X

«Elles» chegaram quando menos os esperavam, quasi um mez depois. Vessoftchikof, André e Pavel estavam reunidos e falavam do seu jornal. Era tarde, perto da meia noite. Pélagué já estava deitada, ia adormecendo e ouvia-lhes vagamente as vozes receosas e em tom baixo. André levantou-se de chofre, atravessou a cosinha nos bicos dos pés e fechou de mansinho a porta apoz elle. No corredor ouviu-se o ruido d’uma celha que tombára. André disse em voz alta:

—Oiçam: é o ruido de esporas, na rua!

Pélagué levantou-se de salto, pegou n’uma saia, tremula; mas Pavel appareceu no limiar e disse-lhe tranquillamente:

—Fique deitada... Não está bôa...

Ouviu-se depois um deslisar furtivo sob o telheiro.

Pavel approximou-se da porta, e batendo nella com a mão, perguntou:

—Quem está ahi?

Rapido como um relampago, um corpo d’homem alto surgiu entre os umbraes; e outro ainda. Os dois guardas repelliram o rapaz, puxando-o depois para entre elles. Uma voz grave e irritada disse:

—Não é quem esperavas, un?

Quem falava era um official ainda novo, alto e magro, de bigode preto. Fédiakine, agente da policia do bairro, dirigiu-se para a cama de Pélagué; levando a mão ao boné, em continencia, indicou com a outra a mulher, dizendo com um olhar terrivel:

—A mãe é esta, meu Senhor!

Depois, apontando para Pavel:

—E o filho é aquelle!

—Pavel Vlassof? perguntou o official, franzindo os olhos.

O rapaz respondeu affirmativamente com a cabeça.

Passando a mão pelo bigode, o official informou:

—Venho fazer uma busca em tua casa... A velha que se levante! Quem está ali?

E, tendo olhado para o quarto, entrou n’elle a passos largos.

Ouviram-no perguntar:

—O seu nome?

Outros dois personagens appareceram ainda: o velho fundidor Tvériakof e o seu inquilino, o fogueiro Rybine, um homem de cabelleira negra e de bom porte. Tinham sido trazidos pela policia como testemunhas:

Rybine disse com voz grossa e possante:

—Boa noite, Pélagué!

Ella vestia-se, e, para se dar coragem, murmurava:

—Esta agora! Virem de noite!... quando uma pessôa está na cama!...

O quarto parecia pequeno e por elle se espalhara um cheiro activo a graxa. Os dois guardas e o commissario de policia do bairro, Riskine, tiravam da estante os livros com ruido, e empilhavam-nos diante do official. Os outros davam pancadas nas paredes, olhavam para debaixo das cadeiras; um trepou com custo ao cano do fogão. O russo-menor e Vessoftchikof, unidos um ao outro, conservavam-se a um canto; o rosto bexigoso do segundo estava coberto de manchas vermelhas, e os seus olhinhos pardos não podiam desfitar-se do official. André retorcia o bigode, e quando Pélagué entrou no quarto, fez-lhe com a cabeça um movimento amigavel.

Para occultar o terror, mexia-se não de lado, como de costume, mas com o peito deitado para a frente, o que lhe dava um aspecto d’importancia affectada e risivel. Andava ruidosamente e as palpebras tremiam-lhe.

O official ia pegando rapidamente nos livros com as pontas dos dedos brancos e delgados, folheava-os, saccudia-os, e rapidamente atirava-os para o lado. Alguns volumes caíram no chão. Todos estavam callados; não se ouvia mais do que o respirar dos guardas esbofados, o tintilar das suas esporas; de quando em quando um d’elles perguntava:

—Já viste aqui?

Pélagué collocou-se junto do filho, encostada á parede; como elle, cruzou os braços no peito e quiz observar o official. As pernas vacillaram-lhe, um nevoeiro toldava-lhe a vista.

De subito, a voz de Vessoftchikof soltou-se concludente:

—Para que serve deitar os livros ao chão?

Pélagué estremeceu. Tvériakof abanou a cabeça como lhe tivessem batido na nuca; Rybine resmungou e fitou attentamente o audacioso.

O official franziu os olhos e cravou-os no rosto bexigoso e immovel do rapaz... Depois os seus dedos folhearam o livro com mais rapidez.

De quando em quando, os olhos pardos de Vessoftchikof abriam-se tanto que dir-se-ia elle estar soffrendo atrozmente e prestes a gritar, furioso e impotente contra a dôr.

—Soldado! exclamou de subito. Apanha os livros!

Os guardas voltaram-se para elle, e olharam depois para o official. Este levantou a cabeça, e olhando rapidamente de soslaio para o rapaz, ordenou por entre dentes:

—Vá lá, apanhem os livros.

Um dos guardas abaixou-se, e observando furtivamente Vessoftchikof poz-se a apanhar os livros esfarrapados.

—Teria feito melhor estando calado... disse baixinho Pélagué para o filho.

Elle encolheu os hombros. O russo-menor estendeu o pescoço.

—Que cochichar é esse? Façam favor de estar calados! Quem é que lê aqui a Biblia?

—Eu! respondeu Pavel.

—Ah!... E de quem são estes livros?

—Meus.

—Está bem!... commentou o official apoiando-se ás costas da cadeira.

Fez estalar os nós dos seus dedos finos e brancos, estendeu as pernas debaixo da meza, cofiou o bigode, e perguntou a Vessoftchikof:

—És tu que te chamas André Nakhodka?

—Sou eu! respondeu o bexigoso avançando.

O russo-menor deitou-lhe a mão a um hombro e obrigou-o a recuar.

—Enganou-se! o André sou eu.

O official levantou a mão, e ameaçando Vessoftchikof com o dedo indicador erguido:

—Toma cuidado!...

Começou a remexer nos seus papeis.

A noite luminosa e clara olhava indifferentemente pela janella. Alguem ia e vinha em frente da casa e a neve estalava sob os seus passos.

—Já foste perseguido por delictos politicos, Nakhodka? perguntou o official.

—Já: em Rostof e em Saratof... Com a differença de que ali as auctoridades não me tratavam por «tu.»

O official franziu o olho direito, esfregou-o e disse depois, mostrando os dentitos:

—N’esse caso, Nakhodka, conhece talvez... Sim... deve conhecer os scelerados que espalham pela fabrica folhetos e proclamações prohibidas?...

O russo-menor teve um estremecimento, ia dizer o que quer que fosse com um sorriso aberto, quando se ouviu de novo a excitante voz de Vessoftchikof:

—É a primeira vez que vemos scelerados!

Houve um instante de silencio.

O rosto de Pélagué tornou-se pálido até na cicatriz, emquanto o sobrolho direito lhe era repuxado para cima. A barba negra de Rybine entrou de tremer de uma maneira estupenda; baixou a cabeça e passou a mão vagarosamente pelo bigode.

—Ponham fóra d’aqui essa besta! ordenou o official.

Dois guardas agarraram o rapaz por debaixo dos braços e arrastaram-no para a cosinha. Quando lá chegou, conseguiu parar, e apegando-se ao chão com toda a força de que os seus pés eram susceptiveis, gritou:

—Esperem! Quero pôr a minha capa!

O commissario de policia, que estivera a rebuscar no pateo, appareceu dizendo:

—Nada encontrámos. Vimos todos os cantos.

—Está claro! exclamou o official ironicamente. Já o esperava! Estamos a contas com homens já muito experientes.

Pélagué ouviu aquella voz fraca, tremula e imperiosa; e ao observar aquelle rosto amarellento sentia estar ali um inimigo, um inimigo implacavel, com o coração cheio de desprezo pelo povo. D’antes poucas pessoas assim ella tinha visto, e nos ultimos annos chegára a esquecer-se de que ellas existiam.

—É a estes que nós causamos inquietações!... pensava.

—Senhor André Onissimof Nakhodha, filho de pae incognito, está preso!

—Porquê? perguntou tranquillo.

—Depois lhe direi! respondeu o official com malevola delicadeza.

E voltando-se para Pélagué, berrou-lhe:

—Sabes ler e escrever?

—Não! interveiu Pavel.

—Não falo comtigo! disse o official com severidade. Responde, velha, sabes ler e escrever?

Invadida de um sentimento de instinctivo odio contra aquelle homem, Pélagué aproximou-se de súbito, muito trémula, como se tivesse caído n’um rio gelado; a cicatriz fez-se escarlate, e o sobrolho baixou-lhe.

—Não grite! exclamou, estendendo o braço para o official. É ainda novo, não sabe o que seja o soffrimento...

—Socegue, mamã... interrompeu Pavel.

—É melhor uma pessoa abafar o coração e calar-se! aconselhou André.

—Espera, Pavel! exclamou ainda Pélagué, n’um arranco para a meza. Porque é que o sr. anda prendendo a gente?

—Isso não é da sua conta. Cale-se! berrou o official, erguendo-se. Tragam cá o Vessoftchikof.

E pôz-se a ler um papel que collocara á altura do rosto.

Trouxeram o rapaz.

—Tira o boné! disse-lhe o official, interrompendo a leitura.

Rybine approximou-se de Pélagué e dando-lhe um encontrão:

—Não se apoquente, tiasinha!

—Como hei-de eu tirar o boné, se tenho as mãos agarradas?

O official atirou com o auto para cima da meza, dizendo simplesmente:

—Assignem!

Pélagué viu os assistentes assignarem o documento, a sua excitação desapparecera, faltava-lhe a coragem; affluiam-lhe aos olhos amargas lagrimas de humilhação e de consciencia da sua fraqueza. Durante os vinte annos da sua vida de casada, tinha chorado lagrimas como aquellas; mas esquecera-lhe o ardor quasi por completo desde que enviuvára. O official olhou para ella e commentou com uma expansão desdenhosa:

—Foi cedo para tanto alarde, minha prenda! Creia que é capaz de ficar sem lagrimas... para o futuro.

Respondeu-lhe, outra vez irritada:

—Ás mães nunca faltam as lagrimas!... Se tem mãe, ella deve saber isto, com certeza!

O official metteu rapidamente os seus papeis na carteira, que era nova e de feixos brilhantes; e dirigindo-se ao commissario de policia:

—Todos elles denotam uma independencia revoltante!

—Que insolencia! murmurou o commissario.

—A caminho! ordenou o official.

—Até á vista, André! até á vista, Nicolao! disse Pavel apertando calorosamente a mão dos companheiros.

—Está claro... até á vista! repetiu o official com ironia.

Sem dizer palavra, Vessoftchikof apertava a mão de Pélagué entre os seus dedos curtos. Respirava a custo; o pescoço robusto estava congestionado, os olhos brilhavam-lhe de raiva. André sorria e meneava a cabeça; disse algumas palavras a Pélagué, que fez o signal da cruz sobre elle, respondendo-lhe:

—Deus conhece os justos!

Emfim o bando de homens de capotes cinzentos desappareceu dobrando a esquina da casa, com um tintilar de esporas. Rybine foi o ultimo a saír; com o seu negro olhar prescrutou Pavel; em tom meio abstracto disse:

—Adeus, an...?

E foi-se, sem pressas, tossindo, de cabeça baixa.

Com as mãos cruzadas nas costas, Pavel entrou de passear de um para outro lado, por entre as trouxas de roupa e os livros espalhados no chão, até que perguntou em tom sombrio:

—Viste como é?

Sem deixar de olhar para a desordem em que ficára o quarto, ella disse baixinho, afflicta:

—Prender-te-ão tambem... tambem, a ti! Para que foi tão grosseiro o Vessoftchikof?

—Teve medo, provavelmente!... respondeu Pavel tambem em voz baixa. Não se deve falar áquella gente... nada se consegue d’elles! são incapazes de compreender...

—Vieram! prenderam-no! levaram-no! murmurou, com os braços erguidos.

Só lhe restava o filho. O coração de Pélagué começou a pulsar mais vagaroso; o seu pensamento immobilisava-se perante um facto que ella não podia admittir como real.

—Faz pouco de nós, aquelle homem amarello: ameaça-nos... e...

—Basta, mãe! disse de repente Pavel com decisão. Anda cá, arrumemos tudo isto.

Tinha dito aquelle «mãe» e tratara-a por tu como era seu costume quando se tornava mais communicativo. Ella approximou-se, encarou-o e perguntou em voz baixa:

—Humilharam-te?

—Sim! Custou-me muito! Preferia ir com elles.

Pareceu a Pélagué que elle tinha os olhos lacrimosos; e para o consolar d’aquelle desgosto que ella vagamente adivinhava, disse, suspirando:

—Tem paciencia... um dia virá em que tambem sejas preso!

—Bem sei... respondeu.

Decorridos uns instantes, ella accrescentou com tristeza:

—Como és cruel, meu filho! Se ao menos me tranquillisasses... Mas não! se eu digo coisas terriveis, o que tu me respondes é peor ainda!

Elle olhou de relance, approximou-se, e baixando a voz:

—Não sei que responder-lhe, mamã. Não posso mentir. Tem que acostumar-se...

Pélagué suspirou e calou-se; depois, estremecendo:

—Será verdade? Dizem que elles torturam os presos, que lhes retalham o corpo em tiras, e lhes quebram os ossos... Quando penso n’isto, tenho medo, Pavel, meu querido filho!

—Torturam a alma e não o corpo. É ainda mais doloroso do que a tortura tocarem-nos na alma com as mãos emporcalhadas!