VIII
Um dia, Nicolao, por hábito tão pontual, chegou da repartição muito mais tarde do que o costume. Em vez de tirar o sobretudo, disse com vivacidade, a esfregar as mãos:
—Sabe, Pélagué? Fugiu hoje da cadeia um dos nossos companheiros, á hora das visitas!... Mas não consegui saber quem seja.
Ella sentiu-se cambalear, tomada de commoção; deixou-se caír n’uma cadeira e mal poude balbuciar, em segredo:
—Será o Pavel, talvez?
—Talvez! respondeu Nicolao, encolhendo os hombros. Mas como havemos de o ajudar a esconder-se? onde estará elle? Tenho andado a passear por essas ruas, a ver se o encontrava. É uma tolice, mas é forçoso fazer qualquer coisa! Eu torno a saír.
—Tambem eu saio! declarou a mãe de Pavel.
—Então, vá a casa do Iégor; talvez elle saiba alguma coisa... aconselhou Nicolao. E saíu.
Ella atirou para a cabeça um lenço, e foi-se nas peugadas de Nicolao, nadando em esperança. Levava a vista turvada; o coração batia-lhe em fortes pulsações que quasi a obrigavam a correr. Voava ao encontro d’uma possibilidade, de cabeça baixa, sem nada vêr em torno. «Talvez já esteja em casa do Iégor!» Este pensamento instigava-lhe o passo. Fazia calor; Pélagué ia offegante. Na escada de Iégor parou, sem forças para ir mais longe. Voltou-se então e soltou um grito de espanto: tinha-lhe parecido vêr na soleira da porta Vessoftchikof, de mãos nas algibeiras e um sorrisinho nos labios, a olhar para ella. Mas, quando tornou a abrir os olhos, não viu ninguem.
—Foi allucinação! concluia pela escada acima, apurando sempre o ouvido. Do páteo veio um ruido abafado de passos pachorrentos. Deteve-se a meio da escada, foi á janella e olhou: outra vez distinguiu uma cara bexigosa a sorrir para ella.
—O Vessoftchikof! foi elle! exclamou, descendo a correr-lhe ao encontro, mas com o coração confrangido por aquella decepção.
—Não! sobe! sobe! disse-lhe elle debaixo, a meia voz, apontando para o andar superior.
Obedeceu; entrou pelo quarto de Iégor, a quem encontrou estendido do canapé. Segredou, esbaforida:
—O Vessoftchikof fugiu da cadeia!
O outro ergueu a cabeça e n’uma voz áspera:
—O picado das bexigas?
—Sim, esse!... E vem para aqui!
—Está muito bem! Mas eu é que não estou para me levantar a recebel-o.
O fugitivo entrou n’este comenos. Fechou bem a porta no ferrolho, tirou o boné e poz-se a rir devagarinho.
—Se não te tivesse visto, não me restava mais que voltar para a prisão! Não conheço ninguem na cidade... Se tivesse ido lá para o bairro, prendiam-me logo! Eu dizia com os meus botões, emquanto ia andando: «Palerma! para que fugiste?» Quando n’isto, vejo cá a tiasinha a correr. Puz-me logo no seu encalço!
—E como pudeste fugir? perguntou Pélagué.
O rapaz sentou-se desastradamente na beira do canapé e disse com embaraço, encolhendo os hombros:
—Não sei... Foi a occasião que se offereceu.
Andava a passear no pateo... Os presos de crimes communs atiraram-se á bordoada a um carcereiro, um que foi da policia e que expulsaram por causa d’um roubo... É um que espia dá partes e torna a vida de toda a gente um inferno... Então, houve barafunda; os vigias tiveram medo, uns apitavam, outros corriam... Eis senão quando, vejo a grade aberta. Approximei-me, vejo um largo, a cidade... Foi uma atracção!... E saí sem pressa nenhuma, como se estivesse sonhando... Dei alguns passos e caí em mim. Para onde havia de ir?... Entretanto, as portas da cadeia tinham se tornado a fechar... Não me sentia bem; tinha saudades dos companheiros... emfim, aquillo era estupido; eu não fazia idéa de fugir...
—Hum! resmungou Iégor. Pois, meu caro senhor, devia ter voltado para traz, bater á porta e pedir delicadamente que o deixassem entrar: «Queiram perdoar, foi momento de distracção...»
—Sim, continuou Vessoftchikof, rindo, isso tambem era tolice, bem vejo. Mas ainda assim, andei mal com os companheiros. Não digo nada a ninguem e ponho-me ao fresco... Na rua, encontrei um enterro. Puz-me atraz do caixão—era uma criança—e lá fui de cabeça baixa, sem olhar para ninguem. Estive um bocado no cemiterio, de toitiço ao vento, e então veio-me uma idéa...
—Uma só? observou Iégor, e com um suspiro accrescentou: Parece-me que não lhe havia de faltar logar.
O bexigoso poz-se a rir, sem se zangar.
—Oh! já não tenho a cabeça tão vazia como d’antes... E tu, Iégor, continuas sempre doente?
—Faz-se o que se póde! respondeu o outro, saccudido por accesso de tosse. Continua!
—D’ali fui ao museu. Passei por lá vi, as collecções, mas sempre a pensar: «Para onde hei de eu ir, agora?» Estava furioso comigo mesmo e tinha uma fome horrorosa!... Voltei para a rua, puz-me a caminhar. Sentia-me envergonhado com aquillo! Percebi que os policias olhavam com attenção para quem passava... E dizia com os meus botões! «Bom! graças ao meu focinho, estou aqui, estou nas mãos da justiça!...» N’isto, vejo cá a velhota a correr. Passou-me ao lado; afastei-me para a deixar passar, voltei-me e segui-lhe no encalço... E mais nada!
—E eu que nem sequer dei por ti! notou ella em tom pezaroso. Examinava attentamente Vessoftchikof; achava-o mudado, mas para melhor.
—Os companheiros estão em cuidado, com certeza, sem saberem onde paro! proseguiu elle, coçando a cabeça.
—E dos guardas da cadeia, não tens saudades? Olha que elles tambem devem estar n’um cuidado!... observou Iégor.
Em seguida abriu a bocca e, movendo muito os beiços, como se quizesse absorver todo o ar, exclamou:
—Basta de brincadeiras! É preciso tratar de te esconder, o que é coisa agradavel de fazer, mas não muito facil de conseguir... Se eu pudesse levantar-me!... Teve uma crise de soffocação e poz-se a esfregar o peito, em debeis movimentos.
—Estas bem doente, Iégor! disse o fugitivo.
Pélagué, a esta observação, suspirou e relanceou um olhar de inquietação pelo modesto quarto.
—Isso é comigo! declarou Iégor. Ó mãesinha, não esteja com cerimonias, peça-lhe noticias do seu Pavel.
A cara do bexigoso abriu-se outra vez em franco sorriso.
—O Pavel? Está bom, está de saúde. Elle é uma especie de presidente lá da rapaziada. É sempre elle que fala com as autoridades, em nome da gente; é elle quem manda!... Nós temos-lhe respeito... E com razão!
A mãe bebia as palavras do rapaz; por vezes, lançava um olhar furtivo para o rosto macerado e entumecido de Iégor. Este, com a fisionomia estática, qual mascara desprovida d’expressão, e com uma apparencia singular de nullidade, só pelos olhos vivia, em scintillações de espírito.
—Se me dessem alguma coisa de comer... Palavra que tenho muita fome! exclamou de subito o bexigoso.
—Ó mãesinha, disse Iégor, n’aquella prateleira está um pedaço de pão; dê-lho. Vá depois ao corredor e bata á sua esquerda, na segunda porta. Ha de vir abrir-lhe uma mulher; diga-lhe que venha cá e que traga tudo o que possuir com respeito a comestiveis.
—Para que ha de ella trazer tudo!? protestou Vessoftchikof.
—Ah, não se assuste, que não ha de ser grande coisa... talvez até não seja nada!
Pélagué obedeceu, bateu á porta indicada e, apurando o ouvido, pensava com tristeza: «Está mesmo a morrer...»
—Quem está ahi? perguntaram de dentro.
—Venho da parte do senhor Iégor, respondeu baixo. Pede-lhe que vá a casa d’elle.
—Lá vou! responderam.
Pélagué esperou um instante e tornou a bater.
A porta abriu-se de brusco e appareceu uma mulher ainda nova, muito alta e que usava oculos. Vinha a alisar a manga do vestido, amarrotada. Seccamente perguntou:
—Que deseja?
—Foi o senhor Iégor que me mandou...
—Ah! vamos lá!... Mas eu conheço a senhora! exclamou. Como passou?... É que faz aqui muito escuro...
Pélagué fitou-a e lembrou-se de tel-a visto uma vez ou duas, em casa de Nicolao.
«Por toda a parte ha gente nossa!» pensou.
A mulher deixava livre o caminho, por fórma que Pélagué fôsse adiante.
—Está então muito mal? inquiriu.
—Muito mal; está deitado. Pede-lhe que lhe leve alguma coisa de comer...
—Ora! é inutil...
Ao penetrarem as duas mulheres no quarto de Iégor, este debatia-se em doloroso estertor.
—Lioudmila, disse por fim. Esse rapaz saíu agora da cadeia sem licença da auctoridade. Já é ser descortez! Antes de mais nada, dá-lhe de comer e esconde-o em qualquer parte, por um dia ou dois.
Lioudmila fez um signal d’assentimento e, ao passo que fitava attentamente o rosto do enfermo, dizia com certa severidade:
—Iégor, porque não me chamou logo que chegaram as suas visitas? E já vejo que por duas vezes se esqueceu de tomar o remedio! É um desmazelo!... Pois se é o primeiro a dizer que se sente respirar melhor quando o toma!... Venha para minha casa, camarada!... Não tarda que venham buscar o Iégor para o levarem para o hospital.
—É então forçoso ir para o hospital? perguntou o enfermo.
—De certo. Lá irei ter comsigo.
—O quê? lá, tambem?...
—Não diga tolices!
E emquanto falava, compuzera no peito do doente a manta que o cobria, observára fixamente Vessoftchikof e medira com o olhar a altura do remedio no frasco. A voz d’ella era monotona e grave, mas sonora; os movimentos amplos, o rosto branco, com umas sobrancelhas muito pretas, que quasi se reuniam na base do nariz. Tal fisionomia não agradou a Pélagué, que a ficou julgando arrogante; os olhos não tinham brilho e nunca sorriam; o tom da voz era imperioso.
—Vamo-nos d’aqui! continuou ella. Eu já volto. A senhora dê ao Iégor uma colher de sopa d’este remedio... Não consinta que fale.
E saíu levando comsigo o bexigoso.
—Que mulher extraordinaria! disse Iégor com um suspiro. Que admiravel creatura!... Para casa d’ella é que você devia ter ido, mãesinha. Ella trabalha muito... Até anda esfalfada!
—Não fales! Olha, bebe antes isto! supplicou Pélagué com meiguice.
Elle ingeriu o remedio e continuou, fechando um dos olhos:
—Que me importa! Que fale ou que não fale, sempre tenho de morrer.
Olhou para a velha, ao mesmo tempo que os labios se lhe entreabriam lentamente n’um sorriso. Ella tinha curvado a cabeça; agudo sentimento de dó lhe fazia derramar lagrimas.
—Não chore, mãesinha; é natural... O prazer da vida traz comsigo a necessidade da morte...
Ella pousou-lhe a mão na cabeça e, em voz baixa:
—Cala-te, sim?
O doente fechou os olhos como se estivesse a escutar o estertor dentro do peito. Teimosamente, objectou:
—Estúpida coisa o estar calado, mãesinha!... Que ganho eu com isso?—uns minutos mais d’esta agonia e o ficar sem o prazer de palrar um bocado com uma santa mulher como você... Não creio que no outro mundo haja tão bôa gente como n’este...
Ella interrompeu-o, agitada:
—Olha que vem ahi já aquella senhora, e depois ralha comigo se te ouve falar...
—Não é senhora nenhuma; é uma revolucionaria, uma companheira, um coração admiravel!... De toda a maneira, ha-de ralhar comsigo, mãesinha! Está sempre a ralhar com toda a gente!
E Iégor poz-se a contar a historia da sua visinha, lentamente, com um articular custoso dos labios. Só os olhos sorriam. Inquieta, Pélagué dizia comsigo, notando a maceração d’aquelle rosto banhado de suor:
—Vae-me morrer aqui!
Voltou Lioudmila. Fechou cuidadosamente a porta e disse para a velha:
—É absolutamente necessario que aquelle seu amigo se disfarce e se vá embora; vá já arranjar-lhe outro fato e traga-lho aqui! Que pena que a Sofia esteja ausente! É a sua especialidade, dar esconderijo a quem foge!
—Ella chega ámanhã, annunciou a outra, deitando o seu lenço para os hombros.
Sempre que a encarregavam de qualquer missão, era idéa fixa sua desempenhar-se d’ella bem e depressa. Sollícita e preoccupada, franzindo as sobrancelhas, perguntou ainda:
—Como o havemos de vestir? Que lhe parece?
—Pouco importa: como elle sae de noite...
—É muito peor que de dia: anda menos gente pelas ruas, é-se mais facilmente notado, e como o Vessoftchikof não é muito esperto...
Iégor soltou uma gargalhada rouca:
—Como você é fina, mãesinha!
—Posso ir vêr-te ao hospital? perguntou ella.
O doente acenou com a cabeça, tossindo muito. Lioudmila fitava na velha os seus grandes olhos pretos.
—Quer que lhe fiquemos de guarda, cada uma por sua vez? propoz. Sim? Está bem!... Mas agora, vá, vá depressa.
Agarrou Pélagué por um braço em gesto amigavel mas autoritario, fêl-a saír para o corredor e ali disse-lhe baixinho:
—Não se zangue por eu a despedir assim... Não é bonito, bem sei; mas faz-lhe tanto mal falar!... E eu tenho esperança...
Esta explicação commoveu Pélagué. Murmurou:
—Não diga isso!... Não é bonito! Mas a senhora é um anjo!... Até mais vêr; eu cá me vou.
—Cuidado com os espiões! recommendou a outra em segredo. E levando as mãos ao rosto, passando-as depois pelas fontes, com uma tremulencia nos labios, tomou uns ares de maior bondade.
—Sim, esteja descansada, respondeu Pélagué com uma pontinha de orgulho.
Ao chegar á grade da entrada, parou um instante como a arranjar a mantilha e lançou em torno um olhar vigilante, mas que passaria despercebido de qualquer. Sabia bem distinguir, e sem se enganar, os espiões d’entre o povo. O andar propositadamente descuidado, a placidez affectada dos movimentos, a expressão de cansaço e de tedio que fazia transparecer, o brilhar timido, confuso e mal dissimulado dos olhos, movediços e desagradavelmente esquadrinhadores, eram outros tantos disfarces que se lhe haviam tornado familiares.
D’esta vez, porém, não enxergou cara alguma conhecida. Então, sem pressa, tomou pela rua adiante, e subiu para um carro de praça, que mandou seguir para o mercado. Ali comprou o fato para o fugitivo, não sem regatear ferozmente, desfazendo-se em pragas contra o bebado do marido, a quem tinha de vestir de novo quasi todos os mezes. Esta mentira não fez impressão alguma ao adelo, mas causou-lhe muita satisfação por a ter inventado; tinha ido a pensar pelo caminho que a policia havia de suspeitar que o fugitivo se disfarçaria e não deixaria de proceder a um inquerito no mercado. Feito isto, Pélagué voltou a casa de Iégor e foi acompanhar o bexigoso ao termo da cidade. Cada um tomou por passeio opposto e a velha, satisfeita, divertia-se immenso a vêr o rapagão a andar no seu passo pesado, cabeça baixa, atrapalhado com a comprida roda d’um sobretudo amarello e atirando para traz o chapeu, que lhe ia sempre a escorregar para os olhos. N’uma rua deserta veio-lhes Sachenka ao encontro, e Pélagué voltou para casa depois de se despedir de Vessoftchikof com um aceno de cabeça.
Mas pensava com tristeza:
—Pois sim, mas o Pavel está na cadeia... e o André tambem.