V
A vida recomeçou para elles; novamente se encontravam proximos e afastados.
Uma vez, n’um dia santo, no meio da semana, Pavel disse á mãe, quando ia sahir:
—No sabbado ha de vir gente cá a casa.
—Que gente?
—Gente d’aqui... e gente da cidade.
—Da cidade...? repetiu a mãe, meneando a cabeça. E desatou a chorar.
—Porque choras, mamã?! exclamou Pavel contrariado. Porquê?
Respondeu com froixa voz, limpando as lagrimas:
—Não sei... Porque sim.
Elle deu alguns passos pelo quarto, e parando deante d’ella:
—Tens medo?
—Tenho! confessou. Essa gente da cidade... sabe-se lá quem é!
Inclinou-se para ella e disse com a voz irritada, como o pae:
—É por causa d’esse medo que todos nós morremos! E os que mandam em nós aproveitam-se d’esse medo e ainda mais nos amedrontam. Comprehenda de uma vez para sempre: emquanto houver medo, apodreceremos como as bétulas nos pantanos.
Afastou-se, exclamando:
—Deixal-o! Nós nos reuniremos cá em casa...
A mãe atalhou, chorando:
—Não me queiras mal! Como não hei de eu ter medo? Passei entre sustos toda a minha vida... tenho a alma cheia d’elles.
Pavel retorquiu a meia voz, mas brandamente:
—Desculpe. Não tenho outro meio ao meu alcance. E sahiu.
Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora...
No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e saíu, dizendo sem olhar para a mãe:
—Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas medo, se fazes favor... São pessoas como as outras.
Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o sobrolho, e propoz—Talvez seja melhor saíres; an?
Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando:
—Seria o mesmo. Para que sairia eu?
Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os olhos fixos na porta.
Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado. Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem.
Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito, calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da parede.
Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos dilatados.
Abriu-se a porta. Appareceu primeiro uma cabeçôrra com um boné de pelles, depois um corpo acurvado que se esgueirou lentamente, que se endireitou, que levantou o braço direito vagarosamente, arrancando do peito em suspiro ruidoso:
—Boa noite.
Pélagué cumprimentou em silencio.
—O Pavel ainda não veio?
O homem tirou com vagar um casaco de pelles, levantou um pé, saccudiu com o boné a neve que lhe cobria as botas, atirou depois com o boné para um canto e entrou no quarto bamboleando-se nas suas altas pernas. Approximou-se d’uma cadeira, examinou-a como, para certificar-se de que era sólida, assentou-se por fim e pôz-se a bocejar, tapando a bôca com a mão. Tinha a cabeça redonda e o cabello cortado á escovinha, a barba feita, e grosso bigode de guias compridas e pendentes. Depois de ter examinado o quarto com os grandes olhos bojudos e acinzentados, cruzou as pernas e perguntou balouçando-se na cadeira:
—O casebre pertence-lhes ou é alugado?
Pélagué, sentada em frente delle, respondeu:
—Alugamol-o.
—Não é grande coisa! observou o homem.
—O Pavel não se demora; queira esperar, disse froixamente.
—É o que estou fazendo! replicou tranquillamente.
A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou:
—Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa?
Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a. Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza:
—E o que tem o tiosinho com isso?
Elle voltou-se de todo.
—Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.a. Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro. Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça, encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me.
Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso envergonhado:
—Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro?
O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente:
—Ainda não... ainda não sou tartaro.
—É que não fala exactamente como um russo! explicou ella sorrindo, porque lhe compreendera o gracejo.
—A minha lingua vale mais do que o russo! exclamou com um meneio importante. Sou russo-menor, da cidade de Kanief.
—E ha muito tempo que está por cá?
—Vivi na cidade, perto de um anno, e ha um mez que vim aqui para a fabrica. Travei conhecimento com excellentes pessôas... o seu filho... e mais alguns... não muitos. Quero fixar-me por cá, accrescentou, torcendo o bigode.
Estava agradando a Pélagué que, para agradecer o elogio feito ao filho, lhe perguntou:
—Quer chá?
—O quê? sósinho? observou, encolhendo os hombros. Faça o offerecimento quando estivermos todos juntos.
Ouviram-se passos outra vez, a porta abriu-se de chofre; Pélagué levantou-se. Com grande espanto seu, quem entrou na cosinha foi uma rapariga, de vestido leve e pobre, baixa, com cara de camponeza. A recemchegada, cujos cabellos eram loiros e espessos, perguntou:
—Ainda venho a tempo?
—Ah! vem! respondeu o russo-menor, que permanecia no quarto. Veio a pé?
—Podera! A sr.a é a mãe do Pavel Mikhaílovitch? Bôa noite! Eu chamo-me Natacha.
—E o seu pae? perguntou Pélagué.
—Vassilievna. E a sr.a?
—Pélagué Milovna.
—Bello! Estamos apresentados!
—Sim, estamos... concordou Pélagué, com um ligeiro suspiro.
E sorrindo observou a rapariga.
O russo-menor perguntou:
—Faz frio?
—Se faz! e muito, lá pelos campos; uma ventania!...
Tinha a voz pastosa, clara; a bôca era pequena e redonda; e toda ella era gorducha e cheia de frescura. Depois de tirar a capa, esfregou energicamente as faces coradas com as mãosinhas avermelhadas pelo frio; e, passeando pelo quarto com passos rapidos, batia no sobrado com os tacões.
—Não tem galochas de borracha! pensou Pélagué.
—Que frio! E arrastando muito as palavras: Estou entorpecida! gelada!
—Vou já, já, preparar o samovar! disse rapidamente a dona da casa.
E saíu para a cozinha.
Dir-se-ia que conhecia aquella rapariga de ha muito tempo e que a estimava como sua filha. Estava satisfeita por vêl-a; vindo-lhe á ideia os olhos pardos e piscos do russo-menor, sorriu satisfeita tambem; prestou attenção á conversa.
—Porque está triste, André? perguntou a rapariga.
—Porque sim! A viuva tem um olhar bondoso e lembra-me que talvez seja como o da minha mãe... Penso muito na minha mãe, sabe? Parece-me sempre que ella vive.
—Ouvi-lhe dizer que ella tinha morrido...
—Não! Falava da minha mãe adoptiva, e agora falo da minha verdadeira mãe. Imagino que ella pede esmola, algures, em Kief e que bebe aguardente...
—Porquê?
—Sei lá! E que quando está embriagada, os policias a esbofeteiam.
—Pobre homem! pensou Pélagué, suspirando.
Natacha passou a falar rapidamente, a meia-voz. Depois, tornou a ouvir-se a voz sonora do russo-menor:
—É ainda nova! não tem experiencia! Todos teem mãe, e apesar d’isso quantas creaturas más!... É difficil dar á luz, mas é muito mais difficil ensinar o bem ao homem.
—Isso! isso! exclamou lá de dentro Pélagué.
Desejava poder responder que ella, por exemplo, se consideraria feliz ensinando o bem a seu filho, mas que não sabia d’essas coisas; a porta porem abriu-se vagarosamente dando entrada a Vessoftchikof, filho do velho ladrão Danilo, o misantropo celebre em todo o bairro. Mantinha-se sempre afastado dos outros, que por este facto chasqueavam d’elle. Pélagué perguntou admirada:
—O que é que tu queres?
Fitou n’ella os olhos pardos, limpou com a palma da mão a cara bexigosa e de maçãs salientes, e, sem responder ao cumprimento de Pélagué, perguntou em tom cavo.
—O Pavel está em casa?
—Não.
Relanceou a vista pelo quarto e entrou, dizendo:
—Boa noite, companheiros.
—Tambem este!... Será possivel? pensou ella hostilmente.
E mais se admirou vendo Natacha estender a mão ao recemchegado com modo alegre e amigavel.
Vieram em seguida dois rapazes, duas creanças quasi. A dona da casa conhecia um d’elles: era o sobrinho de Fédor Sizof, velho operario da fabrica; tinha feições d’arguto, fronte elevada e cabellos encaracolados. O outro, de cabello corredio, era-lhe desconhecido, mas não a assustava, parecia modesto.
Afinal Pavel chegou, acompanhado de dois amigos, que ella reconheceu logo: eram dois operarios tambem da fabrica.
Amavelmente, o filho disse-lhe:
—Preparaste o chá? obrigado!
—Queres que vá comprar aguardente? perguntou, não sabendo como exprimir-lhe o seu reconhecimento pelo que quer que fosse que ella ainda não compreendia.
—Não. Não é preciso! respondeu, tirando a capa, e sorrindo bondosamente para a mãe.
De subito, veio-lhe á idéa de que o filho tinha exagerado propositadamente o perigo da reunião para brincar com ella.
—É então esta a tal gente perigosa?
—Esta mesma! disse Pavel entrando no quarto.
—Ah! e seguiu-o com o olhar caricioso.
Mas, no seu intimo:
—E elle é a mesma creança!...