§. XIII.
O Cardeal D. Miguel da Sylva.
Dom Miguel da Sylva foy filho de Diogo da Sylva de Meneses, e de Dona Maria de Ayala filha de Diogo de Ferreira, Senhor das Ilhas de Lançaròte, Forte ventura, e Gomeira nas Canarias. Era Diogo da Sylva Ayo delRey D. Manoel, sendo ainda Duque de Beja, e assim depois que succedeo no Reyno, em gratificação de seus serviços, o fez Conde de Portalegre, Senhor de Gouvea, Celorico, e S. Romaõ, e muitas outras Villas, e Lugares, e lhe deu o officio de Mordomo Mòr, e o fez seu Veador da Fazenda, e Escrivaõ da Puridade. D. Miguel seu filho sendo moço, o mandou ElRey estudar a Pariz, aonde neste tempo costumavaõ hir aprender todos os Nobres deste Reyno; para o qual effeito sustentavaõ os nossos Reys hum Collegio naquella Universidade, em que todos estudavaõ. Sahio D. Miguel muy douto na sciencia, que aprendia, e muito mais nas humanidades, e elegancia da lingua latina. Pelo que naõ se contentando de dar mostras das flores de seus estudos somente em Pariz, se foy a Bolonha, e depois a Roma no anno de 1530. onde communicou todos os homens eminentes daquelle tempo; dos quaes sendo recebido com grande applauso, os deixou taõ affeiçoados à sua agradavel benevolencia, que lhe ficaraõ chamando em Roma Il. nostro Micheleto. Aqui se encontrou com Hieronymo Osorio (Bispo, que depois foy do Algarve) e como combinavaõ ambos na erudiçaõ, e elegancia latina, se foraõ a Veneza, por saberem, que naquella Cidade se tinhaõ junto muitos engenhos raros daquelle tempo sobre a correcção de Plinio, e chegados a ella, dizem que deu D. Miguel grandes mostras da viveza de seu engenho; porque ordinariamente emendava dous, e tres lugares, em quanto os outros emendavaõ hum. Foy álem disto insigne Poeta latino, e tinha tal graça nesta faculdade, que disseraõ por elle em Pariz, que assim como Hieronymo Osorio levava a ventagem a todos em descrever qualquer cousa na prosa, D. Miguel a naõ concedia a ninguem em fazer o mesmo no verso.
Acabados os estudos, vindo a este Reyno, assim pela valia de seu pay, como por seus proprios merecimentos, o fez ElRey D. Joaõ III. do seu Conselho, e lhe deu a Abbadia de S. Tirso em Riba de Ave, com outros muitos beneficios; e ultimamente o presentou no Bispado de Viseu, e o mandou por seu Embaixador a Roma, onde esteve muitos annos. E tornando a este Reyno, lhe deu ElRey o mesmo officio de Escrivaõ da Puridade, que seu pay tivera.
Movido neste tempo o Summo Pontifice Paulo III. das partes, letras, e virtudes, que em D. Miguel conheceo, o quiz fazer Cardeal; porèm ElRey D. Joaõ III. por alguns respeitos de estado, o naõ consentio nunca; de modo que posto que D. Miguel aceitou a mercè do Papa sendo creado Presbytero Cardeal da Basilica dos doze Apostolos a 5. de Setembro de 1539. na 7. creaçaõ, com tudo naõ se publicou por entaõ, atè ver se em alguma maneira consentia ElRey aceitasse esta dignidade. Porèm nunca se pode alcançar delle esta licença. Pelo q́ desenganado D. Miguel, se partio escondidamente para Roma o anno de 1541. naõ dando a ElRey os papeis, que como Escrivaõ da Puridade em seu poder tinha, por fazer com mayor segredo sua jornada. ElRey tanto que soube della, teve grande paixaõ, e parecendo-lhe, que sempre D. Miguel defiriria ao que elle mandasse, o enviou chamar por cartas suas, em que lhe dizia se viesse logo para elle sem detença alguma, e por lhe tirar o receyo, que podia ter, o segurou por hum seguro Real, que para isso lhe mandou. Mas D. Miguel, que estava bem inteirado do desgosto, que ElRey tomara com sua ida, e quanto sempre lhe repugnara aceitar elle o Capello, naõ se atreveo a apparecer outra vez ante elle. Do que ElRey se houve por taõ desservido, que logo o desnaturalizou de seus Reynos, e o privou de todas as mercès, que lhe tinha feitas por huma carta sua, dada em Lisboa a 26. de Janeiro de 1542. e nesta desgraça delRey ficou sempre.
Chegado a Roma, foy logo publicada a sua Creaçaõ, que atè entaõ estivera secreta, e o festejou grandemente o Summo Pontifice Paulo III. e todo o Collegio dos Cardeaes, com quem foy sempre muy grande sua authoridade, por as raras partes, que nelle havia, com que levava a benevolencia de todos; e tal era a opiniaõ com que estava tido na Corte Romana (ou por melhor dizer) em toda Italia, que naõ achou o Conde Balthasar Castilhoni, a quem com mais razaõ podesse dedicar o seu livro do Perfeito Cortesaõ, que a elle; e assim o escolheo entre todos os Varoens famosos (de que aquelle tempo foy taõ abundante) por elle representar mais ao vivo todas as perfeiçoens, que no verdadeiro Cortesaõ imaginava.
Depois disto foy muitos annos Legado de Ravena; huma das principaes Legacias do Estado Ecclesiastico, e era tal a ordem, e expediencia, que dava aos negocios, que ainda hoje anda em proverbio na Curia a audiencia de Viseu. Depois do titulo dos doze Apostolos, com que foy criado, teve o de Santa Praxedes, e Julio III, o fez Presbytero Cardeal de Santa Maria Trans Tiberim, junto da qual Igreja viveo nuns sumptuosos Paços, que ainda hoje conservaõ seu nome. Teve votos para o Summo Pontificado. Morreo em Roma a 5. de Junho de 1556. e está sepultado na mesma Igreja de seu Titulo.