§. VIII.
O Cardeal D. Antaõ Martins de Chaves.
Dom Antaõ Martins de Chaves sendo Deaõ de Évora, foy eleito Bispo do Porto pela vacancia de D. Vasco Bispo da mesma Igreja, quando foy transferido para a de Evora pelos annos de 1424. atè 25. Foy D. Antaõ insigne Prelado de muita virtude, e sciencia, e grande defensor da liberdade Ecclesiastica, como bem o mostrou em hum Concilio, que o Papa Martinho V. mandou ajuntar em Braga no anno de 1426. para a conservaçaõ da izençaõ dos Ministros Ecclesiasticos, os quaes com a licença, que a guerra traz consigo, andavaõ muy opprimidos dos Capitaens, e Soldados, em quanto as guerras delRey D. Joaõ I. duraraõ com Castella; e para remedio de taõ grandes males se ajuntaraõ dous Concilios neste Reyno, hum em Braga, e outro em Lisboa; e no de Braga, em que se D. Antaõ achou presente, se ordenaraõ muitas cousas tocantes à liberdade Ecclesiastica, e mostrou bem nelle este Prelado o valor, que em si tinha.
Depois no anno de 1434. foy mandado D. Antaõ por ElRey D. Duarte ao Concilio Geral de Basilea em companhia do Conde de Ourem D. Affonso, que depois foy Marquez de Valença. Assistio em Basilea todo o tempo, que durou aquelle Concilio, atè que o Papa Eugenio IV. o revogou, e tranferio para Ferrara para onde veyo, por obedecer aos mandados Apostolicos. Pela qual razaõ, querendo-lhe depois o Pontifice agradecer seus trabalhos, o creou Presbytero Cardeal, estando em Consistorio no Concilio Geral de Florença a 15. de Janeiro de 1439. dando-lhe o titulo de S. Chrysogono.
Viveo depois em Roma alguns annos, aonde edificou, e dotou a hospedaria, e hospital de Santo Antonio dos Portugueses, e lhe deu os Estatutos, que hoje guarda: na qual obra merece certo grande louvor; porque àlem do serviço, que nella fez a Nosso Senhor, applicando-lhe muitas rendas para ajuda, e refugio dos naturaes deste Reyno, que naquellas partes andaõ, foy occasiaõ para que os outros Portugueses, que naquella Corte viveraõ, deixassem suas fazendas à mesma Casa, com o que cada dia se vay augmentando mais, assim as boas obras, que nella se fazem, como a reputaçaõ, e honra da naçaõ Portuguesa; na qual Igreja se mandou sepultar aquelle insigne Doutor, e Santo Varaõ Martinho de Aspilcueta Navarro, o qual naõ sómente nos costumes em vida, mas ainda na morte, quiz mostrar com esta sepultura o amor, que sempre tivera a este Reyno, e a seus naturaes.
No Cartorio do Cabido da Sè de Evora està a copia de huma carta, que o Cabido escreveo a este Cardeal, em que lhe mandava pedir alcançasse do Summo Pontifice hum Breve para o Cabido administrar a fabrica da Igreja, lembrando-lhe que os Bispos faziaõ este officio, como elle vira no tempo que servira esta Sè. E ainda que consta, que o Cardeal impetrou esta graça para o Cabido; naõ parece que teve de todo effeito, e os Prelados ficaraõ com a posse della. Morreo depois o Cardeal em Roma a 11. de Julho de 1447. està sepultado em S. Joaõ de Latraõ, onde estaõ huns orgaõs, que segundo tradiçaõ deu elle àquella Igreja, e tem este Epitafio.
Sepulchrum D. Antonii Cardinalis Portugalensis, qui obiit Romæ die 11. mensis Julii anno a Nativitate Domini MCDXLVII cujus anima requiescat in pace. Amen.