§. I.
Querendo Salamaõ encarecer, quanto importava ao Rey, e ao Reyno haver muita gente nelle, diz no cap. 4 das suas Parabolas: In multitudine populi dignitas, & in paucitate plebis ignominia Principis. Que he o mesmo que dizer: A grandeza dos Reys està na multidaõ do povo, e dos poucos Vassallos nasce a falta da reputaçaõ do Principe. A razaõ he, porque a multidaõ dos subditos defende o senhorio proprio, e pòde conquistar o alheyo. A multidaõ da gente cultiva o terreno, de maneira, que naõ sómente basta para os naturaes, mas pòde prover os estranhos. Da muita gente se colhe a riqueza do Principe pelos direitos, que se pagaõ dos frutos da terra, obras de mãos, e mercancias. Acontece isto naturalmente; porque como cada hum procura a sustentaçaõ de sua propria vida por preceito natural, tanto que chega a idade conveniente, de força a ha de buscar pelos meyos, com que melhor, e com mais commodidade a possa alcançar. Estes commummente se reduzem a quatro, que saõ Agricultura, para a sustentaçaõ necessaria às Artes mechanicas, para a vida politica, e à Mercancia, para levar os frutos proprios às Provincias alheyas, e trazer das alheyas, os que nos faltaõ, e à Milicia, para defensaõ da patria. Pela qual razaõ fica claro, que onde houver muita gente, haverà muita Agricultura, muitas Artes, e muita Mercancia, e muitos Soldados; que saõ as quatro cousas, em que se funda, e consiste a riqueza, o poder, e a felicidade de hum Reyno.
Tratando primeiramente da lavoura, e Agricultura, he de notar, que para por esta via se tirarem della muitas riquezas, he necessario haver muita gente. Grande exemplo temos disto em nossa Espanha no Reyno de Granada; porque no tempo que os Arabes estavaõ Senhores deste Reyno, por ser entaõ habitado de muitos Mouros, que lançados de todas as mais partes de Espanha, se foraõ recolhendo nelle, todos os montes se viaõ cubertos de vinhas, e arvores fructiferas, os valles, e campinas de sementeiras, e hortas, de maneira que naõ se podia ver no mundo terra mais abastada, e abundante de todas as cousas.[1] E era tanto isto assim, que sómente as folhas das amoreiras da Veiga de Granada rendiaõ a ElRey mais de 30U. cruzados, e as rendas das sedas, que se creavaõ no Reyno, rendiaõ mais de 42. contos,[2] e punha o Rey de Granada mais homens de cavallo em campo, que os outros Reynos de Espanha; com serem os mais delles muito mayores, que o de Granada;[3] o qual agora pela falta, que tem de gente, està taõ dessemelhante daquelle tempo, como se naõ fora o mesmo torraõ da terra, e por esta causa vieraõ as rendas delRey naquelle Reyno a tanta quebra, que naõ chegaõ hoje a ametade do que dantes valiaõ.
Na China por ser infinita a gente, he tanto o mantimento, que dà a terra, e tanta a industria com que a cultivaõ seus naturaes, que sendo elles tantos, que por não caberem nas povoaçoens, habitaõ em barcos nos rios, e enseadas; comtudo naõ padecem falta delles, antes os levaõ della continuamente de mercadoria para outras partes.
Nem contra isto se pòde dizer, que ainda, que haja muita gente naõ haverà cultivaçaõ da terra, se ella for de si infructifera, e esteril; porque confórme aos naturaes, e o que se nota nas leys das partidas,[4] nenhuma terra he infructifera; antes he cousa certa, que se alguma terra naõ for boa para dar trigo, serà para produsir cevada, centeyo, ou milho; e quando naõ, serà conveniente para vinhas, pastos de gado, mel, e cera; e a que naõ poder produzir árvores de fruto, darà arvores silvestres, ou pinheiros para madeira, como temos por exemplo nas terras, que estaõ da outra banda do Tejo defronte de Lisboa, onde vemos huma area solta dar excellentes vinhas, e produsir infinidade de pinheiros, e lenha, sem a qual se naõ poderia sustentar o grande povo de Lisboa.[5] O Author das Chiliadas diz, que as campinas de Brabante saõ de area esteril, mas os naturaes com sua multidaõ, e industria as fazem abundar de trigo, mostrando a experiencia contra o proverbio, que naõ he trabalho baldado lançar semente na area: In Brabantia, diz elle, fiunt agricolæ tam industrij, qui sitientissimas arenas cogunt & triticum ferre. Bem se vè logo, que onde houver muita gente haverà todos os frutos, e proveitos, que da terra se pòdem tirar, e que a falta da gente he a causa da caristia delles.
Quanto às artes, e industria, com que grande parte do povo se mantèm; estas naõ as pòde haver, nem pòdem florecer onde naõ houver muita gente; porque huns ensinaõ os outros, e inventando cada hum novas cousas, fica aos outros mais facil aperfeiçoarem a arte, confórme ao que se diz: Facilius est inventis addere. E assim vemos, que depois, que os Estados de Flandes cresceraõ em multidaõ de gente, floreceraõ entre elles mais artes, e industria, que entre todas as mais naçoens de Europa. Porque nesta Provincia se tecem as ricas, e maravilhosas tapeçarias, de que se usa em todo o mundo; que por esta causa se chamaraõ pannos de Arràs, tomando o nome da principal Cidade, em que se principiaraõ; nella se fazem as mais, e as melhores impressões de livros; della vem as pinturas, as olandas, os cofres, e caixas, os espelhos, e milhares de miudezas, e brincos, que em nenhuma outra parte do mundo se fazem, se naõ nesta: donde vem a ser huma das mais ricas Provincias de Europa; sendo assim, que naõ tem minas de ouro, nem prata.
Em Alemanha, por haver muita gente, florece tanto a mechanica, que a ella se attribue a invenção da impressaõ, polvora, e artilheria, as maravilhosas fabricas dos relogios, e dos mais dos instrumentos Mathematicos; de entre elles sahio a artificiosa invençaõ do papel, de que hoje usamos, das quaes cousas todos os antigos naõ tiveraõ noticia.
Isto nasce da multidaõ da gente de Alemanha, que por ser muita, cada hum busca por sua industria, e arte seu melhoramento, e de maneira tem em honra esta occupaçaõ, que desde o Emperador, atè o ultimo homem da Republica se professa algum officio mechanico, e se preza muito de fazer obras de mayor preço. Esta foy a causa porque antigamente em Grecia chegaraõ a tanta perfeiçaõ as artes da pintura, e escultura, porque segundo Plinio[6] toda a nobreza se occupava nellas: o que durou tanto tempo naquella regiaõ, que ainda se refere do Emperador Theodosio II. que as illuminaçoens, que fazia, vendia por grande preço, e se prezava muito disso.
O mesmo succede na China, a qual por ser a mais povoada Provincia do Oriente, tem mais artificios, e obras mechanicas, que todas as outras; porque della vem os leitos, escritorios, bofetes, e mesas douradas, as camas bordadas de ouro, e seda, as perçolanas finas, as telilhas, damascos, tafetàs, e outras mil invençoens da sedas em tão grande quantidade, que todas as Provincias do mundo estaõ cheyas destas mercadorias; e ainda confórme à opiniaõ de alguns modernos, elles acharaõ primeiro, que os Alemaens, o papel, a impressaõ, a polvora, e fundiçaõ da artilharia.
Da copia da Agricultura, e das Mechanicas nasce a mercancia; porque naõ sendo os frutos da terra, e materiaes comuns a todas as Provincias, procuraõ os mercadores levar os frutos, e obras, que nas patrias tem de sobejo a outras partes, onde as taes cousas faltaõ; e trazerem dellas as que se naõ daõ nas suas terras; o que naõ pòde ser, se não havendo abundancia de gente, que se possa occupar nestes tratos, e viagens, como vemos em Alemanha, Flandes, Inglaterra, Italia, e na China,[7] que com a multidaõ de seus baixeis mercantis correm o mundo todo, e o enchem de suas mercadorias.
Porèm para nenhuma cousa he mais necessaria a multidaõ de gente, que para a Milicia; porque como os soldados saõ ordinariamente a gente superflua na Republica, naõ havendo destes muitos, naõ pòde haver exercitos grandes, com os quaes sómente se fundaraõ as quatro Monarquias. Dos Assirios, e Persas lemos, que os exercitos eraõ taõ grandes, que lhes naõ bastavão para beber as agoas dos rios. Os successores de Alexandre, que podemos dizer foraõ os possuidores da Monarquia Grega, tambem se valeraõ de exercitos grossissimos, e a Republica Romana adquirio o senhorio do mundo, não menos com o grande numero das suas Legioens, que com sua prudencia, e valor. A ruina do Imperio de Roma foy mais causada das innumeraveis gentes, que do Norte sahiraõ, que não de sua destreza militar: o mesmo experimentamos no senhorio dos Arabes, que com sua multidaõ subjugarão o Imperio Grego, o Egypto, e Africa, e tiveraõ muito tempo tiranizada a Espanha. Pelo que sem grande numero de gente, não se pòde adquirir, ou conservar, grande Senhorio.