Um capitão de voluntarios

Indo a embarcar para a Europa, logo depois da proclamação da Republica, Simão de Castro fez inventario das cartas e apontamentos; rasgou tudo. Só lhe ficou a narração que ides ler; entregou-a a um amigo para imprimil-a quando elle estivesse barra fóra. O amigo não cumpriu a recommendação por achar na historia alguma cousa que podia ser penosa, e assim lh'o disse em carta. Simão respondeu que estava por tudo o que quizesse; não tendo vaidades literarias, pouco se lhe dava de vir ou não a publico. Agora que os dous falleceram, e não ha egual escrupulo, dá-se o manuscripto ao prelo.


Eramos dous, ellas duas. Os dous iamos alli por visita, costume, desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, elle meu amigo. Às tardes, sobre o jantar,—jantava-se cedo em 1866,—ia alli fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janella, donde se via um morro com casas em cima. A janella opposta dava para o mar. Não digo a rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro. Occultarei o nome do meu amigo; ponhamos uma letra, X... Ella, uma dellas, chamava-se Maria.

Quando eu entrava, já elle estava na cadeira de balanço. Os moveis da sala eram poucos, os ornatos raros, tudo simples. X... estendia-me a mão larga e forte; eu ia sentar-me ao pé da janella, olho na sala, olho na rua. Maria, ou já estava ou vinha de dentro. Eramos nada um para o outro; ligava-nos unicamente a affeição de X... Conversavamos; eu saía para casa ou ia passear, elles ficavam e iam dormir. Algumas vezes jogavamos cartas, ás noites, e, para o fim do tempo, era alli que eu passava a maior parte destas.

Tudo em X... me dominava. A figura primeiro. Elle robusto, eu franzino; a minha graça feminina, debil, desapparecia ao pé do garbo varonil delle, dos seus hombros largos, cadeiras largas, jarrete forte e o pé solido que, andando, batia rijo no chão. Dae-me um bigode escasso e fino; vêde nelle as suissas longas, espessas e encaracoladas, e um dos seus gestos habituaes, pensando ou escutando, era passar os dedos por ellas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, não só por serem grandes e bellos, mas por que riam mais e melhor que a boca. Depois da figura, a edade; X... era homem de quarenta annos, eu não passava dos vinte e quatro. Depois da edade, a vida; elle vivêra muito, em outro meio, donde saíra a encafuar-se naquella casa, com aquella senhora; eu não vivêra nada nem com pessoa alguma. Emfim,—e este rasgo é capital,—havia nelle uma fibra castelhana, uma gotta do sangue que circula nas paginas de Calderon, uma attitude moral que posso comparar, sem depressão nem riso, á do heróe de Cervantes.

Como se tinham amado? Datava de longe. Maria contava já vinte e sete annos, e parecia haver recebido alguma educação. Ouvi que o primeiro encontro fôra em um baile de mascaras, no antigo Theatro Provisorio. Ella trajava uma saia curta, e dançava ao som de um pandeiro. Tinha os pés admiraveis, e foram elles ou o seu destino a causa do amor de X... Nunca lhe perguntei a origem da alliança; sei só que ella tinha uma filha, que estava no collegio e não vinha á casa; a mãe é que ia vê-la. Verdadeiramente as nossas relações eram respeitosas, e o respeito ia ao ponto de acceitar a situação sem a examinar.

Quando comecei a ir alli, não tinha ainda o emprego no banco. Só dous ou tres mezes depois é que entrei para este, e não interrompi as relações. Maria tocava piano; ás vezes, ella e a amiga Raymunda conseguiam arrastar X... ao theatro; eu ia com elles. No fim, tomavamos chá em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabavamos a noite indo de carro a Botafogo.

A estas festas não ia Barreto, que só mais tarde começou a frequentar a casa. Entretanto, era bom companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite, como saissemos de lá, encaminhou a conversa para as duas mulheres, e convidou-me a namoral-as.

—Tu escolhes uma, Simão, eu outra.

Estremecei e parei.

—Ou antes, eu já escolhi, continuou elle; escolhi a Raymunda. Gosto muito da Raymunda. Tu, escolhe a outra.

—A Maria?

—Pois que outra ha de ser.

O alvoroço que me deu este tentador foi tal que não achei palavra de recusa, nem palavra nem gesto. Tudo me pareceu natural e necessario. Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu tres annos, mas tinha a edade conveniente para ensinar-me a amar. Está dito, Maria. Deitámo-nos ás duas conquistas com ardor e tenacidade. Barreto não tinha que vencer muito; a eleita delle não trazia amores, mas até pouco antes padecêra de uns que rompêra contra a vontade, indo o amante casar com uma moça de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia, estando eu a almoçar, veiu annunciar-me que recebêra uma carta della, e mostrou-m'a.

—Estão entendidos?

—Estamos. E vocês?

—Eu não.

—Então quando?

—Deixa ver; eu te digo.

Naquelle dia fiquei meio vexado. Com effeito, apezar da melhor vontade deste mundo, não me atrevia a dizer a Maria os meus sentimentos. Não supponhas que era nenhuma paixão. Não tinha paixão, mas curiosidade. Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado de uma força nova e mysteriosa; mas, por um lado, não amára nunca, e, por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, não para explicar escrupulos, mas unicamente para fazer comprehender o meu acanhamento. Viviam juntos desde alguns annos, um para o outro. X... tinha confiança em mim, confiança absoluta, communicava-me os seus negocios, contava-me cousas da vida passada. Apezar da desproporção da edade, eramos como estudantes do mesmo anno.

Como entrasse a pensar mais constantemente em Maria, é provavel que por algum gesto lhe houvesse descoberto o meu recente estado; certo é que, um dia, ao apertar-lhe a mão, senti que os dedos della se demoravam mais entre os meus. Dous dias depois, indo ao correio, encontrei-a sellando uma carta para a Bahia. Ainda não disse que era bahiana? Era bahiana. Ella é que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a pôr o sello e despedimo-nos. Á porta ia a dizer alguma cousa, quando vi ante nós, parada, a figura de X...

—Vim trazer a carta para mamãe, apressou-se ella em dizer.

Despediu-se de nós e foi para casa; elle e eu tomámos outro rumo. X... aproveitou a occasião para fazer muitos elogios de Maria. Sem entrar em minudencias ácerca da origem das relações, assegurou-me que fôra uma grande paixão egual em ambos, e concluiu que tinha a vida feita.

—Já agora não me caso; vivo maritalmente com ella, morrerei com ella. Tenho só uma pena; é ser obrigado a viver separado de minha mãe. Minha mãe sabe, disse-me elle parando. E continuou andando: sabe, e até já me fez uma allusão muito vaga e remota, mas que eu percebi. Consta-me que não desapprova; sabe que Maria é séria e boa, e uma vez que eu seja feliz, não exige mais nada. O casamento não me daria mais que isto....

Disse muitas outras cousas, que eu fui ouvindo sem saber de mim; o coração batia-me rijo, e as pernas andavam frouxas. Não atinava com resposta idonea; alguma palavra que soltava, saia-me engasgada. Ao cabo de algum tempo, elle notou o meu estado e interpretou-o erradamente; suppoz que as suas confidencias me aborreciam, e disse-m'o rindo. Contestei serio;

—Ao contrario, ouço com interesse, e trata-se de pessoa de toda a consideração e respeito.

Penso agora que cedia inconscientemente a uma necessidade de hypocrisia. A edade das paixões é confusa, e naquella situação não posso discernir bem os sentimentos e suas causas. Entretanto, não é fóra de proposito que buscasse dissipar no animo de X... qualquer possivel desconfiança. A verdade é que elle me ouviu agradecido. Os seus grandes olhos de creança envolveram-me todo, e quando nos despedimos, apertou-me a mão com energia. Creio até que lhe ouvi dizer: «Obrigado!»

Não me separei delle atterrado, nem ferido de remorsos previos. A primeira impressão da confidencia esvaiu-se, ficou só a confidencia, e senti crescer-me o alvoroço da curiosidade. X... falára-me de Maria como de pessoa casta e conjugal; nenhuma allusão ás suas prendas physicas, mas a minha edade dispensava qualquer referencia directa. Agora, na rua, via de cór a figura da moça, os seus gestos egualmente languidos e robustos, e cada vez me sentia mais fóra de mim. Em casa escrevi-lhe uma carta longa e diffusa, que rasguei meia hora depois, e fui jantar. Sobre o jantar fui á casa de X...

Eram ave-marias. Elle estava na cadeira de balanço, eu sentei-me no logar do costume, olho na sala, olho no morro. Maria appareceu tarde, depois das horas, e tão anojada que não tomou parte na conversação. Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e saiu da sala.

—Maria accordou hoje com a mania de colher donativos para a guerra, disse-me elle. Já lhe fiz notar que nem todos quererão parecer que... Você sabe... A posição della... Felizmente, a idéa ha de passar; tem dessas phantasias...

—E porque não?

—Ora, porque não! E depois, a guerra do Paraguay, não digo que não seja como todas as guerras, mas palavra, não me enthusiasma. A principio, sim, quando o Lopez tomou o Marquez de Olinda, fiquei indignado; logo depois perdi a impressão, e agora, francamente, acho que tinhamos feito muito melhor se nos alliassemos ao Lopez contra os argentinos.

—Eu não. Prefiro os argentinos.

—Tambem gosto delles, mas, no interesse da nossa gente, era melhor ficar com o Lopez.

—Não; olhe, eu estive quasi a alistar-me como voluntario da patria.

—Eu, nem que me fizessem coronel, não me alistava.

Elle disse não sei que mais. Eu, como tinha a orelha afiada, á escuta dos pés de Maria, não respondi logo, nem claro, nem seguido; fui engrolando alguma palavra e sempre á escuta. Mas o diabo da moça não vinha; imaginei que estariam arrufados. Emfim, propuz cartas, podiamos jogar uma partida de voltarete.

—Podemos, disse elle.

Passámos ao gabinete. X... poz as cartas na mesa e foi chamar a amiga. Dalli ouvi algumas phrases sussurradas, mas só estas me chegaram claras:

—Vem! é só meia hora.

—Que massada! Estou doente.

Maria appareceu no gabinete, bocejando. Disse-me que era só meia hora; tinha dormido mal, doia-lhe a cabeça e contava deitar-se cedo. Sentou-se enfastiada, e começámos a partida. Eu arrependia-me de haver rasgado a carta; lembravam-me alguns trechos della, que diriam bem o meu estado, com o calor necessario a persuadil-a. Se a tenho conservado, entregava-lh'a agora; ella ia muita vez ao patamar da escada despedir-se de mim e fechar a cancella. Nessa occasião podia dar-lh'a; era uma solução da minha crise.

Ao cabo de alguns minutos, X... levantou-se para ir buscar tabaco de uma caixa de folha de Flandres, posta sobre a secretaria. Maria fez então um gesto que não sei como diga nem pinte. Ergueu as cartas á altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe ficava á esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e attracção, que não sei como não entrei por elles. Tudo foi rapido. Quando elle voltou fazendo um cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque, fitando-as como se calculasse. Eu devia estar tremulo; não obstante, calculava tambem, com a differença de não poder falar. Ella disse então com placidez uma das palavras do jogo, passo ou licença.

Jogámos cerca de uma hora. Maria, para o fim, cochilava literalmente, e foi o proprio X... que lhe disse que era melhor ir descançar. Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chapéo e a bengala. Maria, á porta da sala, esperava que eu saisse e acompanhou-me até á cancella, para fechal-a. Antes que eu descesse, lançou-me um dos braços ao pescoço, chegou-me a si, collou-me os labios nos labios, onde elles me depositaram um beijo grande, rapido e surdo. Na mão senti alguma cousa.

—Boa noite, disse Maria fechando a cancella.

Não sei como não caí. Desci atordoado, com o beijo na boca, os olhos nos della, e a mão apertando instinctivamente um objecto. Cuidei de me pôr longe. Na primeira rua, corri a um lampião, para ver o que trazia. Era um cartão de loja de fazendas, um annuncio, com isto escripto nas costas, a lapis: «Espere-me amanhã, na ponte das barcas de Nietheroy, a uma hora da tarde.»

O meu alvoroço foi tamanho que durante os primeiros minutos não soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as emoções eram demasiado grandes e numerosas, e tão de perto seguidas que eu mal podia saber de mim. Andei até ao largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o cartão; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava perto, talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a despeito da commoção, tinha fome e fui cear ao Hotel dos Principes. Não dormi antes da madrugada; ás seis horas estava em pé. A manhã foi lenta como as agonias lentas. Dez minutos antes de uma hora cheguei á ponte; já lá achei Maria, envolvida n'uma capa, e com um veu azul no rosto. Ia sair uma barca, entrámos nella.

O mar acolheu-nos bem. A hora era de poucos passageiros. Havia movimento de lanchas, de aves, e o ceu luminoso parecia cantar a nossa primeira entrevista. O que dissemos foi tão de atropello e confusão que não me ficou mais de meia duzia de palavras, e dellas nenhuma foi o nome de X... ou qualquer referencia a elle. Sentiamos ambos que trahiamos, eu o meu amigo, ella o seu amigo e protector. Mas, ainda que o não sentissemos, não é provavel que falassemos delle, tão pouco era o tempo para o nosso infinito. Maria appareceu-me então como nunca a vi nem suspeitára, falando de mim e de si, com a ternura possivel naquelle logar publico, mas toda a possivel, não menos. As nossas mãos collavam-se, os nossos olhos comiam-se, e os corações batiam provavelmente ao mesmo compasso rapido e rapido. Pelo menos foi a sensação com que me separei della, após a viagem redonda a Nictheroy e S. Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou; na volta, lembrei-lhe que nos mettessemos n'uma caleça fechada: «Que idéa faria de mim?» perguntou-me com um gesto de pudor que a transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe que eu não deixaria de ir vel-os, á noite, como de costume.

Como eu não tomei da penna para narrar a minha felicidade, deixo a parte deliciosa da aventura, com as suas entrevistas, cartas e palavras, e mais os sonhos e esperanças, as infinitas saudades e os renascentes desejos. Taes aventuras são como os almanaks, que, com todas as suas mudanças, hão de trazer os mesmos dias e mezes, com os seus eternos nomes e santos. O nosso almanak apenas durou um trimestre, sem quartos minguantes nem occasos de sol. Maria era um modelo de graças finas, toda vida, todo movimento. Era bahiana, como disse, fôra educada no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando lhe falei do seu primeiro encontro com X... no Theatro Provisorio, dançando ao som de um pandeiro, disse-me que era verdade, fôra alli vestida á castelhana e de mascara; e, como eu lhe pedisse a mesma cousa, menos a mascara, ou um simples lundú nosso, respondeu-me como quem recusa um perigo:

—Você poderia ficar doudo.

—Mas X... não ficou doudo.

—Ainda hoje não está em seu juizo, replicou Maria rindo. Imagina que eu fazia isto só...

E em pé, n'um meneio rapido, deu uma volta ao corpo, que me fez ferver o sangue.

O trimestre acabou depressa, como os trimestres daquella casta. Maria faltou um dia á entrevista. Era tão pontual que fiquei tonto quando vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois vinte, depois trinta, depois quarenta... Não digo as vezes que andei de um lado para outro, na sala, no corredor, á espreita e á escuta, até que de todo passou a possibilidade de vir. Poupo a noticia do meu desespero, o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando cancei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse tambem, explicando a falta. Não mandei a carta, e á noite fui á casa delles.

Maria poude explicar-me a falta pelo receio de ser vista e acompanhada por alguem que a perseguia desde algum tempo. Com effeito, havia-me já falado em não sei que vizinho que a cortejava com instancia; uma vez disse-me que elle a seguira até á porta da minha casa. Acreditei na razão, e propuz-lhe outro logar de encontro, mas não lhe pareceu conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas, até fazer calar as suspeitas. Não sairia de casa. Não comprehendi então que a principal verdade era ter cessado nella o ardor dos primeiros dias. Maria era outra, principalmente outra. E não pódes imaginar o que vinha a ser essa bella creatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era mais quente e mais fria que ninguem.

Quando me entrou a convicção de que tudo estava acabado, resolvi não voltar lá, mas nem por isso perdia a esperança; era para mim questão de esforço. A imaginação, que torna presentes os dias passados, fazia-me crer facilmente na possibilidade de restaurar as primeiras semanas. Ao cabo de cinco dias, voltei: não podia viver sem ella.

X... recebeu-me com o seu grande riso infante, os olhos puros, a mão forte e sincera; perguntou a razão da minha ausencia. Alleguei uma febresinha, e, para explicar o enfadamento que eu não podia vencer, disse que ainda me doia a cabeça. Maria comprehendeu tudo; nem por isso se mostrou meiga ou compassiva, e, á minha saida, não foi até ao corredor, como de costume.

Tudo isto dobrou a minha angustia. A idéa de morrer entrou a passar-me pela cabeça; e, por uma symetria romantica, pensei em metter-me na barca de Nictheroy, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio da bahia, atirar-me ao mar. Não iniciei tal plano nem outro. Tendo encontrado casualmente o meu amigo Barreto, não vacillei em lhe dizer tudo; precisava de alguem para falar commigo mesmo. No fim pedi-lhe segredo; devia pedir-lhe que especialmente não contasse nada a Raymunda. Nessa mesma noite ella soube tudo. Raymunda era um espirito aventureiro, amigo de entreprezas e novidades. Não se lhe dava, talvez, de mim nem da outra, mas viu naquillo um lance, uma occupação, e cuidou em reconciliar-nos; foi o que eu soube depois, e é o que dá logar a este papel.

Falou-lhe uma e mais vezes. Maria quiz negar a principio, acabou confessando tudo, dizendo-se arrependida da cabeçada que déra. Usaria provavelmente de circumloquios e synonymos, phrases vagas e truncadas, alguma vez empregaria só gestos. O texto que ahi fica é o da propria Raymunda, que me mandou chamar á casa della e me referiu todos os seus esforços, contente de si mesma.

—Mas não perca as esperanças, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era capaz de matar-se.

—E sou.

—Pois não se mate por ora; espere.

No dia seguinte vi nos jornaes uma lista de cidadãos que, na vespera, tinham ido ao quartel-general apresentar-se como voluntarios da patria, e nella o nome de X..., com o posto de capitão. Não acreditei logo; mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das folhas fazia referencias á familia de X..., ao pae, que fôra official de marinha, e á figura esbelta e varonil do novo capitão; era elle mesmo.

A minha primeira impressão foi de prazer; iamos ficar sós. Ella não iria de vivandeira para o Sul. Depois, lembrou-me o que elle me disse ácerca da guerra, e achei extranho o seu alistamento de voluntario, ainda que o amor dos actos generosos e a nota cavalheiresca do espirito de X... pudessem explical-o. Nem de coronel iria, disse-me, e agora acceitava o posto de capitão. Emfim, Maria; como é que elle, que tanto lhe queria, ia separar-se della repentinamente, sem paixão forte que o levasse á guerra?

Havia tres semanas que eu não ia á casa delles. A noticia do alistamento justificava a minha visita immediata e dispensava-me de explicações. Almocei e fui. Compuz um rosto ajustado á situação e entrei. X... veiu á sala, depois de alguns minutos de espera. A cara desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquella era fechada e torva, além de pallida. Estendeu-me a mão, dizendo:

—Então, vem ver o capitão de voluntarios?

—Venho ouvir o desmentido.

—Que desmentido? É pura verdade. Não sei como isto foi, creio que as ultimas noticias... Você porque não vem commigo?

—Mas então é verdade?

—É

Após alguns instantes de silencio, meio sincero, por não saber realmente que dissesse, meio calculado, para persuadil-o da minha consternação, murmurei que era melhor não ir, e falei-lhe na mãe. X... respondeu-me que a mãe approvava; era viuva de militar. Fazia esforços para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos buscavam desviar-se, e geralmente não fitavam bem nem longo. Não conversámos muito; elle ergueu-se, allegando que ia liquidar um negocio, e pediu-me que voltasse a vel-o. Á porta, disse-me com algum esforço:

—Venha jantar um dia destes, antes da minha partida.

—Sim.

—Olhe, venha jantar amanhã.

—Amanhã?

—Ou hoje, se quizer.

—Amanhã.

Quiz deixar lembranças a Maria; era natural e necessario, mas faltou-me o animo. Embaixo arrependi-me de o não ter feito. Recapitulei a conversação, achei-me atado e incerto; elle pareceu-me, além de frio, sobranceiro. Vagamente, senti alguma cousa mais. O seu aperto de mão tanto á entrada, como á saida, não me déra a sensação do costume.

Na noite desse dia, Barreto veiu ter commigo, atordoado com a noticia da manhã, e perguntando-me o que sabia; disse-lhe que nada. Contei-lhe a minha visita da manhã, a nossa conversação, sem as minhas suspeitas.

—Póde ser engano, disse elle, depois de um instante.

—Engano?

—Raymunda contou-me hoje que falára a Maria, que esta negára tudo a principio, depois confessára, e recusára reatar as relações com você.

—Já sei.

—Sim, mas parece que da terceira vez foram presentidas e ouvidas por elle, que estava na saleta ao pé. Maria correu a contar a Raymunda que elle mudára inteiramente; esta dispoz-se a sondal-o, eu oppuz-me, até que li a noticia nos jornaes. Vi-o na rua, andando: não tinha aquelle gesto sereno de costume, mas o passo era forte.

Fiquei aturdido com a noticia, que confirmava a minha impressão. Nem por isso deixei de ir lá jantar no dia seguinte. Barreto quiz ir tambem; percebi que era com o fim unico de estar commigo, e recusei.

X... não dissera nada a Maria; achei-os na sala, e não me lembro de outra situação na vida em que me sentisse mais extranho a mim mesmo. Apertei-lhes a mão, sem olhar para ella. Creio que ella tambem desviou os olhos. Elle é que, com certeza, não nos observou; riscava um phosphoro e accendia um cigarro. Ao jantar falou o mais naturalmente que poude, ainda que frio. O rosto exprimia maior esforço que na vespera. Para explicar a possivel alteração, disse-me que embarcaria no fim da semana, e que, á proporção que a hora ia chegando, sentia difficuldade em sair.

—Mas é só até fóra da barra; lá fóra torno a ser o que sou, e, na campanha, serei o que devo ser.

Usava dessas palavras rigidas, alguma vez emphaticas. Notei que Maria trazia os olhos pisados; soube depois que chorára muito e tivera grande luta com elle, na vespera, para que não embarcasse. Só conhecêra a resolução pelos jornaes, prova de alguma cousa mais particular que o patriotismo. Não falou á mesa, e a dôr podia explicar o silencio, sem nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contrario, X... procurava falar muito, contava os batalhões, os officiaes novos, as probabilidades de victoria, e referia anecdotas e boatos, sem curar de ligação. Ás vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente voltaria general, mas ficou tão carrancudo depois deste gracejo, que não tentou outro. O jantar acabou frio; fumámos, elle ainda quiz falar da guerra, mas o assumpto estava exhausto. Antes de sair, convidei-o a ir jantar commigo.

—Não posso; todos os meus dias estão tomados.

—Venha almoçar.

—Tambem não posso. Faço uma cousa; na volta do Paraguay, o terceiro dia é seu.

Creio ainda hoje que o fim desta ultima phrase era indicar que os dous primeiros dias seriam da mãe e de Maria; assim, qualquer suspeita que eu tivesse dos motivos secretos da resolução, devia dissipar-se. Nem bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em lembrança, um livro, por exemplo. Preferi o seu ultimo retrato, photographado a pedido da mãe, com a farda de capitão de voluntarios. Por dissimulação, quiz que assignasse; elle promptamente escreveu: «Ao seu leal amigo Simão de Castro offerece o capitão de voluntarios da patria X...» O marmore do rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode, com um gesto convulso, e despedimo-nos.

No sabbado embarcou. Deixou a Maria os recursos necessarios para viver aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ella preferiu o Rio Grande, e partiu para lá, trez semanas depois, a esperar que elle voltasse da guerra. Não a pude ver antes; fechára-me a porta, como já me havia fechado o rosto e o coração.

Antes de um anno, soube-se que elle morrêra em combate, no qual se houve com mais denodo que pericia. Ouvi contar que primeiro perdêra um braço, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado o fez atirar-se contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta versão podia ser exacta, porque elle tinha desvanecimento das bellas fórmas; mas a causa foi complexa. Tambem me contaram que Maria, voltando do Rio Grande, morreu em Curytiba; outros dizem que foi acabar em Montevidéo. A filha não passou dos quinze annos.

Eu cá fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, só remorsos; agora admiração apenas, uma admiração particular, que não é grande senão por me fazer sentir pequeno. Sim, eu não era capaz de praticar o que elle praticou. Nem effectivamente conheci ninguem que se parecesse com X... E porque teimar nesta letra? Chamemol-o pelo nome que lhe deram na pia, Emilio, o meigo, o forte, o simples Emilio.