§. IV.
Do Alferes Mòr, Capitaõ dos Ginetes, e Capitaõ da Guarda.
Atè o tempo del Rey D. Fernando, o Alferes Mòr del Rey era o General do Exercito, como jà apontamos, e fazia o officio de Condestable, e Marichal, como consta do seu titulo no Regimento da guerra. Entre os Ricos Homens era dos primeiros, que confirmavaõ as Escrituras com o titulo de Signifer Regis; e o mesmo se usou em Castella. O nome de Alferes he Arabigo, que quer dizer tanto como Cavalleiro. Seu officio he ao presente ter a Bandeira Real no acto de Levantamento dos Reys, e levalla nos exercitos com a Pessoa Real; mas naõ estende a bandeira, senaõ em batalha campal. Costumaõ os Alferes Mòres ter outro Alferes, que chamaõ pequeno, a quem entregaõ a bandeira, quando estaõ impedidos para o poder levar, como se le,[41] que succedeo na batalha de Touro, em que a Duarte de Almeida Alferes pequeno cortaraõ as mãos, para lhe tomarem a bandeira. O primeiro Alferes Mòr, que houve em Portugal, foy D. Fafez Luz, que viera de França com o Conde D. Henrique. Os mais que este cargo serviraõ, segundo tenho alcançado, foraõ D. Pedro Paez da Silva, Fidalgo illustre, e grande cavalleiro. Em tempo del Rey D. Afonso II. confirmaõ com titulo de Alferes Mór Martim Annes, e D. Sueiro Reymondo: no delRey D. Afonso III. D. Joaõ Pirez de Aboim, e D. Gonçalo: no delRey D. Afonso IV. servio este cargo na batalha do Salado D. Pedro Paes neto do Mestre de Santiago D. Payo Correa: na batalha de Aljubarrota levava a bandeira Real Lopo Vaz da Cunha por seu irmão Gil Vaz da Cunha: e nas mais empresas delRey D. João I. exercitou o officio Joaõ Gomes da Silva; e por sua morte, o deu ElRey ao Conde de Viana D. Pedro de Menezes, que o teve em todo o tempo delRey D. Duarte, cujo Alferes Mòr era sendo Infante: e na jornada de Africa com os Infantes fez o officio em seu lugar D. Duarte de Menezes pelo Conde seu pay, por cuja morte lhe fez elRey D. Duarte merce delle: daqui se continuou sempre na Familia dos Menezes. Hoje anda na Caza do Conde de Sabugosa.
Ainda que o officio de Capitaõ dos Ginetes parece deve ser mais antigo neste Reyno, todavia naõ se faz delle mençaõ nas historias, senaõ de pouco tempo a esta parte; e a primeira vez, que achey nomeados Ginetes descobridores de campo nos Exercitos de Portugal, foy em tempo delRey D. Duarte;[42] quando os Infantes D. Henrique, e D. Fernando passaraõ a Tangere, onde o Chronista diz, que Ruy de Sousa, e seu filho Gonçalo Rodrigues de Sousa, hiaõ diante do Exercito com 300. Ginetes a descobrir o campo, e que este Gonçalo Rodrigues foy depois Capitaõ dos Ginetes. Pelo que parece; que o primeiro que introduzio este cargo na Milicia do Reyno, foy ElRey D. Afonso V. por haver na sua historia muita mençaõ delle. Seu proprio officio he ser Capitaõ dos Ginetes da Guarda delRey, a que dizem se annexou ser General da Cavallaria do Reyno, e como tal exercitou este officio Vasco Martins de Sousa Chichorro, acompanhando a ElRey D. Afonso V. em as guerras de Castella; depois entrou esta dignidade na Casa dos Mascarenhas por D. Fernando Martins, que servio de Capitaõ dos Ginetes aos Reys D. Joaõ II. e D. Manoel. Os Cavalleiros desta Guarda dos Ginetes eraõ da qualidade dos mesmos Cavalleiros da Camara, e Guarda delRey: o numero era de 200. e usavaõ os Reys della naõ só na guerra, mas tambem na paz, principalmente quando faziaõ caminho, como se ve das historias delRey D. Joaõ II. e D Manoel. A Guarda dos Alabardeiros introduzio ElRey D. Sebastiaõ, assim para respeito da Pessoa Real, como para segurança della, pelos muitos Estrangeiros Hereges, que havia em Lisboa, mas naõ eraõ de Tudescos, senaõ de Portuguezes, e foy seu Capitaõ da Guarda Francisco de Sà Camareiro Mór delRey D. Henrique, e Conde de Matozinhos: depois ElRey D. Felippe Prudente, deixando por Governador deste Reyno ao Archiduque Alberto, lhe deixou Guarda Tudesca, e por Capitaõ della D. Francisco de Sousa, a qual se foy continuando com os Governadores, e VisoReys, que lhe succederaõ, atè Sua Magestade, que Deos guarde, que admittio os Tudescos, que ainda achou com os outros Alabardeiros da sua Guarda, que dantes tinha.