§. II.

Principio das sciencias na Lusitania.

Elysa Neto de Noè, que he o mesmo Luso (porque o Ypsilon pronunciavaõ os Gregos por V.) foy o primeiro que povoou Espanha[220] dando principio à fundaçaõ de Lisboa, que delle tomou o nome Elysea, e os seus campos: Elyseos; e a Provincia Lysitania, & Lusitania como o provaõ Joaõ Goropio. Chamaraõ-se depois estes habitadores de Lisboa Turdolos, e multiplicando-se pelo tempo adiante, povoaraõ toda a terra de Andaluzia, onde retiveraõ o mesmo nome de Turdolos, e depois de Turdetanos; quasi Turdoletanos, ou Bolitanos, como os chama Apiano Alexandrino, ficando sempre aos de Lisboa o nome de Turdolos Veteres, ou antigos, por delles procederem os de mais. Por onde, confórme aos Antigos Geographos, naõ sómente se chamou Lusitania, e pertencia a esta Provincia toda a terra, que estava entre Douro, e Guadiana; mas do Oceano Setentrional, até o Mediterraneo de Valença: e por isso chama Estrabo[221] aos Lusitanos: Gens amplissima, suas palavras saõ: Tagi verò regio ad Aquilonem spectans Lusitania est, inter Hispanos gens amplissima, & annis plurimis Romonorum armis oppugnata, hujus regionis latus Australe Tagus cingit; ab Occasu verò, & Septentrione Occeanus; ab Aurora Carpetani. Da outra parte da Turdetania o confesa o mesmo Plinio,[222] affirmando que os Celticos de Espanha eraõ Colonias dos Celtiberos da Lusitania, como se vé destas palavras: Quæ autem regio à Beti ad fluvium Anam tendit, extra prædicta, Beturia appellatur, in duas divisa partes, totidemque gentes, Celticos, qui Lusitaniam attingunt Hispalensis Conventus, Turdulos, qui Lusitaniam, & Tarraconensem accolunt, jura Cordubam petunt. Celticos à Celtiberis ex Lusitania advenisse, manifestum est, sacris, linguis, oppidorum vocabulis. Quasi dizendo: A regiaõ, que se estende des de Betis ao Rio Guadiana, se chama Beturia, dividida em duas partes, e em outras tantas gentes, Celticos com a Lusitania do termo de Sevilha, e os Turdolos, que habitaõ a Lusitania, e a Tarraconense, e pedem sua justiça em Cordova. Cousa certa he, terem vindo os Celticos dos Celtiberos da Lusitania; prova-se, pela religiaõ, pela lingua, e pelos vocabulos dos povos. Isto mesmo confessa o doutissimo Rodrigo Cato[223] nas Antiguidades do Principado de Sevilha, dizendo: Beturia por ventura, tomò el nombre del rio Betis, llamose assi mismo Vetonia, y con nombre mas general Lusitania, en ella fue ilustrissima la ciudad de Merida, que fue convento juridico, y tuvo jurdicion, y finalmente fue cabeça, de la Lusitania. E Ortelio no seu Thesouro fallando de Olitingi, diz que estava na Lusitania entre as fozes de Gualdalquibir, e Guadiana: Olitingi Hispaniæ oppidum Pomponio in Lusitania intra Betis ostia, & Anæ fluminum videtur. Destas authoridades se mostra claro, que os Lusitanos povoaraõ tambem toda a Turdetania; porèm que a Vetonia, como mais vizinha, reteve mais o nome de Lusitania; e assim na Vetonia ficou sendo cabeça da Lusitania Merida, e dentro da mesma Provincia Cordova, Italica, Hispalis, ou Sevilha. Os Principes que governaõ pòdem estender, e diminuir os limites das Provincias para mòr commodidade; mas nem por isso deixa de ser a gente a que era dantes.

Turdetanos, diz Estrabo, como logo vetemos, que em seu tempo tinhaõ leys escritas em verso de seis mil annos; donde se vè, que os Lusitanos foraõ os primeiros professores das letras, que houve em Espanha, e taõ antigos no exercicio dellas, que Santo Agostinho na Cidade de Deos[224] os poem entre os primeiros, que ensinaraõ no mundo, como refere Luiz Vives nos seus Commentarios. Estes Turdetanos foraõ sempre continuando com a doutrina, e crescendo nas sciencias de maneira, que havia entre elles Universidades, e grandes volumes de antiguidades. Pelo que foraõ estimados pelos mais polidos povos de Espanha; como diz o mesmo Estrabo neste lugar: Hi inter Hispaniæ populos (diz elle) sapientia putantur excellere, & literarum studijs utuntur, & memorandæ vetustatis volumina habent poemata, leges quoque versibus conscriptas è sex annorum millibus, ut aiunt. Estes annos se haõ de entender de tres meses, segundo o antigo computo dos Espanhoes, que referem[225] varios Authores; e assim vem a fazer estes seis mil annos, os que havia depois da pouoaçaõ de Espanha, atè o tempo de Augusto, em que Estrabo escreveo.

Nestes estudos de Turdetania floreceo, e ensinou Asclypiades Merliano, que escreveo a Navegaçaõ, e naufragios de Olyses, de quem o mesmo Estrabo faz particular mençaõ.

Vendo pois Sertorio nos Lusitanos este antigo amor das Sciencias, quiz usar delle para utilidade sua como excellente Politico, e sendo chamado pelos Lusitanos por seu Capitaõ, e Governador, lhes mandou vir novos Mestres das Artes, que entaõ se professavaõ: instituhio huma Universidade em Guesca Cidade de Aragaõ, onde foraõ logo estudar os filhos dos principaes Lusitanos, que lhe ficaraõ servindo de refens para senaõ poderem levantar contra elle, como conta, e nota particularmente Plutarco na sua vida; mas sendo depois morto, e senhoreando-se de tudo Metello, levou estes Lusitanos, como por trofeos a Roma, por serem excellentes Poetas, segundo refere Tullio,[226] ainda que diz delles, que eraõ Pingue quiddam sonantibus: porque parece naõ pronunciavaõ bem a lingua latina; e com tudo pouco depois foy Mestre da mesma Roma Antonio Juliano, de quem faz mençaõ Aulo Gelio,[227] e Quintiliano. E pois o nome de Lusitania alcançava a Cordova, como os Authores allegados confessaõ, bem podemos chamar nossos Lucano, Seneca, e Silio Italico, que tanto floreceraõ em tempo dos Romanos.

Aqui nesta Provincia dos Turdolos antigos se devia conservar mais a Sciencia, pois a tinhão taõ antiga, principalmente em Beja, e Santarèm, onde pelos tribunaes das Chancellarias, que os Romanos nellas instituiraõ, se deviaõ praticar mais as letras, como parece bem pelos Authores, que destes Conventos juridicos da Lusitania sahiraõ, ainda em tempo dos Godos, como de Santarém João Abbade de Valclara, e Bispo de Girona; e de Beja Isidoro, Aprigio, Pacenses, e outros muitos, que no Cathalogo dos Authores Portugueses sahiraõ à luz com grandissima honra de suas Patrias, e de toda Lusitania.

Depois dos Godos sobrevieraõ as inundaçoens dos barbaros Arabes, que confundiraõ, e desfizeraõ as memorias de todas; mas tornando com grande trabalho a restaurar o perdido, os Reys de Oviedo, e Leão, foy a Provincia de Portugal huma das primeiras, que conseguio a liberdade. Deu-se Portugal por ElRey D. Afonso VI. (que ganhou Toledo) em dote ao Conde D. Henrique com sua filha Dona Tharesa; donde começou a clarissima successaõ dos nossos Reys Portugueses, de cuja virtude, e esforço tiveramos grandes memorias, se as continuas guerras dos primeiros D. Afonso, e D. Sancho na conquista do Reyno naõ tirassem o lugar à curiosidade, e dos outros dous, suas particulares discordias os naõ tiveraõ inquietos quasi todo o tempo, que reynaraõ, e por juntamente se prezarem mais naquelle tempo as armas, que as sciencias, temos delles taõ poucas memorias.

Porèm vindo o Infante D. Afonso Conde de Bolonha de França para governar este Reyno de Portugal em lugar de seu irmão, trouxe consigo alguma mais policîa, com a pratica, que em França tivera, que entaõ era o mais florente Reyno de toda Europa, e assim mandou crear os Infantes seus filhos D. Diniz, e D. Affonso na boa disciplina de todas as Artes, em que sahiraõ taõ excellentes, que nenhuns Principes do seu tempo se lhe avantajaraõ, principalmente ElRey D. Diniz, o qual teve grande conhecimento das boas letras, em que pelo tempo adiante fez varias obras, e ferveo nelle tanto o desejo de ver as sciencias em Portugal, que foy o primeiro, que fez Universidade neste Reyno, para se lerem nella todas as disciplinas, e artes liberaes, da qual, e das outras de Espanha o Catalogo he o seguinte.