§. I.
Das condiçoens, com que os Summos Pontifices deraõ aos Reys de Portugal o Senhorio de Guiné.
Sendo a prègaçaõ do Evangelho na Provincia de Guinè, a primeira que os Portugueses fizeraõ, e a mais vizinha a este Reyno, he muito para sentir ser esta a que tem dado menor fruito. Pelo que me pareceo necessario apontar as causas que impediraõ naõ se reduzir esta obra à sua perfeiçaõ, para que remediados os impedimentos produza a seara Evangelica nestas regioens os grandes augmentos, que se della pódem esperar; pois este he o intento, com que os Reys Portugueses emprenderaõ as suas Conquistas, e consentem que seus naturaes se desterrem da propria Patria, e occupem suas forças em habitar, e cultivar as alheyas.
O Senhorio, que os Reys de Portugal tem em Guinè, em que se incluem os Estados do Caboverde, Mina, S. Thomè, Angola, e parte de Congo, foy primeiramente concedido[233] aos Reys de Portugal por huma Bulla do Papa Martinho V. e depois por outras de Eugenio IV. Nicolao V. Xisto IV. e Leão X. nas quaes dizem os Summos Pontifices, que daõ o dominio daquelas terras a esta Coroa com condiçaõ, que os Reys della provejaõ de Sacerdotes, e Ministros do Evangelho, que bautizem, e ensinem nossa Santa Fè aos naturaes da terra, encarregando-lhes sobre isso suas consciencias, como se ve do theor de todas ellas, e por o mesmo respeito deraõ tambem aos Reys o Padroado de todas as Igrejas daquellas Provincias, e os dizimos dellas applicaraõ a Commenda Mestral da Ordem de Christo, para mais largamente acudirem os Reys a estas despezas; o que por ser nonotorio, e largo de referir, senaõ aponta com as mesmas palavras das Bullas Apostolicas.
Foraõ os Reys deste Reyno taõ pios, e zelosos da honra de Deos, que o principal intento, com que emprenderaõ estas conquistas, foy a propagaçaõ da Fè Catholica, e conversaõ daquella Gentilidade; e acrescentando-se de novo a este seu desejo a obrigaçaõ de que se encarregaraõ aos Summos Pontifices acima referidos, procuraraõ com muito cuidado desencarregar-se desta promessa; e por isso erigiraõ Igrejas Cathedraes na Ilha de Santiago, de Cabo-Verde, e na Ilha de S. Thomè, e na Cidade do Salvador de Congo, e em outras partes levantaraõ Igrejas, e poseraõ Vigarios para administrar os Sacramentos, e ensinar a Doutrina Christãa; e mandaraõ muitas vezes Religiosos àquellas partes, particularmente ao Reyno de Congo a fazer esta conversaõ, e para haver mayor copia de Ministros, fez ElRey D. Joaõ III. o Collegio da Companhia de Coimbra, e ElRey D. Henrique a Universidade de Evora, donde sahiraõ, e saem muitos Religiosos, e Varoens doutos nas Letras Sagradas, que empregaõ as vidas nesta gloriosa empresa. O primeiro lugar, que os Portugueses povoaraõ na Costa de Guinè, foy a Mina no anno de 1482. nelle se fez a primeira prégaçaõ, como o dà a entender Joaõ de Barros Dec. 1. l. 3. c. 2. e com haver mais de 150. annos ao tempo que se perdeo, naõ havia mais naturaes Christãos, que os de tres, ou quatro aldeas junto das fortalezas de S. Jorge, e Axem, sendo o districto deste governo taõ grande, que passa de 200. legoas.
A segunda prégaçaõ se fez em Congo,[234] e começou no anno de 1491. em que ElRey D. Joaõ II. mandou os Religiosos de S. Francisco, que bautizaraõ os Reys, e principaes Senhores daquelle Reyno: e por estes Religiosos morrerem em poucos annos, enviou depois ElRey D. Manoel à mesma empresa doze Padres dos Azues, a que neste Reyno chamaõ de S. João Evangelista. E ElRey D. Joaõ III. quatro Sacerdotes da Companhia, que huns, e outros acabaraõ em breves dias nesta empresa; a qual continuaraõ depois os Bispos, Conegos, e Clerigos, que o mesmo Rey D. Joaõ III. mandou, fazendo huma Igreja Cathedral na Cidade do Salvador. Porém de todas estas prégaçoens se tirou pouco fruito, ainda que foraõ feitas com grande zelo da salvaçaõ das almas, e concorrendo Deos nellas com obras maravilhosas, e sem haver resistencia nos naturaes da terra para receber o Bautismo; porque como a Provincia he muito grande; e os Ministros muito poucos, a mayor parte dos naturaes do Reyno naõ tem mais que o nome de Christãos, e os mais delles nunca viraõ Sacerdote; e tirando o Bautismo, e os nomes, que dos Santos tomaraõ, nos ritos, nos costumes, e na doutrina, saõ como de antes, quando eraõ Pagaõs. E assim nascem sem haver Sacerdote, que ensine os filhos, nem quem encaminhe os pays, nem quem leve por diante a obra de Deos naquella terra. De modo que sendo esta huma das grandes Christandades de que se podèra colher copioso fruito, està toda bravîa, por falta de quem a cultive, sem valer a seus Principes pedirem por tantas vezes ao Papa, e a Sua Magestade o remedio deste mal.
A Ilha de S. Thomè se povoou no anno de 1493.[235] que hà 159. annos; e em todo este tempo se doutrinaraõ sómente os Negros Cativos dos moradores da Ilha; e na terra Firme, só em Oere, porto onde residem Portugueses, hà alguns Christãos da terra.
Em Angolla des do anno de 1575. em que começou a conquista, atégora tudo foraõ guerras,[236] e da conversaõ dos naturaes se tratou pouco, ainda que tem em Loanda hum Collegio da Companhia, e outro Convento dos Padres Terceiros; porque o Evangelho de Christo he de paz, e naõ se ha de prègar com as armas nas mãos. E assim tirando os Negros de Loanda, e Massangano, naõ hà na terra outros Christaõs, senaõ os escravos, que saem daquelle porto de resgate para Europa, e Novo mundo; aos quaes bautizaõ, sem os cathequizarem, de maneira, que morrem nas mesmas embarcaçoens como brutos. Os outros moradores daquella grande Provincia, assim estaõ como quando nella entramos, antes escandalizados de nossas armas, que edificados da nossa doutrina.
O Cabo Verde, e suas Ilhas se descobriraõ no anno de 1440.[237] que hà mais de 200. annos; e a conversaõ, que se fez em todo este tempo, foy sómente nos escravos das Ilhas de Santiago, e do Fogo, onde estaõ as nossas povoaçoens, e na terra firme nos portos do Rio de S. Domingos, Guinalla, Biguba, Rio das Pedras, Bissao, Cacheu, e Joala, em que os nossos Portugueses residem. Fazem do mesmo modo bautizar os Negros, que compraõ, ou de que se servem, e nunca se prégou o Evangelho geralmente a nenhuma daquellas Provincias, até que no anno de 1605. por ordem do Concelho de Portugal se mandaraõ àquellas partes alguns Religiosos da Companhia, de que foy por Superior o Padre Balthesar Barreira Varaõ Apostolico, que nellas fez grande fruito, convertendo alguns Reys da Serra Leoa, e doutros districtos com muitos dos seus principaes; porém morrendo-lhe logo os seus companheiros, e elle pouco depois, ficaraõ outra vez os novamente convertidos desamparados de todo o socorro espiritual, para continuarem no conhecimento de Deos, e aproveitamento de suas almas.