DISCURSO VII.
Sobre as Cauzas dos Muitos Naufragios, que fazem as Nàos da Carreira da India, pela grandeza dellas.
Sendo as Nàos da Carreira da India as Embarcaçoens em que Portugal mete a principal substancia de seu cabedal em Dinheiro, Armas, Soldados, e Fidalguia delle, para em retorno lhe trazerem as riquezas do Oriente, he notorio a todo este Reyno, quantas destas Nàos se perdem quasi todos os annos. Pelo que parece obrigaçaõ muy precisa tratarse do remedio de taõ grande danno, pois em cada Nào destas, àlem da gente, se perdem muitos milhoens, e sendo esta perda tamanha he a mais ordinaria que padecemos, e ainda por vezes se tem apontado varias causas deste mal, parece que de todas ellas he a mayor, e mais prejudicial a demasiada grandeza das Náos, e o mào concerto, que se lhes faz com a querena; e porque sabido o principio, que estes erros tiveraõ, se poderaõ mais facilmente remediar, apontarey a noticia que delles tenho.
Todos os que tem lido as historias da India, sabem como no tempo, que ElRey D. Manoel viveo, naõ passavaõ as Nàos da Carreira de 400. toneladas, isto se vè assim, pelo dizerem os mesmos Historiadores, como pelo numero da gente, que nellas hia.
Morto ElRey D. Manoel, e querendo ElRey D. Joaõ pelo tempo adiante acrescentar o Commercio das Drogas, acrescentou[246] tambem para isso a grandeza das Nàos a 800. e 900. Toneladas, parecendo aos que deraõ este alvitre, que poupava muito em naõ acrescentar o numero dos vasos, e que se ganharia tanto mais na pimenta, quanto mòr quantidade della se trouxesse; porèm em lugar destes dous proveitos, se seguiraõ a ElRey duas grandes perdas. A primeira de gente, porque como as Nàos se fizeraõ taõ grandes, e a India està sempre pedindo Soldados, embarcaõ se nestas Nàos de ordinario 700. e 800. homens, e ainda mais, os quaes com a variedade dos Climas, incommodidades da embarcaçaõ, immundicia, e aperto da Nào vem a adoecer na viagem quasi todos. Na vida do insigne Martyr do Japaõ Carlos Espinola §. 2. se diz que na Nào, em que partio de Lisboa, houve tantos enfermos, que chegaraõ num dia a se darem 400. sangrias: e assim vem a fallecer grande numero de gente, perdendo-se os Soldados, e a despeza, que para elles se tem feito. A segunda perda, a que deraõ causa as Nàos grandes, foy a vinda, e por isso foy muito mayor, porque com esta occasiaõ se perde o fruito, e retorno de todo o Cõmercio da India, a razaõ he porque quanto mayores saõ as Nàos, tanto concorre a ellas mais gente, cuidando que vaõ mais seguros, e as carregaõ com tanta confiança de roupas, e caixaria, que naõ sómente vem entulhadas, e quasi maciças com o recheyo, mas ainda no Convés he às vezes taõ grande o numero de caixas postas humas sobre as outras, que fica a caixaria mais alta que o Castello da Popa, e para sahir da Proa à Popa, he necessario subir pelas caixas como por hum monte. Isto naõ sómente lemos em muitas relaçoens de naufragios, mas de presente mo testificou o Senhor Bispo eleito de Cranganor Francisco Barreto, que passou na Nào em que veyo. Pelo que, ou estas Nàos se perdem totalmente, ou padecem grandes perigos nas tormentas, chegando cà por milagre, depois de ter alojada toda a fazenda ao mar, como se tem visto por experiencia tantas vezes, e particularmente no anno de 91. e 92. em que partiraõ da India[247] 17. Nàos, 2. Galeões, e huma Caravella, e 2. Nàos novas, e destas vinte, e duas embarcaçoens, só chegaraõ a Lisboa as Nàos S. Christovaõ, e S. Pantaleaõ, que por serem as peores, vinhaõ descarregadas, e as outras vinte se perderaõ.
Estas duas perdas causadas pela grandeza das Nàos, foraõ de tanto pezo, que puseraõ a todo o Reyno em grandes apertos, porque com morrerem tantos Soldados na viagem, foy necessario mandar todos os annos muita mais gente â India, e com os muitos naufragios, que em todo o tempo delRey D. Manoel senaõ tinhaõ visto, ficou ElRey D. Joaõ[248] taõ falto de cabedaes, e drogas, que veyo a quebrar no anno de 1544. com tres milhoens de divida em Flandes, para cuja satisfaçaõ empenhou o Patrimonio Real na mayor parte dos juros, que lhe hoje vemos.
Conhecido este grande mal da grandeza das Nàos pelos do Conselho delRey D. Sebastiaõ, que succedeo a ElRey D. Joaõ seu Avó, procuraraõ remediar, e atalhar taõ manifesto danno, porque naõ sómente se perdia em huma Nào inestimavel riqueza, mas muita gente, Fidalgos, Soldados de grande valor, Pilotos, Mestres, Marinheiros, Artelharia, e Bombardeiros, gente toda feita nesta Carreira, que tanto neste Reyno, como na India, faziaõ muito notavel mingoa; e assim ordenando ElRey hum Regimento para a Casa da India,[249] que anda impresso no anno de 1570. mandou nelle as folhas 217. que nenhuma Nào da India fosse mais que de 300. atè 400. Toneladas, como se vè das palavras seguintes: E porque saõ imformado, que as Nàos, que haõ do andar na Carreira da India, convem serem de menos porte do que eraõ as que ategora serviaõ por se poderem mais facilmente aparelhar, e carregar, e haverem mister menos gente para as marear, e invernando fazerem despezas, que serà causa de se poderem fazer, e armar mais Nàos para andarem na dita Carreira. Ordeno, e mando, por estes, e outros respeitos, que me a isso movem, que todas as Nàos, que daqui em diante se fizerem por conta da minha fazenda, ou de partes, assim neste Reyno, como na India, para haverem de andar nesta navegaçaõ, naõ passe cada huma dellas de 450. Toneladas, nem seja de menos de 300. que fuy informado, que era o porte, que deviaõ ter para mais commodamente, e com menos risco, e despeza navegar. Esta ordem delRey se seguio em quanto elle viveo com taõ acertado successo, que nenhuma destas Nàos em seu tempo padeceo naufragio, como se vé da memoria das viagens das Nàos, tirada dos livros da Casa da India, que anda impressa, e se apresentou ao Conselho no anno de 1622.
Depois delRey D. Sebastiaõ, entrou ElRey D. Filippe o Prudente, que quando se tornou para Castella quiz deixar arrendada a pimenta a mercadores, e assim mesmo a fabrica, e concerto das Nàos, para saber com certeza quanto lhe rendia a Casa da India. Com esta occasiaõ desejando os Contratadores da pimenta lograrse dos annos dos seus contratos, pretenderaõ mandar vir grande quantidade della, e para isso accrescentaraõ a grandeza das Nàos, como se tinha feito em tempo delRey D. Joaõ, e porque o concerto de Nàos taõ grandes era notorio, que lhes havia de custar muito mais caro aos Contratadores do apresto dellas, porque senaõ podiaõ tirar a monte para se concertar, como as Nàos menores, introduziraõ a querena Italiana, para que sem tanto custo seu, emendassem as Nàos, estando dentro na agoa.
Destes dous princípios se tornaraõ a seguir os inconvenientes antigos, e ainda mayores; porque com a grandeza, e carga sobeja das Nàos, tornaraõ a ser tantos os naufragios, que de tres Nàos, que partem da India, raramente chegaõ as duas a salvamento, e o concerto da querena he de taõ pouca importancia, que ficaõ as Nàos verdadeiramente sem remedio, e reparadas somente no exterior. Estas saõ as causas de se terem perdido tantas Nàos do tempo delRey Filippe para cà, que se veyo a cuidar, que era isto algum misterio, naõ havendo outro mais que este erro fatal da grandeza demasiada das Nàos, e do superficial concerto das querenas. Em razaõ deste danno taõ prejudicial, por muitas pessoas praticas deste Reyno, se escreveo por vezes contra elle, sendo o primeiro Joaõ Bautista Lavanha, no naufragio da Nào Santo Alberto,[250] onde diz estas palavras. Tal foy a perdiçaõ desta Nào Santo Alberto, taes os successos de seu naufragio, causado naõ das tormentas do Cabo da boa esperança, pois sem chegar a elle com prospero tempo se perdeo, mas da querena, e sobrecarga, que como a esta Nào, assim a outras muitas no profundo do mar haõ sepultado, ambas poz em pratica a cobiça dos Contratadores, e Navegantes; os Contratadores, porque como seja de muito menos gasto, dar querena a huma Nào, que tirala a monte, folgaõ muito com a invençaõ Italiana, a qual posto que serve para aquelle mar de levante, a cujas tormentas, e tempestades pòdem pairar Galès, e aonde cada outo dias se toma porto. Neste nosso Occeano he o successo huma das causas da perdiçaõ das Nàos, porque alem de se apodrecerem as madeiras; posto que sejaõ colhidas em sua sazam, com a continua estancia no mar, e desencadernaremse com as voltas da querena, e grande pezo de tamanhas carracas, calafetandoas por este modo recebem mal a estopa por estarem humidas, e pouco enxutas, e quando depois navegando, saõ abaladas de grandes mares, e combatidas de rijos ventos, despedemna, e abertas daõ entrada à agoa, que as sosobra, e assim tem mostrado a experiencia, que quando desta danosa invençaõ senaõ usava, fazia huma Nào dez, ou doze viagens à India, e agora com ella naõ faz duas. O mesmo disseraõ outros muitos zelosos do bem commum, atè que ultimamente se deraõ no Conselho dous grandes Memoriaes impressos no anno de 1622. em que se mostrou com evidencia, que a grandeza que se usava nas Nàos era em danno da Fazenda, da Milicia, e do Estado do Reyno. Pelo que vistos estes Memoriaes, se mandou deixassem as Nàos grandes, e se tornassem a fazer Nàos pequenas, e em effeito se fizeraõ, e tiveraõ excellente successo, e no anno de 1633. as Nàos pequenas que se fizeraõ, foraõ à India em quatro meses, e meyo, e voltaraõ em cinco meses, cousa que nunca aconteceo a Nào alguma grande. Porèm os homens do mar, e mais officiaes, como saõ interessados na grandeza das Nàos, porque quanto saõ mayores, tanto mayor he o espaço de sua liberdade, ou de seu lugar, para o venderem, tornaraõ a persuadir aos Ministros, que convinha fazerem-se Nàos grandes, e naõ pequenas, e assim o diraõ sempre, porque saõ suspeitos na materia; e elles fizeraõ fazer a terceira cuberta taõ alterosa, que enfraquece as Nàos, e os Camarotes se tem tornado em cameras. Com tudo por se dar satisfaçaõ à gente do Mar, se deve fazer boa conta dos Soldados, e Fretes, que se lhes devem dar nesta viagem, q́ naõ convem sejaõ menores, que os que os Ingleses, e Olandeses daõ aos seus Marinheiros, antes com ventagem. E se nas Nàos pequenas ficaõ defraudados, e levando menos, que os Estrangeiros, isso se lhes deve suprir em dinheiro, e em os forrar de alguns direitos, mas naõ em lhes acrescentar os lugares com que ElRey perca as suas Nàos, pois mais interessa a Fazenda Real em irem as suas embarcaçoens a salvamento, que nos suprimentos, que a esta gente se lhe pòde acrescentar.
Finalmente as ventagens, que as Nàos pequenas levaõ às Nàos grandes, saõ muito notorias, porque as Nàos pequenas saõ muito mais ligeiras, navegaõ menos quartas, e com qualquer vento, e pedem menos fundo, e para as pelejas saõ de muito mòr effeito. As Nàos grandes pelo contrario andaõ menos, porque navegaõ em mais quartas, naõ se movem senaõ com vento largo, pedem muito fundo, com que perigaõ em muitos portos, e não servem para a guerra, como he notorio, e o nota Joaõ Botero, quando trata das forças delRey de Polonia, dizendo que por as Armadas da Christandade porem de ordinario suas forças em vasos grandes, perderaõ muitas vezes as occasioens, que houveraõ de alcançar, se foraõ embarcaçoens mais ligeiras, e o mesmo nos tem acontecido com os Olandeses, que por os seus Baixeis serem Galeoens, sempre ficaraõ superiores às nossas Nàos, quando se encontraraõ com ellas.
O caso he que cinco Galeoens, ou Nàos pequenas, custaõ tanto como tres Nàos grandes, e vindo cinco Baixeis destes que dizemos juntos, vem huma Armada muito poderosa, e vindo tres Nàos, vem tres Carracas muito fracas, as quaes depois de duas viagens, se mandaõ desfazer na Ribeira, e os Galeoens podem servir depois de muitos annos, assim nas viagens, como nas Armadas da Costa; porèm o que sobre tudo se pòde considerar, he que de cinco Navetas, que partem da India, todas chegaõ ao Reyno, senaõ quando Deos conhecidamente nos quer castigar, e partindo tres Nàos de Goa, he quasi milagre chegarem cà todas, por quanto do mesmo porto de Goa, por sua grandeza, e immensa carga saem jà perdidas, como aconteceo à Nào Reliquias, que dando à vella, se foy ao fundo, antes de sahir do porto de Cochim.
Por conclusaõ de tudo nos pòde servir de demonstraçaõ desta verdade o exemplo, que vemos nos Olandeses, os quaes com os Galeoens estaõ feitos Senhores do Cõmercio da India, porque as embarcaçoens ordinarias em que navegaõ, naõ passaõ de 500. Toneladas. E ainda que algumas vezes usaõ de outras mayores, e que chegaõ a 800. podem-no fazer sem tanto risco, como nòs, porque a sua carga naõ he de roupas, ou caixaria, senaõ de Drogas cosidas em fardos, e nenhuma fazenda vay fóra de seu lugar, porque a carregaçaõ corre pelos Ministros de sua bolsa, e naõ pela cobiça dos nossos Marinheiros, que costumaõ carregar as nossas Nàos à sua vontade. Pelo que naõ excedendo ordinarimente os Navios de suas Frotas de 450. Toneladas, hà mais de 50. annos, que fazem viagem, sem saberem quasí, que cousa he naufragios, nem perderem Galeaõ da Carreira, e todas as vezes que se encontraraõ com as nossas Nàos, ficaraõ superiores na peleja, como temos dito, assim por serem mais os seus Galeoens, que as nossas Nàos, como pela ventagem da ligeireza. Por estas razões lhes rende tanto o Cõmercio da India, que saõ hoje os mais poderosos mercadores de Europa; e sem algum Principe entrar em sua companhia, só com os ganhos do Cõmercio, que todos os annos lhes chega a salvamento nos Galeoens, saõ bastantes a sustentarem a guerra na India, e no Brasil contra Sua Magestade, com tão grandes Armadas, e numero de Soldados, que naõ ha Principe fóra de Espanha, que atègora pudesse fazer outro tanto.
Alèm destas causas bem sey, que hà outras muitas, para se as Nàos perderem: porèm a demasiada grandeza, e as querenas saõ os defeitos mais ordinarios, e mais faceis de remediar, e que tem occasionado mais naufragios, que todos os outros juntos. Pelo que totalmente convèm, assim, para conservarmos o Cõmercio, como para prevalecermos contra os Olandeses, que se deixem estas fataes Nàos de summa grandeza, e tornemos aos Galeoens, e Nàos pequenas, com que este Reyno alcançou o Senhorio da India, pois he axioma certissimo dos Filosofos, e Politicos, que as cousas permanecem, em quanto se conservaõ as causas, que as produsiraõ. E deste modo evitarà Sua Magestade ver cada anno perder as suas Nàos com tantos milhares de cruzados de cabedal, e tantos Vassallos seus, que tanto lhes custaraõ aos pòr na India, e tornar embarcar para Portugal. E os Officiaes, Marinheiros, e Passageiros das Nàos, escusaraõ de botar com seus mesmos braços ao mar aquellas riquezas, que adquiriraõ com taõ compridos trabalhos, e riscos, e o que he mais, perder as vidas, despedaçados nos penhascos das Costas bravas da Etiopia, ou escapando daqui, às maõs dos Cafres, e de cruelissimas fomes, dando sepultura a seus corpos nos ventres dos Tigres, e outras semelhantes féras dos ardentes desertos da Cafraria.