§. XI.

O Cardeal D. George da Costa.

Dom George da Costa foy natural de Alpedrinha lugar do Bispado da Guarda, nasceo no anno de mil quatro centos e sesenta, foy varaõ dotado de grande engenho, virtudes, e altos pensamentos, em seus principios foy Lente de Santo Eloy de Lisboa, donde era Reytor hum tio seu varaõ de grande virtude, e Mestre que foy da Infanta Dona Catharina, filha delRey D. Duarte: e por respeito deste seu tio, e suas boas partes, o admittio a Infanta à sua familia: foy esta Princesa de muita virtude, que nunca quiz casar, nem fez alguma hora mudança nos trajos; teve porèm sempre grande casa, e Capella; e affeiçoando-se muito às letras, e procedimento de D. George, lhe deu algumas Igrejas rendosas; depois das quaes fez com ElRey D. Afonso V. seu irmaõ o appresentasse no Deado de Lisboa, donde servindo-se ElRey delle em cousas de mais momento, o mandou a Roma com negocios de muita importancia, a que elle soube dar taõ bom despacho, que vindo a este Reyno, movido ElRey de sua rara prudencia, e governo, lhe deu grande parte na administraçaõ, e regimento delle, tendo sempre muito credito em seu Conselho, e usando sempre delle em todos os negocios de paz, e guerra, que se offereceraõ em seu tempo. Achou-se com ElRey em Gibraltar, quando anno de 1464. se vio com ElRey D. Henrique o IV. de Castella; e em suas mãos juraraõ ambos os Reys de guardarem bem, e como deviaõ os acordos, que no proprio lugar entre si fizeraõ; no qual tempo era jà D. George Bispo de Evora; posto que poucos meses depois, e quasi no mesmo anno foy transferido para o Arcebispado de Lisboa, na qual dignidade fez muitos serviços a ElRey D. Afonso, o qual o enviou a Castella por seu Embaixador, quando ElRey D. Henrique lhe pedio, que lhe mandasse seus Embaixadores, para tratar os casamentos, que pretendia, convèm a saber entre a Infanta Dona Isabel sua irmãa com o mesmo Rey D. Afonso, e a Princesa Dona Joanna sua filha com o Principe D. Joaõ. A os contratos dos quaes desposorios jà tinha sido presente, e padrinho em Gibraltar. Foy a esta Embaixada com todo o estado, e acompanhamento conveniente à pessoa, e dignidade, que representava; posto que naõ teve este negocio effeito. Depois na empreza, que ElRey D. Afonso commetteo da conquista de Castella, o acompanhou sempre com muitas gentes à sua custa, e com sua pessoa.

Com estes serviços, e partes, crescendo cada dia mais em authoridade com ElRey D. Afonso, foy à sua instancia creado Presbytero Cardeal do titulo dos Santos Marcellino, e Pedro; por Sixto IV. no primeiro de Janeiro de 1476. Com a grandeza destas dignidades, e com a valia, que com ElRey tinha, era tanta sua authoridade no governo do Reyno, que veyo a ser pouco grato ao Principe D. Joaõ, como homem, que naõ quiz ser nunca governado por outrem. Pela qual razaõ se lhe mostrou contrario, e lhe chegou a dizer palavras taõ asperas, que por viver seguro, e sem molestia, se foy occultamente para Roma; pouco depois da chegada delRey D. Affonso de França.

Em Roma foy muy aceito ao Papa Sixto IV. e lhe deu o Arcebispado de Braga, que teve juntamente com o de Lisboa, atè que no anno de 1487. o renunciou em seu irmão uterino D. George. Valeu tambem muito com Innocencio VI. que a Sixto succedeo, e de Presbytero Cardeal o fez Bispo Cardeal Albano.

Era já neste tempo taõ grande sua authoridade no Collegio dos Cardeaes, que morto Innocencio, esteve muy perto de o elegerem em Summo Pontifice; porque dividindose todo o Collegio em duas parcialidades, huma dellas seguia a Ascanio Esforçia, que procurava o Pontificado para Rodrigo de Borja Vicecancellario, e a outra seguia ao Cardeal de S. Pedro, que declarava querer fazer Pontifice ao nosso D. George. Porém posto que os que seguiaõ esta parte, fossem os mais antigos, e graves do Collegio; a outra, que tinha grande poder, e muitas Personages levaraõ ao fim seu designio, creando Pontifice ao Vice-Chanceller, que se chamou Alexandre VI. o qual lhe teve sempre grande respeito, e o fez Bispo Cardeal Tusculano, e depois Portuense, e de Santa Rufina.

Em vida deste Papa lhe mandou pedir muito ElRey D. Manoel, que a D. Joaõ II. havia succedido, se viesse para este Reyno, para lhe ajudar a administrar o governo delle; conhecendo bem, que pela muita prudencia, e experiencia, que nelle havia dos negocios daquelle tempo, e das cousas passadas, lhe seria de grande proveito tello junto consigo. E tanto fez com elle por cartas, e mensageiros, que lhe prometteo de vir. Pelo que mandou ElRey a Roma Pedro Correa Fidalgo de sua casa, para o acompanhar no caminho, e negociar com o Papa algumas cousas por meyo do Cardeal. Mas depois de Pedro Correa ser em Roma, achou jà a D. George mudado do proposito, dando por escusa sua idade, e mà disposiçaõ, e sobre tudo naõ lhe querer o Papa para isso dar licença, e o querer ter apar de si, pela necessidade que tinha de seu conselho, e ajuda nas cousas, que lhe compriaõ. E assim encomendando-lhe muito Pedro Correa os negocios, que levava, se tornou para o Reyno. Eraõ estes negocios, que ElRey lhe mandava encommendar as dispensaçoens do voto de castidade, que faziaõ os Commendadores da Ordem de Christo, e de S. Bento de Aviz, o qual o Cardeal despachou facilmente com o Papa, e as Bullas mandou depois a ElRey, cousa que elle estimou muito, porque atè entaõ senaõ pode nunca alcançar; posto que muitos de seus antecessores fizeraõ com os Summos Pontifices grandes instancias nesta materia.

Com os grandes redditos destas Prelasias, e de outras muitas, que teve em varias Provincias de Espanha, e beneficios, que provia de todo Portugal, deixou a todos seus parentes ricos, e em grandes dignidades, a outro irmaõ seu, chamado D. Martinho renunciou o Arcebispado de Lisboa; e do mesmo modo proveo em outros ricos beneficios muitos criados, e amigos seus, e casou suas irmaãs com Fidalgos muy illustres, e principaes, e seus irmaõs da mesma maneira. E em quanto a vida lhe durou em lembrança do que devia à Infanta Dona Catharina, trouxe por divisa humas rodas de navalhas. As mesmas vi esculpidas numa antiga alampada de prata, que inda alcancey na Capella Mor da Sé de Evora, a qual o Cardeal mandou fazer sendo Bispo desta Igreja.

Tambem tenho huma medalha grande, em que està esculpido ao natural com hum letreiro à roda, que diz: Georgius Cardinalis Portugalen. George Cardeal de Portugal: e da outra parte tem a imagem de huma mulher com hum Anjo defronte, que numa maõ tem hum livro, e a outra aponta para o Ceo com o letreiro: Theologia, donde parece que esta foy a sua empresa, denotando o grande affecto que tinha à sciencia da Theologia, e contemplaçaõ das cousas divinas.

Morreo em Roma a 19. de Setembro de 1508. sendo de idade de 102. annos; jaz sepultado na Igreja de Nossa Senhora de Populo na Capella de Santa Catharina; dentro da qual no alto da parede està hum vulto de marmore com este letreiro.

Georgius Episcopus Albanens. Card. Ulixp. dum se mortalem animo volvit, vivens sibi posuit.

Abaixo deste vulto, e letreiro està huma caixa grande de marmore com estas letras.

Georgius Lusitan. Episc. Portuens. S. R. E. Card. Ulixp. virtutis doctrinæque ergo in Regiam adscitus, ac multis domi, forisque præclaris facinoribus editis, ad Regnique procurationem provectus à Xisto IV. in Senatum adlectus, Romamque adscitus, magnam ingenii, pietatis, prudentiæque laudem adeptus sub Julio II. Pontifice Maxim. quem unicè dilexit, & observavit, annum agens secundum supra centesimum obiit M. D. VIII.