XIV

O dia decorreu lentamente, seguido de uma noite sem somno. O dia seguinte pareceu-lhe ainda mais comprido. Esperava não sabia o quê, mas ninguem veio. Caíu a tarde, depois a noite. A chuva glacial tombava roçando pelas paredes, o vento soprava pela chaminé, o madeiramento da casa rangia. Ouvia-se apenas a melodia melancólica e dolorosa das gottas d’agua caíndo do telhado, como lagrimas. Parecia que toda a casa vacilava e que uma surda angustia gelava o ambiente.

Bateram de manso á vidraça. Pélagué estava acostumada a este signal; não se assustou; estremeceu como se lhe tivessem despertado bondosamente, o coração. Vaga esperança fêl-a levantar-se de prompto. Atirando um chale para os hombros, abriu a porta. Samoílof entrou, seguido d’outra pessoa que occultava a cara na gola erguida da capa; tinha o boné descaído para os olhos.

—Viemos accordal-a? perguntou Samoílof sem mais cumprimentos.

Fóra do costume, o seu ar não era tranquillo.

—Não; eu não estava a dormir.

E olhou inquiridoramente para os recemchegados.

Com um suspiro abafado e profundo, o companheiro de Samoílof tirou o boné e estendeu a Pélagué a mão forte e de dedos grossos.

—Bôa noite, mãesinha! Não me reconheceu? disse-lhe amigavelmente como a um velho conhecimento.

—Ora?! exclamou ella com alegria. Iégor Ivanovitch! o sr.?!

—Eu, sim!

Tinha o cabello comprido como um menino de côro. Illuminava-lhe a fisionomia um sorriso de bondade; os seus olhitos pardos fitavam-se em Pélagué com expressão carinhosa. Assemelhava-se a um samovar no seu corpito redondo, no pescoço grosso e nos braços curtos. A pelle da cara reluzia; no seu peito parecia pesar e rostilhar alguma coisa...

—Vão para aquelle quarto; eu vou vestir-me! propôz ella.

—Temos que dizer-lhe! respondeu Samoílof, preoccupado e olhando-a de soslaio.

Iégor passou para a divisão do lado, dizendo:

—Mãesinha, esta manhã um dos nossos amigos saíu da cadeia, onde esteve trez mezes e onze dias. Viu por lá o russo-menor e Pavel que lhe envia muitas recommendações; o seu filho pede-lhe que não se apoquente por causa d’elle, e manda-lhe dizer que no caminho que elle escolheu, a cadeia é o logar que serve para o descanço; assim o resolveram as nossas auctoridades sempre interessadas pelo nosso bem-estar... Vamos agora ao que importa: Sabe quantas pessoas foram presas hontem?

—Não. Pavel não foi o unico?

—Foi o quadragesimo nono... declarou Iégor tranquillamente. E espera-se que ainda sejam presos uns dez... Entre outros este cavalheiro aqui presente.

—Eu mesmo! disse Samoílof, sombrio.

Pélagué respirava mais facilmente.

—Não está então sosinho!...

Quando acabou de vestir-se, passou ao outro quarto, sorrindo, bem disposta.

—Não os conservarão presos por muito tempo se elles são muitos.

—Diz bem! E se conseguirmos torcer o jogo dos nossos adversarios, não terão adiantado mais do que d’antes. Se deixarmos de propagar agora os nossos folhetos, os patifes da policia notarão o caso, e perceberão que a propaganda era feita pelo Pavel e pelos companheiros, agora seus companheiros na cadeia.

—Como? não percebo...

—Nada mais simples, mãesinha. Ás vezes a gente da policia chega a raciocinar com acerto... Repare: emquanto o Pavel era livre appareciam os folhetos; mettido na cadeia, desappareceram. Logo era elle quem os espalhava.

—Percebo!... murmurou ella tristemente. Que fazer? Ah! Deus do ceo!

A voz de Samoílof veiu da cosinha:

—Diabos me levem! Prenderam quasi todos os nossos! É preciso continuar a trabalhar como d’antes, não só pela nossa causa, mas tambem para salvar os companheiros.

—E ninguem para trabalhar!... suspirou Iégor. Temos folhetos magnificos... Fui eu mesmo que os fiz. Mas como introduzil-os na fabrica? Eu cá não sei:

—Agora, toda a gente é revistada á entrada... explicou Samoílof.

Pélagué adivinhava que lhe queriam alguma coisa.

—Então que fazer? perguntou vivamente.

Samoílof parou e perguntou:

—Pélagué Nilovna, conhece a vendedeira Korsounova?

—Conheço. Porquê?

—Fale-lhe. Talvez que ella se encarregue dos nossos folhetos.

Ella ergueu logo o braço n’um movimento negativo:

—Ah! não! É uma tagarella! Não! Saber-se-ia logo que fui eu... que foi coisa vinda da nossa casa... Não!

E de subito, illuminada por uma idéa repentina, exclamou com alegria:

—Dêem-me os folhetos! Dêem-mos! Eu acharei um meio... Deixem isso por minha conta! Pedirei á Maria que me tome ao seu serviço. Tenho que trabalhar, se quizer comer. Levarei tambem os jantares á fabrica, aos operarios... Deixem isso por minha conta.

Com as mãos unidas no peito, affirmava que saberia proceder sem que a descobrissem, e concluiu com uma exclamação triunfante:

—Ah! Hão de ver que mesmo com Pavel na cadeia, a sua mão os attinge!

Todos trez se sentiam de novo animosos. Iégor sorria, esfregando rapidamente as mãos, dizendo:

—Bravo, mãesinha! Se soubesse como isso lhe fica bem! como é para enthusiasmar!

—Se fôr bem succedida, sentir-me-ei tão feliz na cadeia como se estivesse sentado n’uma cadeira estofada! declarou Samoílof, rindo:

—É um thesouro, mãesinha! exclamou Iégor roufenhamente.

Pélagué sorriu. Era simples: se conseguisse introduzir na fabrica os folhetos, diriam que não era Pavel quem os distribuia. Sentindo-se capaz de desempenhar-se de tal compromisso, Pélagué estremecia jubilosa.

—Quando fôr visitar o Pavel, diga-lhe que elle tem uma boa mãe!

—Hei de vêl-o mesmo antes do dia da visita! prometteu Samoílof, sorrindo.

—Diga-lhe abertamente que hei de fazer quanto fôr necessario. Que elle o fique sabendo!

—E se o Samoílof não fôr preso, como ha de sabel-o o Pavel? perguntou Iégor.

—Paciencia! Temos que nos resignar!

E ambos entraram de rir. Quando ella compreendeu a sua tolice, riu tambem, mas um tanto contrafeita.

—Quando olhamos para os nossos, não vemos bem os que lhe ficam por detraz... murmurou ella, a justificar-se.

—É natural! concordou Iégor. A proposito de Pavel: não se inquiete nem se entristeça. Ha de saír da cadeia ainda melhor do que quando para lá entrou. Por lá descansa-se, ha tempo para adquirir instrucção, o que não nos acontece quando estamos á solta. Estive preso tres vezes, sem grande vontade, mas o meu coração e a minha razão aproveitaram sempre...

—Custa-lhe respirar... disse Pélagué olhando para elle affectuosamente.

—Por motivos especiaes... respondeu levantando um dedo para o ar.

—Portanto, está combinado, mãesinha. Ámanhã trazemos-lhe o que sabe, e outra vez entrará em movimento a roda que aniquila as trevas seculares. Viva a liberdade da palavra, mãesinha! e viva o coração materno! Até ámanhã!

—Até ámanhã! disse tambem Samoílof apertando com força a mão de Pélagué. Eu não posso dizer palavra d’isso tudo á minha mãe.

Quando elles saíram, Pélagué fechou a porta e ajoelhando-se no meio do quarto, pôz-se a resar, ao ruido da chuva. Rezou sem soltar dos labios uma só palavra; era como um pensamento muito longo e intenso; rezou por todos aquelles que Pavel associára á sua vida. Via os passar entre ella e as imagens dos santos; eram simples, tão extraordinariamente approximados uns dos outros, e tão isolados na vida.

Logo muito cedo, foi a casa de Maria Korsounova.

A ruidosa vendedeira, com o fato engordurado como sempre, acolheu-a compassivamente:

—Aborreces-te? perguntou, batendo-lhe com a mão no hombro. Consola-te! Agarraram-no, levaram-no? Grande coisa! Que mal ha n’isso? D’antes mettiam uma pessôa na cadeia, quando roubava; agora é quando se diz a verdade. Pavel disse naturalmente coisas que não se devem dizer. Mas foi para defender os companheiros, e isto toda a gente o percebe. Não tenhas medo. Todos sabem que elle é um bello rapaz... embora não o digam. Eu queria ir a tua casa, mas não tive tempo. Estou sempre a cosinhar, esgótto o meu artigo, e afinal estou certa de que virei a morrer pobre. Os amantes arruinam-me! os sacripantas! Comem! comem!... parecem baratas a devorar um pão. Apenas tenho uns dez rublos, apparece-me um d’esses hereticos e rouba-mos! É isto! Má coisa ser mulher! que estupida vida! É difficil viver só, e ainda mais viver acompanhada!

—Pois olha eu vim pedir-te que me acceites como ajudante... disse Pélagué, pondo um dique á catadupa das palavras.

—O quê?!

Mas quando a sua amiga lhe expoz todo o seu pensamento, meneou a cabeça em signal de approvação.

—Está dito. Lembras-te quantas vezes me déste esconderijo quando o meu marido andava á minha procura? Pois serei eu agora que te furtarei á miseria. Cada qual deve correr em teu auxilio porque o teu filho está soffrendo por causa de todos. É um bom rapaz! toda a gente o diz; e todos o lastimam. Eu, cá por mim, penso que estas prisões não trazem nenhum bem á fabrica. Se soubesses o que por lá se diz!... Os chefes imaginam que não ha de ir longe o homem que elles morderam no calcanhar. Mas por cada um que elles atacam, ha cem que se revoltam. Deve-se ter cuidado quando se quizer tocar no povo, porque elle vae aturando por muito tempo, mas, n’um bello dia, estoira!