANTE, espantado

Uma viuva hespanhola!

D. CARLOTA

Ah! tem muita razão em estar doente!

CAVALCANTE

Mas que viuva hespanhola é essa de que me fala?

D. CARLOTA, caindo em si

Eu falei-lhe de uma viuva hespanhola?

CAVALCANTE

Falou.

D. CARLOTA

Foi engano... Adeus, sr. doutor.

CAVALCANTE

Espere um instante. Creio que me comprehendeu. Falou com tal paixão que os medicos não têm. Oh! como eu execro os medicos! principalmente os que me mandam para a China.

D. CARLOTA

O senhor vae para a China?

CAVALCANTE

Vou; mas não diga nada! foi sua mãe que me deu esta receita.

D. CARLOTA

A China é muito longe!

CAVALCANTE

Creio até que está fóra do mundo.

D. CARLOTA

Tão longe porque?

CAVALCANTE

Boa palavra essa. Sim, porque ir á China, se a gente póde sarar na Grecia? Dizem que a Grecia é muito efficaz para estas feridas; ha quem affirme que não ha melhor para as que são feitas pelos capitães de engenharia. Quanto tempo vae lá passar?

D. CARLOTA

Não sei. Um anno, talvez.

CAVALCANTE

Crê que eu possa sarar n'um anno?

D. CARLOTA

É possivel.

CAVALCANTE

Talvez sejam precisos dous,—dous ou tres.

D. CARLOTA

Ou tres.

CAVALCANTE

Quatro, cinco...

D. CARLOTA

Cinco, seis...

CAVALCANTE

Depende menos do paiz que da doença.

D. CARLOTA

Ou do doente.

CAVALCANTE

Ou do doente. Já a passagem do mar póde ser que me faça bem. A minha molestia casou com um primo. A sua (perdôe esta outra indiscreção; é a ultima) a sua casou com a viuva hespanhola. As hespanholas, mórmente viuvas, são detestaveis. Mas, diga-me uma cousa: se uma pessoa já está curada, que é que vae fazer á Grecia?

D. CARLOTA

Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vae para a China.

CAVALCANTE

Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez na morte?

D. CARLOTA

Pensa-se nella, mas lá vem um dia em que a gente acceita a vida, seja como fôr.

CAVALCANTE

Vejo que sabe muita cousa.

D. CARLOTA

Não sei nada; sou uma tagarella, que o senhor obrigou a dar por páos e por pedras; mas, como é a ultima vez que nos vemos, não importa. Agora, passe bem.

CAVALCANTE

Adeus, D. Carlota!

D. CARLOTA

Adeus, doutor!

CAVALCANTE

Adeus. (Dá um passo para a porta do fundo.) Talvez eu vá a Athenas; não fuja se me vir vestido de frade.

D.CARLOTA (indo a elle)

De frade? O senhor vae ser frade?

CAVALCANTE

Frade. Sua mãe approva-me, comtanto que eu vá á China. Parece-lhe que devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?

D. CARLOTA

É difficil obedecer a uma vocação perdida.

CAVALCANTE

Talvez nem a tivesse, e ninguem se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sae de um coração que padeceu tambem, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doudo, se quizer, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame (Carlota, perturbada, volta o rosto). Não lhe peço que me ame, mas que se deixe amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não podia impedir que lhe accendesse uma vela.

D.CARLOTA

Não falemos mais nisto, e separemo-nos.

CAVALCANTE

A sua voz treme; olhe para mim...

D. CARLOTA

Adeus; ahi vem mamãe.