§. XVI.
Armas tomadas por casos particulares.
Pertenderaõ os Emperadores de Alemanha, que todos os Reys de Europa se reconhecessem por seus vassallos; e havendo em Roma hum Cavalleiro Alemaõ, que pelas armas defendia este Direito, segundo o Conde D. Pedro conta,[123] D. Sueiro Mendes da Maya o Bom entrou com este Alemaõ em desafio, e vencendo-o libertou o Direito de Hespanha do feudo, que pertendia o Imperio. E dizem os de Amaya seus descendentes, que por este caso tomàra D. Sueiro por armas a Aguia negra do Imperio, que era a que o Cavalleiro Alemaõ defendia.
Conta o Conde D. Pedro no tit. 64. em que falla na Familia dos Valles, que Martim do Valle, chamado da Espada, servindo a certo Conde, outro Conde seu inimigo o matou; e Martim do Valle tomando a espada do Conde seu amo, lidou com o matador, e o matou, donde dizem seus descendentes, que trazem por armas as tres espadas, que saõ a sua, a do Conde seu amo, e a que tomou ao Conde, a quem elle venceo; e por isso foy chamado o da Espada.
Os do Appellido Corte Real trazem sobre as armas dos Costas huma Cruz branca, que dizem ganhàra Vasque Annes Corte Real a hum Cavalleiro, que viera pedir desafio à Corte delRey D. Duarte; e porque o venceo com grande valor, dizem, que disse ElRey, que a sua Corte era Real, quando Vasque Annes estava nella; e daqui tomou elle o Appelido, e o accrescentamento da Cruz nas armas.
Quando ElRey D. Afonso V, passou a Africa a tomar Arzilla, o acompanharaõ cinco Irmãos da Familia dos Pimenteis naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a Cidade, os Mouros se fizessem fortes na Mesquita, donde faziaõ grande resistencia, sem poderem ser entrados: estes irmaõs, tirando os cintos, e atados huns nos outros, os lançaraõ a huma ameya, e sobindo por elles acima, levantaraõ huma bandeira, e por alli foy entrada a Mesquita, e mortos os Mouros. Por este feito taõ honrado, lhe deu ElRey D. Afonso V. por armas em campo de ouro cinco cintos vermelhos com fivellas de prata, e tachoens, e huma bordadura azul com sete Flores de Liz, por timbre hum meyo Mouro com huma azagaya na maõ, e huma bandeira de prata, e por Appellido o mesmo nome de Mesquita.
Estando o nosso Exercito sobre Tangere, veyo hum Mouro a fazer grandes algazares, e pedir desafio, ao qual sahio logo Gabriel Gonçalves Themudo, e correndo com a lança, o derrubou do cavallo abaixo, e lhe cortou a cabeça, e appresentando-se com ella diante delRey D. Afonso, lhe deu em memoria por armas huma Aguia de duas cabeças, com huma cabeça de Mouro aos pès, e cercado o Escudo com hum cordaõ de S. Francisco; por haver acontecido em seu dia este valeroso successo.
Gonçalo Pires Bandeira, naõ só se houve na batalha do Touro com grande valor, mas vendo, que hum Cavalleiro Castelhano levava presa a bandeira Real de Portugal, investio com elle, e lha tomou das maõs, e a libertou;[124] e por este feito insigne ElRey D. Joaõ II. lhe deu por armas huma bandeira branca com hum Leaõ nella de prata, denotando na bandeira a Real, que libertàra, e no Leaõ o valor, e esforço, que neste caso mostràra. E assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeaõ.
Fernaõ Gomes natural de Lisboa, se obrigou a ElRey D. Afonso V. a continuar o descobrimento da Costa de Africa, que tinha começado o Infante D. Henrique.[125] E porque comprio este intento com grande diligencia, e descobrio a Mina, donde veyo tanta copia de ouro a Portugal, lhe deu ElRey D. Joaõ II. o Appellido de Mina, e por armas hum Escudo em campo de prata, e nelle tres meyos Ethyopes de preto dos braços para cima em roquete, com colares de ouro ao pescoço, arrecadas nas orelhas, e nos narizes.
Diogo Caõ Capitaõ de valor hindo por mandado delRey D. Joaõ II. descobrir a Costa de Ethyopia, foy o primeiro, que deu noticia do Rio Zaire, em cuja boca poz hum padraõ; em razaõ do qual se chamou tambem Rio do Padraõ, e foy o primeiro, que descobrio o Reyno de Congo, e deu noticia de nossa Santa Fè àquelle Rey.[36.] Em memoria deste feito lhe deu ElRey por armas duas Colunnas, ou Padroens de prata com duas Cruzes em cima pelas que poz neste descobrimento, em que chegou atè o Cabo da Boa Esperança.
Depois que o grande Vasco da Gama veyo do descobrimento da India, entre outras merces, que ElRey D. Manoel lhe fez em remuneraçaõ de taõ heroico feito, foy huma, que elle podesse trazer no meyo de suas armas as Quinas Reaes de Portugal;[126] porque assim como com este descobrimento se accrescentava o Reyno de Portugal por aquella parte do Mundo de Asia, assim era razaõ, que quem abrira caminho a este novo senhorio de Portugal, participasse das Reaes insignias delle.
Vasco Fernandes Cesar andando guardando o Estreito com huma Caravella, lhe sahiraõ seis Galeòtas de Mouros, que apartadas em duas alas o investiraõ, porèm elle com incrivel valor as venceo todas.[127] Pelo que ElRey D. Joaõ lhe mandou accrescentar ao Escudo de suas armas as seis Galeòtas, e a sua, com que elle venceo, por Timbre do Escudo.
Em hum socorro, que ElRey D. Manoel mandou a Arzilla, foy Christovaõ Leitaõ por Capitaõ de Infantaria, onde por seu esforço, e industria defendeo huma Torre, que quasi os Mouros tinhaõ entrada. Pelo que ElRey D. Manoel lhe concedeo, que sobre as armas dos Leitoens posesse a Torre de Arzilla encravada de settas em campo vermelho, e em outro quarto duas bombardas, que tomàra aos Mouros.
Nicolao Coelho foy hum Fidalgo de grande valor,[128] a quem ElRey D. Manoel deu a Capitanîa dum Navio, para hir em companhia do Grande Vasco da Gama a descobrir a India, no que elle se houve com grande esforço, e prudencia; e quando voltou, chegou primeiro a Cascaes, que Vasco da Gama. E por elle soube ElRey todo o succedido naquelle descobrimento. Pelo que entre outras mercès, que ElRey D. Manoel lhe fez, lhe deu por armas em campo vermelho hum Leaõ rompente entre duas colunnas de prata, que estaõ sobre huns montes verdes, e em cima de cada huma, hum Escudo com cinco dinheiros, e ao pé o mar; no que significou os padroens, que deixou postos no novo descobrimento do mar, e terra do Oriente; e no Leaõ o valor, com que neste heroico feito se houve.
Levantando-se o Rey de Barem contra ElRey de Ormuz, cujo tributario era, foy mandado Antonio Correa por Capitaõ da nossa gente, para que reduzisse o Mouro à obediencia delRey de Ormuz.[129] Antonio Correa se houve nesta empreza com tanto valor, que tendo o Rey de Barem muita mais gente, elle o desbaratou, e matou, e senhoreando-se da Ilha, a restituhio a ElRey de Ormuz. Por este heroico feito lhe deu ElRey o Appellido de Barem, e lhe acrescentou nas armas huma cabeça de hum Rey Mouro coroada, cortada em vermelho com a Coroa de ouro.
Duarte Coelho foy hum Fidalgo de grande esforço na India, e hum dos primeiros nossos Capitaens, que chegou à China.[130] Pelo que ElRey D. Joaõ III. lhe deu a Capitanîa de Pernambuco para a povoar, e pacificar; o que elle fez com grande valor, e trabalho, e com tanto fruto, que ficou sendo Pernambuco a mais rica, e populosa Capitanîa do Brasil. E assim ElRey D. Joaõ III. no anno de 1536. entre outras mercès, que lhe fez; lhe deu novas Armas, que foraõ em campo de ouro huma Cruz chãa affirmada em hum pè de verde, e hum Leaõ de purpura passante, e hum chefe de prata com cinco estrellas de ouro, e huma bordadura de azul com cinco castellos de prata. A Cruz denòta seu solar, e senhorio de Pernambuco na terra de Santa Cruz, que este nome lhe deu seu descobridor; e as cinco estrellas significaõ o Cruzeiro do Polo Antartico, por o Brasil ficar no outro Emispherio; o Leaõ, o valor, com que se houve na Conquista daquella Capitanîa, e por serem proprios dos Coelhos os cinco castellos por outras tantas povoaçoens, que na Capitanîa fizera.
Luiz Loureiro foy hum Fidalgo muy celebrado neste Reyno por seu grande esforço, o qual sendo Capitaõ de Mazagaõ, foy sobre a Cidade de Azamor, e lhe deu o assalto sobindo elle primeiro pela escada ao muro, e levantando a sua bandeira, foy a Cidade entrada, e saqueada. Pelo que ElRey D. Joaõ III. no anno de 1551, entre outras mercès lhe deu por Armas o campo esquartelado; ao primeiro em campo vermelho hum castello de prata, e elle arrimado a huma escada de ouro, e ao contrario huma bandeira branca com a haste de ouro, como trazem seus descendentes juntamente com as Armas dos Figueiredos, de quem elle descendia.
Lopo Rodrigues Camello foy muy aceito a ElRey D. Sebastiaõ, pelas boas partes, que nelle havia de erudiçaõ, e cortesia, e haver visto muitas Provincias de Europa. E quando ElRey foy a Coimbra, vindo de S. Marcos por Tentugal, achou a ponte do Mondego quebrada; e querendo passar a valla, Lopo Rodrigues, que hia só com ElRey, lhe disse, que aquelle passo era perigoso. Ao que ElRey tornou: Ora passay primeiro. Respondeo Lopo Rodrigues: Se Vossa Alteza me engana, ditoso engano he esse. Entaõ se deitou na valla, e ficou cravado só com o pescoço, e hum braço fóra. Quando ElRey o vio em taõ grande perigo, lhe pedio a maõ, e tomando-o ElRey por ella, em pouco espaço o poz em terra. Lopo Rodrigues, porque deste caso ficasse a seus descendentes memoria, lhe pedio, que lho desse por Armas, ElRey lhas concedeo, e as mandou debuxar no escudo desta fórma: em campo de agua com hum braço vestido de ouro, e outro braço; como que sae da agua, de cor azul, e o braço do Rey o tem apertado pela maõ, como se vè esculpido sobre o seu sepulchro na Igreja de Nossa Senhora da Luz.