VI
Quando voltei ao Rio de Janeiro, tinham já passado muitos mezes do combate da Encruzilhada. O meu nome figurou não só em partes officiaes como em telegrammas e correspondencias, por mais que eu buscasse esquivar-me ao ruido e desapparecer na sombra. Recebi cartas de felicitações e de indagações. Não vim logo para o Rio de Janeiro, note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um dia, sem ser esperado, metti-me na estrada de ferro e entrei na cidade. Fui para a casa de pensão do Cattete.
Não procurei logo Maria Cora. Pareceu-me até mais acertado que a noticia da minha vinda lhe chegasse pelos jornaes. Não tinha pessoa que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma redacção contar o meu regresso do Rio Grande; não era passageiro de mar, cujo nome viesse em lista nas folhas publicas. Passaram dous dias; no terceiro, abrindo uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se alli que viera de S. Paulo e estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com adjectivos de louvor; emfim, que voltava á mesma pensão do Cattete. Como eu só contára alguma cousa ao dono da casa, podia ser elle o autor das notas; disse-me que não. Entrei a receber visitas pessoaes. Todas queriam saber tudo; eu pouco mais disse que nada.
Entre os cartões, recebi dous de Maria Cora e da tia, com palavras de boas vindas. Não era preciso mais; restava-me ir agradecer-lhes, e dispuz-me a isso; mas, no proprio dia em que resolvi ir ao Engenho Velho, tive uma sensação de... De quê? Expliquem, se podem, o acanhamento que me deu a lembrança do marido de Maria Cora, morto ás minhas mãos. A sensação que ia ter diante della tolheu-me inteiramente. Sabendo-se qual foi o movel principal da minha acção militar, mal se comprehende aquella hesitação; mas, se considerardes que, por mais que me defendesse do marido e o matasse para não morrer, elle era sempre o marido, terás entendido o mal-estar que me fez adiar a visita. Afinal, peguei em mim e fui á casa della.
Maria Cora estava de luto. Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a tia, as felicitações escriptas. Falámos da guerra civil, dos costumes do Rio Grande, um pouco de politica, e mais nada. Não se disse de João da Fonseca. Ao sair de lá, perguntei a mim mesmo se Maria Cora estaria disposta a casar conmigo.
—Não me parece que recuse, embora não lhe ache maneiras especiaes. Creio até que está menos affavel que d'antes... Terá mudado?
Pensei assim, vagamente. Attribui a alteração ao estado moral da viuvez; era natural. E continuei a frequental-a, disposto a deixar passar a primeira phase do luto para lhe pedir formalmente a mão. Não tinha que fazer declarações novas; ella sabia tudo. Continuou a receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia tambem não, e da propria revolução não se falou mais. Pela minha parte, tornando á situação anterior, busquei não perder tempo, fiz-me pretendente com todas as maneiras do officio. Um dia, perguntei-lhe se pensava em tornar ao Rio Grande.
—Por ora, não.
—Mas irá?
—É possivel; não tenho plano nem prazo marcado; é possivel.
Eu, depois de algum silencio, durante o qual olhava interrogativamente para ella, acabei por inquirir se antes de ir, caso fosse, não alteraria nada em sua vida.
—A minha vida está tão alterada...
Não me entendera; foi o que suppuz. Tratei de me explicar melhor, e escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega e a recusa da primeira e lhe pedia francamente a mão. Entreguei a carta, dous dias depois, com estas palavras:
—Desta vez não recusará ler-me.
Não recusou, acceitou a carta. Foi á saida, á porta da sala. Creio até que lhe vi certa commoção de bom agouro. Não me respondeu por escripto, como esperei. Passados tres dias, estava tão ancioso que resolvi ir ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo: que me recusasse, que me acceitasse, que me adiasse, e já me contentava com a ultima hypothese, se não houvesse de ser a segunda. Não a achei em casa; tinha ido passar alguns dias na Tijuca. Sai de lá aborrecido. Pareceu-me que não queria absolutamente casar; mas então era mais simples dizel-o ou escrevel-o. Esta consideração trouxe-me esperanças novas.
Tinha ainda presentes as palavras que me dissera, quando me devolveu a primeira carta, e eu lhe falei da minha paixão: «Supponha que eu o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada.» Era claro que então gostava de mim, e agora mesmo não havia razão decisiva para crer o contrario, embora a apparencia fosse um tanto fria. Ultimamente, entrei a crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por sympathia, e não sei se por gratidão tambem; tive alguns vestigios disso. Não obstante, não me deu resposta á segunda carta. Ao voltar da Tijuca, vinha menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe falar na materia; a resposta foi que, por ora, estava disposta a não casar.
—Mas um dia...? perguntei depois de algum silencio.
—Estarei velha.
—Mas então... será muito tarde?
—Meu marido póde não estar morto.
Espantou-me esta objecção.
—Mas a senhora está de luto.
—Tal foi a noticia que li e me deram; póde não ser exacta. Tenho visto desmentir outras que se reputavam certas.
—Quer certeza absoluta? perguntei. Eu posso dal-a.
Maria Cora empallideceu. Certeza. Certeza de quê? Queria que lhe contasse tudo, mas tudo. A situação era tão penosa para mim que não hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era intenção minha não lhe contar nada, como não contára a ninguem, ia fazel-o, unicamente para obedecer á intimação. E referi o combate, as suas phases todas, os riscos, as palavras, finalmente a morte de João da Fonseca. A ancia com que me ouviu foi grande, e não menor o abatimento final. Ainda assim, dominou-se, e perguntou-me:
—Jura que me não está enganando?
—Para que a enganar? O que tenho feito é bastante para provar que sou sincero. Amanhã, trago-lhe outra prova, se é preciso mais alguma.
Levei-lhe os cabellos que cortára ao cadaver. Contei-lhe,—e confesso que o meu fim foi irrital-a contra a memoria do defunto,—contei-lhe o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher e as suas lagrimas. Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava ainda com ciumes. Quando lhe mostrei os cabellos do marido, atirou-se a elles, recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando... Entendi melhor sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta á minha carta; recusava casar.
Na resposta havia uma palavra que é a unica razão de escrever esta narrativa: «Comprehende que eu não podia aceitar a mão do homem que, embora lealmente, matou meu marido.» Comparei-a áquella outra que me dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, matal-o e voltar: «Não creio que ninguem me ame com tal força.» E foi essa palavra que me levou á guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda dizer uma missa por alma do marido, no anniversario do combate da Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos difficil, nunca mais esqueci dar corda ao relogio.