§. XX.
O Cardeal D. Thomaz de Almeida.
Naceo em Lisboa, aonde foy bautizado em casa de seus Pays os segundos Condes de Avintes D. Antonio de Almeida, Governador do Reyno do Algarve, do Conselho de Estado, e Guerra, e Dona Maria Antonia de Borbon, e tomou os Santos Oleos na Parrochia de Santa Engracia. Depois de estudar Filosofia com o Padre Manoel Vieira no Collegio de Santo Antaõ da Cidade de Lisboa, passou a Coimbra, aonde foy Porcionista no Collegio Real. Estudou Canones, e sendo Deputado do Santo Officio na Inquisiçaõ de Lisboa, foy despachado para Dezembargador da Relaçaõ do Porto, donde veyo para a Casa da Supplicaçaõ, em que teve a serventia de Aggravos. Foy Prior da Igreja de S. Lourenço, aonde para memoria da sua piedade mandou fazer huma Capella a S. Thomaz de Villanova, o arco da Capella Mòr, e os dous Altares Callateraes dedicados hum ao Senhor Jesu, e outro à Conceiçaõ da Senhora. Foy Deputado, e Provedor da Fazenda, e Estado da Rainha, Sumilher da Cortina, Cavalleiro da Ordem de Christo, Deputado da Mesa da Consciencia, e Ordens, Chanceller Mòr do Reyno, Secretario das Mercès, e Expediente, e ultimamente de Estado.
Attendendo às suas grandes virtudes, e merecimentos a Magestade do Senhor Rey D. Pedro II. de saudosa memoria o nomeou Bispo de Lamego, e sendo confirmado pelo Papa Clemente XI. foy sagrado na Igreja de Nossa Senhora da Graça em 3. de Abril de 1707. pelo Bispo Inquisidor Geral Nuno da Cunha de Attaide (hoje Cardeal de Santa Anastasia) sendo Assistentes D. Fr. Antonio Botado, e D. Fr. Pedro de Foyos, aquelle Bispo de Hypponia, e este de Bona, ambos Irmãos, e Eremitas de Santo Agostinho.
Havendo tomado posse deste Bispado pelo seu Provisor o Reverendissimo P. Fr. Antaõ de Faria Monje de S. Bento, que depois foy dignissimo Geral da sua Congregaçaõ, entrou na Cidade de Lamego em 22. de Mayo do dito anno, e foy recebido com todas as demonstraçoens de alvoroço, e alegria, que se deviaõ à sua pessoa, e affabilidade.
Chegado a Lamego, teve noticia que o Bispo de Viseo D. Jeronymo Soares trazia com o seu Cabido gravissimas contendas, que haviaõ sahido a autos publicos depois de fulminadas repetidas censuras. Era a causa de taõ escandalosa perturbaçaõ hum Conego da mesma Sè, que sendo conhecido pelos seus companheiros, o naõ era pela sinceridade do Bispo. Estranhou o nosso Bispo taõ indignas demandas, como quem em poucas horas, e sem paixaõ havia examinado o principio, e sem dar parte da sua resoluçaõ a ninguem, foy a Viseo a serenar huma tormenta, que havia tempo perturbava aquella Diocesi. Soube o Bispo de Viseo da visita que naõ esperava, e veyo mais de huma legoa a esperar taõ zeloso hospede. Voltaraõ para a Cidade com todas as demonstraçoens de cortezania, e da conversaçaõ foy a principal parte a presente discordia. Deputou o Cabido dous Conegos, que vieraõ visitar o Bispo de Lamego, a quem recebeo com a sua costumada urbanidade. Haviase queixado o Bispo da contumacia dos seus Capitulares, agora se queixaraõ os Capitulares do injusto procedimento do seu Prelado. Ouvidas huma, e outra parte entrou a compollas o Bispo de Lamego, e feito arbitro de taõ dilatados litigios pelo Bispo, e pelo Cabido, poz termo àquelles pleitos com satisfaçaõ dos litigantes, e como a sua jornada naõ tinha outro fim senaõ o da paz, concluida ella, voltou aos negocios da sua Igreja.
Em vinte, e hum mez que foy Bispo de Lamego, deixou da sua generosidade repetidos argumentos, porque na Cathedral para receber mais copiosa luz, lhe abrio seis grandes janellas, fez as grades do Cruzeiro, as portas da Igreja, que pela qualidade do seu artificio saõ dignas de particular memoria, e lageando o Adro, que estava indecente, o guarneceo com grades de ferro, que lhe servem de adorno, e de reparo. Enriqueceo a Sancristia de muitos, e preciosos ornamentos, e àlem dos materiaes para se fazerem as varandas do Claustro, lhe deixou mais de nove mil cruzados para obras. No Mosteiro das Chagas de Religiosas de S. Francisco fez o Mirante religiosamente magnifico, e no Convento de Santo Antonio dos Capuchos da mesma Cidade fez a Sancristia, que adornou com peças de muito preço.
Por carta assinada pela Real maõ em 30. de Mayo de 1708. foy visitar a Coimbra o Collegio Real, em que havia sido Porcionista, e desta visita resultou acrescentar Sua Magestade, que Deos guarde, as rendas ao Collegio, devendo a taõ benemerito filho hum notavel augmento na fazenda.
Em 26. de Setembro de 1708. vagàra o Bispado do Porto por morte do virtuosissimo Prelado D. Fr. Jozè de Santa Maria, e por carta de 30. de Abril de 1709. nomeou ElRey D. João o V. nosso Senhor Bispo do Porto ao Bispo de Lamego, e logo por carta de 6. de Mayo do mesmo anno lhe fez merce o dito Senhor do lugar de Governador das Justiças daquella Relaçaõ, e das Armas da Cidade, e seu districto. No mesmo tempo, em que o Cabido do Porto teve a noticia desta nomeaçaõ, por assentos de 15. e 17. de Mayo elegeo ao Arcediago de Oliveira Luiz de Magalhaens, para que da sua parte fosse a Lamego visitar, e dar os parabens a Sua Illustrissima. Foy absoluto do vinculo de Lamego, e confirmado no Bispado do Porto por Clemente XI. a 22. de Julho do sobredito anno de 1709. e mandando tomar a posse pelo seu Provisor o Reverendissimo Padre Fr. Antaõ de Faria, se lhe deo em 17. de Outubro. Chegou o Prelado a 30. passou o Douro, e se recolheo no Convento de Santo Antonio do Valle da Piedade de Religiosos Capuchos, aonde depois de comprimentado, e assistido de toda a Nobreza, Relaçaõ, Officiaes de Guerra, e de Justiça, fez a sua entrada publica na Cidade em 3. de Novembro do mesmo anno, e a 9. começou a exercitar as occupações de Governador das Justiças, e das Armas com geral estimaçaõ de toda a Provincia.
Foy extraordinaria a pompa, e magnificencia, com que a opulentissima Cidade do Porto celebrou esta entrada. Houve tres dias de luminarias, de repiques, de excellentes encamisadas, e outras demonstraçoens de alegria, em que rompeo o alvoroço da Cidade, acresentando a todo este applauso fazerem representar em hum dos pateos do Palacio Episcopal vistosissimas Comedias, o que tudo descreveo em outava rima Antonio Cerqueira Pinto, natural de Amarante, e morador na Cidade do Porto, pessoa digna de toda a estimaçaõ pelos seus estudos, e vastissimas, e profundas noticias das Antiguidades deste Reyno, em que he summamente versado com douta, e exacta critica, e que já em outro Poema do mesmo metro havia cantado a esclarecida Ascendencia do Bispo D. Thomaz de Almeida.
Executando a piissima disposiçaõ de S. Magestade ordenou, que se celebrasse a festa de N.Senhora da Conceiçaõ com a mayor solemnidade que fosse possivel, e para este fim se cantaraõ as Matinas em a noite antecedente, e no dia celebrou Missa de Pontifical com assistencia de toda a Nobreza, e do Tribunal da Relaçaõ.
Attendendo à grande necessidade, que havia de Synodo Diocesano, o celebrou no anno de 1710. com todas as formalidades, e nelle se dispuzeraõ muitas cousas pertencentes ao melhor governo do Bispado.
No mez de Mayo de 1711. foraõ taõ repetidas as innundaçoens de agua, que temendo-se alguma esterilidade, mandou o Bispo, que sahisse em Procissaõ pelas Ruas da Cidade, o Senhor d’Alem, com o qual tem aquelle povo bem fundada devoçaõ pelos grandes beneficios, que tem experimentado da sua piedade. Fez-se a Procissaõ em 14. do dito mez, com a Pompa, e Magestade, que em semelhantes occasioens se costuma; e como naquelle anno era Ministro da Ordem Terceira de S. Francisco, para aplacar a indignaçaõ Divina, na noite de 21. do mesmo mez fez outra Procissaõ de preces, em que a Ordem Terceira, e os Religiosos foraõ descalços, de que compadecida a Divina bondade, restituhio a serenidade do tempo, naõ se experimentando o danno, que naturalmente se temia. Na mesma occasiaõ padeceo aquella Cidade grande falta de peixe, e fazendo-se por esta causa segunda Procissaõ em 27. do dito mez de Mayo, em que sahio outra vez a Imagem do Senhor d’Alem, se encaminhou à barra, e benzendo-a o Prelado, teve outra vez a Cidade do Porto a costumada abundancia.
Em 4. de Dezembro de 1711. nasceo em Lisboa Occidental a Senhora Infanta Dona Maria Barbara, hoje Princesa das Asturias, e em 21. do dito mez, em acçaõ de graças, fez o Bispo D. Thomaz Pontifical, e Solemnissima Procissaõ, e como a esta solemnidade se unio a Trasladaçaõ do Santissimo Sacramento para a sua Capella na Sè, que se havia reformado com extraordinaria magnificencia, prègou neste dia o Conego Magistral da mesma Sè o Doutor Manoel dos Reys Bernardes, com a elegancia, acerto, e propriedade, que sendo nelle dotes naturaes, saõ a enveja de todos os que o ouvem, e lem os seus escritos.
Em 20. de Fevereiro de 1713. lançou a primeira pedra no arrogante, e magestoso edificio da nova Capella dos Terceiros de S. Domingos; obra de tanta magestade, que havendo na Cidade do Porto grande numero de Fabricas Sagradas magnificamente edificadas, esta na sua proporção naõ he inferior a nenhuma.
Para a sua Cidade do Porto alcançou este zelosissimo Prelado de Clemente XI. pelo espaço de sete annos, hum Jubileo com Lausperene em todo o tempo da Quaresma, a que logo se deu principio na Sè, no primeiro dia da Quaresma do anno de 1713. continuando-se pelas mais Igrejas dous dia em cada huma.
Em 16. de Julho do mesmo anno de 1713. que era o ultimo dia do Triduo, com que os Religiosos de S. Domingos celebraraõ a Canonizaçaõ do Summo Pontifice Pio V. fez o Bispo o Pontifical com toda a grandeza, que pedia a Sollemnidade daquelle acto.
Mandou rasgar, e abrir mais a porta de Carros, e o Postigo de Santo Eloy, intentando, que no Campo das Hortas, junto à Fonte da Arca, se fizesse huma nova Praça. Naõ teve effeito esta obra, mas teve-o o povoar-se aquelle sitio de muitas, e nobres casas, em que se vay dilatando a povoaçaõ com incrivel grandeza. Na Igreja de Santo Antonio, que he dos Padres da Congregaçaõ do Oratorio de S. Fillippe Neri, mandou fazer hum grande Adro, que ennobreceo muito aquella fabrica, e nos pilares das grades se lhe gravaraõ as suas Armas.
Reformou a Quinta do Prado, accrescentando-lhe gallarias, e no Palacio Episcopal mandou abrir janellas em muitas Salas, e fez de novo a Casa da Camara Ecclesiastica, em cujo tecto estaõ pintadas as Armas dos Almeidas.
Por ordem de Clemente XI. presidio em dous Capitulos Geraes da Religiaõ de S. Bento. Celebrou-se hum no Mosteiro de Santo Tyrso, e nelle foy eleito geral o Reverendissimo Padre Fr. Antaõ de Faria, Provisor do Bispado do Porto, e o outro se celebrou no Mosteiro de Tibaens, que he a Cabeça desta Monastica, e Illustrissima Congregaçaõ nos Reynos de Portugal.
Neste tempo determinou a Magestade delRey D. João V. Nosso Senhor illustrar a sua Corte com huma Igreja Patriarchal, que nos privilegios, e grandeza se distinguisse com incomparavel differença de todas as outras Cathedraes. Conseguio esta graça da Santidade de Clemente XI. que lha concedeo por huma amplissima Bulla, chamada Aurea, expedida em Roma aos 7. dos Idus de Novembro, que he aos 7. do dito mez do anno de 1716. e por esta causa nomeou S. Magestade, que Deos guarde, ao Bispo do Porto D. Thomaz de Almeida Patriarcha de Lisboa Occidental, em 4. de Novembro do mesmo anno, e em 7. do dito mez o absolveo o Papa do vinculo de Bispo do Porto, e o confirmou em primeiro Patriarcha da mesma Cidade de Lisboa Occidental.
Chegada esta feliz noticia à Corte, mandou o Senhor D. Thomaz de Almeida tomar posse do Patriarchado pelo Arcediago da mesma Patriarchal Jozè Dionysio Carneiro, cujo acto se fez em 8. de Janeiro de 1717.
Era necessario q́ o Senhor Patriarcha tomasse a posse pessoal, e que fizesse entrada publica na sua Igreja, como dispoem o Ceremonial dos Bispos. Para esta funcçaõ, verdadeiramente magestosa, se destinou a tarde de Sabbado 13. de Fevereiro do anno jà dito de 1717. Da Quinta do Duque de Aveiro, sita nas visinhanças da Parrochia de S. Sebastiaõ da Pedreira, sahio o Senhor Patriarcha para a Igreja deste Santo, aonde o esperava montado a cavallo, toda a Nobreza de Portugal, e tomando o Coche, veyo marchando com todo este lusido acompanhamento atè à Igreja de Santa Martha, aonde apeando-se, tomou a Capa Consistorial, e pondo-se a cavallo continuou a marcha atè às portas de Santo Antaõ, em que estava levantado hum excellente, e bem adornado Altar. Aqui deixada a Capa Consistorial, se revestio de Pontifical com Capa, e Mitra de tella branca, e montando em huma mula ruça, cuberta com huma gualdrapa de tella branca, o levou de redea seu Irmaõ D. Luiz de Almeida Conde de Avintes; ao sahir das portas de Santo Antaõ, o receberaõ de baixo de hum Pallio de preciosa tella os Vereadores dos Senados de ambas as Lisboas, e desta sorte, por entre duas alas, que formavaõ as Communidades Religiosas, as Confrarias, e Irmandades de Lisboa Occidental, chegou à Santa Basilica Patriarchal, dando-se fim a esta vistosissima Ceremonia com o Hymno Te Deum Laudamus, solemnissimamente cantado.
Depois da posse começou logo a exercitar a Dignidade de Capellaõ Mòr, que como consta da mesma Bulla Aurea, ha de andar annexa a quem tiver a de Patriarcha de Lisboa Occidental; e para lhe naõ faltar a authorizadissima circunstancia de Conselheiro de Estado, foy S. Magestade servido fazer-lhe dentro de poucos dias aquella mercè.
Tratou de visitar a sua Diocesi, obrigaçaõ a que satisfez pessoalmente, como quem sabe o quanto emenda mais a vista, do que as informaçoens, naõ cessando depois em tempo algum de mandar Visitadores, que reformem os vicios com caridade, e naõ estrondo, porque as culpas, em quanto naõ degeneraõ em obstinaçaõ, melhor se remedeaõ com a suavidade, que com o rigor.
Para o sitio de Rinhafolles, que he contiguo ao Convento de Santo Antonio dos Capuchos, se haviaõ mudado os Padres da Missaõ, cujo principal instituto he ensinar as Ceremonias Ecclesiasticas aos Ordinandos. Sobre os principios desta obra entrou o Senhor Patriarca a fazer nova despeza, e se vay continuando hum edificio, em que possaõ naõ só viver commodamente os Padres, mas tambem o grande numero de pessoas, que concorrem a aprender o Ministerio do Altar, e a fazer algumas vezes a utilissima devoçaõ dos Exercicios Espirituaes, para o que mandou levantar no interior da Casa hum Oratorio, que naõ cede na grandeza ao primor do seu ornato.
No anno de 1721. deo o Senhor Patriarca o dezejado principio à clausura do Mosteiro de N. Senhora dos Remedios de Campolide de Religiosos da Ordem da Santissima Trindade, para o que mandou ao seu Vigario o Illustrissimo D. Joaõ Cardoso Castello Arcebispo de Lacedemonia, que fosse benzer a Igreja, e logo sem mais dilaçaõ, sahiraõ as quatro Fundadoras do Convento de Santa Marta em 25. de Junho de 1721. Foraõ as Fundadoras a Madre Izabel Maria das Montanhas para Prioreza, a Madre Maria Jozefa de S. Filippe para Sub-Prioreza, a Madre Antonia Thereza de Jesu para Mestra da Ordem, que he o mesmo, que Mestra de Noviças, e a Madre Eufrasia Maria do Sacramento para Porteira.
Disposto tudo o que era preciso para a entrada das Noviças, na tarde de 2. de Julho de 1721. em que se celebra a Visitaçaõ de N. Senhora a Santa Izabel, com assistencia da Rainha N. Senhora, e da Senhora Infanta Dona Francisca, e de muita parte da Nobreza, e de hum extraordinario concurso de povo, se lançou o habito às primeiras Noviças, dando todos graças a Deos por verem concluida huma obra, a que havia pouco menos de hum seculo, que se lhe dera principio.
Mandou o Senhor Patriarca fazer Constituiçoens, que elle mesmo confirmou em 26. de Junho de 1721. as quaes se compoem de nove Titulos, que comprehendem cincoenta Capitulos, e se imprimiraõ em Lisboa Occidental na Officina de Jozè Antonio da Sylva em 1726. em quarto.
Tambem para as Religiosas Descalças de N. Senhora da Conceyçaõ da Luz, que he da jurisdicçaõ ordinaria, e fundado pelo piissimo Varaõ Nuno Barreto Fuzeiro, àlem da Regra approvada pelo Papa Julio II. e modificada por Innocencio XII. mandou fazer Constituiçoens, que constaõ de 37. Capitulos, que confirmadas em 8. de Julho de 1727. se imprimiraõ na mesma Officina no dito anno em quarto.
Tem a Mitra de Lisboa huma Quinta no lugar de Santo Antonio do Tojal, cuja Igreja, como diz a tradiçaõ, fez o Arcebispo D. Fernando de Vasconcellos, e lhe começou huma Torre, que depois acabou o Arcebispo D. Miguel de Castro. Com o progresso do tempo, e descuido estava esta Quinta, e Palacio quasi arruinado, e o Senhor Patriarca a tem restituido, e renovado de sorte, que Igreja, e Palacio saõ dignissimos de se verem, naõ só pela grandeza, como pelo bom gosto.
Faltava a este grande Prelado a Purpura Romana, e no Consistorio de 20. de Dezembro de 1737. o creou Cardeal Clemente XII. e lhe mandou o Barrete por Monsignor Julio Saccheti Sobrinho de Monsignor Cavallieri Nuncio em Portugal, que chegou a esta Corte em 3. de Mayo de 1738. Foy esta noticia summamente estimada, e applaudida por toda a Corte, e povo, celebrando o premio das grandes virtudes, que venera no seu Prelado.
Card. D. José Manoel
... D. Francisco de Saldanha
... D. Paulo de Carvalho
... D. Joaõ Cosme da Cunha
... D. Fernando da Silva e Menezes
... D. Joseph Francisco da Mendoça
AO MUITO ALTO,
E MUITO PODEROSO
Rey de Portugal
D. JOAÕ III.
DESTE NOME
PANEGYRICO
DE
JOAÕ DE BARROS
Anno de 1533.
Naõ sem causa (muito alto, e muito poderoso Rey, e Senhor) costumavaõ nos tempos antigos, louvar os excellentes homens em sua prezença, porque dando louvor justo, e manifesto ao grande merecimento das pessoas; assim os presentes, como os que viessem depois, tomassem exemplo, e fizessem taes obras, com que merecessem o mesmo louvor, e para os nomes dos taes ser mais celebrados sohiaõ nas mòres festas, e ajuntamentos do povo publicar os taes louvores, que por esta razaõ chamaraõ Panegyrico, que quer dizer ajuntamento. Com este fundamento às mezas dos Principes, e grandes Senhores se cantavaõ antigamente em metro os feitos notaveis dos grandes homens, donde primeiro nasceo a poezia heroyca, e segundo eu tenho ouvido, ainda neste tempo os Turcos em suas cantigas louvaõ os feitos darmas, e cavallarias de seus Capitaens, o que se fosse uzado em Espanha, e em toda a Europa (se me eu naõ engano) mais proveito da tal Musica nasceria, do que nasce de saudosas cantigas, e trovas namoradas; mas se o principal fundamento dos que compoem chronicas, e escrevem as cousas passadas, he fallar verdade, sem duvida a invençaõ do Panegyrico he de mòr authoridade, que outra maneira de historias; por quãto o Panegyrico faz sempre fé do que ve, e o representa aos olhos; a historia pela mòr parte trata do que ouve, e isto encomenda à memoria; por esta causa, segundo o exemplo dos antigos, direy neste alguma parte das grandes, e Reaes virtudes de V. Alteza, (empreza por certo digna de muy grande, e alto estillo;) Mas se eu naõ puder chegar taõ alto, e as palavras àquem do dezejo, espero que me valerà adiante delle, ser minha vontade tal, que quiz antes porse ao perigo, que leyxar de fazer o que podia. Hum só trabalho sinto nesta obra serem tantos os seus notaveis feitos, e virtudes, que querendo eu dizer tudo, seria mais compor Chronica, que Panegyrico; e naõ leixando parte, naõ satisfaria a meu dezejo.
Mas em fim destes dous contrarios hey por mais seguro leyxar muita parte para outro tempo, buscando brevidade na copia por naõ exceder o modo, pelo qual naõ me deterey aqui em contar as grandes virtudes, que logo mostrou do começo de sua mocidade atè o principio de seu Reynado; leyxarey de escrever com quanta prudencia, com quanto esforço, depois do falecimento do muy victoriozo, e de bemaventurada memoria ElRey D. Manoel seu Pay levou àvante a Conquista, e Navegaçaõ da India, descobrindo novos mares, novas terras, novas estrellas, dando materias de cousas taõ notaveis aos livros dos Cosmografos, passando àlem da memoria de todas as historias, e fabulas, estendendo suas bandeiras na mais derradeira parte do Oriente, saõ certo estas cousas dignas de immortal memoria, e lembrança para sempre; mas a tençaõ da obra prezente naõ poderà com tanto pezo; tempo virà (se me o dezejo naõ engana) em que possa dizer tudo (segundo requere taõ alta empreza, e meu engenho), quanto elle for a isto só està offerecido em latim, em lingoagem, em proza, e metro louvar sempre as grandes victorias destes Reynos, os quaes neste tempo saõ mais bemaventurados, que nunca foraõ; e porque nesta esperança vivo, e ella me sostem, em quanto se me naõ offerece mòr occasiaõ, ao menos enganarey meu appetito com estes começos, e representarey neste Panegyrico alguma parte da virtudes de V. Alteza, por onde facilmente se possa ver, quantas, e quam grandes o saõ as outras, que nelle hà.
Antre as virtudes de que os Principes, e Governadores das Reespublicas tem mòr necessidade, para descanso, e conservaçaõ de seus Estados, sempre o primeiro lugar foy dado à Justiça; e isto com muita razaõ, porque sendo Deos perfeita Justiça, os Reys que por elle saõ ordenados, e cujo poder representaõ, a elle soo em tudo devem seguir, e delle (como excellente pintura) tomar o debuxo, que cumpre a perfeiçaõ de seu ensino; pois se bem olharmos quam justamente estes Reynos saõ governados por V. Alteza, e quanto do principio do seu Reynado trabalhou sempre por apurar cada dia mais esta parte, certo saõ que com grande trabalho poderiamos achar algum Principe, que com elle neste tempo se podesse comparar: he virtude por si muy grande fazer, como faz, a todos justiça igual sem affeiçaõ de pessoas, determinar tantos negocios, e dar grandes sentenças sem escandalo de ninguem, mas olhando de quam pequena idade isto começou, que muitos Principes no cabo de sua vida naõ puderaõ alcançar; vem isto a ser tanto mòr virtude, que naõ hà louvor tamanho, que com muita razaõ lhe naõ possa, e deva ser dado; outros Principes, ou sendo velhos, ou depois de longa experiencia acabaraõ de saber governar, V. Alteza no começo do seu Reynado, sendo pouco mais de dezanove annos em tanta justiça governou, e procurou o bem, e descanso de seu povo, como se longa pratica, e costume de muitos annos o tiveraõ já ensinado.
Com muita razaõ digo isto, pois por minha boa sorte saõ hum daquelles que se lograõ deste tamanho bem, e se cumpre, o Rey foy verdadeiramente julgado pelo povo, e o povo pelo Rey; porque assim como os que pintaõ as terras pelo natural para contemplarem o sitio dos lugares altos se poem no baixo; e polo contrario para olharem os baixos se poem no alto, assim para conhecer bem a natureza dos povos convem ser Principe, e para conhecer a dos Principes convem ser do povo; nem hey medo, que me chame ninguem lizongeiro, sendo a verdade, e consentimento da minha banda, e aproveitando-se todos do bem, que digo; isto quanto he mais raro, e menos jà se usa, tanto mais se devem chamar ditosos os subditos de V. Alteza. Que direy da continua vigia, que usa nas cousas de justiça, com quanto conselho, com quanta prudencia sem cançar nunca, peza tudo em balança igual, hora as cousas mais pequenas, mandando julgar a seus Letrados, hora as mayores, determinando em sua presença, às vezes inventando novas, e muy proveitosas Leys à sua Repupublica, outra hora emendando, e corregendo as não boas, chamando Letrados com grandes premios, ordenando Officiaes novos para mais comprimento de justiça, e os mores carregos dando aos melhores, sem duvida este he o verdadeiro officio de Rey, e pay geral de todos.
Isto he o que Deos, e nossa Santa Fè encomenda aos Principes, como verdadeiramente dizem os Filosofos. Reynado he officio de muita vigia, e trabalho, nem deve nunca o bom Rey estar ocioso, mas assim como o Sol por dar claridade ao mundo nunca està quieto, assim o Principe por fazer justiça ao povo sempre deve ser occupado, lese do Emperador Cesar Octaviano, que com muito cuidado de noite, e de dia despachava as cousas de justiça, e do Emperador Trajano se conta o mesmo, tanto que parecia, que cada dia hum delles descançava com este trabalho. E tinha ElRey Ciro, que o bom Principe naõ havia levar ventagem a seus Vassallos em boa vida, se naõ em muito trabalho para comprimento de justiça: com o mesmo respeito sóhia dizer Alexandre Magno, que o bom Rey devia sempre ter huma orelha aberta para quem quizesse accusar, e outra guardada para quem era accusado, e assim dizia que o melhor verso de quantos Homero (Poeta Grego) fizera, era hum em que ElRey Agamenon era gabado de bom Cavaleiro, e justiçoso.
Aquelle Principe com muita razaõ deve ser chamado excellente, que dà o seu a cada hum (que este he o principal officio da justiça) e que ouve, e despacha bem as partes, e que vive segundo as Leys, que elle mesmo ordena, e hà por boas, nem pode dar muita authoridade ao direito quem em si o naõ quer cumprir inteiramente; por isso quer Plataõ, que o Principe obedeça em tudo às suas Leys; e diz que onde a Ley he sugeita ao Rey, e naõ o Rey a ley, se deve recear, que aquelle Reyno se perca muy azinha; porque quando governa a ley, governa Deos (o que naõ pode ser se tudo manda pelos apetitos de hum homem) mas quanto desviado V. Alteza seja deste mal, notorio he a todo o mundo, o qual sómente governa os seus Reynos, com tanto cuidado de justiça, como se todas fossem sua propria Casa, mas ainda se mostra taõ justo, e obediente às suas leys, que naõ menos nos aproveita com o virtuoso exemplo, que de si nos dà, que com a execuçaõ dellas, e faz isto assim por sua inclinaçaõ ser em tudo santa, e muy chegada a Deos, como por saber certo, que quem ha de governar a muitos, e como diz Homero: quem ha de ser Pastoral de seu povo, cumprelhe ser limpo, e afastado de todo o vicio, e assim como nenhuma cousa mais aproveita ao povo, que o bom exemplo do Principe; assim naõ hà cousa mais prejudicial ao Vassallo, que o mào costume, ou deffeito do Senhor; porque este tanto mais asinha se aprende, que o bem, quanto os homens saõ mais inclinados ao mal, e finalmente sempre se vio assi como as ondas do mar seguem o vento assi o povo seguir as manhas do Principe.
Os costumes de quem manda (sendo a pessoa illustre) quer bons, quer màos, mal se podem esconder; antes faraõ todos os Reys conta, que estaõ postos em hum lugar alto, como a atalaya donde vem, e saõ vistos de todo o povo, e se me dessem a escolher, tomaria antes no Principe màs leys com bom exemplo, que naõ mào exemplo com santas ordenaçoens; e naõ fora taõ louvado Cataõ Uticense de bom Cavalleiro, se a isto naõ ajuntara grande perfeiçaõ de vida, a qual em tudo foy heroyca. Contaõ delle, que em todalas cousas guardou singular temperança, e seguio a natureza, e teve sua vida offerecida ao bem da patria, nem lhe parecia, que nascera saõ para si, senaõ para todo o mundo, foy Conservador de toda a justiça, e honestidade; pois se Cataõ Cidadaõ de Roma por dar bom exemplo de si, conservando a justiça, e leys de sua Cidade mereceo louvor immortal, que gloria deve ser a de V. Alteza, governando taõ santa, e justamente tantos povos, e desvairadas Provincias, aproveitando com seu exemplo a tantas gentes, que delle (como de seu natural Rey, e Senhor) o folgaõ de tomar: sem duvida tanto mais louvor merece, quanto sempre foy mòr a fama de bom Principe, que da pessoa particular. Era Cataõ justo, porèm aspero em toda a administraçaõ da Reepublica, por onde era mais louvado, que bem quisto, V. Alteza sempre temperou sua Real gravidade com muita humanidade, e clemencia, de tal maneira soube ajuntar cousas em si taõ differentes, que nem por ser muito brando leyxa de ser temido, nem por ser muito grave leyxa de ser amado.
Naõ se deve louvar no Principe condiçaõ aspera, nem he digno de louvor o que Cambyses Rey de Persia fez, o qual achando que hum seu Juiz dera huma sentença contra direito, o mandou esfollar, e da pelle fez cubrir a séde, em que estando assentado dera a tal sentença, e nella mandou sentar hum filho do mesmo Juiz, dando-lhe a vara, e officio de seu Pay. Foy pola ventura a tençaõ delRey Cambyses boa, mas por o exemplo ser taõ aspero, pareceo o que fizera ser mais injuria, que justiça.
Tambem se deve guardar o Principe, que naõ seja taõ brando, e de boa condiçaõ, que se perca o acatamento devido à Magestade Real, de que nascem ao Reyno grandes males: tal foy o Emperador Nerva na Cidade de Roma, que sendo demasiadamente brando, veyo a cahir em despreso da mòr parte do povo, e se naõ perfilhara a Trajano, perdera-se; o mesmo caminho levou neste Reyno ElRey D. Sancho, o que chamaraõ o Capello, mas porque a todos he notorio quantos males de sua muita brandura nasceraõ, he escusado dizelos eu; porisso quem no Regimento da justiça tomar o meyo, e fugir dos extremos, como V. Alteza muy prudentemente faz, este sem duvida serà julgado por excellente.
Eu naõ digo, que naõ temaõ os subditos seu Principe, mas isto seja de maneira que da muita rigoridade naõ possa nascer algum escandalo, e deste inconveniente por nenhuma via mais facilmente o bom Rey se pode desviar, que tirando as occasioens dos males, e querendo antes ter maneira com que naõ errem seus Vassallos, que ser diligente em os castigos, depois que erraõ. Naõ ha de haver no Principe affeiçaõ, nem respeito particular de pessoas, quanto à justiça, e fazendo-o assim Cesar Octaviano foy adorado em sua vida, e mereceo, que dissessem delle depois da sua morte aquellas palavras taõ nomeadas; provera a Deos, Octaviano, que nunca nasceras, ou nunca morreras? Escreve-se do mesmo, que foy taõ justo, que huma só filha, que tinha por nome Julia, desterrou por ser deshonesta, e muitas cousas de mào exemplo emendou, só olhando ao bem commum, teve muitos privados grandes Senhores, mas de tal maneira foraõ seus privados, que sempre viveraõ sogeitos, e obedientes às leys, e ordenaçoens da Reepublica Romana.
Bem se deve cuidar, quamanho contentamento serà o destes Reynos, vendo que V. Alteza nosso natural Rey, e Senhor, com tanta razaõ pòde ser comparado com taõ excellentes Principes, mas não ha louvor, que não mereça, quem traz todos seus pensamentos em Deos. Este he a verdadeira ley, e deste nasce a verdadeira justiça, a qual então se pòde chamar perfeita, quando toma por seu fundamento nossa Santa Fè, daqui vem que as leys de Moysès foraõ muy Santas, porque o seu fim era em Deos, e pelo contrario entre as leys dos Gentios muitas se achaõ injustas, e pouco honestas, porque carecendo os que as ordenavaõ do verdadeiro conhecimento de Deos, se moviaõ por huma cega opiniaõ, e eraõ guiados de hum falso proveito, e vangloria deste Mundo; muitos Principes seguindo algum seu particular interesse enganaraõ o povo, fingindo que eraõ justos. Elle naõ quer outro premio, nem gallardaõ da virtude, que a ella mesma, e sendo seu natural taõ justo, como he, naõ póde caber nelle fingimento algum de o ser. Como este Santo zelo tira as occasioens das falsas, e longas demandas, que pela mòr parte, saõ causa de odios, e escandalos, e trabalha por apurar todas as partes da justiça, sendo ella de tanto merecimento, que naõ sómente ajuda Deos aos Principes Catholicos (se a bem guardaõ) mas ainda se acha, que ajudou a muitos Reys generosos, que delle naõ tiveraõ conhecimento.
Notorio he a quem lè pola Sagrada Escriptura, quam justo foy ElRey David, quam aceito a Deos por esta parte, e quantas victorias ouve, e assim Jozaphat Rey de Judà foy Principe justo, e semelhante a David; este ordenando, e pondo de novo Juizes em todas as Cidades do seu Reyno lhes encomendou, que em nenhuma cousa entendessem, salvo em fazer a todos igual justiça, sem ter respeito algum, nem á riqueza, nem à Fidalguia, lembrando-lhes q́ a Deos naõ podiaõ esconder nada do que fizessem. Elegeo Juizes em Jerusalem dos Sacerdotes, e Levitas, e principaes do povo, e lhes mandou, que se as outras Cidades lhes pedissem conselho, lhes respondessem com muito zelo o que vissem ser justiça; por quanto era muita rezaõ, que o parecer dos Juizes fosse justo naquella Cidade, onde o Templo de Deos estava; por esta causa, e pelo grande amor, que tinha a Deos mereceo vencer os Moabitas, alevantando-se entre elles no seu arrayal hum tamanho alvoroço, que huns com outros sem nenhuma causa evidente se matavaõ, entaõ os Sacerdotes dos Judeos tocaraõ as Trombetas, e os Levitas cantando davaõ graças a Deos, os Moabitas com grande espanto fugiaõ, e lhes parecia, que toda a gente do Mundo hia em seu alcance com muito arruido d’armas, vozes desvayradas, multidaõ de carros, e som de Trombetas, e assim os Judeos sem nenhum trabalho ouveraõ gloriosa victoria contra tamanho, e taõ poderoso Exercito. Por certo grandes merces faz Deos aos Principes que inteiramente guardaõ justiça, e da maneira que aos taes favorece muito, assim sóe dar grandes castigos aos que vaõ contra ella.
Escreve-se de Sedechias, Rey do Tribu de Judà, que quiz mal à justiça, foy soberbo, e amigo de màos homens, por onde vindo muitas vezes a elle o Profeta Jeremias, o amoestava, que se lembrasse de Deos, e naõ se governasse por màos homens, nem leyxasse enganar por informaçoens de falsos Profetas, e ElRey em quanto isto ouvia, conhecia a verdade, e consentia nella, mas partido o Profeta tornava a ser o que era de antes. Naõ muito depois veyo Nabucodonosor com grão poder sobre elle, e o venceo, e levou prezo a Babilonia, onde morreo deshonradamente; tambem os Reys de Samaria, por fazerem pouca justiça, e desprezarem o verdadeiro Deos, os maes delles reynavaõ, e haviaõ no cabo mào fim, atè que succedeo ElRey Joza em tempo de Eliseo Profeta, que por ser Principe justo, e temente a Deos mereceo aver vitoria contra os Syrios; taõ aceita he a Deos esta virtude, que por mais culpas, que precedaõ, se esquece dos erros passados; e sem respeito ao merecimento presente. Naõ tinha todas as boas partes de bom Principe ElRey Herodes, filho de Antipatro, com tudo porque favoreceo a justiça, foraõ suas cousas avante, e viveo prosperamente longos dias; fez huma Ordenaçaõ, que os ladroens que se achassem, fossem vendidos por escravos, e dizem que andava de noite desconhecido, escuitando o que se fallava delle, e de seu Reynado.
Da mesma opiniaõ era Hircano Principe dos Sacerdotes, filho de Simaõ Macabeo, e sendo discipulo dos Fariseos, que naquelle tempo tinhaõ grande authoridade, lhes dizia que elles sabiaõ bem que sua tençaõ era fazer justiça com que servindo a Deos, a elles tambem contentasse, por tanto lhes rogava, e encomendava muito, que se em alguma cousa o vissem errar, o quizessem emmendar, e tornar a bom caminho, e naõ sómente esta virtude he muy aceita a Deos, mas foy sempre taõ estimada entre os Principes Gentios que por serem justos foraõ avidos por Deozes, como se escreve de Adezer, e Azael Reys de Damasco, os quaes por este respeito foraõ adorados em toda a Suria, e ainda em tempo de Jozefo historiador, que foy depois de mil annos, em todalas festas que se faziaõ em Damasco, as imagens destes se mostravaõ ao povo com muita veneraçaõ: por certo muito merece esta virtude; porque alem de se representar nella o poder de Deos, quem a tirar dentre os homens, tirarà todo o descanço, toda a paz, todo o sossego; e sendo esta a principal cousa de que as Reespublicas tiveraõ necessidade, huns antigamente sem fazerem leys, se governavaõ por bons costumes, que antre si com muita diligencia guardavaõ, outros faziaõ leys por onde viviaõ.
Com tudo acho eu, que os costumes foraõ mais antigos, que as leys: em tempo do Poeta Homero, ainda entre os Gregos naõ avia leys, nem se acha tal nome em todalas as obras que fez, sómente se governava o povo pelas determinaçoens, e vontades dos Principes, que se applicavaõ aos esquecimentos, sem outra maneira de escritura. Os Lacedemonios, e Cretenses por costumes se governavaõ. Os Athenienses, e outros Gregos se aproveitaraõ mais das leys, pelo qual Moysès dador da Santissima ley do Testamento Velho, vendo que leys, e bons costumes eraõ necessarios para a conservaçaõ da boa Reepublica, a estas cousas ambas teve respeito, e se aproveitou dessas com grande seu louvor.
Dizem alguns, que Roma foy huma Cidade de tanta confusaõ, que se a ventura a naõ favorecera, ella por si fora fraca, e ficàra abayxo doutras muitas Reespublicas. Eu naõ posso negar, que ventura, e cavallaria, naõ fossem muita causa do Imperio Romaõ, mas pareceme, que aonde se trataõ bem as cousas da Guerra, cumpre que haja boa ordem, e que onde ha boa ordem naõ pòde deixar de haver justiça, e porque os Filosofos tem que a boa Reepublica he partida em tres Estados, que saõ principaes, nobres, e povo; quem bem olhar acharà que a Cidade de Roma, antes de ser tiranizada, era fundada nestas tres partes, porque aos principaes respondem os Consules, aos nobres os Senadores, e ao povo os Tribunos; naõ podèra crescer tamanho Imperio, nem conservarse tantos annos sem perfeita administraçaõ da Justiça, e ella só foy causa de tantos bons exemplos, quantos muitos Romaõs deraõ de si, e sempre se vio os bons exemplos nascerem da boa criança, a boa criança das boas leys, finalmente as boas leys dos bons Principes.
Se o Imperio do Oriente, que durava em Constantinopla, perseveràra em fazer justiça, e no amor de Deos, naõ creo eu que Deos permitira (se licito porèm me he julgar das cousas divinas) ser vencido, e tantos annos ha sogigado polo Turco, e se pelo contrario alguma cousa hoje conserva a potencia dos Turcos, sendo infieis, e havendo entre elles tantos vicios, he o grande cuidado, que tem de muitas partes da justiça. Em tempo de Miguel primeiro da Caza Paleologa Emperador de Constantinopla, avendo quatro Senhores Turcos em Anatolia, e querendo com medo dos Christãos fazerem-se mais fortes, elegeraõ por Senhor geral de todos a Othomano; este foy Principe justo entre elles, e fez muitas leys, que hoje se guardaõ na Turquia, por onde ainda nestes tempos, quando elegem graõ Turco, lhe dizem: Queira Deos, que em bondade sejas igual a Othomano. Faz-se na Turquia muita justiça, a gente pobre que se agrava faz petiçaõ que elles chamaõ Roca, a qual posta sobre huma cana se offerece ao Grão Turco, quando passa: elle a toma, e mete no seu turbante, que assim chamaõ os Turcos à fita, ou touca, que trazem na Cabeça, e como se recolhe à sua Camara a despacha logo.
Eu bem vejo, que a justiça do Turco he tiranica, e acellerada, tanto que segundo dizem, a mòr causa civel he despachada pelo seu Cadij (que he antre elles como Alcayde Mòr) em tres horas, toda via com tal execuçaõ, e meyos, posto que sejaõ asperos os Turcos, conseguem o fim, e proveito della, que he viverem em muita paz, e sossego comum, por serem os Turcos obedientes, e fazerem o que lhes mandaõ, saõ bons Cavalleiros, e sofrem muito o trabalho, posto que neste tempo, pola continuaçaõ da boa vida, naõ saõ taõ valentes, como sohiaõ: cousa natural he as cousas pouco, e pouco hirem minguando atè de todo se acabarem; he certo cousa para notar, castigar Deos a muita sem justiça dos Gregos com a tirania dos Turcos; quem naõ sabe quantos males vieraõ aos Principes, que naõ se lembraraõ de huma cousa taõ necessaria para a vida comum? De maneira que se jà naõ pòde achar mais certo caminho da perdiçaõ de hum Estado. Assi como o principal proveito da justiça he boa paz, assi mais vezes castiga Deos o contrario com guerra, e destruiçaõ, e perda de Cidades, e Reynos; e por isso muitos Principes Gentios, que naõ tiveraõ conhecimento da verdadeira ley, e indo contra esta virtude foraõ gravemente punidos, quanto mais o devem ser os Christaõs, a que particularmente toca esta obrigaçaõ por ser nossa Santa Fè toda fundada em justiça, ou mais verdadeiramente fallando, a mesma justiça; por serem injustos os Assyrios, foraõ vencidos dos Medos, e os Medos dos Persas, e os Persas dos Gregos, e os Gregos dos Romaõs; assi muitos outros Reynos por esta causa se perderaõ; mas se bem queremos olhar, acharemos que muito mores males padeceraõ os Judeos no tempo do Testamento velho; e depois por esta causa os Christaõs, e naõ foy isto sem razaõ, que tanto mais aspera devia ser a pena, quanto mais obrigados eraõ a fazer o que deviaõ polo conhecimento, que tinhaõ de Deos, e da sua Ley.
Quem poderia contar sem muitas lagrymas os açoutes, que Deos mandou à Christandade polos Godos, Ostrogodos, Alanos, e toda outra geraçaõ dos barbaros, os quaes partidos da terra fria, que he debaixo do Norte; como huma grande tormenta allagaraõ quasi todalas provincias da Europa; e por me naõ deter nos outros, direy brevemente dos Hunnos: estes sahindo da Tartaria com tres Capitaens, Cheme, Chadrichia, e Bela, chegaraõ ao Reyno de Ungria, e o tomaraõ, lançando os Longobardos, que o tinhaõ occupado; naõ muito depois fallescendo todos tres, foy alevantado Athyla por Rey dos Hunnos, que foy taõ crù, e fez tanto estrago na Christandade, que com muita rezaõ mereceo ser chamado açoute de Deos; matou as onze mil Virgens, venceo, e destruio Alemanha, França, Italia; pellejou nos Campos Cathalonicos, que saõ em Franca, com Echio nobre Capitaõ Romaõ, e Meroueo, que foy o III. Rey de França, e juntamente com Theodorico Rey dos Godos, na qual batalha foraõ mortos cento, e oitenta mil homens: por onde quer que Athyla passava, tudo era fogo, e sangue, em cada parte eraõ ouvidos choros, prantos, e lamentaçoens, eraõ trespassados com feridas crueis os meninos de mama dentro dos braços das Mãys, os Santos Sacerdotes, e devotos Religiosos recebiaõ martirio diante dos Altares, o Sangue das Virgens e innocentes corria em todo o cabo, naõ havia cousa segura, nem que a tanto mal resistir pudesse; conta-se deste cruel tirano, que entrando por força a Cidade de Aquilea, que està perto de Veneza, huma molher nobre de estremada formosura, se lançou dos muros abaixo em huma ribeira muy alta, por naõ vir às mãos do vencedor; e outros que daqui escaparaõ com medo dos barbaros, que daquella parte sohiaõ a entrar em Italia, leyxando Aquilea, se passaraõ a huma pequena Ilha, onde entaõ foy primeiramente fundada a Cidade de Veneza, e sendo os Christaõs taõ atormentados, como eraõ, todavia cessava a ira de Deos, porque naõ cessava a culpa da sem justiça.
Naõ sey para que buscamos exemplos de fora? Tragamos à memoria a destruiçaõ de Hespanha; e veremos, que a sem justiça delRey Rodrigo derradeiro Rey dos Godos foy causa de tanto mal. Castiga Deos as mais vezes os Christaõs por gentes infieis, e barbaros, ou por Christãos de mà vida, e costumes abominaveis, e torpes. Hereges eraõ os que foraõ chamados Adamitas, viviaõ em Comunidade, andavaõ nùs, moravaõ em Covas, e havia entre elles muito torpes, e deshonestos costumes, com tudo por homens de taõ mào viver permitio Deos, que fosse vencido em batalha campal Sigismundo Emperador de Alemanha, e Rey de Ungria; mas quando da sem justiça se naõ seguissem outros males, devia de bastar verem todos claramente quam vituperada foy sempre a memoria dos que cahiraõ nesta culpa, e queria, que me dissessem, que mòr gloria podia set a do Emperador Trajano, e que mòr mofina, que a de Nero? Que aproveitou a Federico II. deste nome, sendo taõ mào homem, como foy, ser Emperador de Alemanha, ser Rey de Sicilia, e herdar o direito do Reyno de Jerusalem, casando com huma filha de Joaõ de Brenha derradeiro Rey della, donde todolos Reys de Sicilia dahi por diante tomaraõ este titulo? Foraõ estas grandes honras, e as mòres, que entre os Christaõs se podiaõ dar, com tudo por ser Federico taõ mào Emperador, naõ sómente naõ deraõ lustro à memoria, que delle ficou, antes tanto mòr nodoa lhe puzeraõ, quanto os defeitos dos Principes se vem, e sabem melhor, que os dos outros homens; qual homem justo, e de boa razaõ aceitaria o estado deste com sua mà fama, sendo como foy muy contrario, e grande inimigo da Igreja Romana, mandando matar hum seu proprio filho por nome Henrique, por sentir nelle, que era bom, e differente de seus màos costumes; dando começo aos bandos dos Guelfos, e Gibilinos, que hoje em dia duraõ em Italia, e Guelfo, e Gibilino saõ nomes Alemães, que segundo se escreve, foraõ postos na Cidade de Pistoya, e dizem, que andava este Emperador correndo as Cidades de Italia, Villas, e lugares, e os que achava de sua banda contra o Papa, e Venezianos, chamava Gibilinos, e os contrarios Guelfos; emfim naõ se contentando com ser, em quanto viveo, tirano, mas sameando cousas de tanto damno, odio, e differenças para sempre nos povos de Italia.
Mas claro he a todos, quam aceita virtude a Deos, e ao mundo, e quam proveitosa as Reespublicas, he a justiça, e polo contrario, quantos, e quam grandes males nascem da semjustiça; por isso que Panegyrico, que louvor naõ merecerà V. Alteza obrando taõ perfeitamente do começo de seu Reynado, todalas cousas, que tocaõ a taõ estremada virtude? Naõ bastaõ forças humanas a dar igual louvor, ou premio a taõ alto merecimento, posto que o verdadeiro deve esperar de Deos, do qual jà tem conseguido hum dos mores bens, que da justiça nascem; este he ter em muita paz, e tranquilidade os seus Reynos, quanta pola ventura nos outros Reynos Christaõs de muitos annos a esta parte naõ houve. Plinio em hum seu Panegyrico, que fez ao Emperador Trajano diz, que entaõ se poderaõ chamar os Reynos, e Reespublicas bemauenturadas, quando se der galardaõ à virtude, e os bons forem estimados, e os màos naõ forem temidos, mas estes taõ grandes bens, que nascem do Principe, ou da Reepublica justa, melhor se mostraõ nos tempos da paz, que da guerra, porque ainda que se a guerra trate, como deva, com tudo naõ sendo os tempos quietos, mal se podem de todo refrear os appetitos dos homens, e por isso naõ hà tempo em que se assi possa usar toda a virtude, como no da paz: esta para ser firme, e qual cumpre ao verdadeiro estado das Reespublicas, he necessario, que tenha seu fundamento na justiça, sem a qual naõ hà cousa segura, nem que possa durar muito.
Dizem as nossas Chronicas, que ElRey D. Pedro de Portugal vosso IV. Avo, filho delRey D. Afonso, a quem chamaraõ do Salado, foy Principe justo, por onde ainda que sua justiça parecesse hum pouco aspera, teve seu Reyno em tanta paz, e foy tambem quisto do povo, que segundo a voz geral, nunca se viraõ taes dez annos; naõ aconteceo assim no mesmo tempo a ElRey D. Pedro de Castella, o qual por sua semjustiça, e cruesa a poz toda em revolta, e lhe foy necessario sahir do seu Reyno deshonradamente, e passar-se a Inglaterra; mas posto que da justiça venha paz, e da semjustiça nasçaõ odios, e differenças, naõ leixa V. Alteza de ter respeito particular à paz, e de tal maneira se reparte em cada virtude por si, que sendo geral em todas, he perfeito em cada huma. Quem poderà dizer, com quanta prudencia, com quanto zelo, tendo guerra entre si a mòr parte dos Principes Christaõs, elle como verdadeiro Pay de todo o seu povo procurou a paz universal destes Reynos, naõ leixando cousa alguma, por onde vivessemos descançados; favoreceo Deos este seu taõ virtuoso zelo, e quiz que em tempos taõ trabalhosos nos pudessemos lograr de hum taõ proveitoso, e dezejado bem, naõ hà no mundo triunfo, nem victoria, que se possa comparar com os bens da verdadeira paz, por tanto pelejem de huma parte os Reys Christaõs, e tenhaõ guerra huns com os outros, vaõ contra a paz, que N. Senhor tanto encomendou a seus Discipulos, e em seu nome a toda Igreja Catholica, vinguem suas paixoens às custas do sangue de seus Vassallos; façaõ em pedaços a Vestidura de Christo, em que naõ hà costura, nem divisaõ; V. Alteza da outra parte prosiga, como faz, sua muy sancta tençaõ, faça guerra aos Infieis, e Mouros d’Africa; e movido do santissimo zelo converta Ethiopia, e Arabia, Persia, e India à verdadeira Fè de Christo.
Saõ por certo estas tençoens, e obras entre si muy differentes, mas bem claro està quanta razaõ elle tem de se naõ arrepender das suas, nem do que atèqui tem feito. Que descanço, ou que contentamento pode haver no Reyno, ou Reepublica, onde naõ há paz? Por isso assi, como o fim do bom Piloto he fazer prospera viagem, e do Medico dar saude, e do Capitaõ alcançar vitoria; assi do bom Principe he conservar a vida, e descanço de seus Vassallos, a qual cousa em tempo de guerra naõ pode ser; alegre parece a guerra de fóra, mas quem a experimenta, este conhece bem os trabalhos de huma, e os bens da outra, porque assi como na doença se conhece o bem da saude, e na tormenta do mar o bem da terra, assi naõ ha tempo em que melhor se julgue, e entenda o bem da paz, que quando se carece della. Se a hum homem que nunca ouvisse fallar em armas, nem tivesse alguma experiencia dellas, supitamente fosse mostrado o apparato de dous grandes Exercitos, por mar, e por terra, ordenados para se darem batalha, e visse os fermosos penachos, as armas reluzentes, a multidaõ dos Cavallos, a ordenança da gente de pè, toda bem disposta, e prestes para pelejar; as bandeiras, os esquadroens em seu concerto: doutra parte visse no mar muitas Nàos, e Galeoens, com muita gente bem armada cubertas de fermosas bandeiras rodeadas de paveses, e cercada de toda a sorte de artelharia, sem duvida quem quer que isto visse, naõ sabendo mais nada, naõ cuido eu que receasse de se meter entre elles, e lhe pareceria, que via a mais fermosa cousa do mundo; mas se depois de travada, e muy cruamente ferida a batalha, este mesmo sentisse, e visse com seus olhos o grande ruido, e estrondo das armas, a grita da gente, os golpes, e tiros d’artelharia, a multidaõ dos mortos, corpos espedaçados, ays, e gemidos dos feridos, outros serem pizados dos Cavallos, a confusaõ, o medo, e o espanto da morte presente, e assi visse no mar as Nàos, e Galeoens arrombadas de tiros de fogo, humas dellas hirem-se ao fundo, outras arderem em fogo, e chamas de alcatraõ, as ondas vermelhas com sangue, o fumo da polvora, os homens lançarem-se ao mar, e afogarem-se.
Quem isto tudo bem visse, bem creyo eu, que escolhesse antes a paz, que a guerra, e que tomasse antes por partido viver em descançada, e segura paz de bayxo da obediencia de hum Principe justo, que naõ querer arriscar-se a tamanhos perigos por huma mostra falsa, e engano d’lhos, e esperança incerta de vitoria; naõ se devem julgar as cousas polo apetito, senaõ pola razaõ. Quem isto assi fizer, verà quanto mais val o descanço da boa paz, que o sobejo exercicio das armas, porque posto que ellas prometaõ vitorias, ou a guerra em si he de todo injusta, e naõ pertence ao Principe Christaõ, ou tem muitos inconvenientes, que della pòdem nascer, que devem todos ser olhados primeiro que nada se cometa; por quanto os começos da guerra estaõ em nosso poder, e os cabos naõ; eu naõ entendo aqui da que se faz aos infieis, e inimigos de nossa Santa Fè, porque esta sendo justa, he proveitosa, e traz grande louvor ao Rey Christaõ; mas toda a outra sorte della, que agora se usa, mais do necessario, naõ sendo em defensaõ da Patria, se deve muito fogir, e estranhar. Quem naõ sabe quam necessaria foy a guerra que ElRey D. Joaõ I. deste nome teve com Castella pola defensaõ, e liberdade destes Reynos?
Com tudo foy provada a vitoria por tantos males, que os taes tempos soem trazer consigo, e por tanto sangue da gente Portugueza, que segundo ouvi dizer, faltou mais da terceira parte da que sohia d’aver, e eu tenho achado em Escriptura authentica, que naquelle tempo naõ ficarão mais na Villa de Monforte que doze pessoas, avendo dantes duas mil, e em Arronches huma só; pois se as perdas que em guerra taõ justa se sentiraõ, toda via fizeraõ ao Reyno tanta falta, e foraõ causa de tantas lagrymas, e dezamparo, quanto se devem guardar os Principes d’a cometerem nunca, naõ tendo para isso justa causa, e grande necessidade? E naõ sey eu, que conta os Reys darão a Deos da vida de seus vassallos, a que elles por muy leves causas, e somente por seguirem seus appetitos, foraõ causa da morte. Naõ foraõ os Reys ordenados por Deos para homicidas de seu povo; mas para o defenderem, e ampararem, nem devem taõ pouco estimar as vidas dos homens, os que naõ tem poder nas almas depois da morte: naõ ha guerra taõ prospera, nem taõ vitoriosa, em que se viva com tanto descanço, como no tempo da paz. Venceo ElRey D. Joaõ I. deste nome a ElRey de Castella, e foy taõ gloriosa a vitoria, que com ella se restituio a liberdade destes Reynos, com tudo quem bem olhar o pacifico, e quieto estado dos tempos delRey D. Dinis, e delRey D. Pedro, verá quanto melhor he viver em honrada paz, que esperar vitoria ganhada com muito trabalho, e destruiçaõ da gente. Muy bem entendia isto o mesmo Rey D. João, o qual sendo como era taõ esforçado, favoreceo muito a paz, e conta-se delle, que estando esperando a confirmação das pazes perpetuas, que lhe haviaõ de vir de Castella, disse hum dia, que esperava por hum recado do mòr prazer, que nunca ouvera.
Mas naõ basta ao bom Principe arredarse dos inconvenientes da guerra de fora, mas cumpre-lhe tambem guardarse, que naõ se levante alguma dentro no seu Reyno, e Casa. Este mal se escuza quando he bem quisto, e faz muita justiça a seu povo, a todos he notorio, quantas desaventuras, quantas fortunas, vem ao Reyno em que ha differenças antre o Rey, e os vassalos, e esta sem duvida he a mais perigosa, que a de fora, por quanto os males doutra parte pòdem se atalhar, antes que cheguem: os de dentro jà naõ tem este remedio, nem pòde o Principe leyxar d’os ter consigo em sua casa, digo isto naõ por se parecerem estes tempos com os passados, e a virtude de V. Alteza, e assi a lealdade de seus vassalos he tanta, que naõ menos o amaõ, do que os ama a elles; mas porque minha tençaõ he que naõ menos saber, e justiça ha mister o Principe para conservar a paz com os naturaes, que com os Estrangeiros; este respeito tiveraõ alguns Reys de Portugal, naõ sómente em manter estes Reynos em muita concordia, mas em trabalhar muito que a ouvesse nos de fóra. ElRey D. Affonso de Castella Onzeno deste nome, indo com seu Exercito para a frontaria dos Mouros disse em publico que os Cavalleiros da frontaria eraõ taõ bons, como os de Castella, polo qual na batalha d’Ilharcos (que dahi a pouco foy) D. Diogo Lopes de Haro seu Alferes Mòr com todolos Cavalleiros estando assi de concerto fugiraõ, e o leyxaraõ sóo, por onde elle se vio em grande aperto, e foy ferido de duas azagayadas polas pernas, e naõ querendo sahir da batalha por ser muy esforçado Principe, foy necessario aos seus, que o tirassem della. Tanto empèceo huma sòo palavra deste Rey dita contra os Cavalleiros, que de sua condição saõ vingativos; mas quam clemente V. Alteza, e humano seja, e quam afastado de toda a sorte d’aspereza, cousa he a todos muy sabida, o qual sempre uzou, e uza palavras cheas de todo o comedimento, de toda virtude, e bom exemplo, acompanhadas daquella authoridade, que cumpre ao bom acatamento da Magestade Real. O Marquez de Villa Viçoza em huma carta, que escreveo a ElRey D. Affonso V. sobre a ida de Castella, louva muito a paz della com Portugal, e trabalha quanto pòde polo apartar de tal empreza, antes lhe prova por muitas razoens, que elle mesmo se deve meter no meyo, e fazer a paz entre ElRey D. Fernando, e os Cavalleiros, e a este proposito traz hum exemplo delRey D. Joaõ I. o qual sendo, como diz, cometido por ElRey d’Aragaõ para se liarem ambos com os Cavalleiros de Castella a partirem antre si, ElRey depois de tomar o parecer dos Grandes se escusou, dizendo que tinha paz com ella: por isso naõ sem cauza V. Alteza trabalha tanto pola conservaçaõ da boa paz, pois a justiça, o respeito de nossa Santa Fé, o proveito universal, e exemplo, e authoridade de seus antepassados assi o requerem.
Verdade he o que se diz, que o bom Principe dà luz, e claridade de si, como o Sol a todos, o que tanto mais se deve estimar, quanto muitas vezes por culpa de màos Governadores he peor tratada, e naõ sómente com os vassallos, mas com os filhos, irmaõs, e parentes tiveraõ jà muitos Principes differenças, e guerra civil. Escreve-se de Iezabel Rainha dos dez Tribus, e mulher delRey Acab, que sendo mulher desarrezoada, e forte, e de crua condiçaõ, foy causa em seu Reyno de muitos odios, e revoltas, matou todos os Profetas, que pode haver à maõ, e mandou, que se adorassem os idolos no Reyno de Israel, e de Samaria. A Rainha Athalia depois da morte delRey Ochozias seu filho governou o Reyno de Judà seis annos taõ soberba, e cruamente, que mandou matar todos os que vinhaõ da linhagem do Rey David, e pera mòr escandalo, e descontentamento do povo fez edificar hum Templo em Hierusalem, em que mandou adorar hum idolo, que chamavaõ Baàl, e ella porèm foy morta, e ouve o castigo que suas grandes maldades mereciaõ.
Que direy de quantas differenças, e guerras civis ouve no Reyno de França antre ElRey, e o povo? Le-se de Broncilde Rainha de França, e mãy delRey Childiberto, que excedendo a toda a sorte de crueza, matou seus filhos, netos, e bisnetos delles a ferro, delles com peçonha, sómente por uzar à sua vontade de seus màos appetitos deshonestos: esta foy semelhante a Euridice, Rainha de Macedonia, e filha de Amintas, que foy nòra de Felippe, pay de Alexandre Magno, a qual soltando-lhe a redea a seu mào, e torpe dezejo, fez tambem matar muitos seus filhos. Se nos passarmos às Chronicas do Reyno d’Ungria, tambem acharemos que ouve antre ElRey, e povo muitos bandos, e differenças, e leixando os males prezentes, em que hoje aquelle Reyno està metido, que tem dado a toda a Christandade assaz bem trabalho: o Rey Pedro, filho delRey Estevaõ primeiro Rey de Ungria foy lançado della por usar contra seus vassallos grandes cruezas, a estes succedeo Abbà, o qual em conjuraçaõ feita contra elle, foy morto, e assi Salamaõ Rey d’Ungria foy lançado por Gersa seu Primo com Irmaõ.
Naõ hà muito, que fiz mençaõ delRey D. Pedro de Castella; este reynou taõ cruamente, que sendo lançado della, e querendo vir-se cà, ElRey D. Pedro, sendo naõ pouco seu parente, o naõ quiz acolher, por onde lhe foy necessario passarse a Inglaterra. Ainda he cousa fresca na memoria dos homens, como o Rey de Dinamarca por semelhantes odios, foy lançado de sua terra deshonradamente, e hoje em dia està prezo: que direy no Reyno de Castella, quantas differenças, quantas conjuraçoens houve antre os Reys della, e seus Filhos, e Irmãos, e outros muitos da Casa Real, mas naõ me quero deter em cousa taõ clara; abaste a comparação destes para se ver quamanho louvor he o de V. Alteza; e quanto lhe devem seus Vassallos, vivendo por sua causa taõ afastados de tantos males. Esta bondade, este amor, que mostra, naõ somente aos Infantes seus Irmãos, de que depois direy, mas a todos em geral, e assi o trabalho, que sempre toma para nosso descanço, accrescenta mais o amor, que lhe seus Vassallos tem, o qual he mais firme, e aproveita mais aos Principes; que todas as fortalezas por mais fortes, que sejaõ.
Aos Emperadores de Roma Tito, e Nerva, e Adriano, e Antonio, e Marco por serem bons Principes, naõ eraõ necessarios Soldados, nem gente armada, que os guardasse; os seus costumes, a boa vontade do povo, o amor do Senado os defendia, e polo contrario aos màos Emperadores, como foraõ Nero, Caligula, Vitelio, e outros muitos, naõ abastavaõ os exercitos, que o Imperio Romaõ tinha em todo Levante, e Ponente para se poderem guardar de seus proprios Vassallos, e por sua mà vida, e costumes eraõ os mòres inimigos, que tinhaõ. He cousa muito para notar, que de vinte e seis Emperadores, que foraõ de Julio Cesar atè o Emperador Maximino, os dezaseis foraõ mortos a ferro, e os dez sómente morrerão de sua morte: por isso tomem os outros Reys Christãos exemplo de V. Alteza, e aprendaõ delle a viver em verdadeira paz, e sem duvida tal deve ser o Principe para em fama, e gloria exceder os outros: jà naõ recearey dizer alguma cousa porq́ sey de mim digo verdadeiramente a qual he, que sempre folgára de ser Portuguez, mas agora o folgo de ser mais, que nunca.
Muitas vezes cuidando eu, quantas mudanças, e differenças d’estados houve nos Reynos de Portugal, acho que nunca tanto floresceraõ, como agora, e para que mais claramente se veja pola comparaçaõ de cada tempo, o que eu digo ser assi, brevemente farey de todos mençaõ. Jobel filho de Jafet, e neto de Noè depois do diluvio veyo ter a Hespanha, a qual delle, e de seus descendentes se povoou, estes se governarão por Reespublicas, e Comunidades. O primeiro homem, se queremos dar fé às fabulas antigas, que nella, e em Portugal entrou com exercitos, e a conquistou, foy Bacho, depois os Curetes, gente da Grecia, seguindo a Gargores seu Capitaõ, se fizeraõ senhores della, o qual Gargores foy excellente Principe, e ensinou aos povos de Hespanha muitas cousas necessarias para a vida, e proveito cõmum, por onde os successores deste pacificamente reinaraõ atè o tempo delRey Giriaõ, em cujo tempo, vindo Hercules o venceo, e nella ordenou novo estado. Depois, segundo dizem, reynou Hispalo, de quem se nomeou Hespanha, mas da successaõ dos Reys, que deste vieraõ, e de como se acabaraõ, a fama he incerta, e muy obscura, posto que os Andaluzes antigamente se sohiaõ gavar, que tinhaõ escripturas de seis mil annos: o que eu destes tempos por conjectura alcanço he, que Hespanha se tornou a governar por Comunidades, e este regimento durou atè que os Cartagineses com achaque de socorrerem a Cidade da Calez, fundada polos Phenices, se fizeraõ senhores da mòr parte della. Ao Emperador dos Cartaginenses succedeo o dos Romaõs, que depois de grande perda, e estrago de seus exercitos em cabo de 300 annos sendo Emperador Octaviano acabaraõ de a conquistar, mas em nenhuma parte desta Conquista tiveraõ os Romaõs mor fadiga, que em Portugal.
Daqui sahio Viriato Portuguez Capitaõ, que desbaratou muitos exercitos Romaõs em batalha campal, e em fim nunca pode ser morto, se naõ à treyçaõ por engano, e astucia de Cayo Lelio Capitaõ dos Romaõs: daqui se fez Sertorio contra elles com a gente Portugueza, lhes deu muito trabalho, alevantando depois Portugal, e naõ querendo obedecer a Roma, foy mandado cà Julio Cesar, e naõ devia Provincia taõ forte ser vencida, se naõ por Capitaõ nunca vencido. Geral opiniaõ de todos he a naçaõ Portugueza ser mais forte, e esforçada de toda Hespanha, mas sendo (pola longa paz) Portugal afastado do uso das armas, e tendo perdida muita parte da gloria, que com o exercicio dellas em outro tempo ganhàra, ouzou Atila Rey dos Hunos mandar contra nos hum exercito de Suevos gente d’Alemanha, que occuparaõ este estado, e assi por espaço de cento, e setenta annos houve muitos Reys Suevos em Portugal, atè que com muito trabalho foraõ lançados polos Godos, porque depois da vinda dos Suevos os Godos seguindo Athanarico (que segundo dizem foy primeiro Rey antre elles) poderosamente entraraõ em Hespanha no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de trezentos e trinta e tres, e a tomaraõ, excepto a Portugal, que entaõ, como disse, estava polos Suevos, depois Theodorico Emperador dos Romaõs venceo os Godos, e os meteo debaixo do seu Imperio; mas naõ duraraõ mais que 18. annos sogeitos; e logo Alarico seu Rey, que era natural do Reyno d’ Ungria, e por geraçaõ vinha dos Balteos gente de baixo do Norte, se alevantaraõ, e tornaraõ a fazer senhores de Hespanha. Este Rey Alarico foy muy esforçado Principe, e se fez Senhor de muita parte de Hespanha: nestes tempos havia hum Rey dos Godos em Castella, e outro dos Suevos em Portugal, atè que ElRey Theodorico, vencendo em batalha campal a ElRey Reciario lhes ganhou Portugal, e porque dos Suevos ficava ainda alguma parte, ElRey Leovigildo acabou d’os lançar de todo, e assi os Reys Godos ficaraõ em posse pacifica de toda Hespanha, atè a derradeira destruiçaõ della, que foy em tempo delRey D. Rodrigo, e sendo depois, como sabemos, lançados os Mouros, se veyo a partir em muitos Reynos como saõ Leaõ, Castella, Aragaõ, Navarra, e Granada, e aos Antecessores de V. Alteza coube Portugal, cujos louvores, e feitos d’armas, porque delles as nossas Chronicas estaõ cheas, naõ he necessario dizellas eu, nem menos se deve tratar em taõ piquena obra.
Sómente he para notar, que querendo Deos restituir a gloria destes Reynos quiz, que reynasse o muy Excellente Rey D. Afonso Henriques, o qual continuamente pelejando pola Fè Catholica, e vencendo muitos Reys Mouros em batalha campal renovou a fama da gente Portugueza, e deu bemaventurado, e prospero começo ao Estado prezente: muitos Reynos dos Gentios começaraõ em Reys esforçados, mas por naõ adorarem, nem conhecerem o verdadeiro Deos duraraõ pouco, este Reyno sendo ganhado a Mouros, e começado por Rey Christianissimo, e continuado por Reys naõ menos Catholicos, devemos d’esperar, que durarà para sempre. Naõ descançaraõ os Reys de Portugal, donde V. Alteza vem, atè que de todo naõ lançaraõ os Mouros delle, em que se vè quanto mòr louvor mereceraõ, que os outros Principes, que nos tempos mais atraz o conquistaraõ, por quanto os Reys de Portugal mais antigos sojugaraõ, e trataraõ mal os naturaes: os da linhagem delRey D. Afonso Henriques favorecendo os naturaes sómente conquistaraõ, e venceraõ os de fóra: os Reys muito antigos tinhaõ Portugal como Provincia, e tributaria: os que deraõ começo à successaõ prezente, reynando justamente o amaraõ como sua patria, e terra natural: dos primeiros tempos, havendo muitas differenças de estado era necessario, que nascessem bandos, e guerras civis, nos tempos mais chegados houve poucas differenças, e se algumas houve logo foraõ apagadas em breve tempo; assi que claro se vè, quanto mais prospero he o estado presente, que o dos tempos atraz, o que ainda foy mais notorio reynando o muito victorioso Rey D. Manoel vosso Pay de bemaventurada memoria, e assi agora o he em tempo de V. Alteza, cujo glorioso Reynado tanto amor, honra, e preço dà a Portugal, quanto a gloria de seo Regimento, e Conquista, que tem, excede a fama, e memoria de seus antepassados.
Qual Principe de Portugal naõ digo eu, mas d’ Europa, triunfou da Ethiopia, da Arabia, dos Persas, e dos Indios, descubrio tantos mares, tantas Ilhas, deu tantas terras naõ conhecidas ao mundo? Qual Principe converteo a Fè de Christo tantas Provincias, tanta multidaõ de almas, cuja bemaventurança naõ pode leyxar de ser comunicada com a causa della? Qual Principe com as suas vitorias, e triumphaes armadas rodeou o Mar Occeano, passou os termos, e limites da navegaçaõ geral, alcançou taõ grande fama na derradeira parte do Oriente, foy taõ temido de Reys poderosos, e Senhores taõ apartados, finalmente fez conversaveis aos Christãos com as Nações do nosso Ponente? Sem duvida esta tamanha gloria, este tamanho bem, para o muy Victorioso Rey D. Manoel, e para V. Alteza estavaõ guardados, ambos isto usaraõ, ambos isto cõmetteraõ, e poderaõ levar àvante, polo qual bem he, que o Pay, e o filho comuniquem huma mesma gloria juntamente: os Reys seus antepassados com muita razaõ foraõ louvados polas victorias, que dentro neste Reyno houveraõ, V. Alteza alèm de seus naturaes manter em muita paz, e justiça, manda continuamente por mar, e por terra seus exercitos, e grossas armadas contra os Infieis, buscando sempre novos triumfos, e vencimento; de tal maneira tempera a paz com a guerra, que nem seus Reynos carecem do bem da paz, nem a força, e opiniaõ da gente se perde por falta de exercicio das armas.
Sempre com muita razaõ foy dado o principal louvor aos que ordenaraõ as cousas pertencentes a Deos, e à sua verdadeira Religiaõ, apoz estes foraõ louvados os que fundaraõ Reespublicas, e as poderaõ conservar com muita paz, e o terceiro lugar mereceraõ os Reys, e Principes, que com Exercitos, e armas acrescentaraõ seu Estado, no quarto foraõ postos os Letrados, e dahi segundo seu grào mereceraõ seu louvor, pois se cada hum destes estados por si merece tanto, que louvor deve ser o do bom Principe a quem de tantos, e taõ grandes bens, juntamente cabe muita parte? Por certo taes devem ser os bons Reys, e por serem antigamente taes, muitas Comunidades se tornaraõ em Reynos, e muy poucos Reynos em Comunidades, como se lè do Reyno de Toscana em que reynou Porsena, o qual foy desfeito, e dahi por diante governado por doze povos. No principio do Mundo os homens viviaõ em Reepublica, e depois vieraõ a ser governados por Reys, que he o Estado, a que a natureza mais se inclina, mas antre as virtudes do bom Regimento, a conservaçaõ da boa paz he muito aceita a Deos, e proveitoza às Reespublicas, e naõ sem causa: quando Saturno reynou em Italia, por governar seu povo justa, e pacificamente, os Poetas a este tempo chamaraõ dourado, e Numa Pompilio segundo Rey dos Romaõs, por ser amador da paz naõ mereceo menos louvor, que Romulo seu antecessor por ser grande, e muy esforçado Capitaõ; e sendo temperada a opiniaõ, e exercicio das armas que ficou de Romulo, com a paz de Numa o povo Romaõ veyo a ser bem quisto de seus vizinhos, e comarcaõs; mas porque mal se conserva esta virtude, quando naõ he fundada em serviço, e devaçaõ de Deos, V. Alteza como Principe Christianissimo em nenhuma cousa he mais occupado, nem traz mais pronto seu pensamento, que em cumprir perfeitamente, tudo quanto toca ao serviço de N. Senhor, e de sua Santa Fè, sabendo certo, que naõ pòde ser melhor cousa para hum Principe Christaõ, que fazer inteiramente justiça, e o que elle manda. Quem poderia bem dizer quam liberal V. Alteza he nos gastos dos Hospitaes, Mosteiros, e Igrejas de seus Reynos, muitas dellas edificando magnificamente, outras provendo de sumptuosos retabolos, e ornamentos, e geralmente a todas, e assi a muitas fóra do seu Reyno fazendo esmollas muy grandes em todo o tempo?
Que direy do cuidado, que continuamente tem sobre a reformaçaõ das Ordens, veneraçaõ do Culto Divino, e conservaçaõ da Fè Christã? Quam novas maneiras busca, para que em nenhuma cousa, que toque à sua consciencia, offender a vontade de Deos; clara cousa he ao Mundo sua verdadeira devaçaõ, claro he o bom exemplo, que assi nesta, como em todalas outras virtudes dà de si. Quam bem estaõ estas tres partes a hum Principe, justiça, amor da paz, e Religiaõ? Quam bem se concertaõ antre si, e ajudaõ huma à outra? Por certo naõ se pòde melhor, nem mais fermosa cousa pintar aos olhos que a paz esmaltada sobre verdadeira Fé, e amor de Deos, a qual he em si de tanta perfeiçaõ, e merecimento, que a quantos Reys do Testamento Velho, e Principes Christãos inteiramente a guardaraõ, foy sempre causa de grandes bens, e acrescentamentos de seus Estados. Mal se pòde conservar huma Reepublica em que naõ haja amor de Deos, e este amor mais crece na paz, que na guerra, pola qual Numa Pompilio, segundo Rey dos Romaõs (de quem pouco ha que falley, digo isto por quanto a falsa Religiaõ em algumas cousas segue a verdadeira) dezejando que a devaçaõ em Roma fosse mayor do que era, primeiro que nada fizesse, assentou as cousas da paz, e como affirma Tito Livio em todo o tempo de seu reynado, que foraõ 43. annos, em nenhuma cousa mais trabalhou que em ter o povo Romaõ pacifico, sendo certo que desta maneira facilmente o pudera applicar às cousas da Religiaõ. Aquelle muy esforçado, e naõ menos Religioso Principe, Profeta, e Rey David em quanto andou occupado nas guerras necessarias às Reespublicas dos Judeos, naõ pode tambem cumprir, como elle dezejava, o que tocava ao Culto, e Veneraçaõ de Deos, mas depois que vencidos seus inimigos teve paz, compoz elle mesmo em louvor de Deos Psalmos, e Hymnos em diversas maneiras, de metro, ordenou novas maneiras de instromentos, Psalterios de dez cordas, Violas de doze, e Campainhas de arame, com que aos Sabados, e outras festas do anno os Levitas tangendo louvassem a Deos.
Tambem Ezechias Rey de Judà Principe muy Santo estando em muita paz restituio as solemnidades do Templo, e escreve-se delle, que acompanhado dos principaes do povo sohia sacrificar com os Sacerdotes, estando os Levitas ao redor delle, e cantando Hymnos, como foraõ ensinados por David: acabado o Sacrificio, ElRey, e todo o povo se lançava debruços no chaõ, dando graças a Deos por esta tão fervente devaçaõ, mereceo que sojugasse as Cidades dos Philisteos, e que fosse livre do cerco de Senacherib Rey dos Assyrios, e pela mesma causa ElRey David nunca pode ser vencido em batalha. Hircano da linhagem dos Macabeos, Principe dos Sacerdotes, todo o tempo da paz empregava nas cousas da Religiaõ, por onde mereceo, que lhe fosse dado espirito de profecia, e que estando devotamente incensando o Sancta Sanctorum, ouvisse a voz de Deos, que lhe disse, que seus filhos venceriaõ a ElRey Antiocho. Naõ a hy no tempo da paz, cousa mais pertencente à dignidade Real, que o exercicio da devaçaõ, e naõ sem causa antigamente todos os Reys eraõ Sacerdotes, e traziaõ Diadema, que primeiro foy achada por Bacho, a qual era hum pano branco atado derredor da cabeça, que tomarão dos Sacerdotes, para terem continuamente lembrança das cousas, que tocassem à Religiaõ, e da maneira que a devaçaõ aproveita muito aos Reys, exemplo della recebe o povo grande fruto. Se o povo Romaõ naõ vira Numa Pompilio taõ occupado nas cousas Divinas, mal se podera aplicar a ellas, e esquecer dos màos costumes, que o tempo da guerra traz consigo, mas vendo seu Principe tambem inclinado edificar tantos Templos, ordenar tantas Ceremonias, e Sacerdotes, facilmente se demoveo que havia Deos, por onde leixando a força, e as armas se deu ao mesmo Exercicio, e diz Tito Livio, que em breve tempo foraõ os Romaõs taõ devotos, que só o temor, e authoridade da Religiaõ os fazia continentes, e bem ensinados, sem outro temor de leys, nem execuçaõ de penas, e por isso as Cidades vezinhas, e terras comarcaãs, que sohiaõ antes recear o crescimento de Roma, vendo taõ santa mudança de costumes, lhes guardaraõ (em quanto reynou Numa) inteira amizade, avendo por grande mal hirem contra aquelle Reepublica, que tanto cuidado tinha de viver santa, e religiosamente.
Escreve-se que havia em Roma hum mancebo nobre chamado Cayo Valerio Flacco, que sendo muy vicioso, era malquisto de todo o povo, aborrecido de seu mesmo irmaõ, e parentes, o que vendo Publio Licinio Sacerdote mayor, pessoa naquelle tempo singular, e de grãde authoridade dezejãdo muito de emendar huma taõ deshonesta vida, o constrangeo por razaõ de seu officio a q́ fosse Sacerdote de Jupiter, o que posto, que logo no principio parecesse estranho a Cayo Valerio, com tudo depois que se deu ao cuidado das Ceremonias, e cousas Sagradas, em breve tempo se esqueceo da vida passada, e se fez taõ virtuozo, que em toda a Cidade de Roma senaõ achava pessoa mais virtuosa, e honesta, finalmente tanto foy o preço, e estimaçaõ de sua virtude, que lhe foy concedido, que os Sacerdotes de Jupiter dali por diante podessem entrar, e ter assento no Senado, cousa, que athe entaõ nenhum outro Sacerdote podera alcançar.
Pois se a Religiaõ dos Gentios reprovada, e falsa tinha poder polo apartamento dos vicios, e limpeza do espirito de cauzar tanta perfeiçaõ a quem a seguia, quanto mais se deve isto d’esperar da verdadeira Fè de Christo? Por certo Principe Christaõ, que bem conserva esta parte, naõ somente a si, mas a todo o povo, que lhe obedece, e toma seu exemplo, aproveita muito, e tanto mais com esta virtude, que com as outras, quanto he esta mais chegada, e espiritual a Deos, posto que se bem queremos olhar, encadeadas, e tecidas estaõ todas as virtudes antre si, que aonde ha perfeita justiça, tambem ha perfeita paz, e amor do proximo, nem pode aver perfeita paz, sem perfeita Religiaõ. Santa tençaõ era a d’elRey Abias de Judà filho de Roboaõ, o qual naõ sendo mais que de 18.annos, estando para dar com pouca gente batalha a Jeroboaõ Rey dos dez Tribus, que trazia muito mòr exercito, esforçava aos seus, dizendo: que naõ temessem, porque sendo Jeroboaõ injusto, e desprezador da verdadeira Ley, por mais gente que tivesse, naõ poderia vencer, e que pois o fundamento da vitoria estava na justiça, e amor de Deos, que conhecido era a qual das partes se avia mais d’inclinar: isto dizia em seu favor, e da gente do seu Exercito, que antaõ guardavaõ a Ley inteiramente.
Sabida cousa he com quanto cuidado os Romaõs guardavaõ sua falsa Religiaõ, e de crer he, que mais devotos foraõ da verdadeira, se della tiveraõ conhecimento. Escrevem delles, que tinhaõ sobre tudo respeito a naõ jurarem falso: nomeado he o exemplo de Marco Atilio Regulo Capitaõ dos Romaõs, o qual sendo captivo na Cidade de Carthago, e mandado a Roma por parte dos Carthaginenses a fazer huma troca de cativos antre Roma, e Carthago, com juramento, que não acabando nada se tornasse à prizaõ, Regulo depois de vir a Roma, e naõ acabar nada com o Senado daquillo a que viera, podendo ficar na patria, para o que era requerido de todos, e sua mulher, e filhos, e parentes com muitas lagrymas, com tudo quiz antes tornarse a entregar, sabendo certo, que havia de ser morto com asperos tormentos, que naõ ficando em Roma haver de quebrar seu juramento: tambem se escreve, que depois da batalha de Canas em que Anibal desbaratou os Romaõs, vindo à noticia de Scipiaõ, que depois foy chamado Africano, como alguns Mancebos Fidalgos Romaõs desesperando jà da sua Reepublica se queriaõ passar a Sicilia, Scipiaõ os foy logo buscar, e com hum punhal a cada hum nos peitos os fez jurar, que naõ se partiriaõ, nem leixariaõ em tal tempo a Reepublica, e este juramento ainda que fosse com medo, e por força, com tudo foy por elles guardado inteiramente: sem duvida muito necessario he o temor de Deos, e do outro mundo para a conservaçaõ de qualquer Estado, porque o bom Principe por força ha de acatar o temor de Deos, e o seu acatamento dura para sempre. Numa Pompilio, de que jà tratey, e Solon, que deu ley aos Athenienses, e Licurgo, que as deu aos Espartanos, em nenhuma cousa mais se fundavaõ, que em dar grande authoridade às Religioens, sem as quaes viaõ, que nenhum ajuntamento, nem Reepublica podia durar muito tempo.
Le-se de Cyro primeiro Rey de Persia, e Media, que foy Religioso, e devoto, e assi elle como todos os Reys seus successores mandaraõ aos Sacerdotes, e Levitas dos Judeos, que os encomendassem a Deos no Templo, e por este respeito se haviaõ bem com elles, por onde creo eu, que suas cousas hum tempo foraõ tanto àvante. Aquelle graõ Rey Xerxes da Persia, espanto do mundo, que contra Grecia armou hum milhaõ de homens passou hum privilegio de grandes liberdades em favor dos dez Tribus, que entaõ moravaõ nos Reynos de Persia, e Media alèm do Rio Eufrates, e foraõ là passados por ElRey Salmanasar depois de ter vencido ElRey Osias: este privilegio foy entregue a Esdras Judeo naquelles tempos justo, e de muita authoridade o qual o mandou aos dez Tribus; escreve Jozepho, que por este respeito os Judeos ganharaõ grande affeiçaõ a ElRey Xerxes, e alguns se vieraõ com casas movidas a Babilonia para dahi se passarem a Jerusalem, com tudo os mais delles por amor de taõ bom Principe se não quizeraõ mudar, por onde diz o mesmo, que ainda em seu tempo naõ havia mais no Imperio dos Romãos, que dous Tribus, e que os outros dez viviaõ alèm do Rio Eufrates, onde multiplicavaõ sem nenhum conto; mas de todos os Principes Gentios, que foraõ devotos do Testamento Velho, ninguem mereceo ser taõ louvado como Ptolomeu Philadelpho Rey do Egypto, porque desejando muito de entender a Ley dos Judeos mandou a Jerusalem pedir a Eleasar Principe dos Sacerdotes alguns Letrados, que lha viessem declarar, o qual lhe mandou os setenta e dous interpretes, seis de cada Tribu, e com elles a Biblia, que estava guardada no Templo, e vendo ElRey o livro em que estavaõ escritas todas as Leys de Moysés com letras de ouro, maravilhado da formosura da letra, da delgadeza do pergaminho, e sutileza da encadernaçaõ, deu muitas graças a Deos, e chorando com prazer dizia, que dalli por diante saberia reynar.
Este Rey mandou resgatar, e dar liberdade a todos os Judeos, que achassem cativos no Reyno de Egypto, pagando por elles todo o preço aos Senhores, e foraõ livres assy mais de cem mil pessoas, e naõ se contentando desta só magnificencia, mandou offerecer no Templo muitas peças d’ ouro, e prata de grandissima estima, huma das quaes foy aquella Mesa taõ nomeada cuberta de perolas, e pedras preciosas, em que se haviaõ de pòr os doze pães da proposiçaõ. Foy tanta a sua devaçaõ, que em quanto se esta Mesa lavrava, elle per si a hia ver muitas vezes, porque com sua presença mais cedo, e mais perfeitamente se acabasse. Teve Philadelpho com esta virtude outras muitas, foy engenhoso, prudente, liberal, e os mais dos privados, que tinha, eraõ grandes Letrados, e certo huma taõ excellente parte naõ podia estar desacompanhada d’outras muitas, como verdadeiramente diz Plutarco, o Rey he Imagem de Deos, o Rey novo representa ley nova, por isso cumpre muito ao bom Principe ter quatro cousas saber, bondade, poder, e temor de Deos, nas quaes se bem olharmos consiste o bem de todo hum Reyno: estas havia todas em Cesar Augusto Emperador de Roma (a quem naõ minguava nada para ser perfeito Principe, senaõ o conhecimento do verdadeiro Deos) e foy taõ pacifico, taõ justo, taõ quieto seu Imperio, que em seus tempos quiz vir ao mundo a tomar carne nosso Salvador. Antre as virtudes, que neste Emperador havia, nenhuma foy mais louvada, que a Religiaõ, que como jà disse, mais perfeitamente se mostra no tempo da paz: escrevem delle, que ordenou muitos sacrificios em Roma, que per si mesmo celebrava, edificou magnificos Templos, e Casas d’oraçaõ, huma das quaes ainda hoje dura, feita em nome de Marco Agrippa, que foy depois dedicada a Nossa Senhora, que chamaõ a Redonda, e porque o Conselho (a que os Romaõs chamavaõ Senado) senaõ podia fazer senaõ em templo consagrado, ordenou que todo o Senador antes, que nelle entrasse, sacrificasse àquelle idolo, em cuja Casa se haviaõ de juntar, o que fez por cada hum, tendo mòr acatamento à Religiaõ desse seu parecer mais desenganadamente, e sem algum respeito, nem affeiçaõ, sem duvida santa tençaõ de Principe era esta querer começar todas suas cousas de Deos, se como jà disse este seu trabalho fora empregado no amor da verdadeira Religiaõ, e cousa justa he, pois Deos he principio de todalas cousas, que a elle sempre ponhamos diante no começo de todas nossas obras, e por este respeito, quando os Principes antigamente haviaõ de fazer alguma falla, pediaõ ajuda a Deos, tambem o Emperador Trajano, sendo Gentio era muy justo, e devoto.
Se alguem me perguntasse a que fim ajuntey tantos exemplos de Gentios, poderia responder, que pois os Principes idolatras cegos, e envoltos na ignorancia de seu engano com tanto trabalho conservavaõ, e procuravaõ as cousas de sua seita (o que a elles era causa de muitas virtudes, e de seu louvor, e acrescentamento) que devem fazer os Principes Christãos, a que o conhecimento, e veneraçaõ do verdadeiro Deos pode ser causa de tantos mòres bens? Quanto mayor galardaõ merece o bem, que o mal? E a verdade, que a falsidade? Vemos por experiencia, quam bons Principes foraõ, e quanta ventagem fizeraõ aos Gentios os Reys Christãos, que nesta parte mereceraõ louvor.
Tragamos à memoria o Emperador Carlos Magno, e acharemos, que naõ houve Principe, que se compare com elle, muitas virtudes houve nelle, que quem perfeitamente tiver huma, he necessario, que tenha todas as outras, com tudo o amor de Deos, e da Religiaõ lhe deu muito mayor gloria, assi neste mundo como no outro: esta o fez (sendo-lhe pedida ajuda polo Papa Adriano) passar em Italia contra Desiderio derradeiro Rey dos Longobardos com grande exercito, ao qual vencendo em batalha campal foy por elle restituido o Papa à sua dignidade, esta o fez mover guerra a toda Saxonia; a huma graõ parte d’Alemanha por naõ se querer tornar a Fè de Christo lha fez taõ aspera por espaço de trinta annos, atè que por força a sojugou, e fez converter à verdadeira Fè: esta o moveo a tomar a empreza contra os Mouros, que tinhaõ occupado a Hespanha, quando foraõ por elles eleitos os doze do seu conselho, que agora chamamos Pares, ou Padres, seis Leigos, e seis Ecclesiasticos, todos Duques, ou Bispos, ou Condes: esta mesma o fez hir poderosamente contra os Hunnos, gente barbara, de que jà falley, que tinha feito grande danno em toda a Christandade, e com a ajuda de Deos os venceo, e desbaratou, polo qual Leaõ Papa lhe deu novamente a Coroa, e Insignias do Imperio Romaõ: finalmente esta foy causa, que ordenasse a Universidade dos estudos de Pariz, onde continuamente se defendesse a Fè, e ensinasse a Santa Theologia, naõ me occorre Principe dos Gentios, que tanto fizesse por seus idolos, quanto este fez em louvor, e acrescentamento da Fè Christãa, e sem duvida razaõ era, que sendo nossa Fè taõ Santa, e taõ verdadeira, que a virtude della desse mayor animo, e esforço a hum taõ Catholico Principe, e o ajudasse mais em taõ santas empresas.
Oh quam bem està a hum Principe ser devoto! Quam bem està a quem teve a Coroa na terra sobre os homens, ter depois outra muito mais preciosa na Gloria do Ceo! Quam bem està a hum Reyno, poder allegar, que teve hum Rey Santo, e aceito a Deos! Preza-se França d’ElRey S. Luiz, e de Clodoveo filho delRey Childirico, que foy o primeiro Rey Christaõ, que houve nella, do qual se conta, que no tempo que Remigio Bispo Remense o baptizava, appareceo huma pomba no Ceo com huma redoma d’oleo no bico, com que ElRey Clodoveo foy ungido neste Santo Sacramento, donde ficou em costume, que os Reys de França em sua Coroaçaõ fossem ungido com este oleo. Preza-se Ungria delRey S. Ladislao: preza-se Castella da Santidade delRey D. Fernando, que ganhou Sevilha aos Mouros, preza-se Portugal da grande fé d’elRey D. Affonso Henriques (segundo alguns tem de Lorena) que se achou na Santa Conquista d’Ultramar, por isso assi como he grande honra, e proveito do Reyno ser o Principe servidor, e amigo de Deos, e seguir em tudo sua Santa vontade, assi o Rey, que he mào Christaõ, he cauza de grandes males, e dannos a seus vassallos, e naõ sey eu que escuza o tal possa dar a Deos, tendo delle recebido tamanhas merces, como saõ mando, e poder, authoridade, e sobre tudo lume, e conhecimento de sua verdadeira fè: mas esta virtude taõ estremada, e taõ aceita a Deos, taõ particular he a V. Alteza nas obras, quam geral a muitos nas palavras, e o proveito disto nòs o sentimos, e sempre (como espero) sentiremos, nem he de crer que Deos naõ leve sempre avante as cousas deste Reyno, sendo taõ santa, e justamente governado por V. Alteza. Acha-se na Sagrada Escritura que Asà Rey dos dous Tribus filho delRey Abias, tornando-se para Jerusalem com seu Exercito muy alegre, pola vitoria que ouvera contra Zarà Rey da Ethiopia, o Profeta Azarias o veyo esperar ao caminho, e o fez estar quedo, e lhe disse que lhe fazia saber, que elle, e seu Exercito venceraõ, porque viviaõ segundo Deos mandava, o que se levassem àvante, haveriaõ sempre vitoria contra seus inimigos, mas se d’outra maneira vivessem, que lhes aconteceria o contrario, e que tempo viria, que no povo dos Judeos, se naõ achasse nenhum Profeta, nem Sacerdote, que fallasse verdade, e que os Judeos seriaõ lançados por todo o Mundo, e que viviriaõ pobremente, e com muito trabalho, por tanto os amoestava, que naõ se apartassem da vontade, e devaçaõ de Deos.
Quam verdadeiramente o Profeta Azarias isto fallasse, se vio em todo o tempo, e se vè cada dia por experiencia. Claro està, que em quanto ElRey Saul foy obediente a Deos, venceo todas as batalhas, e suas cousas foraõ àvante, ajuntou hum Exercito de sete centos, e setenta mil homens com que desbaratou a Annaàs Rey dos Ammonitas, que vinha contra elle poderosamente venceo com seis centos homens trezentos mil Philisteos alevantando-se entre elles hum grande medo sem causa evidente, que os poz em desbarato; mas depois que Saul contra o mandado de Deos perdoou aos Amalechitas, gente da Arabia, naõ sómente suas cousas foraõ mais adiante, mas perdeo a dignidade Real, e foy dado o Reyno a outrem, que naõ era da sua linhagem. Escreve-se de Joathaõ Rey de Jerusalem, que por ser devoto, e amigo da ley, e por edificar huns Alpendres no Templo de Salamaõ mereceo vencer os Ammonitas: mas escuzado he determe em cousa taõ clara chea està a Sagrada Escritura das grandes merces que Deos fez aos que verdadeiramente o amaraõ, e naõ sómente aos Judeos, mas a todos aquelles, que os defenderaõ, e foraõ em sua ajuda. A principal causa segundo a opiniaõ de muitos, porque Alexandre Magno venceo a ElRey Dario, foy porque passando junto de Jerusalem, e saindo a recebello os Sacerdotes, e Levitas revestidos com grande pompa, e solemnidade, o mesmo Alexandre Magno se deceo a elles, e lhes fez muita honra, e acatamento, e sendo naquelle tempo Jerusalem muy rica, e populosa de duas legoas de cerca, segundo escreve Hecateo, que foy no mesmo tempo, em que havia cento, e tantos mil homens, com tudo naõ quiz entrar nella, nem consintio que polos seus lhe fosse feito algum danno.
Tambem o Emperador Julio Cesar, por favorecer o povo dos Judeos se cre que mereceo ser vencedor nas guerras civis que teve com Pompeo, e polo contrario Pompeo se perdeo, porque na guerra, que teve em Asia, sendo Capitaõ dos Romaõs, entrou em Jerusalem por força no dia sabado, e andou vendo o Templo armado com sua gente, sem fazer nenhum acatamento, nem reverencia a Deos, e sabido està, que dali pordiante suas cousas foraõ de mal em peor. O mesmo aconteceo a Marco Crasso, Capitaõ Romaõ, pessoa de graõ riqueza, e authoridade, este passando por Jerusalem com seu Exercito, e sabendo que estavaõ guardados no Templo de Salamaõ oito mil talentos, que eraõ cinco contos de ouro pouco mais, ou menos, e sendo de seu natural muy cobiçozo, os tomou por força sem nenhum respeito, polo qual peccado foy logo vencido polos Parthos em batalha campal em que morreraõ quarenta mil Romaõs.
Naõ leixarey de trazer aqui à memoria o caso d’Antiocho Rey de Asia, chamado por sobrenome Epiphanes, que quer dizer illustre, ou claro, o qual teve tamanho odio aos Judeos que destruio Jerusalem, roubando quanto achou no Templo, e levando a meza de Philadelpho, mandou dentro do Sancta Sanctorum alevantar hum altar em que fazia sacrificar porcos, constranger por força aos Judeos, que adorassem os Idolos, e comessem carne de porco, defendeo-lhes a circuncisaõ, edificou hum Castello em Jerusalem, em que poz guarda de gente, derribou os muros da Cidade, e os o que ousaraõ contradizer, mandou crucificar, e matar com desvaraidos tormentos: por estas cruezas, e desprezo da verdadeira Ley padeceo depois grandes males, e dezaventuras, e emfim morreo de huma morte muy acelerada com grandes dores, que sem nenhum repouso o atormentavaõ. Antiocho estando para morrer dizia bramando, que elle merecia os males prezentes, e os passados por tratar mal o Templo, e povo dos Judeos. Destes exemplos consta claramente, que no tempo ds Ley velha favorecia Deos não sómente aos Judeos, que o serviaõ, mas tambem a quem os ajudava, e pelo contrario a muitos, que os perseguiaõ, sohia dar grave castigo, e assi como os Reys do Testamento Velho se eraõ justos, e chegados a Deos, haviaõ grandes vitorias, assi os que taes naõ eraõ, as mais das vezes haviaõ dezastrados fins, e eraõ vencidos de seus inimigos, ainda que fossem mais poucos.
Quem naõ sabe, que o Reyno de Jeroboaõ se perdeo polo dezacatamento do verdadeiro Deos? E he para notar, que a mòr parte dos Reys de Israel, por causa de semjustiça, e idolatria viveraõ pouco tempo, de maneira que em quanto reynou em Jerusalem ElRey Asà Principe justo, e devoto, que naõ foy muito tempo, ouve no Reyno de Samaria muitos Reys idolatras, que todos ouveraõ mào fim, e succedendo no Reyno dos dez Tribus ElRey Osias, e levando àvante as idolatrias de seus antepassados, permitio Deos, que viesse contra elle Salmanasar Rey dos Assirios com grande Exercito, o qual tomando por força a Cidade de Samaria, o prendeo, e levou consigo cativos todos os dez Tribus às terras da Persia, e Media, donde depois mandou aos Chuteos gente da Persia, que viviaõ naõ longe de Babilonia, que viessem povoar a terra de Samaria, que ficava deserta, os quaes cumprindo o que ElRey mandava foraõ depois chamados Samaritanos, e tal fim ouve o Reyno de Jeroboaõ, e a idolatria, e pouca devaçaõ dos dez Tribus de Isrrael: pola mesma causa o Reyno de Judà sentio muita parte destes males, e escrito està, que Achaõ Rey de Judà foy taõ mào Principe, taõ desprezador de Deos, e taõ contente dos costumes de Samaria, que mandou alevantar em honra dos idolos altares em Jerusalem, em que sacrificou hum seu proprio filho, seguindo nisto o barbaro, e abominavel costume dos Cananeos, finalmente mandou cerrar o Templo de Salamaõ, defendendo que se naõ sacrificasse mais nelle, por onde mereceo ser vencido em batalha campal por ElRey de Samaria, e lhe serem mortos nella cento, e trinta mil homens; tambem ElRey Manasses por adorar os idolos, e matar muitos Profetas, foy vencido, e levado cativo a ElRey de Babilonia, mas arrependendo-se do seu peccado foy restituido a seu Reyno, e veyo a ser bom Rey, e amigo de Deos.
Quem naõ sabe a causa por onde mereceraõ os Judeos ser levados cativos a Babilonia no tempo de sua transmigraçaõ? Sem duvida o principio de tanto mal nasceo do esquecimento da Religiaõ, e a este vicio estavaõ jà taõ abituados, e entregues os Judeos naquelle tempo, que posto que o Profeta Jeremias, vendo os males, que cedo haviaõ de vir, lhes rogasse com muitas lagrimas, que se convertessem, com tudo nunca o quizeraõ crer, athè que viraõ as lamentaçoens do Profeta sahir verdadeiras em tempo, que jà o dezengano dellas naõ podia aproveitar: abominavel cousa era idolatrarem os Judeos mòrmente tendo taõ claro conhecimento de Deos, e guardarem peor sua verdadeira ley do que os Gentios guardavaõ sua falsa Religiaõ, os quaes em algumas partes davaõ graves penas a toda a pessoa, que ou desfazia os Deoses, que jà eraõ recebidos, ou queria acrescentar alguns de novo, e por esta causa foy acuzado Socrates, e condennado à morte Anaxagoras, Clazomenio Filosofo foy morto polos Athenienses, por affirmar que o Sol, que elles adoravaõ, carecia de todo o sentido, assi que com muita razaõ os Judeos naõ honrando, nem amando a Deos, como eraõ obrigados ouveraõ taõ grande castigo, e por este peccado naõ somente o seu Reyno, mas o Principado dos Sacerdotes sahio algumas vezes da linha direita; tirou Deos esta dignidade aos filhos de Hely, e fez Principe dos Sacerdotes a Samuel: depois naõ sendo os filhos de Samuel dignos della, foy entregue o mando, e authoridade a Saul, e elle tambem naõ cumprindo em tudo a vontade de Deos, posto que trabalhou muito de leyxar o Reyno, e bençaõ a seu filho, o naõ pode nunca alcançar, e foy dado a David, porque he cousa impossivel resistir ninguem à vontade de Deos.
Muitas, e grandes victorias alcançou o Emperador Theodosio Principe Christianissimo, porque sendo em todas as outras virtudes muy semelhante ao Emperador Trajano, no conhecimento, e veneraçaõ do Salvador do Mundo lhe levou muita ventagem. Com esta virtude acrescentou nossa Santa Fè, e desbaratou os Godos, e Hunnos, e mereceo, como diz o Poeta Claudiano, que as settas, e lanças dos inimigos se voltassem pelo ar milagrosamente contra elles, e os desbaratassem. Conta se delle, que quanto mais velho se hia fazendo, tanto mais excellente Principe era, o que he muito de louvar, porque vemos muitos com a longa idade hirem perdendo a vergonha, e usarem do mando, que lhe foy dado para muy desviadas cousas do seu fim. Taes foraõ os Emperadores Adriano, e Nero, e Philipe Rey de Macedonia, filho de Antigono, porque começando a reynar virtuosamenre, deraõ depois mà conta de si, e acabaraõ mal. Mas a muita devaçaõ, e fé do Emperador Theodosio o naõ leyxavaõ errar, nem sahir do verdadeiro caminho, que quem em Nosso Senhor tem posto o alvo de toda sua esperança, este quanto mais cresce em idade, tanto mais crescerà nelle toda a virtude, e perfeição, nem seus inimigos por mais poderosos, que sejaõ, lhe poderaõ resistir. Naõ he muy antiga a Conquista de Ultramar, em que milagrosamente os Christaõs houveraõ muitas victorias contra os infieis pola fé, que levavaõ, a qual he de muito mor força, que todos os Esquadroens de gente armada, e polo contrario o Emperador Juliano, que foy chamado Apostata, porque perseguio a Fè dos Christãos, e foy muy dado à falsa idolatria, houve desastrado fim.
Finalmente grandes dannos receberaõ sempre os Principes Christãos em que houve pouca Fè, e assi grandes mercès houveraõ de N. Senhor os que a seguiraõ, e se abraçaraõ com elle verdadeiramente, mas quando para prova disto se naõ allegassem memorias do tempo passado,abastava só o exemplo de V. Alteza, em cujo prospero reynado logra Portugal tantos bens, quantos naõ sey se poderiaõ ser acabados em outro algum Reyno de Christaõs: crece nelle a virtude, assi como vay crecendo a idade, e quando jà parece, que naõ pode mais crecer, entaõ acha caminho de novo crescimento, que o que a nòs he perfeita satisfaçaõ, a elle sempre he começo. Com razaõ seria louvado algum Principe usando algum tempo parte das virtudes de que V. Alteza sempre usa, e isto com tanta vontade, e firmeza, que lhe fica jà em natureza, vigia sempre por onde nòs descansemos, e trabalha polo premio, que nòs havemos d’haver, e em tanto sómente descansa, quando do grande amor, que nos tem, nasce algum bem universal; todos os dias gasta no que cumpre a nosso proveito, e se alguma hora lhe parece, que tem satisfeito a muito grandes negocios, que tem, toma por passatempo, e descanso do trabalho passarse a outros trabalhos de novo.
Dous grandes bens, que a todos aproveitaõ, vemos sempre em V. Alteza certeza de sua bondade, como se jà fosse Rey de muitos annos, e grande comedimento, como se pouco hà, que começasse a reynar: mà parte he a do Principe dizer a seus Vassallos palavras de escandalo, nem graças, que toquem, as quaes quando nascem da verdade, leixaõ aspera memoria nas vontades, e este mal tanto he mòr, quanto as pessoas, que as dizem, saõ de mòr authoridade. De Tiberio Gracco se lè, que sendo na guerra de Anibal Capitaõ de hum Exercito (que com mingoa d’outra gente ajuntado d’escravos) mandou em seu Arrayal lançar hum pregaõ, que sobpena da vida, ninguem ousasse chamar a outro escravo; e se Tiberio Gracco antre pessoas taõ baixas, e iguaes houve por taõ perigosa huma commua offensa de palavras, com quanta mòr razaõ se deve isto recear, quando nasce o tal escandalo de pessoas principaes?
Mas posto que V. Alteza desta temperança, que usa, e amor que tem a seu povo, naõ queira na vida outro interesse, que a execuçaõ da mesma virtude (que pola mòr parte dà de si tanto contentamento) que escusa toda a outra satisfaçaõ, com tudo daqui nasce ser jà tam bem quisto de seus Vassallos, que cada hum delles o ama, como a Pay, e teme como a seu Rey, e Senhor natural. Dizia Xenocrates Filosofo antigo, que entaõ se tivesse o Principe por mais seguro, quando fosse cercado naõ de muros, mas da força de seus amigos, naõ d’armas, mas do amor de seu Vassallos, naõ de gente da sua guarda, mas de sua propria bondade, e virtude, e que com estas tres cousas se ganhavaõ os Reynos de novo, e os ganhados se conservavaõ. Mal se pode conservar o Reyno em que os Vassallos haõ medo aos Principes; e naõ lhe querem bem, por tanto quem tras o cuidado em reger bem, deve ganhar a vontade de seu povo, nem sofrendo, que lhe seja feita sem razaõ, nem a tendo em pouco depois de feita, e de tal maneira deve estimar os Grandes, que os mais baixos lhes naõ tenhaõ odio, e os sem culpa lhe naõ hajaõ medo: sobre tudo naõ mande alguma cousa com ira, que as mais vezes cega o verdadeiro juizo da razaõ, e para nunca errar, ha de fazer conta, que representa a mesma Ley, a qual no castigo, que dà, se move sempre por igualdade, e naõ por tençaõ, ou merencoria. Naõ faça o Principe alguma cousa duvidando se he mal, ou bem, por quanto a verdade onde quer, que està, ella se mostra, e dà lume de si, e polo contrario o duvidar he sinal, que se naõ faz o que he razaõ. As guerras, que começar para conservaçaõ da Reepublica, e defensaõ da paz he a que sobre tudo se deve ter respeito, nem cuide, que a virtude consiste só no entendimento, mas no uso, e execuçaõ della. Nem olhe menos o que faz, que o que deve fazer, e principalmente trabalhe, que a justiça se continue, cujo officio he, que naõ se empeça a ninguem; e que em tudo se sirva, e tenha respeito ao proveito commum. Naõ hà engano mais prejudicial, que o daquelles, que no tempo em que mais enganaõ, trabalhaõ por parecer homens de bem.
Por isso no Principe naõ deve entrar dissimulaçaõ alguma, nem arte, mas em tudo seja claro, constante, e forte com tal temperança, que nem seja havido por muy aspero, por quanto muito direito se torna em sem razaõ, nem tambem seja taõ brando, que possa caber nelle o proverbio Grego, que diz: Os mandados mandaõ a quem manda. Finalmente naõ faça cousa, que naõ queria ser-lhe a elle feita, e quem estas partes tiver, por certo serà muy quisto, e amado de seu Povo. Razaõ he, que o contentamento de V. Alteza seja muy grande, vendo quam inteiramente satisfaz a todas as partes de bom Principe, e que as virtudes, que poucos Filosofos com grande seu trabalho em muito tempo puderaõ alcançar, elle por si as poem jà todas em obra perfeitamente. Os Romaõs sabendo bem, quanto mais a conservaçaõ do Estado pendia do amor dos Vassallos que do sitio, ou força do lugar, naõ tinhaõ fortalezas nas Provincias, que sojugavaõ, nem cuido eu, que por outro respeito Octaviano Fragoso mandasse desfazer em nossos tempos a fortaleza de Genova, que fora feita pouco antes à entrada do Porto por mandado d’ElRey Luiz de França. Tambem o Duque de Urbino chamado Guido Ubaldo, que naõ muito hà que foy restituido a seu Ducado, de que fora lançado pelo Duque Valentino, mandou derribar todas as Fortalezas, que o mesmo Duque leyxàra feitas, o que fez por ser bem quisto da gente, e obrigar mais a vontade a seus Vassallos. Naõ podem os subditos amar ao Principe, que os naõ ama, por isso os Emperadores Augusto, e Theodosio amaraõ muito a seu povo, e foraõ naõ menos bem quistos delle, e Augusto foy taõ amado, que publicamente foy chamado Pay da patria. Louva Plinio em seu Panegyrico a Trajano, que antes de ser chamado Pay da patria polos Romaõs, o era jà nas obras, o qual foy taõ zeloso do bem, e affeiçoado a seus Cidadaõs, e Vassallos, que se affirmava em seu tempo, que a alma do Emperador Augusto vinha fallar com elle, e naõ sómente os Principes, mas ainda os Tirannos, se saõ bem quistos, podem conservar pacificamente seu Estado. Pouco hà, que Anibal Bentivoglio foy tiranno de Bolonha, este foy taõ amado da Reepublica, que sendo morto à treiçaõ por conjuraçaõ dos Canescos, no mesmo ponto toda a Cidade se alevantou contra elles, e os matou sem ficar nenhum, e ficando delle hum menino por nome Joaõ Bentivoglio mandaraõ logo a Florença buscar outro seu filho, que era bastardo, que atè entaõ fora havido por filho d’hum Ferreiro, ao qual fizeraõ Governador em quanto Joaõ Bentivoglio naõ fosse de idade, e tanto que foy, lhe entregaraõ o Governo com muita fé, e fidelidade.
O contrario se lè de Philipe Rey de Macedonia pay do grande Alexandre, que foy mal quisto, e aborrecido de toda a gente, e em hum dia grande de festa, em que se casava sua filha Cleopatra com Alexandre Rey de Epiro, foy morto por maõ d’Amintas seu Criado. Quem naõ sabe o fim, que houve Galeazo Duque de Milaõ morto às punhaladas por maõ de Joaõ Andrè de Lamponhaõ, e assi Agotocles tiranno em Sicilia, sendo valente Cavalleiro por màos costumes veyo a ser mal quisto: Este entre muitas cruezas, que uzou fez matar em hum só dia a hum certo sinal, a todos os Senadores, e principaes da Cidade de Saragoça. O Duque Valentino Cesar Borja em nossos tempos por sua muita crueza foy taõ aborrecido, que ouve depois o fim que todos sabemos, e antre outras cousas matou na Cidade de Senegalha muitos Senhores principaes Ursinos, e Vitellos, trazidos alli por elle a falsa fè; e hum destes foy Oliveroto, que antes se fizera tirano da Cidade de Fermo, matando em hum banquete todos os principaes da mesma Cidade. Foy certo notavel exemplo querer Deos, que hum tiranno fosse morto por outro tiranno, e quem por trayçaõ matàra, que elle tambem fosse morto a trayçaõ.
Se queremos exemplo da Sagrada Escritura tambem nos poderà ensinar, quam prejudicial cousa he aos Principes o odio do povo. A ElRey Aristobulo dos Judeos succedeo no Reyno seu irmão Alexandre, o qual sendo magnanimo, e valente Cavaleiro por tratar mal a seu povo, e lhe fazer muitas injurias, e vexaçoens veyo a cahir em grande, e geral odio, em muitas dezaventuras: foy tão mal quisto, que ousava o povo esquecido de si mesmo, e do acatamento devido à Real Magestade em sua prezença delle rogar-lhe em vozes altas a morte. Naõ foy isto sem causa, porque em hum só dia fez Alexandre crucificar perante si 800. Judeos dos principaes do povo mandando primeiro matar suas molheres, e filhos diante delles. Escreve-se d’Amasias Rey de Judà filho delRey Joàs, que começou a reynar temperadamente, mas depois alterado com a vitoria dos Amalechitas adorou os idolos, e tratou mal o povo, por onde estando para dar batalha a Joàs Rey de Samaria alevantou Deos em seu Exercito hum grande espanto, sem nenhuma causa, em que todos foraõ desbaratados, e elle ficou prezo em poder de seus inimigos, e assi seu filho ElRey Ozias começou tambem, e venceo os Arabes, e Amònitas, e muitas outras gentes, mas seguindo o mào exemplo de seu pay, e tornando-se inimigo de Deos, e de seu povo ouve mà fim como seus máos costumes mereciaõ. Escrevem delle, que querendo em huma festa principal entrar revestido como Sacerdote no Templo a offerecer no altar do ouro, ou incenso a Deos, e indo-lhe à maõ Azarias, com outros oitenta Sacerdotes, dizendo isto naõ ser dado senaõ aos que vinhaõ da casta, e sangue de Aaron. ElRey os ameaçava, que os mandaria matar se senaõ calassem. Estando nisto se levantou hum terremoto, e defronte da Cidade no lugar chamado Eroge arrebentou ametade de hum monte, que estava contra a ponte, e com grande impeto correo a terra por espaço de quinhentos passos, e foy alagar as hortas delRey, nas quaes se deteve sem passar mais adiante, e onde estava Ozias, a claridade do Sol se fez muito mais clara, e resplandecente, e dando-lhe no rosto ficou cheyo de lepra, de que depois morreo, e por esta enfirmidade lhe foy necessario sahir-se de Jerusalem. Que direy da maldade de Joraõ Rey de Judà, que certo naõ mereceo ser filho de tal Principe, como foy ElRey Jozaphat, matou seus irmãos, e quantos amigos tivera seu pay, e foy o primeiro, que fez adorar os idolos em Jerusalem, constrangia seu povo sobir aos montes altos, e adorar os Deozes falsos, e naõ conhecidos? Nem foy menos preverso ElRey Ochozias seu filho, e elle, e Joraõ foraõ depois mortos por hum Capitão Gentio.
Naõ me quero deter em huma cousa taõ clara, como he a prova de hum taõ grande vicio, o qual sem duvida he tamanho, quam grande virtude sempre foy, e hade ser hum Rey, e Senhor natural de todos poderse com razaõ chamar Pay de todos. Naõ hade viver o Principe para si só, nem para sua deleitaçaõ, mas para com muito trabalho, e continua vigia ganhar o amor de todos seus vassallos, como fez o muy esforçado, e prudente Rey David, de quem se escreve, que tendo vencido seu filho Absalaõ, que se lhe erguera com todo o Reyno, e tornando-se com vitoria para Jerusalem, encontrou o Tribu de Judà ao Rio Jordaõ, que se adiantàra ao hir receber, e queixando-se disto os outros Tribus, que ficaraõ mais atraz no lugar que chamaõ Galgalà, o Tribu de Judà se escusava polo parentesco que tinha com David, a isto responderaõ os principaes dos outros Tribus estas palavras: Espantados somos de vòs irmãos, cuidares, que ElRey só he vosso parente, por quanto quem sobre nòs todos recebeo o mando de Deos, este com nosco todos tem igual parentesco, e sendo nòs as onze partes do povo, e vòs a huma, e assi sendo mais antigos, que vós, naõ fizestes bem em nos querer tomar a dianteira escondida, e maliciosamente; sem duvida, razaõ tinhaõ nestas palavras os onze Tribus, que tanto que huma pessoa he Principe, logo cessaõ os respeitos particulares, e obedecem ao proveito commum, e he para notar o grande amor, que os Judeos tinhaõ a ElRey David, que elle merecia por suas grandes bondades, e affeiçaõ que tinha a seu povo.
Naõ cuide alguem, que as merces, e liberalidades dos Principes tem mais força para os fazer bem quistos, que a santidade da vida; porque naõ ha cousa (se me naõ engano) mais poderosa, nem de mór efficacia, para ganhar a vontade dos vassallos, que os bons costumes. Felipe Rey de Macedonia, sabendo que seu filho Alexandre por ganhar a vontade d’alguns Fidalgos lhes fazia merce de dinheiro, dizem que ouve graõ merencoria, e lhe escreveo huma breve carta por estas palavras: Qual razaõ, filho, te demoveo a cuidares, que te haviaõ de ser fieis amigos os que por dinheiro forçasses athe quererem bem? Enganas-te, o verdadeiro amor naõ se compra per dinheiro. E tinhaõ por costume os Reys de Macedonia, de chamarem às pessoas notaveis, e de seu conselho, seus amigos, o que V. Alteza tambem uza, nem se pòde dar mais honrado premio à virtude, que o titulo d’amizade, e para que todos vejaõ; quam perfeitamente, e com quanta constancia ama a seu povo, ainda que a todos seja notorio, direy duas principaes cousas, que em seu reynado tem feitas, de que se possa comprehender facilmente com quanto amor, e com quanto zelo trabalhou sempre pola conservaçaõ, e descanço geral de seus vassallos.
Huma dellas he cazar-se com a muy poderosa Rainha Dona Catharina Nossa Senhora, e a outra no tempo das grandes fomes, e esterilidades destes Reynos, trabalhar tanto, que seus subditos vivessem abastados. Ardia este Reyno em grandes suspeitas, e receos de males, que se esperavaõ, a guerra parecia certa, os tempos naõ permetiaõ descanço, a vontade dos homens naõ achava repouso algum. Naõ pòde V. Alteza naõ sòmente sofrer os males de seus vassallos, mas nem a suspeita delles, por onde logo no principio de seu reynado, sendo muito mayor seu muito saber, e prudencia do que se podia esperar dos annos, e idade, se cazou com a Rainha nossa Senhora, Irmaã do Emperador Carlos V. deste nome, e para mais liança, e remate de taõ santa amizade, mayormente antre Reynos vezinhos, e comarcaõs, dahi a hum anno lhe deu por molher a Infanta Dona Izabel sua Irmã, dando-lhe com ella taõ grande, e magnifico dote, digno de seu Real coraçaõ, que com razaõ se pòde comparar com as promessas delRey Dario, e liberalidades de Alexandre Magno. Assim que lançado o fundamento da paz, o povo dantes suspenso, e solicito descançou, e vendo mostra de tanto amor o começou com mais razão d’amar, e tanto cada dia mais o ama, quanto as obras de V. Alteza merecem cada dia mais de serem amadas. Mereceo, que lhe desse Deos a Rainha Dona Catharina nossa Senhora por mulher dotada de toda a perfeição, e santidade de vida, cujas virtudes saõ tantas, e taõ grandes, que melhor se pòdem cuidar, e ver no pensamento, que louvar segundo seu alto merecimento polo qual nem eu me acho assaz eloquente para as poder dizer, e ainda q́ fosse, se deve isto guardar para outro tempo, em que mais conveniente, e copiosamente em seu proprio lugar se possa fazer.
Mas como poderey eu dizer a estremada diligencia, que V. Alteza uzou nos tempos das grandes esterilidades de seus Reynos, mandando vir trigo de diversas partes do Mundo, aventurando grande soma de dinheiro, e suas armadas a tantos perigos, vencendo as dezordens dos tempos, e contraria constellaçaõ do Ceo, porque seu povo não sentisse fome, e vivesse contente, e abastado, com taõ verdadeira piedade, e amor, como se elle somente fora o que sentira? Grande mal he a mingoa das cousas, que muito importaõ à vida, de que nascem mil queixumes, e descontentamento, e por isso tanto mòr louvor merece o Principe, que atalha as necessidades de seu povo. ElRey Herodes filho de Antipatro, por soccorrer a huma tal esterelidade ao Reyno de Judéa, mandou vir muito trigo do Egypto com que abastou aos naturaes, e estrangeiros. Foy amado, e julgado porRey excellente, posto que no tempo atraz, tivesse feito grandes males, e cruezas, e delle se escreve, que em outra esterilidade, quitou a terça parte das rendas, que lhe eraõ devidas; pois com quanta mòr razão merece V. Alteza ser louvado, e quanto mais evidente nos mostra o amor, que nos tem, o qual nas necessidades, e carestias deste Reyno, naõ de terra taõ vizinha, e comarcaã, como era o Egypto de Judèa, mas de Reynos taõ afastados, como saõ Sicilia, e Alemanha mandou trazer à sua propria custa tanta abastança de paõ, e assim a seus rendeiros, naõ sómente em hum anno, mas em todo o tempo tem feitas, e faz cada dia grandes, e muy liberaes quitas? Louva-se o Emperador Trajano, que havendo esterilidade no Egypto por naõ encher o Nilo ordenou que levassem là d’outras partes muita soma de trigo, e assi o Emperador Octaviano, nas fomes de Roma provia com muito cuidado as necessidades do povo, fazendo vir paõ de muitas partes, o qual mandava dar de graça, ou vender por baixo preço. Mas quanto a esta parte sobre todos he louvado o Emperador Severo, que naõ sómente em quanto foy vivo, trabalhou que em Roma naõ houvesse tal necessidade; mas ainda foy causa, que depois de sua morte, pola provisaõ, que leyxou, vivesse sete annos o Povo Romaõ abastado. A fartura, que he dada polo Principe, como verdadeiramente diz Plinio, he huma mercè perpetua, que sempre dura nas vontades, e o Principe liberal naõ menos aproveita a propria fazenda, que a fama: por isso dizia o Emperador Aureliano, que naõ havia cousa no mundo mais para folgar de ver, que o Povo Romaõ, quando era abastado, nem deu menos gloria ao grande Pompeo a empreza de fazer vir paõ a Roma, que os triumfos, e vitorias, que trouxe d’Oriente.
Sem duvida todos estes louvores cabem em V. Alteza, e nisto se pode ver com quanta razaõ merece ser amado de seu Povo, o qual tanto mais verdadeiramente o ama, quanto mais certo vè, e sabe, que as mercès, que lhe faz, vem de sua propria bondade, sem algum seu particular respeito, que entaõ he verdadeiro o amor quando as boas obras nascem delle só, e naõ da esperança d’algum interesse, mas nem com isto satisfaz ainda o seu muy virtuoso zelo, e santa inclinaçaõ. Novas maneiras, novos caminhos busca cada dia com que tenha mais contente seu Povo, e naõ tendo nos mais, que dezejar, todavia o seu dezejo cresce, e nunca cansa, e satisfazendo a todos, sómente a si nunca satisfaz. Era entrado neste Reyno, polo costumes das sedas, hum mais desordenado gasto no vestir do que cumpria ao bom ensino, e honestidade, e trajo antigo desta Naçaõ, o que vendo V. Alteza de tal maneira o atalhou, e remediou, que elle mesmo foy a ordenaçaõ, someteo sua real authoridade a trajo temperado, e commum, digno da gravidade de seus antepassados, porque naõ sómente com as virtudes d’alma, mas com o exemplo de fóra aproveitasse ao povo, e lhe mostrasse tambem nisto o grande amor, que lhe tinha. O quanto mais luzem, e resplandecem nelle os temperados, e honestos vestidos, que em outros muitos Principes brocados, e forros, e golpes demasiados! Sem duvida tanto mòr verdade he o que digo, quanto no Principe he mais louvada a temperança, que a desordem do appetito. Com razão deve ser reprehendido Aureliano Emperador Romaõ, que usou primeiro pòr Diadema na cabeça à maneira dos Principes barbaros, e vestio Opas d’ouro tirado, cubertas de perolas, e pedras preciosas, as quaes insignias leyxaraõ depois os Reys Christãos em sinal de humildade.
Que direy dos Moços, que V. Alteza à sua propria custa mandou, e cada dia manda à Universidade de Pariz aprender as Artes liberaes, e Santa Theologia, porque a honra de seu Reyno naõ menos nas Letras, que nas outras virtudes seja por elle acrescentada? Louvado he o Emperador Trajano, por mandar criar cinco mil meninos Romaõs pobres à sua custa, mas tanto V. Alteza he digno de mòr louvor, que Trajano, quanto a doutrina, e ensino das Letras se deve mais estimar, que toda a outra criaçaõ. Nomeada he nas historias a memoria delRey Ciro, que sabia o nome a todos os seus Soldados, e delRey Mitridates, que sabia vinte e duas linguas de vinte e duas Provincias de que era Senhor: tambem Temistocles Capitaõ Atheniense sabia o nome a todos seus Cidadaõs. V. Alteza naõ sómente se lembra dos nomes, mas do merecimento, e preço das pessoas, nem ganha menos a vontade de seus Vassallos com a viveza da memoria, que com a perfeiçaõ das obras. Aquelle verdadeiramente se pode chamar bom, que se preza de boas obras.
A virtude, segundo diz Aristoteles, consiste no obrar, o qual tem jà. A bemaventurança do homem naõ he outra cousa senaõ usar a nossa alma segundo a razaõ quer em toda a vida. Que mòr testemunho do que digo queremos, que o que este dia, e tempo prezente nos pode dar, em que naõ sómente faz mais rica, e populosa com sua presença a sua Cidade d’Evora, mas ainda muy dezejoso de lhe ser causa de mores bens lhe traz novamente a agoa de muy longe com muita abastança, vencendo com arte à natureza, restituindo o cano de agoa taõ necessario, e tantos tempos hà esquecido, e com grande animo suprindo os defeitos do lugar por dar saude, e contentamento aos homens. Ó quam bem se pode applicar a V. Alteza aquelle consentimento geral, que o Povo Romaõ deu ao Emperador Helvio Pertinaz em estas palavras: Reynando o Emperador Helvio Pertinaz seguros vivemos, ninguem tememos, ao Pay piedoso, ao Pay do Senado, ao Pay de todos os bens. Este he o verdadeiro officio do Principe viver para proveito dos homens, isto he, que Deos, e o mundo, e a obrigaçaõ do Sceptro Real requerem.
Por isto vendo alguns, que grande trabalho era reynar bem, escolheraõ antes viver descançados sem Reynos, que reynando serem obrigados, e sugeitos a tantos cuidados. Le-se do Emperador Diocleciano, que vencido do grande trabalho soltou o Imperio Romaõ, e se recolheo a huma sua quinta perto de Veneza, e sendo-lhe requerido por parte do Senado por Herculeo, e Galerio pessoas principaes, que quizesse tornar a aceitar o Imperio, lhe respondeo estas palavras: se visseis meus amigos as ervas, que eu por minhas mãos tenho postas, e na minha orta, certo saõ, que me naõ darieis tal conselho: e naõ hà muito tempo, que Luiz Landrasi, Principe de hum Estado em Alemanha sendo eleito Emperador o naõ quiz aceitar, e quiz antes viver em seu pequeno Estado, que governar o Imperio de Alemanha: antre as escusas, que dava para o naõ poder ser, era naõ saber letras, as quaes dizia serem muy necessarias para o governo da Reepublica Christãa, este foy taõ amigo das leys, que as fez tirar de latim em sua lingoa por melhor as poder entender.
Convida-me neste lugar o tempo a fallar da liberalidade de V. Alteza, que como dizem os Filosofos he graõ parte da justiça, e propriamente pertence aos Reys, e Grandes Senhores, e sabido està com quanto animo usou sempre desta virtude, mòrmente em tempos taõ contrarios, merecendo todo o louvor, que se pode dar a hum Rey Magnifico, e liberal. Acho eu, que os mais dos Excellentes Principes foraõ liberaes: liberal foy Alexandre Magno, e isto em tanto grào, que nos ficou em proverbio. Liberal foy ElRey Cyro, o qual como escreve Xenofonte, dizia que o seu Thesouro estava nos amigos, e assi Julio Cezar o foy tanto, que partindo-se de França, Provincia taõ rica, aonde estivera dez annos por Governador, e naõ tendo com q́ fazer a guerra Civil a Pompeo, que pouco antes começara, lhe foy forçado pedir dinheiro emprestado aos Capitães, e Soldados de seu Exercito. Por certo mais real cousa he enriquecer o Principe a outrem, que fazer-se elle a si mesmo rico, e por isso bem dizia ElRey D. Pedro de Portugal, que o dia que naõ dava, se naõ tinha por Rey. Devese com tudo ter respeito, que esta virtude seja empregada em quem merece, e se verdade he, que toda a liberalidade he justa, quem deste meyo fugir, darà consigo em hum dos extremos, e ou serà avarento, ou prodigo. Escreve-se de Archelao Rey de Macedonia, que pedindo-lhe hum homem de màos costumes, que lhe fizesse mercè d’hum vaso d’ouro, ElRey mandando-o dar ao Poeta Euripedes, lhe disse: Tù es digno, que peças, e naõ te dem, e estoutro he digno, que naõ pedindo lhe seja dado. Por isso reprehende muito Plutarcho aos Principes, que naõ se lembrando dos Criados vergonhosos, e bem ensinados, fazem sómente mercè aos importunos, que naõ tem vergonha, e lhes daõ naõ o que lhes querem dar, se naõ o que lhes naõ podem negar. Mas V. Alteza em todas as partes guarda muy inteira temperança, despreza o dinheiro, mas sómente o despreza nos lugares, e tempos onde he razaõ, edifica Templos sumptuosamente, mas naõ como o Emperador Domiciano, e alguns outros Principes, que nesta parte excederaõ o modo.
Finalmente de tal maneira he magnifico distribuidor de suas riquezas, que sempre se guarda dos extremos, e assi como naõ se esquece da conservaçaõ, e acrescentamento de sua fazenda, assi a fonte de sua magnificencia està sempre aberta para todos seus amigos, e Vassallos. Naõ pode mais claro sinal ser do que digo, que o cuidado, que teve sempre, e hoje em dia tem dos Infantes seus Irmãos, naõ receando cousa alguma por onde se veja, que naõ menos os tem por filhos, que por irmãos, e certo nas obras, e amor, que lhes mostra, naõ hà diferença para elles de Pay para Irmão. Saõ elles bemaventurados carecendo de taõ excellente Pay naõ carecerem de hum tal Irmaõ, o que posto que cada hum mereça por suas muito grandes virtudes, e lealdade, e amor, que lhe tem; com tudo a mòr parte deste louvor se deve atribuir à liberalidade de V. Alteza. Huma das grandes virtudes mais estimadas de Marco Antonio Emperador dos Romãos, chamado por sobrenome o Filosofo, foy esta de quem se escreve, que sendo o Thesouro de Roma gastado, e naõ havendo com que pagar huma grande soma de dinheiro, que se devia aos Exercitos, elle por naõ lançar nenhum pedido, nem dar oppressaõ às Provincias, mandou vender, e pòr em pregaõ toda a sua bayxella, vasos d’ouro, joyas, e tapeçaria, com que satisfez, e pagou a todos inteiramente.
Muito bem dizia Julio Cesar, que os outros Capitaens venciaõ seus inimigos com crueza, e que elle tinha achado huma nova maneira de vencer, que era clemencia, e liberalidade, e de maneira, que o bom Principe, he hum só remedio da gente pobre, e assi fazendo muitas merces, naõ menos aproveita a si, que aos outros; porque àlem de ganhar verdadeira gloria, dà o dinheiro que sempre hade ter prestes, e achar em seus vassallos quando cumprir, e a este proposito disse muy bem o Poeta Rabirio: Naõ tenho outra cousa de meu, senaõ o que dey. Verdadeiramente diz Tulio naõ ha virtude que mais faça os homens conversaveis antre si, que justiça, e liberalidade. A natureza dos homens he esta, assi se obrigarem polas boas obras que fazem, como polas que recebem. Bem vejo quam escuzado he querer eu confirmar com authoridades de fóra as virtudes de que V. Alteza he taõ novel exemplo; mas he tamanho o meu contentamento, fallando nellas; que pòde mais em mim este appetito, que o receyo de ser polixo, e vendo bem quam poucas vezes se acha hum tal Principe taõ acabado em tantas partes, saõ forçado a me deter em cada huma dellas particularmente.
Tornando a meu proposito, he tamanha virtude esta de que fallo, que muitos Principes viciosos, e perversos com serem sómente liberaes, foraõ bem quistos de seu povo. Herodes filho de Antipatro Rey de Judèa foy cruel contra seus filhos, e de forte condiçaõ, com tudo porque foy liberal mereceo ser obedecido dos seus, e naõ de todo malquistos sohia dizer delle o Emperador Octaviano, e Marco Agrippa, que era mòr o estamago del-Rey Herodes que o Reyno, e que era digno taõ liberal Principe do Reyno de Egypto, ou da Suria. Deve com tudo o bom Rey saber naõ menos acquirir, que despender, e de tal modo temperar esta virtude, que querendo ser muito liberal, naõ venha a dar em prodigo, e desbaratado. Do mesmo Herodes se lè que naõ podendo suprir seus demasiados gastos, e tendo jà despezo todo o seu Thezouro, trabalhava com todos os modos, e vias illicitas roubos, e cruezas para ajuntar outro de novo, e naõ sómente roubava o povo, mas os lugares, e sepulturas antigas. Contaõ delle que ouvindo dizer, que na sepultura de Rey David fora metido hum graõ Thesouro por mandado delRey Salamaõ, e que Hircano Principe dos Sacerdotes nos tempos passados tiràra della tres mil talentos, que era hum conto d’ouro, e oito centos mil cruzados, Herodes cuidando, que ainda là ficasse muito mais, entrou huma noite secretamente na cova, e sendo chegado aos muimentos da pedra em que jaziaõ os ossos delRey David, e delRey Salamaõ, supitamente da mais derradeira parte della se alevantou huma chama de fogo, que queimou dous homens da sua guarda, que hiaõ diante delle, o que vendo Herodes tornou atraz com grande medo, e em satisfaçaõ da culpa, mandou depois à entrada da sepultura edificar hum muimento de marmore branco de magnifica obra, e despeza, e assi foy castigada a cobiça delRey Herodes.
Este vicio foy a causa, por onde o Emperador Nero veyo a ser taõ mào, e cruel tirano, como foy. Mas naõ deve menos fugir todo o bom Principe do outro, extremo da avareza, que em todolos tempos foy muy reprehendido, e causa de muitos males, e inconvenientes, nem ha cousa que peor esteja a hum graõ Senhor, que ser escaço, polo qual o Idolo de Apolo Delphico em huma reposta, que deu disse, que a Reepublica dos Lacedemonios se perdèra por avareza. E Persio derradeiro Rey de Macedonia por ella se perdeo. O Emperador Vespasiano, sendo em muitas cousas louvado de bom Principe, nesta só foy vituperado. Acha-se nas historias antigas que havia no Reyno da Persia huma ley, que ElRey Ciro fizera, que quando ElRey entrasse em alguma Cidade de seu Reyno, mandasse dar a cada molher cazada huma moeda d’ouro. Depois reynando Ocho Principe muy avaro, e querendo entrar na Cidade d’Especio por naõ pagar a moeda d’ouro, que segundo a ley era obrigado, rodeou os muros, e passou adiante. Foy esta naõ pequena infamia para hum Principe taõ poderoso, e taõ rico. Por certo digno de louvor foy Alexandre Magno, o qual entrando duas vezes na mesma Cidade, de ambas mandou pagar a sua moeda às mulheres, e às prenhes mandou que fosse pago o dobro. Pola mesma causa se louva o Emperador Octaviano, porque vizitando como Pay geral de todas as Cidades, e lugares de Italia, aos Cidadaõs, que faziaõ certo terem filhos, ou filhas, mandava dar hum sextercio, que eraõ vinte, e cinco cruzados.
Por isso trabalhem os Principes por serem liberaes, e tomem exemplo de V. Alteza, nem cuidem que he tão pouco saberem-no ser, e por quanto às vezes com menos trabalho se vingaõ as injurias, do que se fazem as boas obras; a razão disto he: porque a boa obra, quando se faz, soe carregar muito, e a vingança ella consigo tras contentamento. Lembrem-se que se Pompeo, e Scipiaõ triunfaraõ taõ mancebos, e se Valerio Corvino foy feito Consul de vinte, e tres annos, que naõ sómente com serem cavalleiros, mas com serem liberaes sobiraõ em taõ pouco tempo a tanta honra, e authoridade. Tenhaõ porèm na lembrança, e avizo que fujaõ, como disse, dos extremos, nem sendo avarentos, nem prodigos, o que se olharaõ os mais antigos Emperadores d’Alemanha, pola ventura naõ consentiraõ, que Cidades por taõ pequeno censo, e tributo se fizeraõ livres, donde nasceo ousarem depois os socios alevantarem-se contra o Duque d’Austria, e os povos cobrarem tanta ouzadia, e coraçaõ contra o mesmo Emperador, porque sendo partida Alemanha em quatro partes Soiços, Terras francas,......e Terras Impereaes, por esta sobeja liberalidade, que a todos foy comunicada, vieraõ a estimar pouco o Emperador, e a terem huns com outros mil guerras, e diferenças, dos quaes males, como jà disse, foraõ causa os primeiros Emperadores, que querendo fazer grandes merces ao povo excederaõ o modo, e cuidãdo de aproveitar os vassallos, fizeraõ muito danno a si, e a seu estado, e authoridade. Nem me pòde a mim parecer bem aquella opiniaõ do Emperador Tiberio Cesar, que os Governadores depois de ter governado muito tempo eraõ melhores, que os que entravaõ de novo, e dizia que os de muito tempo, sendo jà ricos, roubavaõ menos, os que começavaõ indo pobres metiaõ mais a maõ, e era mais prejudicial às Provincias. Mào Regimento, e mà atençaõ,(segundo meu fraco entender) era esta tomar por remedio do roubo, e tirannia a continuaçaõ do tempo, e naõ bom ensino das leys, sem duvida mais louvor merecèra Tiberio, ordenando sua Reepublica de maneira que ninguem fora ousado de roubar. Que louvor darey a bondade, e santa inclinaçaõ, e ao trabalho continuo sem nenhum repouso, à clemencia, e humanidade de V. Alteza?
Se eu este Panegyrico escrevera em alguma terra muy afastada de nòs, onde o seu nome ainda naõ chegàra, pola ventura receando de me naõ darem credito, ou temperara taõ grandes louvores, ou os leyxara de dizer. Mas fallando isto em parte aonde saõ taõ claros, e manifestos, naõ recearey dos celebrar em quanto puder, porque sey que assim como naõ posso dizer tanto, que satisfaça a verdade, e contente meu dezejo, assim heyde ter a todos por testemunhas, e assaz me parecerà, quam ditozo som, se vir, que nesta obra ao menos he recebida minha vontade, que do mais bem vejo que naõ pode o estillo ser igual a taõ alto merecimento, posto que naõ sinto eu parte, em que jà senaõ achem muitas testemunhas do que digo. Cheyo està o Mar Occeano, cheyo està Levante, e Ponente da grandeza de suas obras, e assim de seu louvor. Naõ se pòde hum Reyno prosperamente governar, sem muito trabalho, assim na justiça, e partes della, como em todalas outras virtudes. E se a vida do homem, como dizem alguns, he vigia, quanto mais o deve ser a do Principe. Por tanto V. Alteza muy solicito, e diligente, na conservaçaõ do seu povo, depois que entrou na governança delle, naõ em huma só parte de negocio, mas em quantas occorrem, e cumprem a seu estado, nunca cançou, nem cança, com que sendo aceito a Deos possa aproveitar aos homens, e ganhe memoria para sempre.
Naõ he piqueno trabalho o que tem todo o bom Principe no tempo da paz, e quanto o repouso, e descanço, que della nasce he mayor, tanto os homens pola mayor parte saõ peores, senaõ ha quem continuamente os possa, e saiba emmendar, e he isto taõ necessario, que às vezes a huma Reepublica, que vive em muita ociozidade, aproveita verse em alguma fadiga, porque com os trabalhos, e perseguiçoens a gente se emmende, e leixando os màos costumes, se torne ao verdadeiro caminho, como dizem que aproveitou muito a Roma ser tomada dos Francezes em tempo de Camillo, com que os Romaõs espertaraõ, e tornaraõ a renovar a virtude antiga, que jà nelles hia faltando, e porque naturalmente todalas cousas vaõ diminuindo, cumpre naõ huma vez, senaõ muitas, serem as Reespublicas tornadas a seu principio, quero dizer, serem tornadas aos bons costumes com que foraõ fundadas. Antigamente sohia dizer Apio Claudio Cidadaõ Romaõ, que melhor hia ao povo Romaõ no tempo da guerra, que no da paz, naõ porque naõ soubesse quanto melhor estado era o da paz, mas porque via os grandes Reynos, e Imperios com o trabalho, e exercicio das armas hirem por diante, e com boa vida tornarem atraz.
Da mesma tenção era Quinto Mettelo, Pay de Mettelo, chamado o piedoso, quando disse, que se naõ sabia, determinar, se terem os Romaõs vencido a Cidade de Carthago era mais damnoso à Reepublica, ou mais proveitoso, porque com a vida de Anibal Italia espertara do sono, e depois da victoria havia medo que tornasse a dormir. Por isso cumpre ao bom Principe no tempo da paz ser taõ diligente, que a justiça, e bons costumes se conservem, e sejaõ afastados os males, que o descuido da longa paz soe trazer consigo. A muita confiança naõ o faça desapercebido, e a muita confiança não o faça mào de sofrer: nas cousas prosperas naõ use menos do conselho de seus amigos, nem lhes dè entaõ menos credito, que nas contrarias. E no mesmo tempo se deve guardar dos lizongeiros, e isto tanto mais, quanto este engano he mais sotil, porque as mais vezes os homens quando saõ lizongeados, cuidaõ que lhes fallaõ verdade, e dessa presumpçaõ, ou opiniaõ falsa nascem muitos erros, que cada dia crescem, quando naõ saõ atalhados. E porque a prudencia he saber o homem as cousas, que se devem fazer, e o saber consiste no entendimento das cousas divinas, e humanas, cumpre muito ao bom Principe, que dè alguma parte do seu tempo, e cuidado ao conhecimento desta virtude, mòrmente tirando-se della grande fruto, e dizia Plataõ, que entaõ seriam bemaventuradas as Reespublicas, quando, ou os Filosofos reynassem, ou os Reys fossem dados à Filosofia. Mas posto que todo o bom Principe seja obrigado a saber todas as partes do bom governo, muito mais obrigado he aquelle a que este cuidado vem como por herança de seus Avòs: porque assi como os Pays naõ podem leyxar aos filhos mais honrado patrimonio, que a gloria de virtudes, e feitos excellentes, assim os filhos com todalas suas forças devem, seguir o exemplo dos bons Pays, e fazendo o contrario naõ hà culpa, nem infamia de que naõ sejaõ dignos.
Deve o prudente Governador, quanto nelle for possivel, tirar os màos costumes da terra, antes que criem raiz, que depois naõ lhe aconteça, como aos Fisicos na cura dos Eticos, cuja enfermidade no começo he boa de curar, e mà de conhecer e no fim he boa de conhecer, e mà de curar. E quando os Cretenses antigamente queriaõ rogar alguma grande praga a seus inimigos; diziaõ, que ainda os vissem folgar com màos costumes. Naõ deve o Principe ser esquecido do que toca a toda huma Reepublica, e se este defeito em huma pessoa particular se estranha tanto, que deve ser em quem representa todo o povo? Dizia Scipiaõ Africano, que era mà escusa no tempo da guerra dizer o Capitaõ quem houvera isto de cuidar? O que tambem se pode aplicar ao tempo da paz; porque na guerra a muita diligencia faz às vezes danno, e por isso dizia o mesmo Scipiaõ, que nunca se devia dar batalha, senaõ com grande vantagem, ou necessidade, mas no tempo da paz naõ he assi, no qual nunca a diligencia pode ser tanta, que naõ seja toda necessaria, para a conservaçaõ dos bons costumes. Trabalhe o bom Principe, que a sua vida seja aos subditos, como huma regra direita de bom viver, como dizia o Filosofo Xenocrates. Naõ hà cousa mais fóra da razaõ, nem que peor pareça, que vivendo bem os Vassallos, viverem os Senhores mal, e como acima disse as mais vezes vemos, que as Cidades, e Povos seguem a vida, e costumes de seu Senhor. Quanto a pessoa he mais illustre, tanto o erro, que cõmete, he havido por mayor. E como diz S. Joaõ Chrisostomo, as culpas se sóem a medir naõ pola quantidade do peccado, mas pola dignidade do que pecca.
Que grande contentamento deve ser o do bom Principe, vendo-se limpo, e apartado de todo o vicio, e não tendo feito, nem fazendo cousa alguma, de que naõ possa dar boa conta de si, e muy digna de ser recebida, darlhe-hà contentamento sua mesma consciencia: dar-lhoaõ seus amigos, sendo delles louvado verdadeiramente, dar-lhoaõ seus Vassallos em o seguirem, e tomarem seu exemplo, finalmente dar-lhoaõ seus contrarios, e os que lhe quizerem mal, os quaes buscando em que o possaõ reprehender, tanto mòr paixão haõ de levar, quanto menos acharem cousa em que com razaõ o possaõ fazer. E quem estas partes no Regimento da Reepublica prudentemente conservar, sem duvida terà muito, e continuo trabalho, mas elle conseguirà o verdadeiro fim de bom Principe. Por isso naõ sem causa V. Alteza sendo como he em tudo taõ acabado, vigia continuamente, aplicando seu entendimento a todos os cuidados, porque nòs vivamos descançados: o fruto, que jà disto recebe he taõ grande, que o esperta a passar esta carreira animosamente, o trabalho se ajuda da vontade, o bom natural se aproveita de muita arte, e assim como o bom Capitaõ deseja sempre novas victorias, e o bom Piloto naõ se contenta com o que sabe, vay por diante descobrindo novos mares, e terras, o que cada hum destes faz pela gloria, que espera, alli o bom Principe naõ receando nenhum trabalho, nunca cança, nunca repousa, ora fazendo leys, ora inventando novas maneiras proveitosas ao bem do seu Povo, e Estado, ora competindo com os melhores Principes, e trabalhando por lhes levar ventagem: o que tudo faz naõ por algum interesse desta vida, mas polo fim, e bemaventurança, que na outra deste trabalho espera.
Artaxerxes Rey da Persia, filho delRey Xerxes, a que os Gregos chamaraõ Cyro, e os Judeos Assuero, foy muito nomeado antre os Persas, delle se conta, que jazendo huma noite na cama, e naõ podendo dormir por naõ perder aquelle tempo mandou chamar hum Secretario, e que trouxesse os livros dos memoriaes, em que estava escrito o merecimento, e galardaõ de cada pessoa, o qual vindo se achou, começando a ler logo hum, que por serviços, que fizera a ElRey houvera humas terras em satisfaçaõ, e mais adiante acharaõ outro, que recebera mercè de dinheiro, e estes ambos tinhaõ asignado no livro como he costume, e chegando a hum Mardocheo, que os tempos passados descobrira huma traição, que estava ordenada contra ElRey; perguntou Artaxerxes se a este fora feita alguma mercè, e respondendo o Secretario, que o livro estava em branco, fez ElRey a mesma pergunta a hum grande seu privado, que estava prezente chamado Amaõ, o qual tambem naõ sabendo nada, Artaxerxes espantado de tamanho descuido, mandou logo chamar ao mesmo Mardocheo, e o fez vestir de vestiduras Reaes, e lançar-lhe hum Colar de ouro ao pescoço, e no dia seguinte quiz, que fosse levado com grande pompa por toda a Cidade, e porque seu privado Amaõ fora taõ descuidado em cousa, que tanto lhe cumpria, mandou, que elle mesmo fosse pelas ruas diante de Mordocheo, apregoando, que o mòr premio da honra se dava a Mardocheo polo mòr serviço. A mesma diligencia teve em governar o mundo o Emperador Cesar Octaviano, porque em quanto viveo, sempre ordenou cousas muy proveitosas à sua Reepublica, e antre outras escolhendo por authoridade do Senado dez pessoas, que o ajudassem, constrangeo a todos os Cavalleiros de Roma, que viessem perante elle dar conta, e razaõ de sua vida, e os que a naõ deraõ boa, parte castigou com pena, e parte fez infames, e outros reprehendeo de palavras: o mais brando castigo de todos foy meter na maõ, a quem naõ achava taõ culpado, hum pequeno escrito de reprehensaõ, que logo o mesmo havia de ler antre si em presença do Emperador, e nisto Octaviano seguio o exemplo de Amasis Rey do Egypto, segundo conta Herodoto, que fez huma Ley, que sobpena da vida, todo o homem cada anno perante Juizes Deputados fosse obrigado a dar razaõ de sua vida, e o mesmo costume passou depois Solon Filosofo às leys dos Athenienses. Mandou Cesar Augusto soltar todos os devedores a que seus acredores tinhaõ presos na cadea naõ por esperar paga alguma, naõ tendo elles de seu nada, mas para tomar huma sobeja, e dura maneira de vingança, e foy em tudo taõ prudente, que naõ sómente na vida, mas tambem na morte teve respeito ao bem cõmum. Escreve-se, que leyxou tres livros feitos por sua maõ, o primeiro do que pertencia a seu enterramento, o segundo lembrança de todas as cousas, que fizera, no terceiro se continha huma breve instrucçaõ de todo o Imperio, quanta gente de peleja ficava no campo, quanto dinheiro deixava, quanto se devia das rendas publicas, e assi o que deviaõ seus criados, e procuradores a Reepublica, para que em todo o tempo por este livro lhe podesse ser tomada conta.
Quem leyxarà de louvar a verdadeira clemencia, e humanidade de V. Alteza, que naõ menos usa com os grandes, que com os pequenos em tudo sempre conservando, o que cumpre a sua real authoridade? Proprias virtudes saõ estas de bom Principe Christaõ, que sempre deve trabalhar de naõ ser aspero, nem so berbo ao povo, nem lhe dar mais opressaõ daquella, que cumpre para o bem, e conservaçaõ da justiça, e polos males, que do contrario disto em algumas partes nascem, se pode ver bem, quanta verdade digo. Huma das mòres virtudes, que houve em Julio Cesar foy a Clemencia, e a mayor, que houve em Tito filho de Vespasiano, foy a mansidaõ de que nasce toda a liberalidade, e comedimento. Sóhia dizer este Emperador Tito a seus amigos, quando passava algum dia, sem fazer mercé, que perdera aquelle dia. Octaviano foy taõ clemente, e piedozo, que mandou queimar todas as obrigaçoens, e conhecimentos de dividas velhas, que se deviaõ à Reepublica, donde claramente se pòde ver, que assi como das palavras asperas, e soberba condiçaõ nasce crueza, assi da clemencia, e mansidaõ vem todo o bom respeito, e liberdade.
Differentes cousas saõ antre si, como diz Plinio, Senhor, e Principe, nem ha Principe que mais contente ao povo, que o que menos se lembra que he Senhor. Antigamente este nome de Senhor era odioso, e offendia muito, e polo contrario o nome de Principe era aceito. Por onde Alexandre Emperador Romaõ defendeo que o naõ chamassem Senhor, e como diz Seneca, os antigos querendo abrandar dos nomes asperos, que eraõ escravo, e Senhor, chamavaõ Pay de Familia ao Senhor, e ao escravo chamavaõ familiar. Escreve-se de Octaviano, que mandava ter as portas abertas, a quem o quizesse vizitar, e recebia com tanta humanidade, e taõ boa acolhença os homens, que chegando hum dia a elle hum Romaõ pouco desenvolto, e dando-lhe huma petição com muito pejo, o Emperador lhe disse rindo-se que parecia homem, que dava ceitil a Elefante. Antre os principaes louvores de Trajano era hum que todos podiaõ entrar onde esse estava, e louva Pacato em hum seu Panegyrico ao Emperador Theodosio de muy brando, e humano para todos. Com a mesma humanidade sohia Cesar Augusto hir vizitar, e consolar a muitos em pessoa, sabendo bem a consolaçaõ do Principe ser de muita força, e virtude para abrandar os coraçoens dos homens.
Que direy da bondade de V. Alteza, que naõ sómente em seu reynado, mas em todo o tempo de sua vida nos mostrou, naõ fallo agora d’quella bondade, que he nome geral, e vem a ser huma mesma com a virtude, mas da outra particular bondade, q́ tambem se chama santa inclinaçaõ, ou zelo virtuoso, e desta V.A. tem tãta parte, que a execuçaõ della tem convertido em sua propria natureza? Xenocrates excellente Filosofo da Seita dos Stoicos, que segundo diz Tulio melhor fallaraõ das virtudes, que todos os outros, sendo perguntado que podiaõ delle seus Discipulos aprender? Respondeo: fazerem por sua vontade o que os outros fizessem com medo das leys, e Xenocrates cuidava, que naõ podia alcançar perfeita virtude sem muita doutrina. Quanto mais de louvar he, quem de seu natural, e sem nenhum mestre, nem preceitos de Filosofia póde alcançar per si o que poucos sabedores, ajudados de tantos mestres em muito tempo, e com grande trabalho se poderaõ alcançar?
Esta tamanha ventagem nasce (se me eu naõ engano) da bondade que digo, e venturosa inclinaçaõ das pessoas, a qual se em todo o homem he louvada, quanto mais no Principe o deve ser? Com muita cauza he nomeada a bondade do Emperador Trajano, que foy tanta, que ficou em proverbio, taõ bom como Trajano, e acho eu, que sendo elle hum dia publicamente louvado no Senado, e sofrendo mal por sua temperança tal maneira de louvor, hum Senador lhe disse em voz alta: Emperador Trajano lembrate do que fazes, e veràs o que dizem de ti; escreve-se delle, que naõ quiz nunca ser Censor, sendo este hum dos principaes Officios de Roma, e de mais authoridade, que os maes de seus ancessores o quizeraõ ser, e com elle se castigavaõ os màos costumes dos nobres, e da outra gente. Mas Trajano, vendo que o exemplo de sua vida aproveitava mais ao povo, que nenhum Càrrego de Censor, ouve por escusado querello aceitar, e porisso se disse, que a vida honesta do Principe he censura; a esta olhaõ os vassallos, a esta seguem, nem tem tanta necessidade de Officiaes que os castiguem, quanta do bom exemplo de quem os manda. Mestre aspero, e pouco fiel da gente he o arreceyo das leys, melhor aprendem os vassallos dos bons costumes, e virtuosa atençaõ de seu Principe, o qual antre outros bens tem este, que confirma com seu exemplo poder-se fazer o que mandaõ as leys que se faça: e naõ a outro fim os antigos Romaõs sohiaõ a pòr nas sallas, e cazas dianteiras as imagens, e estatuas de seus Avòs, que em alguma virtude, ou parte da vida foraõ dignos de memoria, porque com isto sendo elles mais lembrados, trabalhassem por seguir, e reprezentar o que os taes fizeraõ. O Rey vicioso todas as boas partes lança do Reyno naõ menos com lhes querer mal, que com poder muito, e com seus vassallos naõ ousarem a hir-lhe à maõ.
V. Alteza todas as virtudes tem abarcadas consigo nos seus olhos, nas suas orelhas, no seu coraçaõ as traz sempre, uzando do que ellas mandaõ, e tanto as ama, tanto quanto se prezaõ delle. Jà vemos por experiencia a principal defençaõ do Reyno pender da bondade, e santa inclinaçaõ do Principe. Jà vemos por de mais ser cercado de armas, o Rey que naõ he cercado de amor de seus vassallos; mas porque as merces quando saõ feitas aos bons acrescentaõ a virtude, e polo contrario se saõ feitas aos màos a maldade cresce, e a virtude perde sua força, elle nesta parte uza daquelle estremado juizo, e discriçaõ, que delle se espera, naõ se apartando nunca da temperança, e afastando-se dos extremos. DelRey D. Sancho de Portugal, chamado Capelo, se escreve, que por ser muito bom, e piedozo, foy mào a este Reyno, e se perdia em seu tempo a justiça, nem cuido eu que Alaxandre Magno fosse movido de verdadeira bondade, quando fez a hum Ortelaõ Rey de Sidonia. Por certo melhor exemplo poderiamos tomar da vida de Antonino Emperador de Roma, que foy chamado piedozo, o qual com a fama da sua virtuosa inclinaçaõ, e perfeita vida governou tamanho Imperio pacificamente vinte, e tres annos, por isto todos os Reys, Povos, e Naçoens o temiaõ, e amavaõ mais como o Pay, e defensor, que como a Senhor, e Emperador: a elle sendo vivo se encomendavaõ como a Deos, a elle tomavaõ por Juiz em todas as suas diferenças: os Reys da India, os Reys da Persia, e de todo o Oriente, ouvindo sua fama o mandavaõ vizitar por seus Embayxadores com ricos prezentes, naõ por medo, ou necessidade, que delle tivessem, sómente polo gosto, que levavaõ de ter amizade com taõ virtuoso Principe. Naõ errarão os que em Castella, e Portugal fizeraõ historias de Cavalleiros d’aventura em os fazerem zelozos, e inclinados à virtude, tirando as semrazoens da terra, defendendo, e amparando as Viuvas, e Donzellas, o que tambem segundo muitos escrevem, fizeraõ Theseo, e Hercules, e outros muitos, que floresceraõ nos tempos, a que os Gregos chamaraõ heroicos. Mas antes que deste lugar me parta, naõ leyxarey de trazer à memoria o Cid Ruy Dias, cuja bondade, e cavallaria foy tanta, que mereceo, que o graõ Soldaõ do Egypto o mandasse vizitar com ricos presentes, e que suas filhas, que os Infantes de Carriaõ primeiro engeitaraõ, viessem depois a ser cazadas com os Reys de Aragaõ, e de Navarra.
Se tão louvado foy hum bom Cavalleiro, quanto mais o deve ser hum bom Principe, e se hum mào Principe sem embargo de ser tal, toda via pola dignidade real he muy acatado, que veneração, que honra, que gloria merecem todalas partes da justiça, cuja parte he esta virtude de que trato? Escreve-se dos Romaõs, que sendo grandes contrarios, e inimigos do nome real, com tudo acatavaõ muito aos Reys, e se algum Rey era prezo em guerra, ou batalha, lhe naõ davaõ morte, mas depois de triumfarem delle o tinhaõ prezo, avendo por grande mal pòr a maõ em pessoa de tanta authoridade; por isso trabalhe todo o bom Principe, pois o seu officio he de tamanho pezo, de tanto mais ser limpo, e apartado de todo o vicio, quanto as virtudes, e culpas se vem nelle mais claro: peor està huma nodoa em huma Oppa de brocado, que em hum vestido mais baixo, e peor a hum grande Senhor, que a hum homem do povo.
Tem alguns que as Reespublicas, e Cidades se devem fundar em lugares esteriles, porque todos trabalhem, e fujaõ a ociosidade; outros tem que he melhor edificarem-se nos lugares fertiles, e abastados, e dizem que nestes pòde haver leys com que se atalhe o muito folgar, exercitando-se a gente nas cousas que cumpre a guerra, como fizeraõ os Mamelucos no tempo que havia graõ Soldaõ, os quaes povoando terra taõ viciosa, e farta, com tudo naõ leixaraõ nunca ser avidos por valentes homens, e com isto puderaõ sustentar o estado do Egypto por espaço de quatrocentos annos.
Mas leixando esta questaõ para outro tempo como agora naõ muito necessaria, eu para mim tenho que nenhuma cousa pòde fazer bemaventurada huma Reepublica, senaõ o bom Principe, o qual entaõ pòde, e merece ser chamado bom, quando for justo, e porque como diz Aristoteles, a vida do que bem obra ella por si lhe dà inteiro contentamento, nem he bom o que naõ leva gosto de bem obrar, sem duvida leixando à parte a gloria deste Mundo, tanto mais contente deve viver o bom Principe obrando bem, quanto mais, e mòres cousas obra que os outros. Isto, e isto dezejaõ as leys, que os vassallos, e Cidadoens antre si sejaõ conservados, e vivaõ sem nenhum perigo, huns como os outros, e os que o contrario fizerem, que sejaõ punidos com morte, e desterro, prizaõ, e perda de sua fazenda, isto muito mais requere a mesma razaõ da natureza, que he huma ley Divina, e humana, e quem lhe obedecer (o que todos devem fazer) nunca dezejarà o alheyo, nem quererà ver a outrem, o que naõ queria ver a si mesmo. Em fim isto dezeja aquella justiça Senhora, e Rainha de todas as virtudes, que o proveito seja universal, o qual naõ se pode chamar proveito, quando naõ for justo; por isso se os Filosofos antigos vendo, que naturalmente os homens nasceraõ para obrar bem tinhaõ esta opiniaõ quanto mais a devemos nòs ter, que fomos alumiados da verdadeira Fè de Christo? O Principe, que estas partes tiver, eu naõ sey como naõ vivirà muy contente. Muy contente vivia o Emperador Antonino, quando disse, que queria antes dar vida a hum Cidadaõ seu, que matar a mil de seus contrarios. E contente era Licurgo quando ordenou as Leys da Republica Spartana, o qual sem duvida mereceo mòr louvor em as ordenar, do que Lizandro, e Pausanias Nobres Capitaens da mesma Cidade mereceraõ em pellejar valentemente.
Havia entre os Gregos hum proverbio, que a saude era a melhor cousa, e a justiça a mais fermosa, e alcançar o homem a cousa mais desejada he de mòr contentamento, mas Aristoteles todas estas tres cousas dà à bemaventurança do homem, que segundo elle affirma he obrar virtude em todo o tempo da vida. Que mais fermosa cousa pode ser, que a justiça, e partes della, as quaes todas luzem em V. Alteza como em hum claro espelho, se naõ cuidamos, que ha hi outra fermosura senaõ a que parece aos olhos bem, mas (se naõ me engano) mais fermosa he a virtude, que com os olhos d’alma se contempla, polo qual bem disse Marco Tulio, que se a virtude d’alma pudesse ser vista com os olhos de fóra, que naõ haveria ninguem, que por ella se naõ perdesse, e se esta geral fermosura das pessoas naõ tem mais credito, naõ he por defeito da virtude, mas por falta do nosso entendimento, o qual andando cego, e envolto na prizaõ deste corpo as mais vezes se engana, e assi os olhos de fóra podem mais, e tem mòr jurisdiçaõ, que os d’alma. Chamava Socrates à fermosura das mulheres tirannia de pouco tempo, e Theofrasto engano dissimulado, e Plataõ privilegio da natureza, e Theocrito engano de marfim, e Carneades Reyno solitario, todas estas diffiniçoens quadraõ à fermosura do corpo, e porèm a da virtude dura para sempre, e naõ hà nella engano, nem tirannia, nem dissimulação, mas quanto mais velha se faz, tanto melhor parece, e tanto mais verdadeira, e amiga se mostra do homem. Que melhor cousa pode no mundo haver, que justiça, que fé, que liberalidade, que serem os màos castigados, e os bons haverem galardaõ. E assi como o homem usando da virtude he nesta vida bemaventurado, assi para ser mal aventurado abasta, que queira mal, e que seja contrario à justiça.
Eu bem vejo, que naõ he piqueno trabalho vencer os apetitos; pola mòr parte se soem de vencer, quam mal as grandes dores se podem dissimular. Com tudo lembre-se o bom Principe, que nunca muito custou pouco, e que a virtude de sua natureza he trabalhosa, da qual como dizia Aristoteles, a raiz he amargosa, e o fruito he doce. O mesmo zombava dos Athenienses, porque gabando-se, que foraõ os primeiros inventores do Paõ, e das Leys, dizia Aristoteles, que do Paõ se sabiaõ aproveitar, e das Leys se leyxavaõ esquecer, e por isso mal pode hum Principe fazer justiça, se elle mesmo naõ for justo. E he tanta a força da virtude, que atè Epicuro, que poz a bemaventurança na deleitaçaõ, leyxou dito, que naõ podia ninguem viver contente naõ sendo justo. Mal me poderà a mim ensinar quem naõ olha o que faz, e mal me poderà mostrar o caminho, quem vay errado como eu. Naõ deve o Rey peccar com intençaõ de que depois se emmendarà, que quanto mais tarda o remedio, tanto os vicios criaõ mòr raiz, e saõ peores, e guarde-se naõ lhe aconteça, como soe dacontecer a quem por algum dezastre cahe d’algum lugar d’alto, porque vendo-se cahir, e querendo-se valer d’alguma cousa, ou pegar, que o tenha, jà naõ pode resistir ao grande impeto da queda, que o leva. Antre as virtudes, que saõ necessarias para naõ somente o Principe, mas qualquer homem ser justo, sempre o primeiro lugar foy dado à prudencia: esta consiste no conhecimento da verdade, e em naõ cuidar o homem, que sabe o que naõ sabe, e o despender o tempo em cousas, que naõ relevaõ, nem servem de nada. Grande perfeição dà esta virtude ao entendimento, espertando a vontade ao bem obrar, e sem elle nenhuma das outras se poderà soster.
Por isso opiniaõ he dos Filosofos, que quem tiver discriçaõ, que terà todas as virtudes, mas porque a prudencia està partida em tres partes: aconselhar bem, julgar bem, e mandar bem, tanto ellas em si seraõ mais estimadas, e aceitas, quanto o proveito, que dellas nascer, for mais universal, e por isso o Principe prudente de que pende o bem, e descanço de todo o povo, he digno de mòr louvor, que os outros homens. Diz o Poeta Hesiodo, que aquelle se pode chamar perfeito, que sem ajuda de ninguem por si conhece a verdade, e logo a poz este, o que sabe tomar o bom conselho, mas quem naõ alcança nada per si, nem quer ser aconselhado d’outrem, que este tal naõ tem saber, nem aproveita a si, nem a Reepublica. Em todalas partes da prudencia V. Alteza he taõ perfeito, como nas outras, que já disse da justiça, nem poderia ser tão justo, senaõ fosse taõ prudente. Notorio he a todos com quanto saber, com quanta diligencia se aconselha em todalas cousas importantes a seu Estado, e a o bem destes Reynos, como esquecido de todo folgar, e passatempo, al naõ cuida, em al naõ trabalha, senaõ em buscar meyos para conhecer o que he bom, e em saber qual he melhor, é depois de sabido em o pòr por obra. Com tal aviso Themistocles Atheniense conservou a liberdade de Grecia, e os Romãos poderaõ conquistar, e governar tamanho Imperio, e muito bem diz o Poeta Homero, que o Principe, que tem grandes negocios, naõ deve dormir toda a noite.
O Rey, como diz o Filosofo Xenocrates, que naõ menos reyna para ti, que para os outros, o Rey que ha de ter seu povo livre de todo mal, e descançado, cumpre-lhe, que naõ creya nenhum falso contentamento, e de tal maneira vença seus appetitos, que os Vassallos obedecendo a elle, obedeçaõ à virtude, e naõ he menos cousa real vencer-se o Rey a si mesmo, que vencer batalhas campaes, e cumpre-lhe naõ dezejar, nem buscar louvor daquellas cousas em que os màos homens podem ter preço, por quanto o caminho do verdadeiro louvor he a mesma virtude. Cumpre-lhe trazer muitas vezes à memoria os aquecimentos, e feitos passados, assi dos Reys, e Principes, como das pessoas, que o naõ saõ. E desta maneira quem souber o passado, julgarà mais prudentemente o que està por vir. Finalmente cumpre lhe lembrarse em todo o tempo, que he Rey, e aconselhar-se naõ sómente do que ha de fallar, é porque os lizongeiros saõ muy contrarios do verdadeiro conselho, naõ nos ha de sofrer em sua casa, mas ha de lançallos de si. O Emperador Trajano a quantos soube, que sohiaõ no tempo passado, por pedir a fazenda alhea mexiricar alguem com o Principe, desterrou, e fez embarcar em Navios, e passar por huma grande tormenta a humas Ilhas desertas. Tiberio Cesar em quanto foy vivo Octaviano nunca fez cousa sem conselho, seguindo o exemplo, e authoridade de taõ singular Principe, por onde suas cousas hiaõ àvante, assi na guerra, como na paz era bem quisto, e dava de si muita esperança, mas depois que morto Octaviano veyo elle a ser Emperador, usando mal do grande poder (porque quem muito pode as mais vezes muito erra) e não se aconselhando como d’antes, veyo a dar consigo em toda a cruesa, e deshonestidade da vida, e apparecer nelle os grandes vicios, que a reverencia, e acatamento do Emperador Augusto, e o conselho dos seus amigos muito tempo tiveraõ encubertos.
Sohia dizer Marco Antonino Emperador Romaõ, quando entrava em conselho, que mais razaõ era, que elle só seguisse o conselho de tantos, e taes seus amigos, que naõ que elles seguissem o parecer delle, e Agamenon Rey dos Gregos no cerco de Troya, pedio a Deos, que lhe desse outros taes dez conselheiros, como era Nestor, o qual por sua longa idade, e experiencia excedia no arrayal dos Gregos. Se Pithagoras manda, que todo o homem tenha na vida respeito a dous tempos, que saõ manhãa, e tarde, quer dizer, que pela manhãa nos lembremos do que havemos de fazer aquelle dia, e à noite do que jà temos feito, e se Cleobulo hum dos sete sabedores leyxou dito, que antes que sahissemos de casa, cuidasse-mos o que haviamos de fazer, e depois de tornados tomasse-mos conta a nòs mesmos do que tinhamo feito, se estes preceitos foraõ dados a qualquer pessoa particular, que conselho, que cuidado deve ser o do bom Principe, a quem toca o Regimento de tanto numero de gente? Naõ diz em balde o proverbio mais vem dous olhos, que hum, o que Aristoteles confirma, e o mesmo diz, que poucas vezes acontece, quando muitos daõ conselho, que algum delles naõ acerte. Se pudesse ver o Principe os defeitos, males, e fraquezas dos homens, e se por alguma graça, ou privilegio Divino pudesse entrar nos pensamentos, e julgar taõ claramente as vontades, como julga o que vè de fora, sem duvida acharia ser verdade o que digo, e veria quam necessario he ao bom Governador entrar muitas vezes em conselho para com elle soccorrer, e acodir a todos os perigos, e necessidades de seu povo. Escreve-se de Solon hum dos sete Sabedores de Grecia, que vendo andar hum seu amigo muy triste, e enojado por grandes payxoens, o levou ao Castello de Athenas, que era no mais alto da Cidade, e dahi lhe rogou, que lançasse os olhos, por todos os edificios, e cazas, que daquelle lugar podia ver, e então lhe disse: cuida agora meu amigo, quantos trabalhos, quantos cuidados, quantas tribulaçoens ouve sempre de baixo daquelles telhados, e os que agora tambem ha, e os que ao diante seraõ, e cuidando bem isto, naõ chores os males, que a todos saõ geraes, como se a ti só fossem particulares, e com esta consolaçaõ nos mostrou as Cidades, e Reespublicas serem huns parques, e encerramento de muitos cuidados. O mesmo Filosofo dizia que se os males de todos os homens se ajuntassem para depois igualmente se averem de repartir antre todos os homens, que antes cada hum tomaria, e escolheria levar os seus para sua caza, que tomar de todos juntos a parte, que a cada hum coubesse.
Outro grande Filosofo, chamado Eraclito, doendo-se das mizerias dos homens, nunca outra cousa fazia, senaõ chorar. He causa clara, que nenhum Reyno naõ pòde durar muito sem ajuda de Principe, que tenha bom conselho, mas cumpre que os conselheyros sejaõ verdadeiros, e amigos de Deos, e que saybaõ, e naõ sejaõ de pouca idade. Sohia dizer Socrates muy prudentemente, que a Deos deviamos somente pedir que nos desse o que fosse bem, porque elle somente via o que era bem, mas que os homens pola mòr parte dezejavaõ o que seria melhor q́ naõ ouvessem, e o mesmo dizia que era grande atalho para a verdadeira gloria, que fossemos taes, quaes queriamos parecer a outrem, porque com Deos naõ he necessario estar em muitas praticas, nem dar lhe razoens do nosso dezejo; mas a verdade de leyxar tudo em suas maõs, e quanto a esta parte brevemente lhe pedir, que faça o que mais vir, que he necessario, que he seu serviço, mas no negocio dos homens, por andar a verdade as mais vezes encuberta, cumpre primeyro que se a cousa ponha em obra, que seja comunicada, e examinada com os amigos, e comparando os tempos, e aquecimentos, que se vejaõ as razoens, e busquem os meyos, e dos meyos qual serà o melhor, e depois que se ponha em obra, porque desta maneira, sendo discutidas, e praticadas as cousas, se vem a cahir no conhecimento da verdade, e para isto muy necessarios, como dizem, saõ ao bom Principe bons, e verdadeiros Conselheyros. Nem cuido eu que por outra causa a Reepublica de Veneza passa jà de mil annos, que florece sem nunca ser tiranizada. Necessario he que no Conselho naõ entre payxaõ, odio, nem cobiça, nem pouco amor de Deos, nem lizonjaria, porque sempre se vio as pessoas, que taes vicios, ou parte delles tiveraõ, serem prejudiciaes às Reespublicas.
Naõ deve ser o Conselheyro muito moço, que aonde naõ ha idade, naõ pòde haver muita prudencia, e os mancebos naõ tendo experiência do mal, naõ podem entender o bem, nem o sabem aconselhar, e então conhecem o erro, quando o mal he presente, e a culpa naõ tem remedio. Escreve-se que succedendo Roboaõ filho de Salamaõ no Reyno de seu Pay, e sendo-lhe requerido em ajuntamento geral polos doze Tribus, que quizesse soltar alguma parte dos tributos, que ElRey seu Pay lhes puzera, quiz Roboaõ antes que nada fizesse praticar isto em Conselho em que aos velhos parecia, que ElRey no começo de seu Reynado devia contentar ao povo. Os mancebos polo contrario o aconselharaõ, que pois o povo fora taõ descortès, que ousara pedir cousa, que jà estava taõ assentada, que Roboaõ lhe devia responder asperamente, porque outra hora vissem com quem o haviaõ, e naõ ouzassem entrar em taõ doudo requerimento. Pareceo melhor o Conselho dos mancebos a Roboaõ, por ser tambem mancebo, e pondo-o assi em obra, foy causa de que dez Tribus se alevantassem logo contra elle, e fizessem outro Rey, chamado Jeroboaõ, ficando sómente com Roboaõ dous Tribus Benjamim, e Judà, por isso os Romaõs, como os Persas, como todos os outros Estados deraõ sempre muita authoridade, e credito aos mais velhos, o que o mesmo nome de Senador nos representa.
Naõ he piqueno inconveniente quando os mancebos daõ conselho serem muy colericos, e seguirem seu appetito, que a rasaõ naõ olhaõ a que pode seguir, porque saõ as maes vezes guiados de hum falso desejo, e enganosa esperança, que lhes cega o entendimento, ou por seguirem sua vontade, ou por contentarem a quem aconselhaõ, querem tudo aventurar em hum ponto, e por isso diz Aristoteles, que os taes naõ saõ aptos para o exercicio das virtudes moraes. Os velhos polo contrario ensinados da longa idade, e experiencia das cousas passadas, nenhuma cousa fazem, nenhuma cousa dizem, senaõ com muito tento, julgaõ o que hade vir polo passado, e no presente se guardaõ dos extremos, nem pòde mais nelles a payxaõ, e colera, que a razaõ, e entendimento: naõ fazem, nem aconselhaõ nada aceleradamente, e se aproveitaõ do tempo segundo a qualidade do negocio, alguma ora uzando de pressa, outra de vagar, e tudo isto para conseguir, o que he mais proveitoso à Reepublica, com dilatar as cousas, e assi como no tempo da paz se vem a saber todo o engano, assi na guerra se descobrem os conselhos, e acordos da parte contraria.
Dizia Epaminondas Capitaõ Thebano, que nenhuma cousa era mais necessaria, nem mais proveitosa a hum bom Capitaõ, que conhecer as determinaçoens dos inimigos. O Emperador Cesar Augusto (que tanto neste Panegyrico allego) era Principe muy attentado, e prudente, o qual dizia, que o Capitaõ novo sobre tudo se devia guardar de pressa, e atrevido cometimento, e trazia muito na boca estas palavras (ajunta pressa com vagar) que vieraõ a ficar em proverbio. O mesmo dizia, que assàz depressa era feito, o que era bem feito, nem queria que se começasse alguma guerra, salvo quando a esperança do proveito fosse mayor que o receyo do danno, e os que aventuravaõ muito por cousa pouca, dizia, que eraõ semelhantes a quem pesca com anzol d’ouro, o qual se se perde, he muito mayor a perda, que a esperança do interesse. Naõ cuide alguem que Fabio Maximo mereceo sobre nome de Maximo por ser aventureyro, e cometedor, mas por ser muy attentado, e uzar de dilaçaõ a seu tempo, e quanto mais valha o vagar attentado, que a pressa acelerada se pòde bem ver polo exemplo de Minucio seu Mestre dos Cavalleyros, porque este despresando os conselhos de seu Capitaõ, e reprehendendo nelle aquella dilaçaõ, que foy causa de ser quebrada a furia d’Anibal, se ouvera de perder, se o mesmo Fabio lhe naõ acudira, assi que o vagar de Fabio Maximo naõ aproveitou pouco depois a Marcelo, a Scipiaõ Africano para serem diligentes.
Bem sey que alguns saõ de opiniaõ, que Fabio foy chamado Maximo, quando em Roma apartou os Estrangeiros em quatro Tribos, ou Freguesias sobre si, mas a gloria de salvar Italia das maõs d’Anibal foy tamanha, que naõ sey para que buscamos outra causa, nem outro nascimento a taõ honrado titulo, e eu para mim quero viver neste engano; devem isso mesmo os que aconselhaõ saber muitas cousas, e senaõ forem Letrados, ao menos sejaõ taõ prudentes, que escuzem as letras, e porque o principal fundamento de todos os Estados està em boas leys, e boas armas, naõ menos devem de entender as cousas da guerra, que da paz. Preceito he de Xenocrates, que o Rey se deve aconselhar com homens Letrados, e universaes, e com Poetas, e com Filosofos, mas eu assi como naõ tomo todo o perigo desta tençaõ sobre mim, assi ousaria affirmar, que o bom Conselheyro deve ter noticia de muitos estudos, das Ordenaçoens, da Patria, do Direito commum, finalmente dos verdadeiros Officios de toda a virtude, e quem estas partes todas tiver, poderà bem aconselhar seu Principe.
Acho eu, que duas maneiras ha ahi do governo, porque ou o Principe quer conservar o que tem, ou quer conquistar os caminhos para conquistar saõ estes: aos vencidos naõ dar muita opressaõ, mandar que os vassallos, e naturaes vaõ morar nas terras ganhadas, as quaes povoaçoens os Romaõs chamavaõ Colonias, dos despojos fazer thesouro: afadigar ao inimigo com cavalgadas, entradas, e batalhas campaes, e naõ concertos: ter rico o pubrico, e pobre: a os vencidos dar aos Capitaens inteiro poder como faziaõ os Romaõs, naõ reservando para si mais que o mover nova guerra, e assi manter com muita diligencia os Exercitos, e gente d’armas: as regras para conservar saõ enfrear cobiças, e desejos demasiados, e governar as Cidades com boas leys, e bons costumes. Mas quer o Principe queira conquistar, quer se contente com conservar o ganhado, sempre tem muita necessidade de fieis, e prudentes Conselheiros, fieis seraõ quando fallarem verdade, e como diz o nosso Proverbio antigo (mais valem açoutes do amigo, que beijos doces do inimigo) e prudentes, quando tiverem experiencia, ou letras. Costume he da Reepublica Veneziana, que havendo muitos officios nobres em cada officio da Justiça, e durando ordinariamente os officios, nunca sahem todos juntos, nem entraõ todos juntos; mas se saõ dez Officiaes de hum càrrego, quando o primeiro delles acaba, ainda os nove, que naõ tem acabado, ficaõ, e quando o segundo acaba, ainda ficaõ os oito, e em lugar dos que acabaõ, se elegem outros de novo. Ordenaraõ isto os Venezeanos, porque haja sempre Officiaes, que ensinem aos que entraõ, porque se começassem todos juntos, naõ poderia ser, e para que vejamos quam necessario he o bom conselho a todos os Principes, olhemos quantos males, e quantas deshonras, vem aos Reys, e Senhores, que se regem por sua cabeça.
Do Emperador Octaviano se escreve que naõ podendo sofrer a pouca vergonha, e deshonesto viver de sua filha Julia, vencido de muita ira, contou publicamente todas suas deshonestidades, que della sabia ao povo, em que foy digno de muita reprehensaõ, que posto que (segundo delle escrevem) queria mais ver morte aos seus, que deshonra, com tudo as culpas de sua filha mais eraõ para elle as callar, e castigar secretamente, que naõ para as dizer ao povo: mas depois que a merencorîa se lhe foy, e em lugar da sobeja colera succedeo o conhecimento da verdade, doendose Augusto de sua infamia, e queixando-se de si mesmo, dizem, que disse em voz alta com grande dor de sua alma estas palavras: naõ me acontecèra a mim isto, se Agrippa, e Mecenate meus Conselheiros foraõ vivos; estes foraõ dous grandes seus privados ambos pessoas de muito preço, e de muita virtude, que o Emperador desde sua mocidade tomàra por amigos, e achando-os dignos de sua amizade os amàra constantemente; porque Augusto antre outras virtudes teve esta, que assi como era mào de tomar amigos, e amizades novas, assi as que huma vez tomava, nunca mais soltava atè morte, e se o Emperador Augusto, sendo tal Principe, por se naõ aconselhar, cahio em tamanha culpa, em tanto mòres erros se deve crer, que cahiraõ os Principes, que naõ saõ iguaes a Octaviano, se se quizerem sómente reger por seu Conselho. Mas tornando a meu proposito, V. Alteza faz tudo o que se espera de hum virtuoso Principe, e assi como Nosso Senhor o dotou de muy alto, e experto juizo, e vivo entendimento, assi os do seu Conselho saõ merecedores de tamanha honra como he confiar delles o pezo dos negocios, q́ tocaõ a seu Ceptro Real, nos quaes elle he taõ occupado, que posto que a idade o convida a folgar, e a tomar algum descanço, e recreaçaõ do trabalho; com tudo o amor, que tem à sua Reepublica he de mais força, e pode mais que nenhum seu particular contentamento. Louvado he o exercicio da caça, e monte aos Principes, e grandes Senhores, o qual, como diz Xenofonte, ha de ser temperado, e antigamente os filhos dos Reys se criavaõ nos bosques e caças, e tinhaõ quem lhes ensinava muitas cousas necessarias para guerra: tambem o sitio, e disposiçaõ dos lugares se sabe pola mòr parte, porque havendo nas terras todas alguma conformidade facilmente polo conhecimento de humas, se vem a saber as outras; mas posto que este exercicio seja louvado, e V. Alteza use dalle temperadamente, e a seus tempos, com tudo muito mòr louvor sem nenhuma comparaçaõ merece o seu continuado exercicio, e trabalho de governar bem, e ter em muita paz, e justiça seu Reyno, levando elle sóo mà vida, com que nòs todos vivamos descançados. A todos he notorio quanto amor às Letras, quanto favor, quanto amparo, quanta mercè recebem delle os Letrados de toda a sciencia: este amor he causa de sua Corte florecer hoje tanto em Letras como florece, este mesmo o faz cuidar novas maneiras, e novas invençoes d’Estudos geraes, por onde as sciencias em seu Reyno naõ menos cresçaõ, e vaõ adiante, que as outras virtudes. Verdadeiramente as Letras dizem bem com as armas. Bem sey, que saõ muitos d’outra opiniaõ, mas a causa disto (se me não engano) he por naõ confessarem seu defeito, louvando a virtude de que carecem. Mal hiria ao Capitaõ senaõ fosse prudente, e mal à Reepublica que naõ houvesse armas sem conselho, e authoridade de Letras; mas fique esta questaõ para outro tempo, agora sómente direy, que os mais dos Emperadores, e Reys, e Capitaens de grande fama foraõ Letrados.
Costume era no Egypto (como escreve Plataõ) dos Filosofos se elegerem os Sacerdotes, e dos Sacerdotes os Reys. Destes foy aquelle graõ Rey Mercurio chamado Trimigistro, que quer dizer tres vezes grande, por quanto em Filosofia excedeo a todos os Filosofos, na Religiaõ a todos os Sacerdotes, e em saber governar, seu Reyno a todolos Reys, e do mesmo se escreve, que começou a Theologia antiga, que depois acabou Plataõ. Quem bem esta ordem de eleiçaõ atentar, verà quam bom Regimento era o do Egypto, e quam bem està ao Principe ter conhecimento das cousas Divinas, e humanas. De Pericles Atheniense se lè, que foy grande Capitaõ, grande orador, e grande Filosofo, e Discipulo muito tempo do Filosofo Anaxagoras. Epaminondas Thebano foy graõ Capitaõ, e graõ Filosofo. ElRey Philipe de Macedonia, filho delRey Amintas, e Pay de Alexandre Magno, foy Letrado, e Discipulo de Epaminondas. O mesmo Alexandre foy Filosofo, e muy dado às Letras, e antre tantos trabalhos, e occupaçoens de conquistar o mundo, cada dia tomava algum tempo para ler, e delle se escreve, que nunca se lançou na cama, sem hum punhal, e o livro de Poeta Homero à cabeceira. Isicrates Atheniense foy graõ Capitaõ, e orador.
Que direy de Julio Cesar, Sylla, Pompeo, Octaviano, Adriano, e dos outros Emperadores Romaõs, que naõ menos em armas, que em Letras floreceraõ? Finalmente Carlos Magno Emperador d’ Alemanha foy Letrado, e compoz algumas obras, por isso quem ousar de reprehender algum Principe por ser dado às Letras, he-lhe necessario, que reprehenda tambem a estes todos, os quaes sendo nellas naõ menos excellentes, que nas armas, veja com quanta sua honra a seu salvo o poderà fazer? Se naõ fossem as Letras, e o conselho, que dellas aos Principe nasce por onde se governaõ, sem duvida muita tormenta naõ poucas vezes passariaõ as Reespublicas.
Por tanto o bom Rey he comparado ao bom Piloto, o qual naõ somente na parte da Nào em que està faz proveito, mas com seu conselho, e saber em hum mesmo tempo provè, e manda o que se faça em toda a Nào, e dizia Cataõ Uticense, que naõ fizeraõ os Romaõs a sua Reepublica de pequena tamanha com força d’armas, mas com uzarem em casa de muito saber, e governarem fóra perfeitamente, e com serem livres em dar conselho, e asaltados de toda a reprehensaõ, donde cuido eu, que nasceo o Proverbio, que por elles se disse, o Romaõ estando assentado vence. Bem està a todos os Principes serem grandes, e prudentes, e amadores das Letras, mas muito melhor està isto aos Reys de Portugal, e a razão he, porque a naçaõ Portuguez hoje mais, que nenhuma (se me naõ engano) conserva a gravidade, e desejo de honra, que antigamente sohia ter o Povo Romaõ. O Emperador Cesar Augusto, quando lia por algum livro latino, ou Grego, achando algum exemplo, ou preceito, que pudesse aproveitar ao Regimento da Reepublica o fazia logo tirar, e o mandava, ou a seus Criados, ou a seus Exercitos, ou Governadores das Provincias, ou aos Officiaes de Roma, assi como via, que delle cada hum tinha necessidade.
Deste, e taõ grande Principe se escreve ser homem de poucas palavras, e que nunca fez falla ao Senado, ao Povo, nem o Exercito, que a não levasse primeiro cuidado de casa: com taõ singular prudencia fez muitas cousas, muy proveitosas, e necessarias a sua Reepublica: ordenou que naõ houvesse mais de trezentos Senadores no Conselho de Roma, havendo d’antes mais de mil: estando em Conselho nunca perguntou por ordem seu parecer aos Senadores, mas ora a huns, ora a outros, porque cada hum estivesse mais apercebido, e respondesse melhor quando fosse perguntado; favoreceo muito os Lavradores, trabalhou que estivesse Roma farta, ennobreceo-a de muitos edificios, teve grande cuidado da segurança, e paz geral, e naõ menos cuidado dos Exercitos. Renovou, e ornou os Templos, acrescentou o numero, e dignidade dos Sacerdotes, emmendou todas as cousas de mào exemplo, ouvio partes, e elle per si determinou muitas demandas, e proveo como naõ ardessem os edificios em Roma. Teve sempre hum memorial em sua camera de todo o Imperio, ordenou homens em pàradas, para ser mais cedo avizado do que se passava, e estes depois tirou, e poz Cavallos em postas, porque os mesmos, a que fossem dadas as cartas, lhas podessem trazer, e dessem razaõ do que fossem perguntados. Escreve-se, que ElRey Cyro foy o primeiro, que ordenou Correyos, de tal maneira, que hum mensageiro corresse todo hum dia em hum só Cavallo, e o seguinte noutro, e assim atè o cabo; e finalmente Octaviano todalas cousas fez prudentemente como cumpria ao bem, e conservaçaõ da Reepublica Romãa, mostrando-se em tudo mais virtuoso, que todos, e Pay verdadeiro de seus Cidadaõs, aos quaes teve tanto amor, que duas vezes esteve determinado para soltar a Reepublica, e restituir à Cidade a sua liberdade, e sempre o fizera, se lhe naõ parecera mais perigoso ser jà governada por muitos, que hum sóo.
Os Principes, que querem ser justos, e prudentes, e pacificos devem sempre imitar tal Emperador, nem sinto eu, que gloria se possa comparar com a justiça, e paz de Octaviano: mas naõ menos santas, e proveitosas invençoens a estes Reynos nascem cada dia da prudencia de V. Alteza, com as quaes vivemos taõ descançados, como na mais segura Reepublica do mundo: jà naõ hà morte, jà naõ hà ladroens, jà naõ hà salteadores, todos os males com sua justiça, e prudencia saõ de tal maneira apagados, que quando ouvimos, que foraõ, nos espantamos como poderàõ ser. Ó grande bemaventurança destes tempos, pola comparaçaõ dos bens presentes, naõ podemos dar credito aos males, que jà passaraõ! Sem duvida estes bens se devem atribuir à grande virtude de V. Alteza, o qual assi como tem sua consciencia muy limpa, e apartada de todo o vicio, assi trabalha, que sua terra esteja limpa de todos os males; estas virtudes taõ excellentes acompanha V. Alteza de grande fortaleza, e magnanimidade: forte he quem defende a boa rasaõ, e igualdade, as quaes nunca pòdem estar: forte he quem ama a virtude, naõ por interesse algum deste Mundo, mas pola gloria do outro, que espera: forte he quem sempre mostra hum mesmo rosto à fortuna, nem se espantando com nada, nem se leyxando vencer d’algum appetito. Fortaleza he procurar as cousas da paz, naõ menos que vencer batalhas campaes, por quanto as ordenaçoens da paz aproveitaõ para sempre, os males da guerra saõ muitos, e o bem da vitoria as mais vezes dura pouco. Magnanimo he quem resiste à ira, e menencoria, e quem soffre temperadamente a prospera, e adversaria fortuna, nem se alterando com as prosperidades, nem se abayxando com as adversidades.
Finalmente a magnanimidade està no cume de todas as virtudes, a todas dà muita perfeiçaõ. Quem bem quizer olhar todo o tempo do Reynado de V. Alteza, acharà que todalas partes desta virtude se pòdem nelle verificar. O zelo de toda a virtude, a boa razaõ, e a igualdade tem nelle taõ forte, e constante defensor, que o que em outras partes se faz com medo da pena, se faz neste Reyno seguindo seu virtuoso exemplo. Quem naõ sabe quam forte foy no principio de seu reynado, vendo logo cousas em que bem mostrou quam acabado em tudo era, e ao diante havia de ser, as quaes eu cuido que Deos permitio, que vissem estes Reynos por experiencia quamanha merce delle receberaõ em se lhes dar tal Principe, e que de taõ pouca idade, e sendo taõ novo em tamanho officio, assi resistio a muitas cousas, a que outros pola ventura de mais tempo naõ puderaõ resistir, rasaõ era que delle se esperassem todos os bens, naõ nos enganou esta esperança: passa de doze annos que V. Alteza reyna, nos quaes sendo sempre taõ excellente Rey, nunca cançou, nem cança d’o ser cada dia melhor: notorio he ao Mundo com quanto respeito, com quanta igualdade, se ouve com a Rainha de França Dona Leonor usando com ella toda a virtude, e magnificencia, que hum Rey Christianissimo, e magnanimo podia usar.
Naõ sómente como dizem os Filosofos o que peleja, he bom Cavalleyro; mas tambem merece este nome, quem no tempo da paz pode levar ao cabo as cousas fundadas em bom conselho, e rasaõ, nem foy menos forte Salamaõ no tempo da paz, do que foy seu Pay David no tempo da guerra: venceo o Gigante Philistheo d’altura de seis covados, venceo outras muitas Naçoens poderosas, e apartadas do Reyno de Judea, Salamaõ estando em paz com naõ menos fortaleza, fundou em louvor de Deos aquelle Templo taõ nomeado de Hyerusalem, manteve os doze Tribus em muita justiça, enriqueceo seu Reyno, e vassallos sem nenhuma comparaçaõ: edificou Cidades em muitas partes, e muy longe de Judèa: foy Senhor pacifico da Arabia, e mòr parte da Suria: estendeo sua fama pola Asia, Persia, Etiophia: mandou fazer no Mar Roxo nàos em hum porto, que entaõ se chamava Asion Gaber perto da Cidade de Helena, que depois foy chamada Beronica, e pòde ser que seja agora porto Judà, porque toda esta terra, e costa foy naquelle tempo dos Judeos, e estas Nàos sendo mandadas por ElRey Salamaõ à India, e governadas por Marinheiros, e Pilotos da Cidade de Tyro, que entaõ eraõ grandes homens do mar, chegaraõ a hum lugar chamado Ophira, que depois se chamou Terra d’ouro, donde trouxeraõ a ElRey mil e cem arrobas pouco mais, ou menos, e muita madeira de Pinho alvo, de que Salamaõ mandou fazer Violas, e Psalterios, com que os Levitas tangessem a Deos no Templo.
Quem comparar ambos estes Reys Pay, e Filho, acharà que naõ menos forte foy Salamaõ na paz, do que foy David na guerra. Bem sabia David, sendo Profeta, e taõ aceito a Deos, que seu filho Salamaõ havia de reynar pacificamente, e com esta certeza lhe mandou edificar o Templo. Com tudo estando jà para dar a alma a Deos, nenhuma cousa lhe encomendou mais que fortaleza, porque via que tambem os Reys na paz tinhaõ della muita necessidade: mas V. Alteza igualmente se serve da Fortaleza em ambos os tempos: a guerra feita por seus Capitaens contra os Mouros d’Africa, contra a India, contra a Persia, contra a Arabia daõ claro testemunho do que digo: nas mòres fortunas mostra mòr animo. Constantemente leva àvante por mar, e por terra o que huma vez começou, nem me espantaõ grossas armadas de Rumes, nem Reys da India, porque a graõ fortaleza, acompanhada de muita fé, não pòde ser desbaratada, pouco aproveita começar huma, a quem a naõ hade levar àvante, e muito mòr infamia lhe fica leyxando-a, do que mereceo louvor em a começar, e tal foy o Emperador Tiberio, o qual sendo graõ Capitaõ em principio, depois que veyo a reynar, faltou no melhor tempo, e por sua fraqueza, ou descuido leyxou perder muitas terras do Imperio Romaõ. Deve-se fugir a guerra quanto for possivel, mas depois que justamente for cometida, mais aproveita a huma Reepublica levalla àvante com perigo, que desistir della com vergonha, e por isso se escreve, que sabendo os Lacedemonios, que o Poeta Archiloco dissera que era melhor renderse, e leyxar as armas, que morrer, que logo no mesmo ponto o lançaraõ fóra da sua Cidade.
Essa fortaleza mostrou Alexandre Magno na Conquista da Persia, porque sendo cometido por ElRey Dario com grandes promessas a que soltasse a empreza, que levava, e parecendo isto bem a alguns seus privados, não quiz Alexandre por nenhum interesse soltar a guerra, que somente por dezejo de gloria começàra, assi que levou àvante sua tenção, nem descançou athè por força lhe naõ tomar todo o Estado, e senaõ fazer Senhor da mòr parte da India, e de toda a Asia, e se a morte o naõ estorvara, opiniaõ he de muitos, que se fizera Senhor do Mundo; mas a ventura contraria (pola mòr parte) dos grandes começos, e grandes pensamentos, ordenou que aquelle Principe que jà em seu titulo se chamava Rey do Mundo, a que nenhum Exercito pudera resistir, que nenhuma Cidade cercàra, que naõ tomasse, que em nenhum Reyno entràra, que naõ sojugasse, que tanto esforço dava aos seus, que em sua prezença, e dezarmado, naõ temia nenhuma gente armada aquelle, a quem o mar de Pamphilia (segundo escreve Jozepho) milagrosamente se abrira como a Moysès o mar Roxo, a quem em sonhos por revelaçaõ Divina foraõ ensinados remedios para curar feridas, que tantas Cidades edificàra, que acabàra cousas, que Hercules naõ pudera acabar, quiz (como disse) a ventura que este tamanho Rey, e Capitaõ depois de tantas vitorias, tantos titulos, tantos triumfos, fosse na flor de sua idade morto com peçonha por traiçaõ dos seus, e a causa desta morte foy por se fazer adorar à maneira dos Reys da Persia, contra vontade de seus naturaes.
Escreve-se delle, que athè o fim se alembrou da grande fortaleza, que em toda a sua vida mostràra, porque estando jà para espirar, e sendo lhe perguntado por seus privados, e amigos, que de redor delle estavaõ, quem queria leyxar por seu erdeiro, respondeo, que o mais digno, e esta foy a sua derradeira palavra. Foy tanta a sua grandeza, que tendo hum filho chamado Hercules, que fora avido em Marsine sua escrava, e hum seu Irmaõ por nome Arido, e assi leyxando prenhe a sua mulher chamada Roxane, todavia esquecido do sangue, e das razoens de todo o parentesco, quiz sómente nomear por seu erdeiro o que fosse mais digno, mas depois de morto Alexandre, aquelle grande Imperio, que em taõ breve tempo fora ganhado, em breve tempo foy desbaratado, e desfeito, porque succedendo no Reyno Arideo, Irmaõ de Alexandre homem fraco, e para pouco, os Capitaens, a que fora cometida a governança das Provincias, se alevantaraõ cada hum com a sua, ao que sómente resistio a Rainha Euridice mulher de Arideo: esta naõ podendo sofrer a fraqueza de Arideo seu marido, e sendo muy constante, e valerosa com ajuda de Cassandro seu Capitaõ fez muitas cousas de esforço, cobrou muitas Cidades de Grecia, constrangeo os Lacedemonios que cercassem novamente a sua Cidade, cousa, que athè entaõ nunca fizeraõ; mas porque huma mulher naõ podia resistir a tantos males, que se levantavaõ de cada parte, em fim foy necessario que perdesse tamanho Imperio. Tambem aquelles vitoriosos Soldados, chamados Argiras, e Pidas, que quer dizer escudos de prata, com que Alexandre conquistàra o Mundo, tanto que o perderaõ, perderaõ logo toda sua força, e sendo pouco antes espanto de todas as gentes, foraõ por Antigono deshonradamente desbaratados, e postos em cativeyro, donde se pòde ver quamanha verdade he o que sohia dizer ElRey Philipe de Macedonia, que era melhor, e mais forte hum Exercito de cervos com hum Leaõ por Capitaõ, que hum de Leoens tendo por Capitaõ hum Cervo. E foy tanta a fama, que leyxou Alexandre de sua fortaleza, que ainda agora depois de tantos tempos, e idades he nomeado em todo o mundo. Escreve-se do Emperador Cesar Augusto, que achando-se em Alexandria, Cidade do Egypto, e dezejando ver o corpo de Alexandre, que nella jazia sepultado; foy à sepultura, e a mandou abrir, e vendo o corpo o adorou, lançando-lhe em cima muitas flores, e pondo-lhe na cabeça huma Coroa de ouro, que era a mòr honra, que então a hum corpo morto se podia fazer, e sendo perguntado se queria tambem ver o Corpo delRey Ptolomeo, respondeo, que elle viera alli para ver o Rey, e naõ para ver os mortos.
Havia em Roma huma nobre linhagem dos Macrianos, os quaes tinhaõ por devoçaõ, e bençaõ de seus Avòs trazerem sempre a imagem de Alexandre consigo, e os homens a traziaõ de ouro, ou prata, as mulheres sómente d’ ouro na cabeça, ou em manilhas nos braços direitos, e em aneis, e tinhaõ antigamente como escreve Julio Capitolino, que quem consigo trouxesse a Imagem de Alexandre em ouro, ou em prata, que todas suas cousas succederiaõ bem, e hiriaõ àvante. Esta honra mereceraõ os feitos, e fortaleza de Alexandre, o qual naõ sómente teve respeito ao tempo da vida, mas como muy prudente Principe trabalhou por haver Chronistas excellentes, que pudessem (como era razaõ) encomendar à memoria seus grandes aquecimentos. Desta opiniaõ era Themistocles Atheniense, que sendo perguntado qual era a voz, que mais folgara de ouvir, respondeo: que aquella de quem visse suas cousas mais eloquentemente serem tratadas. Foy Alexandre magnanimo nas adversidades, e de tal maneira cõmetteo a guerra, que naõ pareceo, que dezejava a paz: foy magnifico, e desprezador das riquezas sabendo certo, que querer bem ao dinheiro naõ havia mòr sinal de coraçaõ fraco, nem polo contrario cousa mais real, nem mais digna de hum graõ Principe, que desprezalo, quando o naõ tivesse, e quando o tivesse despendelo magnifica, e liberalmente. Em fim teve Alexandre as mais das partes, que deve ter hum Capitaõ forte, e magnanino com que naõ somente foy aceito aos homens, mas ainda obrou Deos por elle cousas de grande admiraçaõ. Se a virtude da fortaleza naõ fora aceita a Deos, naõ edificara ElRey Salamaõ no Templo o Armazem das armas junto à Sede Real, em que eraõ levantados os Reys depois de serem ungidos pelo Principe dos Sacerdotes.
O Principe, que quer ser forte, ha de guardar inteiramente sua fé, e porque isto naõ teve ElRey Philipe de Macedonia, antes usou de enganos, e falsidades, poz muy grande nodoa em muitas partes da fortaleza, que nelle havia: deve tambem ser lido, e folgar de ouvir as historias, e vidas dos grandes homens, olhando como se governaraõ na guerra, examinando as causas da victoria, e perda das batalhas, e seguindo o exemplo de algum notavel Capitaõ. O mesmo Alexandre seguio Achiles, Julio Cesar seguio Alexandre, e assi Scipiaõ Africano seguio tanto a ElRey Cyro, que quem bem ler a historia, que Xenofonte escreve delle, acharà, que todas as virtudes, e liberalidade, e humanidade delRey Cyro foraõ representadas por Scipiaõ de maneira, que bem se poderia dizer, que ou Cyro foy Scipiaõ, ou Scipiaõ foy Cyro. Dizia este Rey, que o Principe no tempo da paz devia ter cuidado das cousas da guerra, e porque isto fez (naõ muitos tempos hà) Francisco Sforcia foy em quanto viveo Duque de Milaõ, e os filhos polo contrario naõ tendo nenhuma lembrança da guerra vieraõ a perder aquelle Estado, que seu Pay lhes leyxara a elles muy pacifico. Por muy desaventurado se deve ter o Principe a que nunca aconteceo dezaventura, na qual alem de se provarem os homens para quanto saõ, a experiencia dos trabalhos os faz mais prudentes, e avizados, e sempre ter passado algum mal aproveitou muito para a conservaçaõ do bem presente. De Policrates poderoso tiranno da Ilha de Samno se lè, que sendo em tudo muy prospero, e bemaventurado, veyo no cabo a ser prezo por Orontes Capitaõ delRey Dario, e a ser enforcado no mais alto outeiro da montanha de Micale sobre o mar: em a fim soube Policrates quanta verdade lhe fallava Amases Rey do Egypto grande seu amigo, porque vendo, que se prezava muito de sua boa fortuna lhe escrevera por algumas vezes, que se guardasse do fim.
Fortes foraõ muitos Capitaens Romaõs, nem se devem as victorias, que ouveraõ d’atribuir mais à sua boa fortuna, que à sua virtude, que posto que a guerra tenha necessidade de tres cousas, boa gente, bons Capitaens, e boa fortuna, com tudo a mòr parte della consiste nas duas primeiras, e por isso bem diz hum Proverbio latino, que a fortuna succede segundo saõ as manhas, e costumes de cada hum. Teve Roma grande Estrella, mas naõ teve menos fortaleza, e com ambas pode alcançar tamanho Imperio, o qual logo em seu principio cresceo tanto, que em tempo do sexto Rey de Roma havia jà nella oitenta mil homens para tomar armas, e foy tanta a bondade, e nome desta Reepublica, que os Reys antigamente trabalhavaõ por serem Senadores della. Naõ desprezou esta Dignidade o Infante D. Henrique Irmaõ delRey D. Afonso de Castella decimo deste nome, naõ a desprezou Carlos Rey de Napoles, e Sicilia, e Conde de Andegavia, e Proença, em cujo tempo no anno de Nosso Senhor do nascimento de mil e duzentos e oitenta e hum foy aquella conjuraçaõ taõ nomeada dos Sicilianos, em que foraõ mortos em hum só dia todos os Francezes, que polo Reyno de Sicilia foraõ achados, e levantando-se logo toda a Ilha se deu a D. Pedro de Aragaõ. Mas tornando ao meu proposito se no tempo, que Roma era jà desfeita, e destruida, com tudo os Reys desejavaõ serem Senadores della, que devemos cuidar, quando prosperava, e mandava o mundo?
O Emperador Octaviano nenhuma cousa depois de Deos estimava tanto, como a memoria dos Capitaens por cuja industria, e fortaleza o Imperio Romaõ de pequeno fora feito taõ grande, e para isto melhor mostrar, renovou as obras, e edificios, que cada hum delles fizera, e mandou levantar a todos estatuas em habito triunfal de redor da sua praça com hum pregaõ, que dizia, que isto fazia Octaviano para que o Povo Romaõ assi a elle, e aos Emperadores, que viessem depois obrigassem a darem de si taõ boa conta, como elles deraõ. Este taõ grande Imperio houve fim, e acabou como naturalmente acaba tudo, e segundo a opiniaõ de alguns o principio de sua destruiçaõ foy quando os Romaõs esquecidos de quem eraõ, se começaraõ a ajudar da gente de fóra, e deraõ soldo aos Godos, naçaõ barbara, e estrangeira, e sem duvida naõ hà remedio menos firme para a conservaçaõ de hum Estado, que a potencia fundada nas forças alheyas, por tanto os Principes, e Reepublicas devem fazer guerra com os seus natu-raes, e aventurar-se antes com elles, que tomar ajuda d’outra parte, e se bem queremos olhar, esta foy a causa, por onde poucos tempos hà Italia foy destruida, porque sendo o Imperio de Roma lançado della, e alevantandose muitas Cidades principaes contra os nobres, que com favor do Emperador as tirannizavaõ, e tendo muita necessidade de ajuda parte dellas, se encomendavaõ ao Papa, e parte de algumas Reespublicas principaes de Italia, mas polo Papa ser Ecclesiastico, e as Reespublicas serem pouco usadas nas armas começaraõ entaõ para defençaõ de seus Estados de darem soldo aos de fóra, e o primeiro, que deu authoridade, a gente, e armas estrangeiras foy Alberico de Romanha, mas porque poucos homens de pè aproveitavaõ pouco, e muitos eraõ màos de manter, ordenaraõ entaõ em lugar destes gente de Cavallo para fazerem corpo com poucos de Cavallo, o que com poucos de pè naõ podiaõ fazer, e fazer-se com muitos era graõ despeza, dahi por diante sendo dado tanto favor à gente de fóra tiveraõ occasiaõ os Estrangeiros de se hirem fazendo Senhores de Italia, atè que finalmente aquella Italia senhora do mundo veyo a ser escrava de muitas naçoens, corrida por ElRey Carlos, roubada por ElRey Luiz, vencida por ElRey D. Fernando vosso Avò, e deshonrada por Soiços.
Se quizermos olhar França, tambem ella nos serà exemplo de quam prejudiciaes aos naturaes saõ as Armadas de fóra. ElRey Carlos de França VII. deste nome Pay delRey Luiz Onzeno depois de livrar seu Reyno com muito trabalho das mãos dos Ingleses conhecendo esta necessidade fez em França ordenança de gente de pè, ou Infantaria, depois ElRey Luiz seu filho tirou a Infantaria, e começou a dar soldo aos Soiços, e este erro continuado foy causa dos perigos, e males daquelle Reyno, porque sendo dada a authoridade aos Soiços, o partido dos Franceses sem gente de pè ficou bayxo, e a sua gente d’armas veyo a ter necessidade da gente estrangeira, donde vem, que os Franceses aos Soiços naõ podem resistir, e sem elles naõ valem muito. Se Capua naõ recebera a gente de Anibal, naõ fora destruida pelos Romaõs, se Grecia naõ chamara a Philipe Rey de Macedonia, naõ viera a ser sogeita dos Macedonios, nem passara os males, que passou. Se o Emperador de Constantinopla Michael Paleologo naõ metera os Turcos de Natolia em Grecia, naõ se perdera aquelle Imperio, como se perdeo. Finalmente se nestes tempos d’agora Joaõ Vayvoda naõ chamàra os Turcos, Ungria senaõ destruira, e elle estivera mais honrado, que està: assi que claro se vè de quantos males, e perdas as armas estrangeiras saõ causa, e sempre foraõ; por isso o Principe que dezeja, que seu povo seja forte, faça a guerra com os seus naturaes, lembrando-se que nenhum Capitaõ conquistou muito, senaõ com a propria gente, e se o Emperador Carlos V. deste nome ouve em nossos tempos tantas vitorias contra ElRey de França, e o prendeo em batalha por seus Capitaens, que a principal causa disto foy, por fazer a guerra com os Espanhoes seus naturaes, e ElRey de França polo contrario com muita parte de Soiços, e Italianos: grande inconveniente he ajudarse o Principe do Exercito, que sómente anda por roubar, porque assi como a gente natural peleja por amor, assi a estrangeira por só interesse, o qual faltando, tudo falta, e a tal gente se leyxa vencer por ser peitada, ou por esperança de mòr proveito, e o peor he que muitas vezes por este caminho os Estados se vem a perder, e a ficarem sugeitos daquelles, que os ajudavaõ.
Diz Aristoteles, que os Athenienses levantaraõ a Codro por seu Rey por lhes conservar a liberdade, e ElRey Cyro mereceo antre os Poetas a mesma honra: outros foraõ feitos Reys, ou por conquistarem Reynos, ou por fundarem Cidades de novo, como foraõ os Reys dos Macedonios, dos Spartanos, e dos Molossos. Tambem os Reynos, que neste tempo por legitima sucessaõ se herdaõ, antigamente foraõ aos grandes merecimentos das pessoas, ou por virtudes, ou boas obras, ou grande fortaleza. O mesmo Aristoteles diz, que o mòr pensamento dos Principes antigos era levantarem o Ceptro Real, em sinal da fé, que direitamente haviaõ de guardar, e pois que aos Reys antigos, os povos deraõ sobre si tamanho poder, e authoridade polos bens que receberaõ delles, e principalmente pola liberdade, e asosego comum, devem todos os Reys seguir os exemplos de seus avòs, e da caza donde vem, de maneira, que os Reynos, que herdaõ por sangue, tornem a merecer de novo por grande virtude, e fortaleza, e sobre tudo devem conservar a honra, descanço, e liberdade de seus vassallos, usando verdadeira fortaleza, e naõ confiando mais na gente de fóra, que na força, e valentia de seus naturaes, por quanto sempre se vio com a gente natural se conquistarem os Reynos alheyos, e com a de fóra se perderem os proprios, e jà ganhados.
Tudo isto que disse de fortaleza, e partes della, foy porque vissem todos comparando as cousas antre si, quam excellente Principe em todas he V. Alteza quam forte, quam constante, quam afeiçoado à lembrança dos feitos, que saõ dignos de memoria. Quantas Conquistas tem contra os infieis em diversas partes do Mundo, e assi quanto mais confia no esforço, e bondade de seus naturaes, que nas armas, e ajuda de nenhuma gente estrangeira: mas naõ se contenta com sómente ser forte (sendo este em si tamanho louvor) mas ainda vay mais por diante, merecendo mòr nome, que o da fortaleza, e sua natureza he naõ descançar nunca athè naõ chegar ao mais alto ponto, e cabo de toda a virtude. Grande louvor seria a todo o Principe ser chamado forte; V. Alteza de tal maneira o he, que tambem com muita razaõ pòde ser chamado magnanimo. Quem o vio nunca menancorio, ou desviado daquella humanidade, e brandura, que mais representa homem Divino, que humano? Quem vio nunca seu rosto alterado, nem vencido de alguma payxaõ, por nenhuma grande adversidade, que fóra destes Reynos (tantas esterelidades, tantas fomes, tantos terremotos, e pestes em quantos annos atraz foraõ) se elle com seu grande, e magnanimo esforço, e bondade lhes naõ acudira?
Eraõ perdidas muitas Nàos de V. Alteza que vinhaõ carregadas da India de muita riqueza, naõ cessavaõ diferenças muito importantes com grandes Principes, com tudo sentindo sem comparaçaõ mais os males presentes, que seus Reynos padeciaõ, e dissimulando a payxaõ com muito esforço, naõ cessava com igual prudencia, e magnanimidade de socorrer continuamente as necessidades de todo o seu povo, muito mais do que a qualidade dos tempos parecia, que pudesse soportar; mais he isto que fortaleza, e mòr louvor merece, porque saõ estas as partes do coraçaõ alto, e segundo dizem os Filofofos, heroico, que assi como nas prosperidades se vem os homens para quanto saõ, assi nos grandes males, e perdas se conhecem os magnanimos. Em tempo do Emperador Marco Antonio o Imperio Romaõ padeceo todos os males, que se podiaõ cuidar, toda a terra de Levante toda Esclavonia, toda a França ardiaõ em guerra, havia fomes, esterilidades, tremia a terra em muitas partes, cahiaõ Cidades, e lugares com perda de muita gente, vinhaõ grandes cheas de rios, que alagavaõ os campos, e faziaõ grande danno, andava por todas as partes graõ pestilencia, com outras muitas doenças, desciaõ polo ar nuvens de Gafanhotos, que aonde pousavaõ, destruiaõ tudo, em fim nenhum mal, nenhuma desaventura se poderia imaginar, que entaõ naõ ouvesse, mas Deos que nunca se esquece dos homens, tanto que naõ lhes dè algum remedio, quiz por sua misericordia, que fosse naquelles tempos Emperador de Roma Marco Antonino Principe dotado de tantas virtudes, e de taõ excellente engenho, e saber, que pode com seu esforço repairar, e ter o rosto quedo a tamanha fortuna, e bem se pòde dizer, que se naquelles tempos naõ fora Antonino, que o Imperio Romaõ se perdera. Com muita razaõ pòde V. Alteza ser comparado a este taõ virtuoso Principe, posto que nisto lhe faz ventagem, que tendo recebidas mòres perdas em sua fazenda naõ leyxou por isso, nem leyxa de ser taõ liberal, como elle foy; mas quanto mais me estendo por seus louvores, e grandes virtudes tanto se faz o caminho mais comprido. Aconteceme como àquelles, que entrando polo mar Occeano, quanto mais vaõ por diante, tanto mais se metem no alto, por isso em tanto perigo, melhor, e mais saõ conselho seria recolherme, e assi o quero fazer se primeiro disser algum pouco da grande temperança que ha nelle: claro remate de todas suas virtudes, sugigando sempre o appetito à razaõ, e guardando inteiramente o que cumpre, e sómente està bem a seu Real Estado. Grande jurisdicçaõ tem esta virtude em toda a vida do homem, e com todas as outras esta abraçada de maneira, que de nenhuma se pòde apartar, nem pòde haver perfeita virtude, em que naõ haja temperança, com que nada repugna à razaõ; mas he tudo confórme, e conveniente antre si. Naõ me he a mim necessario para prova disto allegar muitas razoens, por quanto o exemplo de V. Alteza basta para verificar o que digo, no qual naõ menos todas as outras virtudes, que esta, e suas partes se representaõ. Qual homem por mais rude, e idiota que seja, vendo a sua muita temperança, naõ cuidarà que vè hum daquelles Principes antigos cheyos de toda a humanidade, e comedimento, que de si nos leyxàrão memoria para sempre?
Todo este louvor he seu proprio, e por isso tanto mais digno de ser neste lugar louvado, quanto mais a elle só he devido, porque tirando algumas cousas que necessariamente requere a dignidade Real para sua conservaçaõ, em tudo o mais se ha para seus vassallos com tanta moderaçaõ, que mais parece Pay de todos, que Rey, e Senhor. Oh quam grande força he a da virtude! Quanto mais temperado he V. Alteza, tanto de nòs he mais venerado, e quanto mais obedece à razaõ, tanto mais o alevanta Deos, de maneira que o acatamento, que muitos outros Reys com mostra de muita gente, com pompa de Real Estado, com luzentes Alabardas diante de si naõ pòdem alcançar, elle só com muito comedimento, com muita brandura, e humanidade naõ menos alcança do que merece. Bem està esta tal virtude a hum tal Principe, e tanto melhor lhe està, quanto he mais nova, naõ digo, porque o conhecimento das virtudes naõ seja cousa velha, mas porque a pratica, e uzo dellas, as mais vezes he cousa nova, mas elle naõ se contenta de louvor geral, os seus altos pensamentos dezejaõ merecimentos novos, o seu Real Coraçaõ desprezador de honras demasiadas, e amansador de desejos sem nenhum fim, mais do que Deos manda, alcança mais do que deseja. Naõ leyxarey de pòr aqui as palavras, que Moysès Secretario do muy alto Deos leyxou ditas a seu povo. Se quizerdes em algum tempo ser governados por Rey, olhay que seja vosso natural, e que tenha sempre cuidado da justiça, e que saiba que a sabedoria consiste principalmente em temer a Deos, e em guardar as leys, naõ faça nada sem vontade do Principe dos Sacerdotes, e dos mais anciaõs do Povo, naõ caze com muitas molheres, naõ trabalhe por acquirir muitos thesouros, nem por ter muitos cavallos ajaezados, por quanto se estas causas desejar, e tiver, serà soberbo, e pouco obediente às leys. Esta virtude taõ louvada de Moysès os mais antigos Romaõs, seguidores da ley da natureza, guardaraõ inteiramente, e em quanto a elles guardaraõ, e com ella juntamente amàraõ pobreza, o Imperio Romaõ assi na paz, como na guerra cresceo, e foy por diante. Lucio Quincio Cincinato Capitaõ, e Senador Romão com quatro geiras de terra vivia, e nellas andava lavrando, quando foy chamado para ser Dictador de Roma, que era entaõ a mòr honra, e dignidade que naquella Reepublica se podia dar, e delle se escreve, que fez no seu tempo seu Mestre dos Cavalleiros a hum Curio, ou Lucio Tarquino, que athè entaõ por ser muy pobre servira na guerra a pè, e assi Marco Athilio Regulo Nobre Capitaõ, que como jà em cima disse, foy prezo polos Carthaginenses teve o dezejo taõ curto, e limitado, que sendo em Africa Capitaõ d’hum grande Exercito mandou pedir ao Senado licença para vir a Roma olhar por huma sua Quintãa, que entaõ era maltratada de seus Lavradores: sem duvida quem isto pedia, naõ desejava de enriquecer na guerra, que entaõ pouco lhe lembràra o danno da sua erdade, mòrmente andando em tal parte, e com tal càrrego, donde pudera tirar grandes interesses, mas aquelle fim certo da bondade, que nunca pode exceder às Leys da temperança, foy causa, que assi como Regulo fazia guerra por gloria, e serviço da sua Reepublica, que assi em tamanha Capitanîa senaõ esquecesse de sua pobre fazenda.
He certo para notar a grandeza de coraçaõ dos Cidadaõs Romaõs, os quaes sendo em alguma parte Capitaens, eraõ magnanimos sobre todos os Principes, desbaratavaõ poderosos Reys, e grandes Exercitos em batalhas campaes, e estes mesmos depois, que se tornavaõ à patria, tornavaõ a ser como d’antes Cidadaõs particulares, temperados, contentes de suas pobres fazendas, obedientes aos Officiaes de Roma, e aos mais velhos, quasi de maneira, que parece cousa impossivel, em hum mesmo coraçaõ caber tamanha diversidade de costumes. Durou isto atè o tempo de Paulo Emilio, o qual vencendo a ElRey Perseo de Macedonia, e triumfando delle trouxe a Roma tanto ouro, e prata com que o Povo Romaõ aprendeo a ser cobiçoso, mas Paulo Emilio lembrado dos costumes em que fora criado, se lembrou sómente da victoria, e viveo como dantes pobremente: dahi por diante crescendo a cobiça nos Romaõs chegou a tanto extremo por onde aquella Reepublica, q́ o que com temperança se ganhàra, se veyo a perder com seu contrario, e como diz hum Poeta a cobiça, e desordem dos Romaõs destruio Roma, e deu della vingança ao mundo; mas V. Alteza naõ somente no que toca à dignidade Real, mas à maneira, e costumes de sua vida he muy temperado. Jà disse em cima quam sumptuosamente edificava, o que porèm faz com tanto respeito, que naõ pode ser a isso reprehendido, como foraõ Pericles, e Pompeo. ElRey Herodes de Judea filho de Antipatro, e Domiciano Emperador de Roma, e ElRey D. Fernando de Portugal por este demasiado apetito, de ricos Principes, que eraõ d’antes, deraõ consigo em muita pobreza. A Mesa Real de V. Alteza assi como he servida como cumpre a seu Real Estado, assi naõ excede o modo na muita sobejidaõ dos manjares, que se agora em outras partes usaõ, os quaes naõ sendo bons para a vida, trazem consigo outro danno, que empecem com seu exemplo ao povo, que como jà disse, sempre folga de fazer o que vè, que seu Principe faz.
De Julio Cesar se conta, que fez huma Ley, que naõ se comesse em Roma mais de certas viandas, e a fez guardar taõ inteiramente, que alèm de mandar olhar sempre o que se vendia nas Praças, mandava dissimuladamente saber o que se comia nas Casas dos principaes. Esta Ley foy tomada das Leys de Licurgo, que em nenhuma cousa trabalhou mais, que fazer, que a sua Reepublica fosse temperada no comer, e beber, e sem duvida os homens devem de comer para viverem, e naõ viverem para comer. Quem bem olhar quanto a sobejidaõ da gula repugna às Leys da natureza, e encurta a vida, e assi as muitas enfermidades, e naõ boas disposiçoens, que della nascem, acharà quam pouca necessidade tem os homens de muito comer. D’ElRey Dario se escreve, que hindo fugindo de Alexandre, e levando grande sede, foy dar em hum regato da agoa turba, trilhada de gente, e envolta em sangue de homens, que nella jasiaõ mortos, e fartando-se entaõ aquelle graõ Rey Dario desta sorte d’agoa, confessou, que nunca bebera com tanto gosto. Tambem ElRey Ptolomeo caminhando pelo Egypto, e naõ tendo huma noite, que cear, senaõ paõ de toda a farinha disse, que nunca cousa melhor lhe soubera. Desta temperança louva Mamertino em hum seu Panegyrico ao Emperador Juliano, o qual, segundo diz, as mais vezes comia, e bebia em pè o que lhe mandavaõ, e assi por este respeito louvaõ em seus Panegyricos Ausonio ao Emperador Graciano, e Plinio a Trajano. Pacato em hum Panegyrico, que fez ao Emperador Theodosio, diz, que sendo elle Senhor das terras, e dos mares, era no comer muy temperado contentando-se de toda a vianda, nem se prezando de manjares delicados de muito preço, e trasidos de longe, e no mesmo lugar reprehende a hum Principe, cujo nome calla, que foy taõ dado à Gula, que muitos comeres seus foraõ avaliados, e estimados cada hum em dez mil cruzados. Finalmente do Emperador Cesar Augusto se escreve, que nunca fez gasto demasiado em comer.
Naõ he V. Alteza digno de pequeno louvor em beber agoa, posto que esta taõ venturosa manha lhe venha a elle, e naõ menos aos Infantes seus Irmaõs, como de herança leyxada por ElRey D. Manoel seu Pay de gloriosa memoria. Diz Salamaõ nos Proverbios naõ queiras aos Reys dar vinho, porque onde reyna o vinho, naõ reyna nenhum segredo, sem duvida assi como o entendimento dos que bebem agoa, està inteiro, e claro, assi o sentido dos que bebem vinho, anda mais bruto, e remoto, e vè menos, porque a luz natural da razaõ natural he impedida, por isso he proverbio antigo, que o vinho traz assombrada a sabedoria. Manda Plataõ em suas Leys, que os Principes das Cidades, e Officiaes, e Conselheiros das Reespublicas naõ no bebaõ, e naõ dà outra razaõ, senaõ parecer cousa de escarneo, quem ha de mandar a outrem, aver elle mister de ser mandado: o mesmo diz assi Aristoteles louvando a Ley dos Carthaginenses, que nenhum Soldado sobpena da vida pudesse durando a guerra beber vinho, e Moysés mandou aos Sacerdotes, que quando houvessem de sacrificar o naõ bebessem. Em fim Salamaõ o defende naõ somente aos Reys, mas aos Officiaes, e Juizes de seu Povo: e diz Plutarcho, que antigamente era defezo aos Sacerdotes do Egypto.
Escreve-se delRey Cyro, que chegando a casa de hum seu Hospede, e tendo-lhe perguntado familiarmente, que queria comer, respondeo, que lhe buscassem paõ, por quanto esperava hir comer a huma fonte. Tambem o Emperador Octaviano sendo em tudo muy temperado, e queixando-se o Povo Romaõ a elle de o vinho valer muy caro em Roma, respondeo com muy grande merencorîa estas palavras: assaz trabalhou meu genro Marco Agrippa para que naõ houvesseis sede em vos trazer tantas agoas de fóra. Sohia dizer ElRey Cyro a seu Exercito, que se costumassem a beber agoa, e de Pescenio Nigro Capitaõ dos Romaõs se lè, que andando no Egypto com Exercito, e pedindo-lhe os Soldados vinho, respondeo como pode ser, que dezejeis vinho passando o Rio Nilo taõ perto de vòs?
Olhemos Portugal, e o que se agora nelle usa, e acharemos, que a temperança dos homens nos trajos, e vestidos nasce toda do bom exemplo de V. Alteza. Disse em cima do seu grande comedimento no modo de vestir, agora sómente direy, que posto que Xenocrates tenha, que os Reys para serem mais conhecidos devem d’ andar ricamente vestidos, com tudo para isto ser assi, mais verdadeiro caminho parece ser o Rey em tudo muy temperado, porque desta maneira sua bondade o fará ser mais conhecido, que nenhuma mostra de fora, nem insignias do real Estado. Esta virtude foy causa, que a Reepublica dos Spartanos durasse tanto tempo, e crescesse tanto com as Leys de Licurgo, o qual mandou, que na sua Cidade corresse moeda de couro, porque naõ vindo mercadorias de fóra, que as mais vezes fazem a gente afeminada, os bons costumes della se podessem melhor conservar.
Esta foy a causa, que o Estado de Persia fosse tanto àvante em tempo delRey Cyro, que de nenhuma cousa mais se presava, que de muita temperança, e humanidade, e os Romãos, como já disse, em quanto tiveraõ isto, cresceraõ, e cousa sabida he, que Cayo Fabricio Censor lançou fora do Senado a Publio Cornelio Rufo da linhagem dos Patricios, porque em hum convite, que deu, poz em huma sua bayxella somente quinze marcos de prata lavrada. Tem Aristoteles, que os Reynos para durarem muito haõ de ser temperados, e allega com os Lacedemonios, e com os Molossos, e para isto ser assi, diz que cumpre muito ao Rey ser temperado. Naõ busquemos prova disto longe, que neste Reyno a temos, o qual de seu principio atè estes tempos foy àvante, naõ menos por esta virtude, que polas outras: mas tanto agora nos he mais necessaria, quanto a riqueza, e mercadorias, que vem da India, saõ de mais força para fazerem mà impressaõ em nossos costumes. Estes inconvenientes tira vosso Alteza, e com o virtuoso exemplo, que de sua pessoa, e vida nos dà, faz guerra continua aos appetitos alheyos, o qual podendo andar cuberto de joyas, e perolas, tem mais respeito aos bons costumes de seus Vassallos, que naõ à qualidade, e grandeza de sua Real pessoa. A esta tamanha temperança responde a Rainha Nossa Senhora, vivo exemplo de toda a bondade, antre a qual, e V. Alteza se vè sempre andar hum famoso, e notavel competimento, de qual delles serà mais virtuoso. Escreve-se da Emperatriz Pompeya Plotina, mulher do Emperador Trajano, que foy taõ virtuosa, que acrescentou a gloria do mesmo Trajano, à qual com muita razaõ pòde ser comparada a Rainha N. Senhora, cuja virtude, e em todas as partes de sua vida perfeita temperança levantaõ mais a gloria, e alto merecimento de V. Alteza.
Que direy no comedimento que tem no jogo, e festas publicas, que pola mòr parte, se saõ feitas amiudo, aprende o povo a ser ocioso, e se aparta do exercicio da virtude? Se antigamente a Grecia senaõ dera a ver representaçoens, e festas, naõ perdera a gloria, que tinha ganhado com armas, e em quanto andava occupada em ver autos, e fazer comedias, ElRey Fillipe de Macedonia teve tempo de se fazer forte contra ella, e em fim a sojugou, e fez tributaria. Por isso Aristoteles, e Tullio naõ querem que haja muitas festas nas Reespublicas, e reprehende a Theophrasto Filosofo por ser nessa parte d’outra opiniaõ. Tem Aristoteles, que o Rey sobre tudo deve ser temperado, e daqui nasceo o proverbio, que diz: ametade do feito he mais que o todo; porque quem enfrear a vontade a naõ exceder aos fins da temperança, a qual sempre guarda o meyo de toda a bondade, este tal jà tem conseguido todas as virtudes; em algumas cartas que escreveraõ ElRey Fillipe de Macedonia a Alexandre seu filho, e Antipatro a Casandro, e Antigono a Fillipe, que foraõ tres notaveis Capitaens, lhes encomendaõ muito, que ganhem a vontade ao Povo, com boas palavras, em que haja huma temperada gravidade, e dizem que nenhuma cousa póde haver no Principe mais proveitosa a si, e a seus vassallos. Isto guarda V. Alteza inteiramente, cujas palavras, e respostas, assi como saõ vivas, e significantes, assi saõ temperadas, e graves, e nellas todas luz, e resplandece a grande bondade de seu Real Coração.
Finalmente saõ certo, e verdadeiro exemplo para a vida dos Principes. Acho eu, que ouve antigamente em Sicilia hum Rey por nome Anixilào, que por sua justiça, e temperança veyo a ser também quisto, e amado do Povo, que leyxando por sua morte filhos pequenos, e por seu Tutor delles a hum escravo de graõ virtude chamado Micitho, tanto foy o amor, que os Sicilianos tiveraõ à memoria de Anixilào, que quizeraõ antes ser governados por hum escravo, que dezamparar os filhos de hum taõ bom Rey, e assi os principaes Senhores da Ilha esquecidos de quem eraõ, ouveraõ por bem que a Magestade Real fosse administrada por mãos do mesmo escravo. Huma das propriedades desta parte he resistir ao appetito, e sometelo em tudo à razão. Entaõ hum Principe se póde chamar perfeitamente temperado, quando não menos obedece a si mesmo, do que seus vassallos obedecem a elle, quero dizer, quando obedece à justiça, e às leys, que saõ representadas no Ceptro Real, e bem se diz que a fonte de toda a temperança consiste em ser o appetito sogeito à razaõ. Qual Principe se póde achar, que mais obediente lhe seja? Qual Principe se lembrou mais de seu Povo, e se esqueceo de si? Qual teve nunca mór respeito às virtudes, e menos foy tocado de merencorîa, ou sem razaõ, que V. Alteza?
Naõ ha cousa mais contraria ao conhecimento da verdade, que o appetito da ira, e como diz S. Joaõ Chrisostomo, o coraçaõ naõ senhor de si, e sugeito à continuaçaõ do primeiro impeto he huma das cousas, que mais estrovaõ, e privaõ a luz do entendimento. A merencorîa muitas vezes vence os sabedores, e os olhos d’alma escurecidos, como quem peleja às escuras, naõ sabem fazer diferença dos amigos, a quem lhes quer mal. Lembrame que escreve Tullio em huma sua carta a Cataõ Uticense, que sempre em todalas idades foy mais trabalhoso vencer o homem a si mesmo, que a seus contrarios, e que mais pessoas ouveraõ vitoria de seus inimigos, que de seus appetitos; mas quanto isto he mòr verdade, tanto V. Alteza he digno de mais verdadeiro louvor, vencendo como faz os vicios, que pola mòr parte naquellas pessoas pòdem mais, que tem mór liberdade para peccar. Grande fama mereceraõ ElRey Ciro, e ElRey Agesilào, por nunca dizerem mà palavra, e a muita temperança do Infante D. Henrique, filho delRey D. Joaõ o primeiro deste nome, ainda hoje he nomeada, que foy tanta, que assi como em seu coraçaõ nunca entrou odio, nem ira, assi de sua boca nunca foy ouvida palavra, que naõ fosse santa, e fundada em zelo, e amor de Deos. Quem bem olhar a torvaçaõ do homem enfunado em grande colera, e escuridaõ do rosto, e mudança de cor, o tremer da falla, a payxão do espirito, o movimento, e esquecimento da razaõ, sem duvida achàra quam mà cousa he ser vencido della, e naõ lhe resistir muito.
Diz Xenofonte que o Principe justo, e temperado hade cuidar que a sua Reepublica he sua caza, e a seus subditos hade ter em conta de filhos, donde cuido eu que nasceo antigamente os Reys serem chamados Pays do Povo, representando tambem nisto a Deos, o qual he chamado Padre nosso, e se este he o officio dos Principes tratar os naturaes como seus filhos, tanto com mór cuidado devem resistir à ira, quanto este appetito os afasta mais do verdadeiro juizo, que he necessario para a boa conservaçaõ de qualquer estado. O Emperador Theodosio era vencido algumas vezes da merencorîa, mas hiase-lhe logo, e dezejando arredarse em vencer de todo este primeiro impeto, foy aconselhado de hum Filosofo, que quando sentisse vir a payxaõ, costumasse a dizer antre si as letras do A. B. C. porque desviando, e detendo com isto a fantezia, antre tanto que aquelle subito movimento passasse.
Mas V. Alteza he sempre taõ senhor de si, e està nelle em todo o tempo taõ viva, e inteira a razaõ, que naõ tem necessidade de algum remedio contra este, nem outro nenhum appetito, assaz lhe bastàra para ser excellente Principe obedecer (como faz) às proprias leys, posto que sobre o Principe naõ tenhaõ poder algum, mas elle nem contente disto, sendo assi tanto, juntamente obedece às leys de toda a boa razaõ, assi como que nada lhe seja licito, mais que a nós, e assi nos dà de si exemplo, com que vencendo a nós mesmos, naõ queiramos mais, do que he justo, como diz hum Poeta. Esta diferença vay dos bons aos màos, que os màos fógem da culpa com medo da pena, e os bons da pena com medo da culpa, e sem duvida onde naõ entra amor, mal se póde conservar a boa razaõ, por mór que seja o receo da pena. Mandando V. Alteza seu Reyno, juntamente o mandaõ as leys, a virtude, e todo bom respeito, posto que em alguns outros Reynos mais mandaõ, e podem os Principes, que o bom respeito; mas o Rey que obedecer à justiça facilmente uzarà toda a virtude, e polo contrario quem a naõ seguir, nem quizer dar credito às leys que ordena, mais deve ser chamado tirano, que Principe. Bemaventurança commummente se chama poder hum Rey quanto quer, mas grandeza sómente se deve chamar, naõ querer mais do que he bom, em fim tal he V. Alteza neste seu glorioso reynado, quaes outros muitos Principes prometem, que haõ de ser, e tal he qual deseja ser havido, o que (como dizia Socrates) he grande atalho para a verdadeira gloria, e tamanha a força da razaõ, que a quem somos mais obrigados, a esse temos mòr afeição, e amor, e athè os ladroens guardaõ antre si, e tem leys que seguem, sem as quaes huns sem os outros se naõ poderiaõ soster. Achase que foy hum famoso ladraõ na Esclavonia chamado Bargulo, que por se haver justamente com os outros ladroens seus companheiros, partindo antre elles o roubo igualmente, veyo a ter muito credito com elles, e possuir grandes riquezas, e dos Persas se escreve, que sohiaõ fazer os moços juizes d’outros moços para logo de pequenos se exercitarem no uzo da razaõ.
Siguaõ os Principes o exemplo de Hercules, o qual como escreve Xenofonte, passeando hum dia em hum lugar sò apartado, vieraõ a elle a virtude, e a deleitaçaõ, ambas em habito de mulheres, mas a virtude vinha como mulher grave, e a deleitaçaõ era Dama muito fermosa, e porfiando com muitas razoens cada huma polo converter a si, sendo elle mancebo, e naquella idade, em que naturalmente as vontades se soem de entregar a bem, ou mal; Hercules posto que a deleitaçaõ lhe prometesse grandes prazeres, e polo contrario a virtude lhe mostrasse grandes trabalhos, ou vida trabalhosa, com tudo depois de lançar suas contas, e cuidar tudo antre si, prudentemente escolheo a virtude com razaõ, e trabalho, que a deleitaçaõ com falso contentamento: mas quando a virtude por si naõ abastasse para se aver de seguir, ao menos se devia fogir da infamia, que de naõ se fazer o que era razaõ nasce aos homens. Quem he taõ presumpçoso, ou esquecido de si mesmo, que naõ estima o que outrem pode dizer delle, como diz S. Joaõ Chrisostomo? A multidaõ dos homens toda traz os olhos nos costumes de seu Principe, dos quaes como de huma pintura cada hum tira o debuxo, e modo do seu viver, e os peccados das pessoas baixas sómente empecem a quem os comete, as culpas dos grandes polo mào exemplo trazem danno geral a muitos. Se como dizem os Filosofos na temperança principalmente se olha, que tudo diga, e estè bem, em nenhum tempo pòde ser afastado da virtude, porque tudo o que diz, e està a bem por certo, em todas as partes da vida. V. Alteza guarda perfeitamente o que cumpre, e està bem ao preço, e authoridade de sua Real pessoa.
Sempre atençaõ de toda a pessoa virtuosa, e mòrmente do Principe assim mesmo deve ser, conforme a todalas partes da vida, naõ deve ter os apetitos soltos, ou sobejamente dezejando, ou sendo muito negligente, que isto he o que naõ està bem, nem ha de haver nella vozes falsas, nem desacordadas, o que tanto mais se deve fugir, quanto esta musica he mais suave, que todas as outras, e quanto o desconcerto della offende mais, e parece peyor. Bem està ao Principe ser vergonhoso, que aonde naõ hà vergonha, naõ pòde haver nenhuma virtude, e este louvor foy dado a Hercules: bem està ser humano, e chaõ, porque mais louvada foy a humanidade de Valerio Corvino Capitaõ Romaõ, que a muita aspereza de Anibal, e Manlio Torcato, que matou seu filho. Bem lhe està guardar o que promete, porque de Hercules se escreve, que nunca mentio, nem quebrou juramento, e que huma só vez jurou em toda a vida, e parecia taõ mal aos Romaõs quebrar o juramento, e a fé, que se dava, que defenderaõ aos seus Sacerdotes, que naõ jurassem. Em fim bem està ao Principe naõ querer mais honra daquella, que a razaõ, e authoridade de sua Real Pessoa requere.
Que cousa pode estar peyor a quem governa, que gabar-se a si mesmo muito, ou dar credito a lisongeiros, como dizia Aristoteles? Quem a si mesmo se gaba, he vaõ, e quem diz mal de si, he Sandeo, por isso a verdade he nem se louvar homem, nem menos dizer mal de si, e o mesmo dizia, que os contentamentos falsos se deviaõ de olhar no fim para taõ asinha se naõ tornarem a desejar. Escreve-se nos Livros Sagrados, que estando Acab Rey dos dez Tribus para dar batalha a ElRey Adado da Suria, mais de quatro centos Profetas falsos, que havia no Paço, por contentarem ao Rey lhe diziaõ, que pelejasse ousadamente, que Deos lhe tinha prometido a victoria, antre estes todos havia hum só Profeta verdadeiro chamado Micheas, o qual o desenganava, dizendo, q́ se là fosse, havia de ser morto; mas ElRey dando mais credito à falsa esperança dos lizongeiros, que ao dezengano de Micheas, depois de o mandar prender, sahio à batalha, em que foy morto, e este he o proveito, que tiraõ os Reys de quem lhes naõ falla verdade. Quem estas cousas bem olhar, acharà claramente pola comparaçaõ dellas, quam afastado he V. Alteza de todos estes males, e como em tudo segue, o que sómente està bem à qualidade da pessoa, e grande mando, que tem.
Finalmente todas as partes, que tem da temperança, são em si perfeitas, despresa as vaidades, e honras sobejas, he muy temperado em toda a maneira, e costumes de sua vida, pode nelle mais a razão, que o appetito, naõ se esquece nunca do que cumpre, e està bem a seu Real Estado, porque segundo Aristoteles, a temperança he dividida em três partes, em obedecer o appetito à razaõ, e naõ haver nas cousas mais diligencia, nem menos da que cumpre em ser guardada em tudo a dignidade, e estado de qualquer pessoa. Quem com juizo verdadeiro tudo isto bem olhar acharà, que em V. Alteza se pode verificar toda esta divisaõ.Com estas manhas, com estes costumes, com esta tal musica, e harmonia de tantas virtudes, he tambem quisto, naõ somente de seus leaes subditos, e naturaes, mas das Provincias, e Naçoens Estrangeiras. Este he hum dos premios da virtude serem por ella naõ menos amados os absentes, que os prezentes, e polo contrario, quando o Principe he o que naõ deve, assi os estranhos, como os seus lhe querem mal, e lho mostraõ per obra, quando podem, e achaõ tempo para isso, e por força he, que hajaõ medo a quem querem mal, e a quem haõ medo, que lhe dezejem a morte. Que mayor imfamia pode ser de hum Principe do que foy do Emperador Cayo Cesar Caligula, que foy taõ mào, e crù tiranno, que ouzou dizer, que de nenhuma cousa se prezava mais, que da pouca vergonha? Mas seus mãos costumes, e crueza lhe deraõ o fim, que elle merecia.
A pouca temperança, e comedimento dos antigos Reys de França foy causa, que perdessem aquelle Reyno, e a successaõ delle passasse a outrem: porque sendo Theodorico Rey em França, e leyxando governar o Reyno a outrem, nem se mostrando ao povo mais que huma vez no anno, naõ poderaõ isto sofrer os Grandes, e o lançaraõ do Reyno: nesses tempos a segunda dignidade de França depois delRey era Mordomo Mòr, que pela fraqueza dos Reys mandava tudo, por onde sendo, como disse, lançado Theodorico, foy entregue o Reyno a Pepino Martel, filho de Pepino, o qual pola grande authoridade do seu cargo governou França muito tempo, e por sua morte leyxou seu filho Carlos Magno, que depois fez grandes cousas em armas.
Costume he dos que compoem Panegyricos louvarem nelles a boa presença, e pessoa do Principe, por isso dezejando eu fazer o mesmo, mòrmente, sendo estas partes em V. Alteza taõ dignas da Magestade Real, por duas causas o leyxo de fazer, a primeira porque a dignidade da lingoa Portugueza sofre mal esta maneira de louvor, e a outra por ser isto taõ notorio, que naõ tem necessidade de ser por mim mais representado, e assi como no tempo dos Gentios em algumas partes, aonde era adorado o Sol, haviaõ por escusado fazer-lhe imagem, porque o viaõ sempre andar no Ceo, assi a Real Pessoa, e presença de V. Alteza, sendo de nòs vista cada dia, naõ ha mister outro testemunho, que o dos olhos e contentamento geral de todo o seu Povo. Mas jà he tempo, muito Poderoso Rey, e Senhor de me recolher ao porto, e amainar as vellas: metime no Mar Occeano: grande atrevimento foy o meu: hey medo de me perder, faz-se o caminho cada vez mais comprido, e com tudo queria meu desejo passar adiante, e fallar nas heroicas virtudes de V. Alteza, cujo officio he mostrar-se nas mòres cousas, e trabalhos, assi como nas outras he fugir, e arredar-se dos extremos. Vejo quam grande empresa tomey, e quam trabalhoso me serà querer dar perfeito louvor em Panegyrico a seus altos merecimentos, e naõ he igual trabalho dos que geralmente trataõ das partes, e officio de bom Principe ao daquelles, que particularmente querem representar as virtudes, e feitos de hum Rey Excellente. Os que fallaõ geralmente dos Reys naõ saõ obrigados a nenhumas Leys, nem delles se espera mais do que podem. Tem a liberdade, que querem, tomando, e leyxando o que lhes parece, sem merecer nenhuma reprehensaõ: por isso muitos Filosofos fizeraõ isto com muito seu louvor, como foraõ Plataõ, e Theofrasto, Antistenes, Xenofonte, Dion, Xenocrates, Aristoteles, e outros muitos, mas no Panegyrico naõ he assi, o qual, ou senaõ hade começar, ou jà que se começa, ha de se dar igual louvor ao merecimento das pessoas, e naõ se dando, he digno o author de muita culpa, ou por tomar empreza desigual a si, ou por naõ querer louvar como he razaõ, e naõ merece menos culpa, quem louva o bom Principe menos do que he, que quem diz mal delle. Neste tamanho perigo, em que me fuy meter, huma só escusa tenho por mim, o grande dezejo de tratar os louvores de V. Alteza, senaõ como elle merecesse, ao menos como eu pudesse. No fim desta obra peço ao muito alto Deos, que este tamanho bem, que nos quiz dar dando-nos tal Rey, e Senhor, nos queira conservar por muito annos, dando nos a nòs tambem vida, não tanto pola vida, quanto polo contentamento deste seu glorioso Reynado de V. Alteza.
FIM DO PANEGYRICO
A ELREY D. JOAM III.
Por João de Barros.
ELOGIO
DELREY
DOM JOAÕ
DE PORTUGAL
III. deste nome
POR
ANTONIO DE CASTILHO
Do Conselho delRey D. Sebastiaõ, e seu Chronista Mòr
Dom Joaõ o III. deste nome, decimo quinto na ordem dos Reys de Portugal, foy filho delRey D. Manoel, e neto do Infante D. Fernando, que por linha direita de varaõ em varaõ, vinha do primeiro Rey de Portugal D. Afonso Henriques, filho de D. Henrique Conde de Astorga natural de França das partes de Vizançon, cujo Pay, e Avòs descendiaõ dos antigos Reys de Borgonha: nasceo o Principe D. Joaõ das segundas vodas entre ElRey seu Pay, e a Rainha Dona Maria filha dos Reys Catholicos nos Paços de Alcaçova de Lisboa no anno de Christo Nosso Senhor 1511 a 6. de Junho; naõ pode temperar o alvoroço, e alegria do povo huma grande trovoada, que a noite de seu nascimento se armou, e hum rebate de fogo ateado dentro nos Paços, no dia em que foy bautizado, porque em tamanho sobresalto naõ deixavaõ de o festejar com todas as invençoens de jogos, e de prazeres publicos, como se aquelle lume fora hum agouro do resplandor de sua virtude: fez seu bautismo na Capella de S. Miguel D. Martinho da Costa Arcebispo de Lisboa. Madrinhas foraõ a Rainha Dona Leonor viuva delRey D. João II. e a Infanta Dona Beatriz sua Avò: e em nome da Senhoria de Veneza escolheo ElRey D. Manoel por Compadre hum Gentil homem enviado por Embaixador a este Reyno, a quem ElRey armàra Cavalleiro, e dera a Ordem de Christo, avida naquelle tempo por mayor honra. Tomou o Principe o primeiro leite de Dona Beatriz de Payva, casada com D. Alvaro da Costa, Guarda roupa delRey D. Manoel, mas vindo adoecer, e faltarlhe o leite, entrou em lugar della Fillipa d’Abreu casada com Bertholameu de Payva cunhado do mesmo D. Alvaro, dizem alguns, que lhe fora revelada em sonhos esta criaçaõ do Principe, podia tambem ser força da imaginaçaõ. Como o Principe chegou à idade de hum anno, foy jurado pelos tres Estados, por futuro succesor destes Reynos nas Cortes, que ElRey seu Pay fez em Lisboa no anno de 1503 na Sala dos Leoens: passados os primeiros annos da mama, teve cuidado de lhe ensinar a Doutrina Christaã, e as primeiras letras Alvaro Rodrigues Capellaõ delRey seu Pay, ajudado de hum Martim Alonso, que professava este officio, teve cuidado de lhe ensinar os principios da Lingua Latina D. Diogo Ortiz de Vilhegas Bispo de Tangere, que depois com Thomaz de Torres Mathematico muy conhecido lhe deo algumas liçoens da Esphera, e tendo o Principe huma memoria estranha, e tanto juizo, como sempre mostrou, aproveitouse mal desta Doutrina, ou por culpa dos passatempos, a que se afeiçoava mais, ou destes Doutores, que o guiaraõ por caminhos torcidos, nem cada hum delles, nem Luiz Teixeira filho do Chanceler Mòr grande Letrado, e criado nas boas letras de Italia lhe aproveitou na falta, que depois sentio, porque escassamente se enxergava nelle a sombra da Lingua Latina: posto que nas cousas de juizo se achava muito lembrado: assim eraõ as palavras delRey cheas de Magestade, e igual brandura, que parecia criado na conversaçaõ dos melhores engenhos do Mundo. Quando ElRey seu Pay lhe deo casa, afeiçoouse logo a dous homens fidalgos de diferente natureza, hum delles foy Luiz da Sylveira muito avisado, bom cortesaõ com alguma noticia das letras humanas, mas desejoso de levar o Principe a seu parecer, o outro D. Antonio de Tayde de menos idade, mas transformado no gosto delRey, de que fazia muito mais conta, que da propria medrança, assim a segurou melhor quando o Principe D. Joaõ veyo a reynar. Falecido ElRey D. Manoel no anno de 1521. a 13. dias de Dezembro, proveo logo o Principe as honras, e exequias da sepultura de seu Pay: tanto que foy obedecido, e jurado dos tres Estados do Reyno, reformou com todos os Principes confederados a paz, e amizade, que seu Pay acordàra com elles, e no mesmo tempo succedeo a morte do Papa Leaõ X. cujo successor foy Adriano VI. na Igreja de Deos. Deu-lhe ElRey D. Joaõ a obediencia, antes que sahisse de Espanha, provendo juntamente nas cousas da paz, e da guerra sem alterar o governo, nem os Ministros na ordem em que as deixàra seu Pay. Começando apoz isto a nascer algumas discordias entre elle, e o Emperador Carlos V. pela razaõ que cada hum tinha de averem por seu o direito das Ilhas de Maluco, por culpa de Fernaõ de Magalhaens desnaturalizado de Portugal por aggravos del Rey D. Manoel, entendeo quanto importava a seu Reyno o repouso da paz, e naõ sómente atalhou a desavença desta causa por honesto partido, mas renovou o devido antigo, que tinha com a Casa d’Austria, dando a Infanta Dona Isabel sua Irmã ao Emperador, com hum dote desacostumado, casando a troco com a Infanta Dona Catharina d’Austria. Revolto o Mundo depois com as guerras do Emperador, e de Francisco Rey de França, e determinados por huma das partes todos os Principes da Europa, sendo ElRey D. Joaõ escassamente de 24. annos de idade, assim se governou nesta tormenta do tempo, que naõ pòde ser levado de algum delles para seguir seu bando, antes guardando a hum o decoro, a outro a fé de confederaçaõ, nunca desistio de esforçar cada hum delles à paz da Christandade, pondo-lhe diante a obrigaçaõ que tinhaõ de ajuntarem as forças, e virarem as armas contra os inimigos della, offerecendo o Infante D. Luiz seu Irmão para tratar este acordo. Desejando depois ver restituidas em Portugal as letras, que a ignorancia de alguns, e descuido dos Principes tinhaõ degradadas do Reyno, escolheo alguns moços de boa esperança para fazerem alicece desta obra, os quaes mandou criar em Pariz no Collegio de Santa Barbara, onde se assinalaraõ alguns na eloquencia, e doutrina, de sorte que pode depois reformar a Universidade de Lisboa, e levalla à Cidade de Coimbra, convidando Theologos, Juristas, e Medicos de todas as partes de Europa, que floreceraõ nesta Universidade, e ganharaõ honra com o favor, e partido, que lhes fazia. Quasi no mesmo tempo receando o perigo, que as heresias dos Christaõs novos, e dos Luteranos, que em Alemanha cresciaõ, tanto como as outras no Reyno, antes que este fogo se ateasse, impetrou da Sè Apostolica a authoridade do Officio Santo da Inquisiçaõ(posto que em Roma contrariado) para atalhar os incendios, que em poucos annos abrazaraõ o Mundo, com tanto zelo da Religiaõ Catholica, que escolheo para o cargo de Inquisidor Mòr o Cardeal Infante D. Henrique seu Irmaõ. Fez muita ventagem aos Reys seus Avòs no zelo do Culto Divino, e acrescentamento na Religiaõ, porque no Reyno fez tres Igrejas Sès Cathedraes, Leiria, Portalegre, e Miranda, e nas Ilhas do Mar Oceano, e outros Estados da Coroa de Portugal erigio novos Bispados por authoridade Apostolica, cujos Prelados, e Ministros de cada Igreja fez sustentar dos dizimos, que estavaõ applicados à Ordem de Christo, no descobrimento destas partes. Fez com a mesma authoridade a Igreja de Evora por morte do Cardeal D. Affonso Metropolitana, onde passou com o mesmo favor do Arcebispado de Braga o Cardeal D. Henrique, para restituir com seu exemplo de vida a melhores costumes os Ministros, que a riqueza daquella Igreja hia afroixando. O mesmo titulo procurou à Sè do Funchal na Ilha da Madeira, com ordem, que fosse reconhecida na jurdiçao espiritual do Bispado de San Tiago, e de S. Thomè, e da Cidade de Goa na India. E por tempo depois impetrou do Papa o Primado à Cidade de Goa, que reconheciaõ os Bispados de Cochim, e Malaca. As Ordens dos Religiosos esfriados do primeiro fervor foraõ à sua instancia restituidas à limpeza, e devaçaõ dos primeiros Instituidores, como foraõ a dos Franciscanos, Dominicos, Agustinhos, Carmelitas, e Hieronymos, repairando os Edificios antigos dos Religiosos, para se exercitarem naquella vida santa, e recolhimentos mais acommodados, com o qual cuidado reformou o Convento dos Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesu Christo em Tomar, apertando aquella Religiaõ Militar, quasi desatada, com a Regra de S. Bernardo, como fez no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que naõ sómente mudavaõ os costumes, a vida, e recolhimento, mas foy acrescentado de Edificio magnifico, e digno de sua grandeza. Tinha a mesma tençaõ redusir a Ordem de S. Bento à sua limpeza, e santidade primeira, mas a morte rompeo este desejo, posto que em sua vida o Mosteiro de Alcobaça resplandecesse em muita virtude, como depois succedeo a todas as casas de Portugal desta Ordem, com o zelo que o Cardeal D. Henrique mostrou a esta Religiaõ, depois que lhe foy encomendada em tempo del Rey D. Sebastiaõ, herdeiro dos pensamentos de seu Avò, veyo a lume a Reformaçaõ, que S. Bento lhe inspirou do Ceo, com que os Mosteiros de sua Ordem começaraõ a florecer em nova Religiaõ, e com seu exemplo as outras Ordens Militares de Aviz, e Palmela, se governaraõ melhor.
Foy o primeiro Principe Christaõ, que tomou debaixo de seu amparo a Ordem da Companhia dos Padres, que em nome de Jesus Nosso Salvador ordenou Ignacio de Loyola com doze companheiros, offerecidos semear a Palavra de Deos pelo mundo, com tanto proveito das almas, como hoje vemos em todas as partes onde penetrou sua doutrina, e pode o favor del Rey D. Joaõ fazer este beneficio à Christandade, fundando hum Collegio em Coimbra, depois desta Religiaõ approvada, onde se criaraõ em exercicios de virtude, e Doutrina Christãa muitos Soldados de Christo, que depois se espalharaõ por todo o Oriente, com muita gloria do nome Christaõ. As Donzellas Orfãs, que a idade, e desamparo podia estragar, mandou recolher em huma casa, para dalli lhe ordenarem vida, ou por casamento, ou por Religiaõ, e o mesmo Recolhimento fez noutra parte para mulheres, que a propria fraqueza, ou descuido dos pays fez mal costumadas, para neste lugar com a penitencia, e oraçaõ restaurarem a honra perdida. Entendendo o pouco sossego, que em Lisboa tinhaõ, os que se exercitavaõ nas Escolas geraes, desejoso de os seus Vassallos se assinalarem na doutrina das letras, passou os Estudos a Coimbra, que dotou de muitas rendas do seu Padroado, com que ajuntou homens escolhidos, dos que depois se fizeraõ conhecer pelo mundo estremados por estranha doutrina: floreceraõ em seu tempo outras artes apagadas, que seu favor espertou, como foy a Architectura, a que o mesmo Rey se inclinou, e a navegação dos seus naturaes conhecidos em todas as partes do mundo, pela noticia das cousas do mar. Aos Infantes filhos del Rey D. Manoel seus Irmãos, foy pay no amor, dando a cada hum tanta parte das terras da Coroa, Prelazias, e Mosteiros encomendados, quanta bastava a qualquer Principe para sustentar o Estado, e obrigaçoens do Sangue Real, porque naõ perdeo nunca o cuidado do Cardeal D. Afonso, que em vida delRey seu Pay fora provido em titulo do Arcebispo de Lisboa, e da administraçaõ do Bispado de Evora, e Mosteiro de Alcobaça. Ao Infante D. Luiz fez Condestable de Portugal, Duque de Beja, e de outros Estados, e perpetuo administrador do Priorado do Crato. Ao Infante D.Fernando deu em dote os Condados de Marialva, e Loulé, o Ducado de Trancoso, com outras Villas no Reyno, casando-o com a Senhora Dona Guiomar Coutinha, unica herdeira da casa de Marialva, como ElRey seu Pay ordenàra. Ao Infante D. Duarte casou com a Senhora Dona Isabel, filha de D. Gemez Duque de Bargança, a quem D.Theodosio, herdeiro desta casa dotou o Ducado de Guimarens, consentindo ElRey no partido. Ao Infante D. Henrique Principe santo proveo primeiro do Arcebispado de Braga, donde passou para Evora, dando-lhe a administraçaõ dos Mosteiros de Santa Cruz de Coimbra, e o titulo de Cardeal, que lhe procurou. A Infanta Dona Beatris, casada em vida de ElRey seu Pay como o Principe de Saboya, e depois offerecida a muitos trabalhos, pelas guerras que houve entre os Franceses, e Imperiaes, com quem o Duque fez bando, favoreceo sempre com tanto amor, como devia a esta Princesa, e o devido, que tinha com aquella casa. Poucos annos depois, que começou a Reynar, casou a Infanta D. Isabel com o Emperador Carlos V., e por satisfazer a vontade delRey seu Pay excedeo o dote às forças do Reyno. A Infanta Dona Maria derradeira filha delRey D. Manoel procurou sempre casar com o Delphim de França, depois com Filippe herdeiro de Espanha, e finalmente com o mesmo Emperador Carlos V. mas perdeo o trabalho, porque a vontade de Deos tinha escolhida esta Princesa para outra bemaventurança mayor, quando a levou para si, vivendo sempre em este Reyno com huma casa, e estado de muita grandeza. Alguns bandos, que succederaõ em seu tempo entre Casas Illustres, como foy entre a Casa de Aveiro, e a de Marialva, o Conde do Vimioso, e da Castanheira, e outras Casas desavindas entre si, teve sempre cuidado de as repartir com mayor authoridade, e respeito, que lhe todos tinhaõ, do que era o temor do castigo, porque sua condiçaõ maviosa era taõ affeiçoada a toda a clemencia, e perdaõ, que tinha por honra folgarem os homens de lhes serem aceitos: e por cousa indigna de sua grandeza ter os Vassallos em seu serviço por medo do rigoroso castigo. A certo Fidalgo, q́ naõ consentio a seu filho visitar da parte delRey à Condestablessa, chamou doudo publicamente, e disse-lhe, que mandaria fazer este officio por outro mais honrado que elle; o que fez logo por outro menos valido: dando com isto a entender, que os Vassallos soberbos naõ podem ter honra, e que os obedientes a seu Rey só a tem verdadeira: quando lhe enculcavaõ alguma pessoa para seu serviço, e lho gabavaõ de homem rijo, e que se naõ deixava torcer, ria-se destes louvores, e affirmava, que estes rigores, e estremo da justiça naõ nasciaõ senaõ de fraqueza, e desconfiança, que só a clemencia, e dissimulaçaõ da vingança particular podia caber em espiritos grandes. Nos crimes enormes mostrava sobejo rigor, e dissimulando com a justiça ordinaria, valia-se algumas vezes da jurdiçaõ absoluta, procedendo contra pessoas privilegiadas, como era D. Joaõ Sotil Bispo de Çafim, preso por culpas secretas, D. Bernardo Manoel malsinado por offerecer à Excellente Senhora hum Galeaõ, D. Duarte de Meneses, por governar a India à sua vontade, D. Miguel da Sylva Bispo de Viseu, por se ir deste Reyno sem lhe entregar o sello da puridade, e negocear o Capello de Cardeal contra sua vontade: assim que a brandura, e clemencia, que sempre mostrou nos delictos, que mereciaõ perdaõ, o faziaõ parecer mais rigoroso, e desigual, nos que procediaõ contra seu serviço desconfiados de sua boa inclinação. Desejando com tudo satisfazer às obrigações, que lhe carregavaõ, como herdeiro do Reyno, e administrador da Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, ordenou hum Tribunal chamado da Conciencia, onde se proviaõ todos os descargos della, e faziaõ cumprir as obrigaçoens desta Ordem, e das que depois se ajuntaraõ à Coroa com grande satisfaçaõ do Reyno, e vigia dos bens das Ordens, que em seu tempo foraõ sempre melhor governadas: foy havido por descuidado de sua fazenda, mas na verdade quem lançar conta ao que ella rendia, o estado em que a achou, quando succedeo na Coroa, os dotes de suas Irmãas, que pagou da Rainha Dona Leonor viuva, as legitimas e heranças da Infanta Dona Maria, e de cinco filhos delRey D. Manoel, a transaçaõ de Maluco, os roubos de seus Ministros, que teve na India, os naufragios das Nàos, que succederaõ em seu tempo, acharà que naõ houve Principe no Mundo, que fizesse tanto bem, como elle fez a todos com taõ pouca renda, como lhe fundia esta Coroa, e se for mais àvante tambem acharà, que assi como teve a condiçaõ larga para gastar dinheiro, e fazer mercès temporaes; teve muita prudencia para conservar seu Estado, entendendo, que os bens da Coroa eraõ devidos ao Estado Real, como nervo principal da paz, e da guerra, sem os quaes, nem os Reys podem ter authoridade, nem o Reyno sossego, como aconteceo em Portugal, e em Castella, depois que os Senhores serviraõ seus Reys a partido, e a grandeza de suas casas os fazia revolver cada dia Hespanha com qualquer aggravo dos Reys. E por isso nunca ElRey D. Joaõ em seu tempo deixou de restituir à Coroa os bens, que vagavaõ por direito das doações. A herança de Marialva vaga por morte da Infante Dona Guiomar Coutinha, tornou a incorporar na Coroa, como fez ao Estado do Infante D. Luiz, e outros, que foraõ vagando, principalmente os Mestrados da Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, de S. Bento de Aviz, e de S. Tiago, que à sua instancia se uniraõ à Coroa perpetuamente, entendendo quanto importava ao sossego do Reyno, e satisfaçaõ dos merecimentos publicos da paz, e da guerra, virem as Comendas das Ordens a quem tinha obrigaçaõ de premio, e castigo: e com ter este respeito de naõ diminuir o patrimonio do Reyno, e naõ perder occasiaõ de o acrescentar, naõ teve menos cuidado de conservar em sua reputaçaõ as Casas dos Grandes, e a Nobreza antiga do Reyno, abrindo muy raramente entrada de novo a gente popular, quando naõ tinhaõ serviços muy conhecidos, posto que seu zelo fosse desterrar de Portugal calidades de homens infames, porque estranhou ao Principe D. João seu filho chamar villaõ a hum toureiro, dizendo, que em Portugal naõ havia esta sorte de homens, que bastava a vontade, a fazenda, a boa criaçaõ, e costumes para honrar os homens de bem, e por isso os privilegiava de boamente, entendendo quam bemaventurada he a Republica, onde hum Principe iguala com amor, e justiça, aquelles que a fortuna (às vezes cega) fez menores que outros. Fez tres vezes Cortes em Torres Novas, Evora, e Almeirim, em que respondeo a seus Vassallos com muita satisfaçao delles, e proveo algumas leys para bem da justiça, e dos povos, ainda que seus Ministros se descuidassem na execuçaõ dellas: as rendas publicas naõ desejou nunca ver acrescentadas, por naõ crescer o preço das cousas, que lhe erão necessarias para suas armadas, e em nenhum aperto do Reyno sofreo nunca lançar novo tributo, por naõ ser pesado a seus povos, e em quanto nelle foy, e as necessidades de sua fazenda sofreraõ, desejou sempre que se pagassem as dividas com os interesses corridos a seus acrèdores, porque naõ fosse exemplo sem pouco credito aos devedores quebrarem, e se podesse conservar o comercio entre seus naturaes com verdade, e justiça, posto que poucos annos antes de seu falecimento satisfizesse interesses exorbitantes, e demasiados aos seus acrèdores em tenças de juro, e de herdade na Casa da India, que depois de sua morte se pagarão a cada hum, como teve a ventura, mas muita parte delles se toma em cada contrato em pagamento aos interessados, como sofrem as necessidades publicas.
No conselho de cousas mais importantes recebeo sempre o parecer da Rainha Dona Catharina sua mulher, e dos Infantes seus Irmaõs, ajuntando com elles alguns Grandes do Reyno de muita prudencia, e inteireza, de quem podia fiar a deliberação de qualquer negocio por importante que fosse, deixando sempre lugar aberto a outras pessoas de meam fortuna, que tinhaõ noticia de negocios, em que avia duvida, mas naõ se obrigava nunca a seguir o parecer alheyo, ainda que nelle fosse vencido, no que a parecer de alguns acertava menos, porque os Reys quando naõ tem revelaçoens divinas, que os guiem, saõ obrigados aver seu conselho por sospeito, e fiaremse dos homens, que votaõ mais livres, e naõ espreitaõ seu gosto: assim como lhe estranharaõ alguns meter no conselho a Rainha com novo exemplo para os outros Principes, que naõ costumaõ fiar tanto da condiçaõ das mulheres, que ainda que muy avisadas, e virtuosas, saõ sempre mulheres. E porque em seu tempo começarão encarecer os mantimentos com a esterilidade do paõ, desejou muito acudir às necessidades do Povo, dando ordem para prover de fóra o Reyno, por industria dos Mercadores, que se obrigavaõ sómente a fazer seu proveito, favorecidos delRey, mas com muito descuido, e pouca vigia dos Officiaes, a que este cuidado se encomendava, porque a falta da execuçaõ, e brandura das penas desordenava a provisaõ das leys, pela qual razaõ se ouveraõ por escusas as taixas, conjurando todos os Mercadores em Monopolios particulares, e o povo com os Officiaes do governo em sua propria desordem, e vida desacomodada: em tanto naõ deixava ElRey de mandar prover os campos do Tejo, e do Mondego com vallos, maranhoens, e outros beneficios, que refreavaõ as cheyas, e impeto daquelles rios, naõ somente por culpa da natureza, mas dos Lavradores do Reyno, que semeavaõ terras dependuradas sobre as ribeiras, e a troco de pouco fruito corriaõ, e areavaõ os campos, entupiaõ as barras, e ficando rochas nuas, perdiase muito pasto de gado, e se os Ministros do Reyno acodiraõ nas Cortes a huma perda tamanha, por ventura naõ se alagaraõ os campos, e sobejàra o pasto do gado. Algumas obras publicas começadas por mandado delRey D. Manoel fez acabar em seu tempo, como foy o Templo de Nossa Senhora de Bethlem, com o Mosteiro dos Padres Hieronymos, fundado por ElRey seu Pay, pela ordenança moderna, que aquelles tempos sofriaõ, acabado por ElRey D. Joaõ com igual magnificencia, e despeza, e mayor fermosura, qual se mostra na fórma dos Edificios Romanos. Restituio o Cano da agoa de prata de Evora, aqueducto antigo de Sertorio, que o tempo em muitas partes tinha gastado, a cuja conservaçaçaõ applicou renda publica, que bastava para suprir o reparo: o mesmo fez no Cano de Elvas, ainda que naõ foy possivel acaballo por alguns estrovos, que se offereceraõ, em quanto a obra corria. Do mesmo Rey he aquelle Edificio illustre, que fica sobre o Mar em Lisboa, onde de huma parte se recolhe o pão, que vem de fóra por mar, e por terra, e da outra todas as mercadorias, que devem à Coroa direitos; edificou na mesma Cidade o Almazem, onde se guardaõ todas as armas, e moniçoens do Reyno, assim para bastimento das Fortalezas de fóra, obra magnifica, e digna de sua grandeza. Edificou na mesma Cidade com suas esmolas os Templos offerecidos a Nossa Senhora da Graça, a S. Francisco, a S. Roque, começados em sua vida com a mesma Magestade, com que depois se acabaraõ: fóra dos muros repairou o Mosteiro de Santa Clara, e em todo o Reyno, naõ ouve lugar em que naõ deixasse pègadas de sua devação; porque no Mosteiro de Alcobaça, no de Santa Cruz de Coimbra, no Convento da Ordem de Christo em Tomar, fez tantas despezas com obras novas, que passarão àvante de todas, as que os Reys seus avòs ordenaraõ, não perdoando a despeza alguma, e favorecendo os Ministros, de que confiou o cuidado dellas. Em Africa, e na India naõ ouve lugar, que ou naõ fortificasse de novo, ou naõ reformasse os Edificios antigos, como fez tambem nos lugares maritimos deste Reyno, e alguns Castellos da Raya, de sorte, que com grande beneficio do Reyno gastou huma parte de suas rendas na fortificaçaõ de seu Estado, ornamento dos lugares sagrados, e remedio de muitos pobres, que tinhaõ por melhor servir nestas obras, que povoarem forças, onde mereciaõ estar os ociosos com outra sorte de gente, que vive sómente da industria, e do engano alheyo. Naõ sómente nesta magnificencia mostrou a grandeza de seu espirito, mas no sofrimento, a que sacrificou seu coração, vendo quasi cada anno hum irmaõ, e hum filho morto, sem lhe ficarem de tantos, salvo dous netos, o Principe D. Sebastiaõ, que lhe soccedeo no Reyno, e da Princesa Dona Maria, Carlos herdeiro de Castella, sem nunca lhe enxergarem fraqueza em tanta magoa, como a perda destes Principes naturalmente lhe avia de fazer, antes abraçado com Christo fazia ley da vontade Divina; àlem de tantas virtudes, como mostrou na paz, naõ lhe faltou conselho na guerra, e tanta prudencia para governar em seu tempo com muita honra sua; quanto pareceo mais impossivel fazella longe dos olhos, nas mais afastadas terras do Mundo: quando começou a reynar fez com diligencia huma escolla de seus naturaes, que podiaõ adestrarse nas armas, e repartidos em companhias, de que avia Coroneis em cada Comarca do Reyno, Capitaens, e Sargentos, e outros Offciaes da Milicia particulares em cada bandeira, proveo com muito cuidado esta gente, sem queixume do povo, e ensinada nos dias de festa, que dantes gastavaõ em jogos, e passatempos de pouca honra, e proveito, obedecer a seus Capitaens a todo o exercicio das armas, levando o medo perdido ao estrondo da Artelharia, quando se offerecesse necessidade de alguma batalha, e assim com pouca despeza de sua fazenda, e algum favor devida à virtude, criava na destreza da guerra homens de bem, que depois se assinalavaõ nas armas, assim em suas navegaçoens, como na guerra de Africa, e da India, com o mesmo conselho privilegiou os Escudeiros de boa linhagem, huns filhando-os por Cavalleiros de sua casa, outros por confirmaçaõ de Cavallaria, merecida na guerra, costumados em seu tempo nas Cidades, e Villas principaes do Reyno, escaramuçar, e jugar as canas, e outras boas manhas por naõ faltar occupaçaõ honesta a toda a sorte de vassallos seus, a fazenda dos quaes sendo taõ delgada, como cada hum em sua casa vè, poderia dar vida aos Portugueses, tendo a navegaçaõ livre dos Cossarios, o que em seu tempo se fez com diligencia, e cuidado, posto que os Franceses costumados a viver de roubo, ouvessem os Castelhanos, e Portugueses por huma mesma naçaõ, e naõ perdoassem a huns, nem a outros, quando lhe cahiaõ na maõ, e à sombra de fazerem guerra aos Castelhanos, tomassem nossos Navios desarmados, e outros que às vezes se defendiaõ valerosamente com igual perda, mas ElRey D. Joaõ com armadas ordinarias encomendadas a Capitaens esforçados, e outros officios, que fazia por seus Embaixadores em França, reparava aquella força dos Cossarios com grande prudencia, tendo este conselho por mais acertado, que seguir huma parte dos bandos, entre Carlos V. e Francisco, onde se aventurava mais, e segurava menos a navegaçaõ de que seus vassallos viviaõ. As Fronteiras de Africa, que seu Pay, e Avòs tinhaõ ganhadas aos Mouros, huns com tençaõ de criarem os Portugueses na guerra, e naõ enfraquecerem no repouso da paz, outros por lhe ficarem portos abertos para a Conquista de Berberia, fortificou de novo a mayor parte dellas, sustentadas com grandes despezas, governadas por Capitaens escolhidos, provendo com muito cuidado, naõ lhes faltassem mantimentos, e moniçaõ para soster qualquer cerco, nem Navios nos portos para lhe acodir com socorro, só a fortaleza de S. Cruz no cabo de Guè (de que era Capitaõ D. Guterre de Monroi filho do Comendador Mòr d’Alcantara) cercada dos Xarifes, quando começaraõ conquistar Berberia, e traziaõ apoz si com o zelo da sua Religiaõ falsa a mayor parte dos Alarves de Africa, posto que socorrida das Ilhas, começou o inverno a crescer, e os Mouros apertaraõ o cerco, de sorte que lhe faltou o socorro de Portugal pela injuria do tempo, e os moradores desesperados delle naõ poderaõ soster os inimigos, morrendo alguns valerosamente, e outros entregues aos Mouros perderaõ aquelle lugar com quebra de algumas particulares, como foy o Capitaõ D. Guterre, mas pouca culpa da gente de guerra que fez quanto pode por naõ se entregar viva aos vencedores. Em lugar desta força ordenou ElRey D. Joaõ fortificar Masagaõ na mesma Costa de Africa, o que fez com muita despeza, e conselho de grandes Capitaens, e em parte compensou a perda do cabo de Guee com muitas victorias, que os Portugueses depois houveraõ.
Aquelles presidios de gente, que ElRey D.Manoel seu Pay, e os outros Reys seus Avòs com conselho de guerra, que aquelles tempos sofriaõ, tinhaõ repartidos pelos lugares de África sem diferença do sitio, e commodidade dos portos, acordou por parecer do Emperador Carlos V. recolher em menos fortaleza, com muito melhor conselho do que antes do seu tempo se sustentavaõ, assim porque poucas forças juntas ficavaõ mais poderosas para se defender, e os sitios escolhidos à vontade delRey mais acomodados para socorro do Reyno. Ao mesmo Emperador Carlos V. ajudou com huma armada poderosa na jornada de Tunes dissimulando como o Infante D. Luiz seu irmão, que se achou nella com muitos Fidalgos principaes, sem pedir licença a ElRey como quem sabia delle, que nisto lhe fazia serviço. Aquella armada de Solimano Emperador dos Turcos enviada pelo Estreito de Mequa, com grande esperança de lançar os Portugueses da India, desbaratou duas vezes em Dio, metendo no fundo a mòr parte della, e recobrando as moniçoens, e artelharia, perdida em tempo do Governador Nuno da Cunha, sendo Capitão em Dio Antonio da Sylveira, e depois disso, governando D. Joaõ de Castro, e sendo Capitão desta fortaleza D. Joaõ Mascarenhas, foy roto outro campo delRey deCambaya, onde se achou Cojeçofar, lançado de Europa naquellas partes com muitos Turcos desejosos de refazer a perda de Solimano, e lançar os Portugueses da India. Em seu tempo repartio o Estado da Santa Cruz, chamado vulgarmente Brasil, que Pedro Alvares Cabral levado da força dos ventos descobrio nas primeiras prayas do Mundo novo. E para se a povoaçaõ fazer com mais facilidade, e menor despeza da Fazenda Real, repartio aquella Provincia em differentes Capitanîas, e governaçoens, na forma, que os Reys primeiros fizeraõ povoar as Ilhas achadas no mar Oceano, que em poucos tempos cresceraõ com seu favor prosperas, e ricas, onde erigio Igreja Cathedral, e enviou Governador supremo para amparar em igualdade de justiça os que a naõ podiaõ alcançar dos mais poderosos, com que amansou os Gentios daquella Costa, e outros, que se escondiaõ pelo sertaõ, repartidos em suas Cabildas, sem mais contra policia, ley, ou costume, que a vontade propria: muita parte dos quaes trouxeraõ à noticia da nossa Fè Catholica os Religiosos da Companhia à instancia delRey D. Joaõ. Neste Reyno fortificou no Algarve a Villa de Lagos, offerecida aos roubos, e assaltos continuos dos Cossarios, que em seu tempo infestavaõ o mar: começou tambem a fortaleza de S. Giaõ na boca do Tejo, com o mesmo conselho, e finalmente na paz, e na guerra foy hum Principe raro, nascido para beneficio dos homens, e amparo dos pobres, e estrangeiros; verdadeiro conservador do Culto Divino, e piedade Christãa. Foy de estatura meã, muy bem assombrado nos olhos, com muita graça na boca, brando nas palavras, de bom acolhimento aos pequenos, temido dos Grandes, de grande juizo na escolha dos homens bem inclinados, porque estes lhe foraõ muito mais aceitos, que os grandes engenhos, como foy o Cardeal D. Miguel da Sylva, D. Joaõ Manoel, Luiz da Sylva, e outros, que afastou de si por terem sobeja noticia do mundo, e pouca da que convinha para tratar com o seu Principe. Adoecia poucas vezes, e nunca de doença perigosa, atè o anno de cincoenta, que o começou tomar hum sonno amadornado no meyo dos negocios, doença criada de longe por falta do exercicio, e lisonjarîa dos Medicos, que lhe naõ preveraõ o perigo desta doença, de que veyo a fallecer no mesmo dia em que se lançou na cama, alguns diziaõ, que sem testamento, nem declaração de Governador do Reyno, e tutoria delRey seu Neto. Outros affirmaõ, que Pedro de Alcaçova, que entaõ servia de Escrivaõ da Puridade, e Gaspar de Carvalho Chanceler Mór deraõ sua fé na primeira Junta, que se fez depois de sua morte, que a vontade delRey era nomear para este cuidado do Reyno, e tutoria do Principe a Rainha Dona Catharina d’Austria sua mulher por algumas razoens, que a mòr parte do Reyno approvou, principalmente o Cardeal Infante D.Henrique, a quem esta eleição delRey parecia devida, assim por sua virtude, e inteireza muy conhecida, como por direito das gentes, e costume de Hespanha, que costuma dar este cuidado aos Principes do sangue mais chegado, primeiro que as femeas: falleceo finalmente depois dos Sacramentos da Igreja recebidos com devaçaõ, e havendo trinta e seis annos, que reynava, tendo cincoenta e cinco de sua idade, a onze dias de Junho, no anno do Senhor de mil e quinhentos, e cincoenta e sete.
PANEGYRICO
À MUY ALTA,
E ESCLARECIDA PRINCESA INFANTA
D. MARIA
NOSSA SENHORA.
POR
JOAÕ DE BARROS
1 Commum sentença dos Filosofos he visto por experiencia (Illustrissima Princesa nossa Senhora) o demasiado prazer causar nos coraçoens dos homens muy grandes alteraçoens, que naõ podendo o espirito suster em si o alvoroso, que dentro concebe, parece que abafaria, senaõ o communicasse, manifestando a todos a novidade do que em si sente. De que vem algumas vezes, que os homens esquecidos de si mesmos, sahem fóra dos limites, que a gravidade de seus officios poz em suas pessoas, como lemos delRey David, vencido do prazer, que tinha de levar a Arca do Testamento para sua casa, hia diante della dançando, e fazendo taõ desordenados movimentos com o corpo, que sua mulher Michol teve paixaõ, parecendo-lhe, que naõ guardava o decoro, que se devia à Dignidade Real com aquelles saltos, que via fazer a seu marido, de huma parte para outra.
2 E naõ sómente vemos causar o prazer estas operaçoens nos actos corporaes, mas ainda nas fazendas, taõ estimadas dos homens, que por ellas perdem as vidas, e aventuraõ as almas. Cà huns em alvisaras, outros em festas, que cada hum faz como pòde, gastaõ muitas vezes em hum dia o que ganhaõ em muitos. Alguns em vez de rir, choraõ com prazer, e de muitos lemos, a que o sobejo, causou morte subita, naõ podendo com a força delle suster a vida.
3 De todos estes movimentos, que asima disse (muito alta, e excellente Princesa) mayor foy o meu, que com o prazer, que ao presente tenho, ou temos todos seus Vassallos em ElRey nos dar a vòs por Senhora, fiquey como quem de grave enfermidade se levanta com grande detrimento, taõ ignorante, ou taõ ousado, que me pareceo poder louvar a V. Alteza, que he o mayor aballo, que no coraçaõ de hum homem muito contente se podia fazer. Que gastar minha fazenda em celebrar cousa taõ grande, manifesto he, que fora pouco, e muito menos morrer, pois a morte de huma pessoa taõ baixa naõ podia manifestar prazer taõ alto.
4 Mas querer encher de papeis de seus louvores, he dar a entender, que em alguns se podiaõ elles comprehender. Cà certo considerando a grandeza de seu estado, e a baixa qualidade de minha pessoa, o alto cume da suas virtudes, e a fraqueza de meu engenho, a gloria de sua fama, e a pouca noticia da minha, naõ he outra cousa querer louvar a V. Alteza, senaõ cuidar, que sómente com estender as mãos aos que estaõ da outra banda de taõ largo rio o posso passar a meu salvo como pelos penitentes das ribeiras stygias dizia o Poeta Virgilio:
Tendebantque manus ripæ ulterioris amore.
Que estes enganos, e falsas imaginaçoens, às vezes causa, ou o grande desejo de haver huma causa, ou o gosto de a ter alcançada, que faz estimar as outras pouco. Donde vem que as grandes victorias, que alguns Capitaens houveraõ, foraõ causa de sua destruiçaõ, esquecidos com o vencimento presente, do futuro provimento, e forças de seus inimigos. Assim eu transportado no alvoroso deste prazer, e esquecido de taõ alta impreza, como he a que tomey, naõ se deve haver por muito ficar vencido della; como aquelle, que com falsas azas de cera se meteo no fogo de suas penas, e querendo tomar o Ceo com a mão, cahio no mar de sua ignorancia.
5 Mas jà que nisto heide satisfazer ao desejo, jà posto de huma parte, fique vencido meu engenho, ao menos da outra enganarey por hum breve espaço a vontade, atè que a experiencia me mostre, o que ensina aos enfermos, que tanto trabalhaõ por apagar com agoa o ardor da febre, tanto mais aumenta as chamas do fogo, que os queima, e parecendo-lhe que satisfazem a seus desejos, com isto os acrescentaõ mais. E pelo mesmo modo, querendo eu mostrar a razaõ, que todos seus vassallos temos de ser o dia de hoje muito contentes, quanto mais quizer subir ao cume de seus merecimentos, tanto me acharey mais afastado de os poder entender. E desta mingoa hum louvor me fica em naõ dizer os de V. Alteza, que naõ serey avido por lisongeiro dos que virem que minhas palavras naõ chegaõ ao verdadeiro louvor de suas cousas. Nem recearey o que dizia Horacio a Marco Agrippa nestes versos.
Imbellisque Lyræ Musa potens vetat
Laudes egregii Cæsaris, & tuas
Culpa deterrere ingenii.
Dando-lhe a entender, que louvando mais a elle, e a Cesar seu sogro desfazia em seus louvores com falta de seu engenho. Porque a pureza, e a claridade dos de V. Alteza, he taõ excellente, que se lhe não pòde pegar a ferrugem de minhas palavras, mas estaraõ tão limpos entre ellas, como a luz do Sol, anda livre, e izenta dos pestiferos, e baixos vapores, que a claridade desfaz, sem deste ajuntamento ficar mascavada sua perfeição. Ou como o ouro, que lançado nos corruptos humores da terra fica taõ puro em seus quilates, que nenhum perde de quantos tinha.
6. Álèm disto alguma ousadia me dà ser o genero desta causa de sua natureza tal, que poderey escusar, o que costumavaõ os antigos, aquelles que floreceraõ na Arte da Eloquencia, que exercitavaõ o estillo em louvor de cousas, que naturalmente careciaõ delle. Ao modo do bom Lavrador, que a terra, a quem os beneficios da natureza fizeraõ escaça, faz elle com os da agricultura, tirando com seu industrioso artificio da esterilidade, proveito, e fruito, donde o naõ avia.
7 Nem tenho necessidade dos aguilhoens, que Pericles Atheniense deixava pregados nos coraçoens dos ouvintes, com que forçosamente os levava ao desejado fim de suas palavras. Nem tanta efficacia nas minhas, quanta tinha Thimoteo na musica, que com as cordas de sua viola levantava a colera ao grande Alexandre, ou lha abaixava, produzindo em seu coração tão diversos movimentos, como saõ paz, e guerra.
8 E assim posso escusar neste exordio o captar benevolencia, e outras insinuaçoens do artificioso Orador das cousas asperas, as orelhas dos ouvintes, como era o louvor dos Tirannos, e o da febre, e da mosca, e da calva, que alguns antigos louvarão, e em nossos dias, o da Sandice. As quaes cousas sendo em si muy estreitas, para nellas hum Orador se poder esprayar com suas palavras, com ellas lhe fizeraõ aquelles doutos Baroens, taõ largos campos, que sem nenhum impedimento se puderaõ com louvores por elles estender, porque a verdade naõ ha mister pincel de Apelles, para acrescentar em sua fermosura, cà nua sem mais outro algum trajo està ella no verdadeiro primor de sua bondade. E como dizia hum sabedor a ElRey Dario: todas as cousas vence a verdade. A qual sem os sylogismos de Fabio, e sem as palavras empoladas de Demosthenes, ou Tullio estende suas raizes nos frios coraçoens da gentilidade. Assim que dado que me faltem as flores da Eloquencia, ellas duraõ tam pouco, que por derradeiro ficaõ pizadas, quando se colhe o fruito da verdade.
9 Diz Marco Tullio, que os brutos naõ se movem, senaõ para as cousas, que diante lhe saõ presentes, sentindo pouco as passadas, e futuras, e que os homens, como participem da razaõ, entendendo os effeitos, que de outros se seguem, e vendo os principios, e causas, comparaõ as semelhanças das cousas, cotejando as passadas com as presentes, com que facilmente alcançaõ o custo de toda a vida. Pois vendo o que V. Alteza atèaqui tem feito na sua, quasi vou entendendo, o que della pòde ser ao diante. E porque este discurso que tenho feito, me vay descubrindo grandes cousas, cresceme cada vez tanto a admiraçaõ dellas, que naõ pude deixar de a pòr em tinta, e papel, pois com torvaçaõ, e alvoroço, o naõ posso fazer com a lingoa. Porque naõ he de crer, dando-lhe a Divina Providencia, tantos, e taõ excellentes dotes, que fosse para lhe negar o summo, e mayor de todos.
10 He certo que nos bens da fortuna que os Filosofos chamaõ exteriores commummente, V. Alteza, os tem taõ perfeitos, que alguns de que os antigos se espantaraõ, diante dos seus perdem toda sua admiraçaõ. Là Plinio entre os milagres da Bemaventurança humana, conta de huma Rainha, que foy filha, mulher, e mãy de Rey, avendo por muito estas qualidades juntas em huma pessoa. A qual bem creyo, que de seus avoengos não tivesse a nobreza, e real limpeza de sangue, que V. Alteza tem de todas as partes, de taõ altos, e tão esclarecidos Reys, de que a Christianissima Rainha de França vossa mãy, vem descendendo. Em a qual, e em outras muitas Rainhas de vossa genealogia resplandece melhor esta gloria de bemaventurança, que Plinio achou na outra, de que faz mençaõ. Que naõ somente he filha de hum tão glorioso Principe, como foy ElRey D. Filippe vosso Avò, e mulher de outro, tão poderoso, e Christianissimo, como ao presente he ElRey de França, mas para melhor remate a fez Deos mãy de Vossa Alteza.
11 Pois vindo a ElRey de gloriosa memoria vosso Pay, de quem tendes o sangue dos poderosos, e Catholicos Reys de Portugal, taõ antigos, que olhando para traz, nos cansaria a memoria, naõ achando termo, onde descansasse, de cujos louvores, e vitorias taõ cheyo he o Mundo; acharemos que do principio, e fundamento destes Reynos, sempre tendes Reys vossos Avòs; e ainda nestes naõ tem nascimento seu sangue, que para chegarmos a esta fonte, avemos de revolver a antiguidade, e nobreza dos Reys de Ungria, de Castella, e de Aragaõ, de Leaõ, e de Navarra, e os triumfos da guerreira gente dos Godos, juntamente com os Reynos de Inglaterra, Boemia, França, e do sacro Imperio de Alemanha, em que de todos tendes parte; e naõ passarey por o que dizia o Emperador Maximiliano vosso Vizavò, que muitas vezes se louvava ter mais limpo sangue, que todos os outros Principes. Porque naõ o tendo de menos valia que elles, tinha mais hum quilate, que fora criado aos peitos da Emperatris Dona Leanor vossa Tresavò.
12 Pois quem foy ElRey vosso Pay? Por ventura hum Phalaris, ou Dionysio Siracusano? Certo naõ, mas aquelle em cujo coração ferveo sempre tal zelo da Fè, que com muito gasto de sua fazenda, mortes de seus naturaes, trabalhos de sua vida, e cuidados de seu espirito, fez adorar o precioso Sangue de Christo, onde o dos brutos animaes se sacrificava. E isto taõ longe de seus Reynos, e Senhorios, quam perto elle estava da gloria, que por isso mereceo. Despregando bandeiras, tomando Cidades, sugeitando Reynos, onde nunca o vitorioso Alexandre, e grande Hercules, de cujas façanhas se espantaraõ os antigos, puderaõ chegar. Achando novas Estrellas, navegando mares naõ conhecidos, descubrindo a ignorancia dos Filosofos antigos, que o Mundo tinha por mestres de verdades occultas.
13 Cà depois de seus pilotos abriraõ o mar Atlhantico, por tantas centenas de annos cerrado, todos aquelles que na Filosofia natural tinhaõ gastado seu tempo, elle lhe gastou seu louvor. Pois dos Geografos, cuidavaõ ter o Mundo assoalhado com suas pinturas, aos olhos dos que naõ andavaõ por elle, que posso dizer? Senão o que se vè, que rusticos pilotos sem mais letras especulativas, que huma só doutrina praticada no convez de hum Navio endireitaõ as derrotas, diminuem, ou acrescentaõ os gràos, emendaõ as alturas, de tal maneira reprovaõ as taboas do Ptolomeo, como se estudaraõ em alguma illustre Universidade, e elle naõ em Athenas, onde gastou seus dias?
14 Naõ fallo nas vitorias de Africa, cujo temor fez fugir os Mouros das faldras, e da fertilidade dos mares Gaditano, Atlhantico, e meteo por dentro das secas areas do Sertaõ da Mauritania, nem o que fez em Guiné, e toda a Costa de Ethiopia, pois he notorio, que os negros que viviaõ fóra de toda a policîa, habitando as cavernas da terra, sem ley, sem justiça, sem direito humano, ou Divino, vivendo ao modo de brutos animaes, agora deixadas as trevas, e tornados à luz com a prègação delRey vosso Pay, que para elles foy novo Apostolo, levantaraõ Templos a Christo, e à Santissima Virgem sua Madre, e nelles pulpitos em que publicaõ, e exalçaõ seu nome, e Altares, em que offerecem seu Corpo Santissimo, e Sangue precioso, com que parece (Illustrissima Princesa) ser comprida a profecia do Psalmo, que diz, que os Estrangeiros e Tyro, e o Povo dos Ethiopes conheceriaõ a Deos: e pòdese dizer que seu nome lhe foy posto por Divino Mysterio, como lemos de alguns Santos Varoens, cujas futuras obras conhecidas por Deos, lhe deraõ nome, confórme o que elles aviaõ de obrar. S. Joaõ Bautista pelos Prophetas foy chamado, e por seu pay Zacharias: Joanne, nomes que convinhaõ a suas obras. E o Messias prometido na ley, jà tinha seu nome escrito nos livros de Isaias, que disse Manoel se chamarà, que em nossa lingua quer dizer: Deos he com nosco, pela vinda, que fez a este mundo, onde tomou carne humana, por nos remir do peccado de nosso primeiro Pay Adão. Pois assim mesmo eu diria, que este Christianissimo Rey Emanoel levou à India, e Ehiopia sua Fè, com que os infieis com muita razaõ là pòdem dizer: Deos he com nosco.
15 Passo pelas victorias dos Rumes, pelos tributos que poderosos Reys da India lhe pagaraõ, de que a Coroa deste Reyno naõ tem pequenos proveitos. Que tudo isto celebrado he por Poetas, e Oradores, que em Roma, e outras partes publicaraõ taõ excellentes victorias. Testemunha he do que digo Camillo Porcio, que em huma magnifica oraçaõ, que fez ao Papa Leão X celebrou a tomada de Malaca, cujo treslado veyo a estes Reynos por industria do Doutor João de Faria, que naquelle tempo servia de Embaixador em Roma. Testemunhas saõ Policiano, Fillipe Beroaldo, Blosio, Paladio, Pierio, Casalio, e outros, que em metro, e prosa espalharaõ pelo mundo estes triumphos delRey vosso Padre, em cujo tempo se fora o grande Homero, que tanto caso fez de huma taõ pequena navegaçaõ, como he do Helesponto atè Sicilia, que pòde comprehender pouco mais de trezentas legoas, em que misturou tantas fabulas, e acontecimentos, quam pouca conta fizera dos errores de Ulysses, se vira tantas mil legoas de mar, e costa senhoreadas de hum só Rey, nas quaes se contem as Indias, a quem, e àlem do Gange, e grande parte de Ethiopia, Arabia, e Persia, cujas forças asaltaraõ os Mouros, e Turcos, e os lançaraõ atè os fins do estreito Arabico, onde tem seus Navios varados em a pobre Villa de Suès, sem usarem de levantar suas vellas, que a força Portuguesa tantas vezes amainou.
16 Que fizeraõ os Poetas Orpheo, e Apollonio, quam pouco estimaraõ a conquista do vellocino douro, e daquelle primeiro Navio Argos, que tanta admiração naquelle tempo fez ao mundo, navegando o espaço, que hà de Thesalia, atè Colchos, que ao mais podem ser trezentas, e cincoenta legoas. Em o qual, mar por ser muito povoado podiaõ tomar muitos refrescos, e fazer muitas agoadas, com que teriaõ mais passatempo neste caminho, que trabalhos dignos de cansar nelles os Poetas seu engenho? Vendo seis mil legoas de mar, taõ hermo, e deshabitado, navegadas, e senhoreadas por a gente Portuguesa, que em suas tormentas nenhuma esperança tem nos portos, e nas Ilhas, de que as agoas estaõ desocupadas, a que possaõ fugir da braveza de taõ altas ondas, como nelle se levantaõ? Certamente, que olhando bem isto, se pòde dizer, que estas, e outras cousas, que os antigos contavaõ, como por excessos da natureza, quanto a nòs pelas que foraõ acabadas por industria delRey vosso Pay, podem ser havidas por historias de patranhas.
17 Naõ fallo nas colunnas de Hercules, postas na Ilha de Cales entre o fogo de nossas casas, que assentou como no fim de toda a terra, que neste tempo saõ riscadas da memoria dos homens, e postas em todo o silencio, e esquecimento, com outras mais altas, que por vosso sangue foraõ assentadas na derradeiras partes orientaes do mundo, mais proveitosas a elle por serem as em que Christo poz suas espadoas, do que foraõ as de Hercules, com que se perderaõ tantas almas.
18 Muito havia a cerca disto que dizer, mas basta mostrar o caminho, para que vejaõ o que tinha por passar, se disso quizera escrever. Mas deixaloey para dizer que de taes dous troncos como estes, naõ podia nascer senaõ V. Alteza, em que claramente se vè ser filha de tal pay, por quem Deos taes cousas obrou, e irmãa de tal irmão, conservador, e augmentador dellas; e sobre tudo criada na doutrina familiar, e exemplos da Rainha Nossa Senhora vossa Tia, em que tanto florecem as virtudes, que parece acharem nella descansado aposento. Em cuja Casa, que podemos chamar Escola de santa doutrina, V. Alteza foy ensinada nos preceitos da nossa Santa Fè, que inda isto deveis à Divina Clemencia, que alèm de vos fazer filha da Rainha Christianissima, Bisneta delRey D. Fernando, que por excellente Christaõ, mereceo o nome de Catholico, filha de outro Rey, que dos infieis (como pouco hà disse) foy novo Apostolo, e irmaõ delRey Nosso Senhor, maravilhoso reformador da Religiaõ Christãa, isto, como digo, deveis a Deos, que vos deu taõ santa criação, com que pudesses conservar esta inclinaçaõ, herdada de vossos progenitores.
19 O que bem claro se mostra em V. Alteza, pois que seu modo de vida fóra de Religiaõ, pòde ser aos Religiosos espelho, e doutrina de bem viver. É certo eu naõ sey, que mais virtuosos costumes, santas mulheres possaõ ter na Clausura dos Mosteiros, e vida solitaria do hermo, que V. Alteza nos Paços Reaes tem, onde vive em Corte, e ajuntamento de gente. Pois que a continuaçaõ de suas oraçoens, a muita participaçaõ dos Sacramentos da Confissaõ, e Eucharistia, de que tantas vezes por graça Divina se faz participante, manifestaõ ter dentro em seu coraçaõ grandissimo fervor da Fè de Christo. Cousa muito de estimar nos Principes, que como sejaõ huma fonte publica de que seus Vassallos haõ de tirar agoa de bons costumes, e saã dotrina, como a Religiaõ seja aquella, em que consiste toda a nossa bemaventurança, nenhuma virtude parece dar taõ grande ser à pessoa do Principe, como he o zelo, e amor de Deos, em cuja maõ estaõ os estados da terra. O qual no dar da ley, e mandamentos que deu, naõ sómente deste preceito, que avia de ser fundamento de todas vossas obras começou, mas ainda quiz que o homem se entregasse todo a elle, dizendo: Amaràs a Deos de todo teu coraçaõ, de toda tua alma, e de todas tuas forças, como sapientissimo edificador, que para levantar o edificio de nossa alma, em seu amor, mandou que todas as achegas de nossas potencias, e sentidos trouxessemos para sua fortaleza. Porque derribado este principal baluarte, pelas maquinas com que o demonio nos combate, que aproveitaria ter justiça, prudencia, fortaleza, e temperança, ou como efles se poderiaõ chamar virtudes, faltando a do amor de Deos, cunho com que nossa Moeda hade correr diante delle?
20 O que vendo o Bemaventurado S. Joaõ, e considerando a grandeza desta virtude da Caridade, quanto precedia às outras suas companheiras, naõ achou com quem a comparasse, senaõ com Deos, dizendo: Deos he caridade. Porque assim como elle he infinito, assim esta virtude tendo as outras seus termos, hade permanecer com nossa alma sem fim, que a fé, e esperança seus termos, e tempos tem, em que se haõ de acabar, sò a caridade vive, e reina na gloria dos Santos, dando a cada hum os quilates, que com elle mereceo, e sendo esta virtude a todos necessaria, mais o he aos Principes, que tem governança de povo, como nosso Redemptor significou perguntando tres vezes a S. Pedro se o amava, como quem se queria affirmar, no que fingio querer saber para doutrina nossa, cà Deos como penetra o intrinsico de nossos coraçoens, bem sabia que o amava S. Pedro, mas preguntando-lhe a derradeira vez: Pedro amas-me mais que todos? E respondendo o Discipulo: Senhor tu sabes bem que te amo, dando a elle mesmo por testemunha de seu amor: entaõ lhe encomendou a governança de seu povo, dizendo pasta minhas ovelhas; assim o Principe que naõ amar a Deos, mal pòde governar as ovelhas, que delle recebeo para o regimento das quaes se requere Divina sabedoria, cujo principio, como diz o Profeta, he temor de Deos, porque assim como o Pay de familias, que encomendou ao servo a governança de sua fazenda, e familia, pela boa conta que della lhe deu, conheceo o amor que lhe tinha: assim no cuidado, que o Principe tem de seu povo, vè Deos se o ama, e lhe dà o galardaõ, ou pena, conforme ao que merece.
21 Donde vemos estados de Principes desfeitos por se apartarem de Deos, e outros levantados por chegarem a elle. Exemplo pòde ser ElRey Saul, que perdeo seu estado, e vida; e o çurraõ, e cajado de David, levantado em Ceptro Real, o qual dizia: Mihi autem adhærere Deo bonum esi. Lemos Constantino ser exalçado por exalçar a Fè, e Juliano por della apostatar, morrer morte desestrada, e deshonrado. Vimos derribada a soberba de Maximo por Theodosio, e a elle por obedecer aos mandados de Ambrosio seu pastor, dar-lhe Deos o espirito profetico de Joanne Anachorita, como oraculo, porque se regesse em seus trabalhos, e fortunas: O os ventos acudirem ao som de suas trombetas, empuxando as batalhas dos inimigos, e peleijarem de sua banda, de que o Poeta Claudiano fez mençaõ nestes versos, e Augustinho tanto celebra.
Omnium dilecte Deo cui fundit ab antro
Aeolus armatas hyemes, cui militat æther,
Et conjurati veniunt ad classica venti.
22 E naõ somente vimos o pezo da maõ do Senhor sobre aquelles, que immediatamente foraõ contra a sua honra, e o desconheceraõ por Senhor universal, negando-lhe a adoraçaõ de latria, que como a Deos lhe pertence, dando-a ao demonio, como o fizeraõ os que adoraraõ o bezerro no Deserto em tempo do graõ Profeta Moysès, e os que encurvaraõ seus joelhos diante de Baal, no tempo do Santo Elias, e outros de que faz mençaõ a Escritura, mas ainda aquelles, que com pouca reverencia trataraõ o Culto Divino, ou com descuido, e negligencia se ouveraõ a cerca delle, naõ escaparem de sua ira, como lemos de Oza, que indevidamente tocou a Arca do Testamento; de Nabab, e de Abiud, que ofereceraõ fogo alheyo; de Dataõ, e Abiraõ, que rebelaraõ contra Moysès; e do outro, que apanhou a lenha no dia do Sabbado; de Ananias, e Saphira sua mulher, que defraudaraõ do preço do agro, mentindo ao Espirito Santo, e de outros muitos, assim Principes, como pessoas particulares, de que està cheya a Escritura Divina. Em fim o cativeiro de Babilonia, e desterro universal de todo o judaismo, com a destruiçaõ do Templo, e daquella Cidade Real, senhora das gentes, que foy senaõ castigo do apartamento de Deos, e da morte de seu filho, que vindo para as ovelhas perdidas da casa de Israel o puzeraõ na Cruz em galardaõ de suas obras?
23 E naõ somente entre os Judeos, a quem se Deos naquelle tempo quiz communicar com preceitos familiares, do modo com que o aviaõ de servir, mas ainda entre os Gentios, como Egypcios, Asirios, Medos, Persas, Gregos, e Romanos, e entre todos aquelles, que tiveraõ Monarquias, em todas suas historias, quasi naõ lemos outra cousa, senaõ em quanta estima era entre elles tida a Religiaõ, de que Valerio Maximo escreve tantos exemplos. E aquelles, que mais a guardaraõ, e veneraraõ, posto que fosse sem a fè, que ao presente temos, foraõ por isso, e por suas virtudes, com que ajudaraõ a Patria, mais favorecidos no estado, e fortuna do Mundo. Como Alexandre, que entrando em Hierusalem adorou o nome de Deos, que o Sacerdote mayor trazia na testa; e como diz Agostinho: Receperunt mercedem suam, por ainda a sombra da virtude naõ ficar sem galardaõ. Por onde podemos crer que a Religiaõ, que entre estes se guardava, ainda que era contra seu louvor, pois louvavaõ a criatura, naõ conhecendo ao criador, fosse exemplo a nòs da estima, em que devemos ter a nossa, porque quando nos falecesse caridade, e amor de Deos, tivesse exemplo de gente condennada, com que nos castigasse da muita negligencia, e observancia da Religiaõ, como elle dizia aos Judeos: conheceo o boy seu dono, e as bestas a casa de seu senhor, e Israel naõ me conheceo.
24 Pois graças ao Eterno, e Omnipotente Deos, que taõ boas raizes como he este fundamento de seu amor, e observancia da Religiaõ criou em Vossa Alteza, que naõ pòdem deixar de produzir, senaõ ramos maravilhosos, de santos exercicios, e virtuosos costumes, como se vem, que o tempo que lhe sobeja dos Divinos Officios, e Oraçoens, gasta no estudo das letras, a que tanto se dà, naõ avendo respeito à sua criaçaõ, que por nascer de taõ alto lugar foy mais apartada dos trabalhos corporaes, e das necessidades, e mingoas com que a outra gente se cria, decorando aquelles primeiros, e emfadonhos rudimentos da Gramatica, que a força da palmatoria aos outros engenhos ensina, com que alcançou inteiro conhecimento da lingua latina, para daqui chegar ao fim de sua tençaõ, que he o estudo da Sagrada Escritura. Seguindo a doutrina do bemaventurado S. Hieronymo, que dizia a Paula, e outras mulheres santas, que lessem muitas vezes a Divina Escritura, e nunca soltassem da maõ os volumes sagrados. Movida taõ sòmente por huma inclinaçaõ virtuosa, afastada dos particulares interesses com que muitos usaõ das letras ao modo de jornaleiros, como de qualquer rustico instrumento, com que semeaõ o paõ, e cavaõ a terra, estudando para comer, e naõ para saber, e como o fim seja este, taes saõ os principios, como os quaes se contentaõ em qualquer sciencia, que aprendaõ.
25 E quanto mais cobiçosas saõ letras deste tempo, tanto mayor louvor he o de V. Alteza, pois a causa final de as querer entender naõ he falta de honra, nem de outra cousa, senaõ hum santo desejo de saber. De que todos seus vassallos devemos dar muitas graças à Divina Bondade, que por sua misericordia nos chegou a tempo, que tivessemos tal Princesa por Senhora, qual o divino Plataõ desejava, que dizia, bemaventurada serà a Republica, em que os Principes filosofassem, ou os Filosofos governassem.
26 No que se conhece claramente quam alto engenho, quam altos, e verdadeiramente reaes espiritos saõ os de Vossa alteza, que quer preceder às outras mulheres naquella parte em que os homens precedem aos outros. Naõ se contentando de lhe fazer tanta ventagem nos bens, que teve de seu alto nascimento, cà nasceo Princesa, nasceo filha de Rey, e levantada em estado, e pureza de sangue sobre muitas. Mas como isto se deve à natureza, quiz Vossa Alteza, que lhe devessem a sabedoria, ganhada por sua industria, e trabalho, que he a melhor cousa, que nesta vida os humanos pòdem ter, com a qual muitos ganharaõ estado, e outros por falta della os perderaõ, como poderiamos ver por exemplos, senaõ fosse contar historias, de que Vossa Alteza tanto conhecimento tem, e sòmente bastarà dizer como muitos Cesares ganharaõ, o que Sardanopalos, Tarquinios, e Dionysios perderaõ.
27 Fazenda he a sabedoria izenta da jurdiçaõ da fortuna, a qual, como diz Seneca, naõ toma, senaõ o que dà, o fogo gasta o ferro, o mar alaga Cidades, terremotos as derrubaõ, rayos espantaõ o Mundo, armas o senhoreaõ, sò o saber de homem he livre destes perigos, porque nem o tempo, que o mesmo Seneca chama sepultura de todas as cousas, o gasta, ou a morte o senhorea, que com elle mediante a graça Divina fazemos o caminho para a gloria, que esperamos. E assim dizia Byas Prienense fugindo da Patria, que deixava tomada dos inimigos, naõ levando mais que sua pessoa, e hum bordaõ, que tudo levava consigo. E se quizermos particularmente considerar as cousas, qual averà, que sem letras divinas, ou humanas se possa fazer? Como navegariamos as terras ignotas, que comercio, que noticia huma gente afastada por tantos intervallos de mar, e terra, teria das outras, sem a sciencia da Astronomia? Que communicaçaõ, ou que prestança das mercadorias averia sem navegaçaõ? Como se edificariaõ Navios, Casas, Templos, e Fortalezas com suas maquinas, taõ necessarias à vida, e policîa dos homens sem arquitetura? Como se governariaõ as Cidades, Reynos, e Respublicas, sem Filosofia moral? Como sem a natural se exercitaria o uso da agricultura taõ necessaria a mentença dos homens? E decendo ao particular das artes mecanicas, como nos aproveitariamos dellas, senaõ fosse por meyo das Mathematicas? Como tiveramos a musica pratica sem a especulativa? Com tanta diversidade de estromentos, taõ necessarios, assim à Religiaõ, e Culto Divino, como para a guerra, e deleitaçaõ da vida? Que remedio para nossas infermidades, com que os corpos humanos por taõ diversas vias saõ offendidos, senaõ fora a medicina? Pois vindo ao espiritual, que fora de nossas almas sem a Divina Sciencia, que nos ensina o caminho, que avemos de seguir para a salvaçaõ dessas, remate de nossa bemaventurança? Em fim, porque meyo os homens communicariaõ essas sciencias com os prezentes, e futuros, sem letras? Certamente que examinando bem isto, parecem indignos da potencia intelectual, que he imagem, e semelhança de Deos com que fomos criados, os que desprezaraõ o verdadeiro ornamento, e atabio dalma, que he a sabedoria. A qual, como diz Nazianzeno, he Princesa, e inventora de todas as cousas, e em si as comprehende: do nome da qual se quiz Deos intitular, chamando-se Sapiencia do Padre; e quam necessaria ella seja nos Principes, Salamaõ o diz: por mim reinão os Reys, e os Principes senhoreão.
28 E para mais verificarmos isto faremos huma parabola imitando aquelle, que para todos se fez unico exemplar. Finjamos hum Rey tão zeloso da paz, e liança de todos os brutos animaes, que mandasse ajuntar quantos ahi ha diferentes em genero, e especie, para que metidos em hum curral juntos, os entregasse a hum pastor, de que tivesse experiencia, e confiança, que os trouxesse a tal concordia, que o Leão não comesse o Lobo, nem o Lobo ao Carneiro, o Galgo naõ filhasse a Lebre, nem o Açor a Perdiz, de tal modo, que esquecidos de sua braveza natural uzassem de toda a brandura, e mansidaõ; e que Pastor averia por muito atrevido que fosse, que naõ dissesse o que Moysès dizia a Deos: Senhor manda quem as demandar, por o tal cargo requerer, naõ digo hum grande e consumado saber humano, mas ainda a hum Divino inspirado por graça? Pois o Rey, que isto quiz fazer foy Deos Eterno, que ordenou na terra o governo dos Reys, e Principes, ficando-lhe na mão o coraçaõ delles, como quem sabia que tamanho officio, sem sua ajuda muy particular senaõ podia bem administrar. E os animaes, que tanto lhe encomendou saõ os homens, que deixando o caminho da rasaõ seguiraõ o dos brutos. Cà, segundo Paulo: Justis non est lex posita. Donde nasceo a meu juizo fingirem alguns Filosofos, entre os quaes foy Plataõ, que as almas dos homens se trespassavaõ em corpos de diversas bestas, similhaveis aos costumes, que tiveraõ o dos Tyranos, e Principes em Lobos, Falcoens, e Milhanos, e os dados aos vicios da gula, e perguiça em asnos, introduzindo daquelle Herpamphilio, que disse ter visto a alma de Orpheo metida em hum Cisne, e de Aiax em hum leaõ, e a de Agamenon em Aguia, e em hum bugio a de Tersires Homerico, querendo significar, que nenhuma differença tem de brutos, os que vivem como brutos, e que a semelhança dos costumes lha faz igual a natureza; E dizerem as fabulas, que Acteon foy convertido em Corso, naõ he outra cousa senaõ, que pelo muito exercicio, e continuaçaõ da caça se fez agreste, e semelhavel aos animaes com que tratava; e tornando ao proposito, assim como entre estes hà tanta differença quanta vemos, assim nos homens se achaõ ainda mais differentes condiçoens de vida, e costumes, que na diversidade dos brutos. Cà saõ homens, e mulheres, casados, e solteiros, leigos, e Sacerdotes, nobres, e baixos, pobres, e ricos, moços, e velhos, senhor, e vassallos, rusticos, e politicos, discretos, e ignorantes, covardes, e animosos, irosos, e manços. Alèm destes màos, e bons, cobiçosos, roubadores, homicidas, onzeneiros, adulteros, sacrilegos, perjuros, hereges, e blasphemos, como vemos em quantos generos de maldades cabem no coraçaõ humano, a que he inclinado de seu nascimento, que cada cousa destas obra, differentes effeitos, e de huma maneira se ha de tratar o senhor, e de outra o vassallo, de huma o Leigo, de outra o Sacerdote. E como Hipocrates manda aos Medicos, que conheçaõ a idade dos enfermos, o tempo, a Região, e a infirmidade; assim o Principe no corpo mistico da Republica ha de ter tal regimento, que a medicina applicada a hum membro naõ dane o outro, que saõ as leys, a que Plataõ chama verdadeiro mantimento do povo: como fazia Paulo na Prègaçaõ do Evangelho, que aos fracos na Fè dava leite, e aos criados nella paõ com codea.
29 Pois que animal mais indomito, e fero pòde ser, que o homem injusto? Quantos males, e danos, quantas destruiçoens de povos, perdas de Reynos, e de almas nascem dos homens? A que o exemplo do castigo alheyo naõ aproveita para emenda propria; quantos cutellos ensangoentados, quantas execuçoens de justiça criminal vem cada dia ante seus olhos, os que sem temor destas penas cõmetem crimes dignos de morte? Podendo nelles mais a malicia, que o temor; pois qual saber humano poderà governar taõ differentes vontades, e trazellas a huma mesma concordia das leys?
30 Pelo mesmo modo contaõ os antigos, que foy hum certo tempo, em que os homens viviaõ nos campos, e sustentavaõ a vida, como bestas feras, fazendo as cousas mais por obra das mãos, que por arte, nem razaõ, carecendo da Religiaõ, sem casamento, nem amor de filhos, por os naõ terem certos, sem conhecimento de leys, de tal modo, que com esta ignorancia, e error andava a concupiscencia cega, senhora da razaõ, usando de forças corporaes, como de gente armada para satisfaçaõ de seus appetites. No qual tempo se levantou hum homem sabedor, e vendo quanta efficacia, e proveito para muitas cousas jazia escondida no animo dos homens, se pudesse trazer à luz, e acrescentar com doutrina; andando huns espalhados pelos campos, jazendo outros metidos em covas sylvestres, os ajuntou em hum lugar, e lhes ensinou o caminho, que haviaõ de seguir, acerca do que tocava ao prol commum de todos. Os quaes posto que no principio fossem màos de ajuntar, toda via pouco, e pouco, de feros, e salvaticos que eraõ, os fez domesticos, e racionaes.
31 A este proposito, cuido que diz a Escritura, que a Sapiencia edificou para si huma casa, e cortou sete colunnas, querendo dizer (naõ fallo agora nos sentidos espirituaes) que naõ buscou quem lha edificasse, e escusou ajudas, e mestres, porque nella havia tudo, o que naõ tem a ignorancia, que com todas as achegas postas em casa a naõ levantaria de sobrado. Por este homem sabedor podemos entender o Principe, o qual posto que tenha sua Republica unida com leys, e direito Divino, sempre se achaõ em todo o tempo, e em todo o estado homens (como pouco ha disse) desobedientes a toda a razaõ, que como aquelles primeiros andaõ fóra de toda a ley; naõ guardando a ordem matrimonial, sem Religiaõ, e temor de Deos, e nos manjares como bestas obedientes à gula, e ao ventre, vivendo fóra da commum habitaçaõ dos outros, matando, e salteando pelos despovoados, os quaes o Principe por força, e por arte ha de levar à domestica doutrina da razaõ, e fazer com que o lobo ande em hum mesmo pasto, como o cordeiro.
32 Aqui poderia eu dizer (prudentissima Princesa) que nella se pòde mostrar este grande homem sabedor, que meteo os outros no caminho da verdade. Que dias hà, que este vosso povo derramados pelos desertos deshabitados da razaõ, espera por V. Alteza. Grandes caminhos se me abriaõ aqui de seu louvor, mas diraõ, que não guardo o decoro, que devo à patria em publicar seus defeitos por ser mãy, que me gerou. Ó grandissima prudencia delRey Nosso Senhor entregar neste tempo hum povo a quem o havia de restituir a estado de mayor quietaçaõ, e repouso. Grandissima clemencia de V. Alteza, aceitar a governança delle pelo salvar. Certamente que naõ sey o que mais louve, se a prudencia de hum, se a clemencia do outro, igual he a divida, igual o louvor, igual a obrigaçaõ.
33 Muito devemos a ElRey, que nos deu a taõ alta Princesa, muito devemos a V. Alteza, que nos aceitou por seus. O singular, e nunca ouvido genero de liberalidade, taõ diverso, e taõ igual à delRey Nosso Senhor em dar, e a de V. Alteza em aceitar. Naõ sey o que diga por este taõ bom dia como nos amanheceo, e se disser alguma cousa, que posso dizer, senaõ o que diz o Poeta: Jam redit & virgo, redeunt saturnia regna. E elle a seu proposito, e eu ao meu. Quem serà taõ desconhecido, que seja ingrato a esta mercè? Quem taõ ignorante, que a naõ conheça? Quem taõ cego, que a naõ veja? Quem taõ mudo, que a naõ publique? Quem taõ sofrido, que a cale? Quem taõ rustico, que a naõ estime? E naõ entenda o tempo, em que ElRey nos buscou remedio de nossas enfirmidades, com que temos a saude certa, e a prosperidade segura. Nem podia sahir tal conselho, se naõ de Principe taõ dado às letras, e taõ favorecedor dellas. Nas quaes como naõ tenha pequena parte, assim buscou quem a tivesse muy grande, que as cousas naõ pòdem ser bem julgadas, senaõ por aquelles, que tem verdadeiro conhecimento dellas.
34 Vio bem Sua Alteza, que a jurisdiçaõ das letras se estendia tanto pela Universidade das cousas, que nenhuma se podia fazer sem ellas, que estes Cesares, estes Scipioens, e Anibaes, e todos os mais, que nas armas floreceraõ, entre ellas senaõ desprezavaõ dos livros. Como de Alexandre se lè, que achando no despojo de Dario huma caixa muito rica de maravilhoso artificio, que servia dos cheiros, e perfumes delRey, mandou (contra opiniaõ de alguns) que para outros usos a deputavaõ, que lha guardassem para a Illiada de Homero. Era taõ sofrego das letras, que por Aristoteles publicar huns livros, que compoz da Metaphysica, o reprehendeo disso, querendo reservar para si o uso delles: sómente como diz Seneca, em estudar Geometria errou, porque havia de saber quam pequena era a terra, da qual a mayor parte tinha occupada, com que ficava falso o nome de que se intitulava de Grande Alexandre.
35 E naõ lemos, que a Mathematica de Archimedes defendeo por muitos dias Çaragoça aos Romanos? E que as artes liberaes de Gallo Sulpicio, como diz Valerio Maximo, foraõ causa da grande victoria, que Lucio Paulo Capitaõ Romano houve contra os Persas, porque espantado o exercito do ecclipse da Lua tinhaõ perdida a confiança da victoria, o qual elle lhe restituyo, provando pela ordem dos Ceos, que o desfallecimento deste Planeta era natural, e naõ prodigioso.
36 O Emperador Antonino naõ foy bom Philosopho, e bom Capitaõ? Carlos Magno naõ trazia nos exercitos ao grande Alcuino, cujas obras saõ hoje ornamento da Igreja? A ElRey D. Afonso de Castella naõ lhe deraõ suas tavoas nome de Sabio? Ao de Napoles deste mesmo nome, vosso Tio filho delRey D. Fernando de Aragaõ vosso quarto Avò taõ excellente Cavalleiro, e singular Capitaõ, de cujos louvores estaõ cheyas as Chronicas Napolitanas; que mais posso dizer em louvor das letras, senaõ que trazia por divisa hum livro aberto: porque dizia João de Issera, homem de muy grande juizo, que se elle naõ fora Rey, fora muy grande Philosopho. O qual lendo hum proemio, do que tradusio em lingoa Castelhana, os livros de Santo Agostinho De Civitates Dei, achou huma sentença, que dizia que o Principe idiota era hum bruto animal coroado. As quaes palavras lhe pareceraõ taõ bem, que nos negocios, na guerra, em suas prizoens, e adversidades, nunca deixou de ler, ouvir, argumentar, praticar em letras, e no Campo em seus exercitos trazia consigo hum Mestre Martinho, com quem communicava seu estudo. Tradusio as Epistolas de Seneca em Espanhol, teve grande conhecimento das historias, grande noticia dos Poetas, e Oradores, soube muitas conclusoens de Philosophia natural, e tanto estudou na Sagrada Escritura, que se louvava ter lido o Testamento velho, e novo, quatorze vezes, com suas grozas, e commentos; respondia, e praticava como Theologo consumado em materias theologaes arduas, e dificultosas, como saõ da presença de Deos: De Liber arbitrio, de Trinitate, de Incarnatione Verbi Dei, de Sacramento Eucharistiæ. E dizia, que naõ avia melhores homens de conselho, que os mortos, que careciaõ de odio, favor, ou temor, respeitos, a que os vivos pela mayor parte saõ sugeitos. Dizem delle, que nos sacos dos lugares, nenhum despojo lhe era taõ agradavel como o dos livros, os quaes trazia sempre, como jà disse, nos caminhos, e exercicios, principalmente os Commentarios de Cesar, e Tito Livio, a que era affeiçoado. E na conversaçaõ domestica se servio de Bertholameu Fascio, singular historiographo, e Orador, de Georgio Trapezuncio, de Lourenço de Valla, doctissimos, hum na lingoa Grega, outro na Latina, de Joaõ Aurispa Siciliano, que escreveo muitas Epistolas, e Livros moraes, e de Antonio Panormitano Bolonhes, que escreveo hum Livro dos ditos, e sentenças do mesmo Rey D. Afonso, todos Baroens doutos, que no seu tempo floreceraõ.
37 Quiz fallar muito de taõ singular Rey, porque sua vida, e costumes, parece que confirmaõ o nosso proverbio, que diz: As letras naõ despontaraõ a lança. E certo naõ sey que sains mais amolados possaõ ser, que armas guiadas por conselho de prudente Capitaõ? E que muitos tragaõ em pratica: Que farà aqui Plinio, graça que hum homem disse em huma afronta a outro na Villa de Alcacer Ceguer; saõ cousas favorecidas daquelles, que por naõ saberem letras, querem authorizar este defeito com ditos alheyos, dignos de muita reprehençaõ, porque certo naõ ha ahi homens mais prejudiciaes às cousas dos que os que carecem dellas, que como esta privaçaõ seja causa de seu abatimento, querem-se sustentar com graças, quando lhe faltassem boas razoens.
38 Esta verdade confirmaraõ os Infantes D. Pedro, e D. Henrique vossos tios, cujas armas tanto honraraõ estes Reynos, que ainda hoje os livros, que hum compoz, authorizaõ a livraria delRey nosso Senhor, e o Mundo, que o outro com sua Mathematica começou a descobrir que ElRey vosso pay, com muito acrescentamento conquistou, està cheyo de seus louvores. E nisto cuido eu que o Infante D. Pedro quiz significar quam necessarias eraõ nos Principes, a Filosofia, e as armas, pois Tulio, de Officiis, e Vigecie, que destas duas cousas escreveraõ, traduzio em lingoa Portuguesa.
39 Tornando ao proposito, bem claro mostra Vossa Alteza nos livros, que tem por ornamento de sua Casa, que procede do sangue deste taõ glorioso Rey de Napoles, que taõ boa memoria de si deixou ao Mundo, e a seus descendentes, exemplo com que aprendessem a ser Filosofos na paz, e Cavalleiros na guerra, pois que os livros mais alimpaõ as armas, do que as danaõ, e que Vossa Alteza as naõ exercite por lhe naõ ser dado, tem logo outras espirituaes de tanta força, que sem ella as materias perderiaõ a sua. Cà o animo onde se acha prudencia, fortaleza, justiça, e temperança com a verdadeira fè do que se deve crer, que cousas começarà, que naõ acabe? Ou como acabarà a memoria das que começar? Obedece o ferro à industria, as armas ao conselho, a gente ao Capitaõ, e como diz Salustio muito tempo durou entre os homens esta profia, em que consistia mais a virtude militar, se nas forças corporaes, se nas do animo, e posto que humas tenhaõ necessidade das outras, todavia pelo tempo, e experiencia se achou, que na guerra, o saber valia mais. E certo que muitas vezes, lendo os notaveis feitos das Amasonas, que em armas fizeraõ, me faziaõ muita duvida, parecendo-me que em mulheres, que a natureza naõ criou para o tal exercicio, senaõ podia achar tanta perfeiçaõ, a qual me tirou Valasca, de que conta o Papa Pio II. que com Exercitos de mulheres senhoreou sete annos o Reyno de Boemia, vencendo muitas batalhas campaes, e fazendo feitos em armas de muy esforçados cavalleiros. E Joanna, de que conta Gaguino, que vulgarmente chamamos a Poncella, cujo esforço, e prudencia militar restituio o Reyno de França a ElRey Carlos VII. deste nome, posto que naõ acabasse conforme a seus merecimentos, as quaes nos tiraraõ a duvida de outras mais alongadas de nossa memoria, como Symiramis, que governou tantas Provincias, Dido, que edificou huma tão nobre Cidade, e Thomiris, que matou a ElRey Cyro.
40 Assim que com estes, e outros exemplos de mulheres, que nas armas floreceraõ, e administraraõ Reynos, naõ duvido eu (Illustrissima Princesa) que trazendo o tempo taes necessidades, que fosse necessaria sua prudencia, e conselho, para governar gente armada, que se acharia nella tão perfeito, como se achou na Rainha Dona Isabel vosso visavò, cujo favor, e esforço ajudou a lançar fòra os Mouros de Espanha, que de setecentos annos, e mais a senhorearão por força de armas, a qual foy vista nos Exercitos, e perigos da guerra: mas como o tempo não ordene tal cousa, Vossa Alteza o gasta em outras, de que naõ merece menos louvor do que estas tiverão, que pouco ha nomeei, as quaes posto que venceraõ homens algumas dellas, naõ venceraõ a si mesmas, senaõ que o seu he tanto mayor, que a vitoria dos inimigos de casa, he mais louvada, que a dos de fóra. Porque segundo diz Marco Tullio, como poderà ser senhor aquelle, que o naõ he de suas paixoens? Refree primeiro os vicios, despreze as deleitaçoens, reprima, e detenha a ira, vença avareza, e lance de si as nodoas do animo, e entaõ comece a senhorear, depois que deixar de servir.
41 Dizia o grande Agessilào, vendo que os Persas louvavaõ, e senhoreavaõ hum Rey da India, que tinha grandes thesouros: porque serà elle mais rico, pois naõ he mais temperado? Querendo dizer que as forças dos Principes naõ estavaõ nas pedras preciosas, e Elefantes da India, senaõ em a temperança da vida, que he a verdadeira Filosofia, e o verdadeiro fruito das letras, inventadas para assentar os homens em hum honesto modo, e boa ordem de viver. Mas como seus donos se servem dellas para valer, e naõ para merecer, saõ como os vazos avinagrados do Poeta Horacio, que diz:
Nisi purum esi vas omne quod infundis acrescit.
42 Ao qual proposito dizia o Filosofo Epitheto a hum homem de bom engenho, e mal inclinado, que desejava, e trabalhava por saber. Ó homem, olha se he limpo o vazo em que tanta cousa lances. E certamente, assim como a ignorancia dos Governadores idiotas he prejudicial à Republica, assim a malicia dos Letrados he causa de muitos males, principalmente a daquelles, que tem officio de ensinar bons costumes, que se as obras naõ respondem às palavras, perdidas saõ quantas lhe caem dos pulpitos abaixo. Por a obra ser de tanta força, que mudo brada, e callando grita, com que comprehende estas duas cousas, fazer, e dizer; e a palavra sem obra he só, e naõ tem virtude para dar raizes na terra, onde acertou cahir: contra estes, que esperdiçaõ a Doutrina de Deos, fazendo o contrario do que dizem, e prégaõ, diz Paulo, que naõ escaparaõ da sua justiça, pois nas sentenças que daõ contra os outros, condenaõ a si mesmos.
43 Como cheguey à altura deste conceito, e conhecimento, tudo o que descobri foraõ louvores de Vossa Alteza, porque era qualquer dos rumos, em que o tempo me poz, em todos ouve vista de suas obras, taõ juntas aos livros, que parece naõ sahir fóra da margem do que nelles le. Cà se o jejum tem merecimento diante de Deos, quem melhor guarda este preceito, e com mais louvor? Pois, sendo criada na abastança de todas as cousas, que pertencem a seu estado; sem o trabalho de as adquirir, por servir a Deos, e merecer ante elle, se poem em necessidade dellas. Que notorio he a todos com quanto trabalho se resiste à criaçaõ, que padecem mais facilmente esta falta da mantença corporal os moradores da parte Meridional, que os de Setemtriaõ, por huns viverem em terra fria, e outros em quente, que obra diversos effeitos, mais o rustico, que o bem nascido, pelo costume, mais o velho, que o moço, pela deminuiçaõ de calor natural. Assim quer Vossa Alteza, sobejando-lhe as cousas de sua propria vontade, exprimentar o carecimento dellas, por respeito de virtude, certo he muy grande louvor, e merecimento, pois naõ tem necessidade, a quer sentir, forçando sua vontade por comprir a de Deos, desprezando tanta diversidade de iguarias, com tanto artificio compostas. Quem serà com taes exemplos mào Christaõ? E se o for, que escusa terà com Deos, estando à conta com elle, que lhe ha de ser tomada taõ estreita: podemos logo com muita razaõ dizer, que a liçaõ dos jejuns, que Vossa Alteza le da Rainha Hester, e de Elias, e S. Joaõ Bautista, e a obra com que os guarda, tudo junto anda enquadernado.
44 E se viermos ao sacrificio da oraçaõ taõ louvado na Sagrada Escritura, qual Religioso com mais cuidado, diligencia, e continuaçaõ reza suas horas por obrigaçaõ, que V. Alteza sem alguma? Naõ lhe faltando dia em que naõ ouça os officios Divinos, confessando-se tantas vezes no anno, e tantas vezes recebendo o Santissimo Sacramento do Altar. A communicaçaõ dos quaes, como sabe que daõ graça, assim trabalha pela merecer com elles. Certamente, que considerando muitas vezes a humildade de hum Principe bom Christaõ, se me representa, a ventagem, que nossa Fè tem às seitas, e falsas Religioens, que foraõ, e saõ ao presente: porque de quantos Principes, e Emperadores nellas houve, naõ se lé haver algum, a que a obrigaçaõ de sua Religiaõ fizessee taõ humilde, e taõ sogeito, como saõ os nossos. Os quaes vendo-se de huma parte rodeados de tantos criados, e servidores com tanto resguardo, e acatamento às suas pessoas, que os olhos naõ empregaõ em outro objecto, senaõ em o do Principe, para que em acenando, os seus jà executem, naõ sómente o que dizem, mas o que adivinhaõ, que querem. E da outra posto de joelhos diante de hum pobre Religioso seu Confessor, e de tal maneira, posto que naõ sómente lhe diz as culpas, e peccados, que commete, mas o pensamento que teve, ou tem de as commeter, pedindo-lhe sobre tudo penitencia, e castigo dellas; taõ obediente, e aparelhado a comprir quanto saõ seus Vassallos a lhe obedecer, somente nisto saõ differentes, que elle o faz de coraçaõ, e os seus às vezes de mà vontade, fingindo-a boa por lhe ganharem a sua. Cousa he certo de muita admiraçaõ, vontade de tantas obedecida, obedecer a huma só, sugeitar-se a hum homem, aquelle a que tantos saõ sugeitos, reduzir-se a hum só lugar huma jurisdiçaõ taõ estendida, por Reynos, e Provincias.
45 Pois notorio he a todos, como jà disse, quanto V. Alteza frequenta este acto de humildade, descendo tantas vezes de seu estrado aos pès de seu Confessor, esquecida donde vem, muito lembrada para onde vay. Passando sua vida com tanta temperança, que se algum exercicio fóra destes aceita, naõ he senaõ fundado em louvor de Deos, ou donde possaõ nascer occasioens de o servir. Porque deixada a caça, a que muitas Princesas em outros Reynos saõ inclinadas, V. Alteza comprehende os altos mysterios do Sol da justiça, como aquella aguia de mais subida altenaria, que penetrou os rayos do verdadeiro lume, onde nenhuma plumagem de Aves chega, por andar sempre esta garça taõ estrellada, que a naõ filhaõ, senaõ os que tem sua conversaçaõ nos Ceos. Em lugar de caẽs, que desassocegaõ as alimarias, tirando-as de seus agasalhados, penetra com a sagacidade, e ligeireza de seu espirito, os cavàdos das pedras, desencovando aquella fermosa pomba de Salamaõ, que he a graça do Espirito Santo, e os sentidos da Escritura, verdadeiro mantimento da alma, e quando o tempo lhe naõ dá lugar a esta caça, porque em hum ha de semear, e em outro ha de colher, gasta estes intervallos no exercicio da musica, seguindo o Real Propheta David, que com sua viola espantava o espirito mào, que atormentava ElRey Saul, levando no discurso de sua vida tal ordem, e proporçaõ com que o demonio, inimigo della foge para onde naõ hà senaõ desordens, e horrores perpetuos. E tanto fruto tem V. Alteza colhido das letras, que achando nellas quam espiritual cousa he a musica, e quanto levanta os coraçoens para o Ceo, nella se exercita, como fizeraõ muy graves Philosophos, que vendo a ordem dos Ceos disseraõ, que em suas continuas voltas com que rodeaõ o mundo, fazem huma muy suave musica, de que os nossos sentidos saõ incapazes, por exceder sua potencia, atribuindo a cada hum suas vozes agudas, e graves.
46 E os Platonicos disseraõ, que nossa alma era composta de proporçoens de musica, por onde se deleitava tanto com ella. E assim parece que sentindo os Anjos a conveniencia, que nossa alma tem com a ordem da musica, com ella nos deraõ as novas do nacimento do Filho de Deos, de que o mundo estava taõ dezejoso, cantando com suave melodia. Nem sem causa o Espirito Santo ordenou, que cantando se celebrassem os officios Divinos para nossa alma os poder melhor comprehender. Ordenando assim mesmo estromentos, cuja armonia inflamasse nossos sentidos, como saõ orgaõs, que ainda na ordem de suas frautas imitaõ a dos Anjos, que no Ceo Impirio tem suas precedencias ordenadas por Deos. A differença das quaes concerta com aquella ordenada composiçaõ de Isaias, que sem cessar cantaõ diante da Divina Magestade de Deos.
47 E por a musica ser cousa taõ divina como he, nunca se lè que a Igreja de Deos estivesse sem ella, assim no tempo da ley da Escritura passado, como no da graça presente. Testemunha he aquella trombeta, que no dar da Ley retumbava pelas faldras do Monte Sinai, testemunhas saõ os timpanos, e pandeiros de Maria, irmãa de Moyses, com que tanto festejou o naufragio dos Egypcios, e vencimento dos Judeos, e assim as trombetas de Hiericò, com a musica dos quaes os seus muros, como adromecidos, se deixavaõ cahir na terra.
48 Pois vindo ao Tabernaculo, e ao Templo de Salamaõ, sempre nelles houve estromentos de musica, com que os sacrificios se celebravaõ, que David tanto encomendava nos seus Psalmos, o qual levando a Arca do Testamento para Jerusalem, de que no principio fiz mençaõ, diz a Escritura, que elle, e o povo de Israel dançavaõ diante della, cantando, e tangendo violas, psalteiros, trombetas, e outros estromentos. E o mesmo Rey David, quando repartio os officios dos Levitas, lemos, que ordenou quatro mil delles, cujo officio fosse tanger orgaõs.
49 Cheya està a Escritura de muitos exemplos, porque claramente consta deleitarse Deos com a musica, a qual por experiencia se vè tem muito grande força nos coraçoens dos homens, por onde os que della tiveraõ conhecimento, vendo quanto podia em todas as cousas a levaraõ à guerra, ordenando trombetas, e outros estromentos, com que os homens, e ainda os cavallos cobrassem esforço no rompimento das batalhas, e no andar, e proceder dos esquadroens, guardassem a ordem, que ella em si tem.
50 E os que no exercicio da caça se deleitaõ, também entenderaõ, que atè aos brutos animaes chega a doçura, e conhecimento da musica, como diz Strabo dos Elefantes, e Plinio dos Cervos, que huns com cantigas, e timpanos, e outros com frautas pastoris se amançaõ. Cousa notoria he, e muy sabida, o que conta Herodoto, e outros Authores, dos golfinhos, que saõ taõ dados a esta deleitaçaõ, que o grande musico Ariaõ foy livre do naufragio do mar por hum golfinho, que o salvou, conhecendo ser aquelle, cuja voz ouvira em o Navio, que seguia.
51 E naõ se acha gente por barbara, que seja, que naõ tenha sua musica, mà, ou boa, segundo o que cada hum della alcança, como vemos em toda a terra de Ethiopia, cujos naturaes entre nòs saõ testemunhas desta verdade, levando ordem, e compasso em seu tanger, ainda que seja barbaro, e os rusticos do campo, a que naõ faltaõ suas gaitas.
52 Que posso dizer dos passarinhos, cuja melodia tanto deleita as orelhas dos homens, que os tem encarcerados, e prezos para esse fim. Entre os quaes se bem olhamos a differença das vozes, e armonia, que o reixinol faz com sua garganta, que Plinio por outra tanta diversidade de palavras explicou; acharemos, que todas as proporçoens da musica estaõ encerradas no papo de hum taõ pequeno animal, como he este passarinho.
53 Nem as agoas parece, que carecem deste sentido nos rumores, e roucos estropidos, que por entre os sexos, e pedras dos rios vaõ fazendo, que a nossos sentidos causaõ deleitação, e saudade. E assim mesmo nos ventos temperados do Veraõ com os zunidos, que fazem, movendo as folhas das arvores, tambem se acha huma certa semelhança da musica. Donde nasceo (a meu juizo) fingirem os Poetas, que Orpheo levava consigo os homens, e brutos animaes, com as arvores, e rios, dando a entender, quam geral he a força da musica, que em todas estas cousas tem jurisdiçaõ.
54 E vindo aos corpos humanos, que cousa he a saude, senaõ huma concordancia dos quatro humores, da discordia dos quaes, que se segue, senaõ enfirmidades, e màs disposiçoens? Nos tempos do anno naõ he claro, que quando as quatro qualidades primeiras guardaõ entre si boa, e ordenada temperança, que se faz huma excellente musica taõ necessaria à vida dos homens, como saõ boas novidades de mantimentos? E quando saem fóra daquella regra, para que foraõ criados, naõ fazem ellas Sol, quando se dezejava chuva? E chuva, quando he necessario Sol, com que os ares corruptos causaõ pèstes, e outras infirmidades, assim na gente, como nos animaes necessarios? E a cerca dos dòtes corporaes, e graça, que mais he, e fermosura do rosto, que huma conveniente proporçaõ dos membros? Que contem modo, ordem, e figura na ordem dos intervallos das partes, no modo, a quantidade dellas, na figura, as cores, e os traços. Das quaes cousas entre si bem ordenadas, resulta huma certa armonia apartada da materia, a que chamamos fermosura.
55 A qual, segundo os Philosophos, denota a bondade das virtudes interiores dalma. E naõ sem causa Salamaõ tanto louvou na Sacratissima Virgem Nossa Senhora a fermosura corporal. Porque olhadas bem as obras de Deos, assim as espirituaes, como as corporaes, todas saõ cheyas de fermosura, que respondem ao Author, e Criador dellas; o que David quiz significar, quando disse que a confissaõ, e fermosura estavaõ diante de Deos. E quanto estas obras se levantaõ da terra, e chegaõ a elle, tanto mais aparece este Divino dom nellas. A quem naõ farà muy grave admiraçaõ a fermosura do Sol, de que nossa vista he incapaz, vendo como estende seus rayos pela redondeza do mundo, fazendo tão fermosa variaçaõ de ervas, flores, e sombras, com que a terra està taõ graciosa, e ufana no Veraõ.
56 Quem senaõ espantarà do resplandor dourado das Estrellas, da claridade da Lua, e de toda a pintura do Ceo? E deleitarse Deos com a fermosura claramente se vè no ornamento, assim do Tabernaculo, como do Templo, que de tantas pinturas, e riquezas de ouro, e prata, mandou emnobrecer. Donde vem, que o homem, por ser criado à imagem, e semelhança de Deos, naturalmente aborrece as cousas feas. Esta natural inclinaçaõ se ve melhor nos meninos, em que inda o uso da razaõ he fraco, a cerca dos cocos, e medos, com que os acalentaõ suas amas, que naõ saõ outra cousa, senaõ hum qualquer vulto sem ordem, e proporçaõ, o qual medo naõ tem dos que lhe mostraõ bem feitos, e proporcionados, e por esta razaõ se defendeo em o Testamento velho, que ainda se guarda em o novo, que os homens manchados em o rosto de alguma deformidade notavel, naõ pudessem uzar de officio de Sacerdotes.
57 E naõ he pouco de estimar (esclarecida Princesa) este dom, e graça natural, que nosso Senhor ouve por bem de taõ particularmente lhe conceder, e de que tanto a quiz dotar, posto que Vossa Alteza della naõ faça conta. Porque como acima disse os sinaes de fóra pela mayor parte arguem a bondade do animo, de que Aristoteles, e Galeno fizeraõ seus pronosticos. O mesmo respeito teve o Espirito Santo nas vestiduras dos Sacerdotes, cuja virtude como avia de ser espelho para os outros, assim trouxessem habito conforme ao que delles se presumisse, como o rochete, que significa a inocencia dos Bispos, a Mitra divisa em duas partes, a sciencia dos dous Testamentos, e o Anel a Cruz, a Coroa, e assim as outras insignias (por me naõ deter nellas) todas tem suas significaçoens, denotadas por estes ornamentos exteriores.
58 A mesma razaõ ensinou aos Pintores fazerem os espiritos màos taõ feos, dando a entender por seu rosto suas obras, de que entre nòs nasceo hum proverbio, que diz: guarde-vos Deos do homem mal assinalado. Tambem parece que as leys a isto tiveraõ respeito, quando ordenaraõ mayores penas nas feridas do rosto, que nas de qualquer outra parte do corpo, carregando mais a maõ nas disformidades delle, por ficar danada aquella parte com que os homens aprazem, ou desaprazem aos olhos dos outros.
59 E descendo aos particulares effeitos da fermosura, acharemos tantos exemplos a cerca dos proveitos, que della resultaraõ, que naõ bastaõ palavras, para os comprehender. Como dos Judeos a fermosa Judit, a qual com nenhumas outras armas livrou sua patria do cruel cutello de Holofernes, senaõ com a que lhe deu a natureza, e o que grandes Esquadroens de gente fazer naõ poderaõ, a graça de huma mulher acabou.
60 A Rainha Ester sendo de baixa linhagem, com sua fermosura naõ subio ao estado Real? Vencendo com ella a crueza delRey Artaxerxes, com que servio o Povo de Israel. Abigail naõ livrou com a sua seu marido Nabal da ira delRey David, merecendo depois o juramento Real, a que foy chamada por matrimonio? Betsabè pelos mesmos degràos naõ subio a esta cadeira, merecendo ser mãy de Salamão, figura de nosso Redemptor Jesu Christo? Quem livrou Italia dos fortes Esquadroens, Exercitos, e grandes crueldades de Anibal, senaõ a fermosura de huma moça de Capua, desbaratando com seu poder aquelle, que as forças de todo o Povo Romano vencer naõ puderaõ.
61 Por estas, e outras razoens era taõ estimado dos antigos este dom, que lhe deo occasiaõ para fingir, que Meduza tornava os homens em pedras, por ter taõ alto grào de fermosura, que transportava, e fazia alheyos de si, os que aviaõ, e tinhaõ por mào agouro topar com cousa fea: como o Emperador Adriano, que disse ser chegada sua fim, por encontrar hum Negro. E naõ calarey a graça de Phylopomenes, singular Capitaõ Grego, que por ter pouca no rosto lhe mandou huma mulher fazer o fogo, parecendo-lhe, que em taõ fraca pessoa, naõ podiaõ jazer tamanhos espiritos. E alguns Filosofos Platonicos disseraõ, que a fermosura era dom de Deos, o que entre nòs em proverbio commummente se diz: A quem Deos quiz bem, no rosto lho vem.
62 Muitas cousas podera dizer acerca desta, mas como V. Alteza della faça taõ pouco fundamento, pelo fazer mayor das que tenho feito mençaõ, e de outras, a que meu entendimento naõ chega, por serem de tal qualidade, que as naõ póde entender, senaõ quem as tem: naõ fallarey mais dellas. Mas porque a opiniaõ que todos geralmente, assim nestes Reynos, como nos estranhos de Vossa Alteza tem concebido, e a esperança, que daõ os sinaes, que nella resplandecem de grandes cousas, lhe naõ impida o contentamento dellas, vendo que he mulher, naõ deixarey de dizer quam habil, e sufficiente sempre foy o engenho das mulheres, para grãdes emprezas, começadas com grande esforço, e ousadia, e acabadas com muita discriçaõ, porque como diz Hieronymo, as virtudes haõ de ser pezadas em o animo, e naõ em a condiçaõ da natureza.
63 E começando das letras, clara cousa he, que naõ sómente se igualaraõ com os homens nesta faculdade, mas ainda lhe levarão muita ventagem, como as dez Sybillas, que os Doutores da Igreja tanto celebraraõ, por muitos annos, antes da Encarnação de Deos, deixarem profetizado este Mysterio, de cujos livros os Romanos fizeraõ tanto fundamento, que os tinhaõ encerrados, como grande thezouro para os cazos duvidosos, e perigos de sua Republica, o que não fizerão dos livros de Platão, Aristoteles, Xenophonte, e de outros Authores, que sem chaves andaõ pelas mãos das gentes, como cousa, que muito naõ relevava sua perda. Neste numero podemos contar Cassandra Troyana, cujas letras, e saber, se fora de seus naturaes conhecida, nunca se perderaõ, nem deraõ tanto que escrever a Homero.
64 Se viermos à magica não nos faltarão Circes, e Medeas, que fizeraõ mais milagres nesta sciencia, que Zoroastes, que a inventou.
65 Se à medicina, acharemos Brella, e Therbisa, irmaãs da Rainha Irbussa, Boemias, huma muy douta no conhecimento das hervas, e outra na sciencia da Astrologia.
66 Se à Filosofia, Theano mulher de Pitagoras, e Dama sua filha, expositoras das escuras sentenças do pay, e marido, e Diotima discipula de Socrates, Mantinea, e Philesia discipulas de Plataõ, Gemina, Amphiclias, e Themistes, tão louvada de Lactancio, e as outras de Plotina.
67 E deixando as Gentias, quem deu mais augmento à Igreja de Deos com suas letras, que a Santa Virgem Catharina? Vencendo a doutrina de tantos Filosofos, em actos, e conferencias publicas, sopeando com seu martyrio as forças do demonio, merecendo tão honrada sepultura, fabricada por mãos angelicas, como he a que tem no Monte Sinay, onde Deos deu a Ley Escrita a Moysés, parece que por aquelle Monte ser Monte de sciencia permitio Nosso Senhor, que nelle fosse enterrada esta Santa Virgem, que tanta parte teve em todas, especialmente naquella, que manou do dito lugar sagrado de sua sepultura. Tambem podemos contar quatro filhas de Felippe Evangelista, que nas letras Divinas, e graça de profecia floreceraõ, cujo espirito Deos naõ reprovou, pois fallou pela boca de tantas mulheres, quantas ouve, que merecerão este nome de Profetas, como Maria irmaã de Moysès, de quem jà falley, Debbora, Olda, Anna profetiza, S. Elisabeth, e outras.
68 Na Poesia podemos contar a Mesia, Androgina, Hortensia, Lucera, Valeria, Copiola, Sapho inventora destes versos, Corina, Cornificia Romana, Erimna, Thelia, chamada Epigramatista, Sempronia, de que Salustio conta tantas habilidades, Calphurnia nomeada entre os Jurisconsultos. Quem formou a eloquente lingoa dos Grachos, senaõ Cornelia sua mãy, pela qual razaõ Quintiliano instituio nos seus preceitos, que as amas dos moços criados para Oradores, fossem discretas, e eloquentes porque dellas aprendemos a fallar. E Socrates julgado pelo Oraculo de Apollo, pelo mayor saber dos mortaes, sendo jà velho, nos quaes o saber he mais crecido, naõ aprendeo algumas cousas de Aspacia, e Apollo Theologo de Priscilla? Debbora mulher de Cabidod prudentissima, como lemos nos livros dos Juizes, naõ governou hum tempo o povo de Israel? A qual por lhe Barael desobedecer, sendo eleita por Capitaõ do Exercito, não alcançou vitoria mortos, e vencidos os inimigos? Não lemos, que a Rainha Attalia governou entre os Judeos o Reyno por espaço de sete annos? E Semiramis (de quem jà fiz mençaõ) depois da morte do marido não governou o Reyno quarenta? Edificando huma tão nobre Cidade, e tão soberba, como foy Babilonia de Mesopotania? As Rainhas chamadas Candaces, poderosas, e prudentissimas, não governarão muitos tempos seus Reynos, de que Josepho conta tantas maravilhas, e se faz mençaõ nos Actos dos Apostolos? A Rainha Sabà, de quem jà falley, por taõ longos caminhos não foy ouvir a sabedoria de Salamaõ, a qual hade condenar as doze Tribus de Israel no dia da ira do Senhor? Thecujtes sapientissima femea nas preguntas, que propoz a ElRey David, naõ deu grande sinal de seu saber?
69 Pois nas armas notoria cousa he, quantos Reynos, quantas Provincias, e Cidades conquistaraõ, e edificaraõ mulheres, como as Amazonas, Thomiris, Dido, Valasea, de que jà falley: entre as quaes contaremos Camilla da geraçaõ dos Volscos, e Arthemisia, que senhoreou os Rodeos, tomando-lhes a Ilha, a qual edificou aquelle taõ celebrado Sepulchro Mausoleo, contado por hum dos sete milagres do mundo. E a Poncella de França, de que já fiz mençaõ, em memoria da qual no Ducado d’Orlians naõ està hoje neste dia levantada huma Estatua, em a ponte do Rio Loure?
70 Das Sabinas cousa vulgar he, que naõ temendo as armas dos paes, e maridos, se meteraõ entre os golpes de suas espadas, e os amançaraõ, fazendo perpetua paz, e liança entre huns, e outros. De que excellente Capitaõ, e singular Philosopho, se podem contar mayores cousas, das que conta Trebellio Polio da Rainha Zenobia, de cujo triumpho tanto se prezou o Emperador Aurelio, o qual dizia, que as victorias, que Odenato ouvera dos Persas, naõ se podiaõ attribuir, senaõ ao esforço, e prudencia da dita Rainha sua mulher? Com temor da qual, como conta o mesmo Author, os Arabios, Sarracenos, Armenios, naõ usuraõ a tomar armas. E depois que seu marido morreo, governou o Imperio em nome de seos filhos, por muitos annos, vestindo armas, governando Exercitos, andando a pè longos caminhos por esforçar sua gente, e foy taõ docta na lingoa Grega, que recapitulou a historia Alexandrina, e Oriental, e fez muitas obras, que Nicomato traduzio.
71 E quanto à fama, que homens ouve, que a deixassem de si mòr, que Europa, Asia, e Libia, de cujos nomes estas tres partes do mundo tomaraõ os seus? E as sciencias fingiraõ os antigos, mulheres, e naõ homens. E que saber mais vario, e coraçaõ mais esforçado se poderia achar em homens, que o de Cleopatra Rainha do Egypto? Que constancia mayor, que a de Panthea, que conta Xenophonte, a que a primeira, e grande Monarquia del Rey Cyro naõ pode comover, que quebrantasse a fé matrimonial a seu marido Abradatas? Qual castidade se igualarà com a de Lucrecia, que estimou mais a dor de lhe ser forçosamente roubada, que a morte? Ou com a da Rainha Dido desamada por Virgilio? Naõ faltaraõ a estas animo para se matarem, e constancia, fé, e castidade, que em poucos homens se acha. Entre as quaes se pòde contar na mesma virtude Argia mulher de Policinis Tebano, Julia de Pompeo, Porcia de Catam, Cornelia de Graceso, de que jà falley em outro genero de virtude, Melicina de Sulpicio, Hypsicratia mulher delRey do Ponto, Sulpicia de Lentulo, e a Rainha Libussa, que em quanto tempo per si só governou o Reyno de Boemia, naõ se viraõ as guerras, e dannos, que depois de sua morte se seguiraõ. A justiça, e bom regimento da qual foy causa de lhe fazerem escolher marido, o qual posto que fosse taõ singular, como aquelle Presmilam, que do arado ella escolheo para o Reyno, todavia foy vencido das mesmas mulheres em batalha. A qual Libussa, como diz Æneas Sylvio, era grande sabedora nas sciencias divinas, e humanas.
72 Que façanha mòr em homens esforçados pòde ser da que fez Claudia freira da Ordem Vestal, que sahindo do Mosteiro por socorrer a seu pay, que os Tribunos queriaõ lançar do carro, em que hia triumphando, o tomou nos braços, e o sustentou de tal modo, que como diz Valerio Maximo, o pay com ajuda da filha chegou ao Capitolio com seu triumpho, e ella ao Mosteiro com sua victoria? Que exemplo de piedade mòr, do que conta o mesmo Author de duas moças, huma que dava de mamar a seu pay escondidamente no carcere, onde o Carcereiro por lhe naõ dar a morte, que lhe mandaraõ, movido de piedade determinou de o matar à fome. E da outra, que pelo mesmo modo manteve seu pay Cymon, cuja pintura naquelle tempo era fermosa cousa de ver em Roma hum homem muito velho pendurado do colo de huma moça sua filha, mamando em seus peitos o leite, que gerou. Do qual carcere se fez hum Templo dedicado à Piedade, por razaõ da que tiveraõ estas moças com seus pays, e por experiencia se vè, o que diz Aristoteles nos livros dos animaes, terem as mulheres mais gràos nesta virtude, que os homens.
73 O que Salamaõ confirma, dizendo onde naõ està mulher, geme o enfermo. Porque assim como os homens em sua infancia saõ alimentados com o leite taõ sustancial das mulheres, que os enfermos restaura, e criados com a diligencia de suas mãys, e afagos de suas palavras, apropriadas àquella fraca idade das crianças, assim o enfermo na fraqueza, e debilitaçaõ dos membros, tornando aos primeiros dias de sua criaçaõ, parece que a cura da mulher lhe dà mais descanço, como quem se acha na patria, e natureza onde nasceo.
74 Vindo às cousas da Fè lemos, que por homens foy nosso Redemptor acusado, por homens vendido, por homens crucificado, por homens negado, e dos homens desamparado, só as mulheres atè a Cruz, atè o Sepulchro o acompanharaõ, tornando a elle de noite, perdido o temor dos que o guardavaõ, com cheiros orientaes para ungirem seu corpo, e a Magdalena, que nesta parte mais mereceo com cousas perseveradas lagrimas, naõ foy a que pedio aos Apostolos alviseras da Resurreiçaõ de Christo, por ser a primeira a que apareceo. E ainda a mulher de Pilatos, sendo Gentia, trabalhava com seu marido por lhe escusar a morte.
75 Depois da qual, quem estendeo mais sua Fè, assim com doctrina, como com martyrio? Padecendo por ella tantos generos de tormentos, quantos a crueldade dos tyrannos inventou para lha fazer negar. Testemunhas saõ os dentes de Santa Apollonia, as tetas de Santa Agueda, os olhos de Santa Lusia, e as agudas navalhas, que cortaraõ a carne da Bemaventurada Virgem Catharina. Quantos membros espadaçados, quantas cabeças cortadas, quantos corpos de mulheres assados celebra cada anno a Santa Madre Igreja, qual esquadraõ de homens taõ unido em caridade, taõ armado de Fè, se ajuntou debaixo de algum Capitaõ, como lemos de Onze mil Virgens, que seguindo a Cruz de Santa Ursula, todas morreraõ por aquelle, que nella por ellas padeceo? Cousa de espanto he, e de muy grande admiração entre tantas mil mulheres naõ se achar huma a que o temor dos tormentos alheyos, presentes a seus olhos, fizesse mudar de seu santo proposito, como se vio em taõ pequeno numero de quarenta Martyres, hum delles negar a Fè, e em outro muito menor hum vender a seu Mestre, outro o desconhecer, e finalmente todos o desampararem, sómente as mulheres, como jà disse, que perseveraraõ com elle atè à morte.
76 E tiveraõ sempre tanta constancia na Fè, em que huma vez creraõ, que nunca se lè, apostatar Helena, ou outra alguma Rainha Christaã, como Juliano Emperador, e outros, nem nascer dellas alguma herezia, como dos homens, de antre os quaes se levantaraõ, e se levantaõ cada dia contra a verdadeira, e Catholica Fè. A qual fallecendo em todas, na morte de Christo, segundo affirmaõ os Theologos, em nenhum homem ficou plantada, sómente em a Sacratissima Virgem Nossa Senhora remate de todo o louvor das mulheres. Pois que Deos Eterno, Immenso, Omnipotente, de cuja grandeza o mundo he incapaz, nenhum lugar lhe foy taõ aceito, quando a elle veyo, como o ventre virginal desta Virgem Sacratissima.
77 Alevantem logo os sentidos todas as mulheres, concebaõ em si huma humildade soberba, huma virtuosa presumpçaõ, e gloria de sua natureza, que Deos fez digna, e merecedora de tanta honra, quanta nunca homem puro teve neste mundo, nem terà no outro. Certamente, que he cousa de tal maravilha, qual ella foy, ver aquelle taõ dezejado do mundo, taõ denunciado dos Prophetas, taõ esperado das gentes, taõ venerado dos Anjos, taõ temido dos demonios, e Senhor universal das naturezas angelica, e humana, chamar a huma mulher mãy, e ella filho ao verdadeiro Deos, que a fez, e naõ sem causa a Igreja em suas oraçoens, rogando pelas mulheres, diz: Intercede por devoto fæmineo sexu, attribuindo-lhes este epiteto de devaçaõ, e amor de Deos, como muy proprio, e natural seu dellas.
78 E se agora quizesse contar as finezas, que em diversos generos de virtudes fizeraõ mulheres, como as Lacedemonias, Melesias, e Thebanas, faltarmehia o tempo, e naõ os feitos, que acabaraõ. Cheyos estaõ os livros de todos elles. E depois claramente se vè pelos exemplos, que mais me representou a memoria, do que os busquey, quanto as mulheres floreceraõ em todo o genero de letras, nas armas, administraçaõ de Reynos, fundaçaõ de Cidades, e obras miraculosas, na constancia da Fè, padecimento de martyrios por ella, nas virtudes da castidade, piedade, e misericordia, assim em todas as outras, em que naõ sómente se igualaraõ com os homens, mas em muitas os excederaõ.
79 E como nenhum puro homem pòde ser comparado por mais gràos de graça que tivesse, com a melhor dellas, merecendo sua natureza louvor sobre todos os louvores angelicos, e humanos; que razaõ haverà para ser mais estimado o mando dos homens, que o das mulheres? Mayormente o de V. Alteza, a quem tantas, e tão boas partes, a Clemencia Divina deu, que em muy poucos homens, por consumados que fossem, se poderiaõ achar.
80 Agora se nos representarà (illustrissima Princesa) a todos seus vassallos o tempo da Rainha Sabà, ou Candaces; em V. Alteza se renovarà a memoria das esforçadas, castissimas, e prudentissimas Rainhas Arthemizia, e Dido, e de todas quantas ennobreceraõ seus nomes com suas obras. Nella sò veremos juntas as virtudes, que nestas andavaõ apartadas. A Rainha Santa, cujo precioso Corpo tem Coimbra, e sua alma a gloria de Deos, morta, serà viva em V. Alteza, e para isto ser assim, que menos pode fazer, como disse no principio desta Oraçaõ, filha de tal pay, e de tal Mãy, irmãa de taes irmaõs, neta de taes avòs, sobrinha de taes tios, todos Reys, Rainhas, Emperadores, Principes, Infantes, de que toda a Republica Christã he cheya na jurisdiçaõ secular, e provèsse a Deos, que assim o fosse na Ecclesiastica, que naõ faleceria em vossa linhagem (muy alta Princesa) quem estendesse a Fè pelas partes Setemptrionaes, como fizeraõ pelas Orientaes, Meridionaes, e do Occidente, pois que della nasceo o Serenissimo Principe, e Reverendissimo Senhor Infante D. Henrique vosso irmaõ. Cujos costumes, santa virtude, e purissima limpeza de vida nos representaõ em nossos dias o grande Gregorio, Basilio, ou Agostinho. Naõ averia em nossos tempos Luteranos, obedeceria ao Summo Pontifice Boemia, reduzirsehia Grecia com todas suas misturas de Jacobitas, Georgianos, Arménios, e Abexins, e quantas diversidades de herezias ha pelo Mundo cessariaõ. Tornando ao proposito, este seu povo, e vassallos, posto que em quantidade sejaõ poucos, e naõ enchaõ a medida dos merecimentos de Vossa Alteza, pois que grandes Imperios, e Reynos, demanda sua prudencia, e alto nascimento. Agora com serem seus, serà mayor seu nome, e os serviços, que os mais delles fizeraõ a ElRey vosso pay de gloriosa memoria, e a ElRey vosso irmão nosso Senhor, assim em sua casa na paz, como fóra della na guerra, se por ventura andavaõ apagados, daqui por diante seraõ conhecidos, louvados, e galardoados, assim por ElRey com seu favor, como com merces, e acrescentamentos, que elles, e seus filhos esperaõ receber de Vossa Alteza, cuja liberalidade, e humanidade, que aos estranhos he grande, mayor se espera que seja aos naturaes, e vassallos, os quaes para serem sustentados, e governados com paz, mantidos em justiça, ficaõ rogando à Divina Clemencia, naõ por todos estes bens, mas por a vida de Vossa Alteza, que taõ certos os tem com ella, a qual nosso Senhor conserve, acrescente, prospere por muitos annos. Amen.
ELOGIO
DO DOUTOR
FREY BERNARDO DE BRITO
RELIGIOSO DE CISTER, E CHRONISTA MÓR de Portugal.
Na Comarca de entre Douro, e Minho, saõ muito antigos os nomes de Britonio, Briteiros, e Brito: porque de Britonio Cidade Episcopal se faz mençaõ no Concilio de Lugo celebrado no anno de 569. a qual foy destruida por Almançor de Cordova. O lugar de Briteiros deu este appellido a Fidalgos muy principaes, de que trataõ por vezes as historias Portuguesas, e os Registos Reaes. E sobre tudo a Ribeira, e freguesia de Brito, que està entre o Rio Aye, e a Portella dos Leitoens, he solar desta illustre Familia dos Britos. Cuidaõ alguns, que este nome he derivado dos Brutos Romanos, e outros, que dos Britones, primeiros moradores de Inglaterra, a que parece alludem os Leoens rompentes, que os Britos trazem por armas, que saõ as mesmas insignias daquella Provincia postas em tres barras. Com tudo neste Reyno tem muita antiguidade, e delles, e dos Briteiros (que todos saõ os mesmos, segundo os que melhor entendem) ha muita mençaõ no livro das Linhagens de Espanha do Conde D. Pedro. Na principal varonia desta Familia, que he a do Morgado de Santo Estevaõ de Beja, entraraõ por casamento, e linha femenina a Casa de Lima com o Viscondado de Villa Nova de Cerveira, e Condado de Arcos de Valdeves, e a Casa dos Nogueiras com o Morgado de S. Lourenço de Lisboa, e por largos annos possuiraõ a Alcaidaria Mòr de Beja, e em particular Affonso Annes de Brito, que foy pay de dous Bispos de Evora D. Martim Gil de Brito, e D. Joaõ Affonso de Brito, e Avò de D. Diogo de Brito, que successivamente tiveraõ esta grande Prelasia. Pelo que de alguns foy chamado Affonso Annes o Clerigo. Em outras partes de Alem Tejo conservaõ muy antigos Morgados, particularmente em Evora, onde o Bispo D. Joaõ, jà referido, instituio o Morgado de Fonte boa, com obrigaçaõ de usar o appellido, e armas dos Britos, que se pòde ter por huma das mais antigas instituiçoens de Espanha, em que so trate de semelhante clausula.
Deu esta linhagem homens insignes no serviço dos Reys, no governo da Republica, e no valor das armas, em que foy assinalado Joaõ Affonso de Brito na tomada de Ceita, e na India Lourenço de Brito Capitaõ de Cananor; o primeiro que defendeo o cerco de fortaleza naquelle Estado, sendo o que lhe puzeraõ os Malavares hum dos mayores, que os Portugueses sustentaraõ. E assim ha nesta Familia outros Varoens dignos de memoria, porèm quem em nossos tempos illustrou grandemente este nome com as excellentes obras de seu engenho, foy o Padre Frey Bernardo de Brito Chronista Mòr de Portugal; como se verà nesta breve relaçaõ de suas cousas, o qual estimou tanto este appellido, que o antepoz a outros muitos, e muy illustres de que descendia. Por quanto, segundo se vè na Historia de Nossa Senhora de Nazareth, de que adiante faremos mençaõ, era seu pay Pedro Cardoso, filho de Sebastiaõ Fernandes Cardoso, e neto de Francisco de Sousa, o qual era neto de Gonçalo de Sousa Comendador Mòr, que foy de Christo, e por sua mãy Maria de Brito de Andrade, ficava no mesmo grào com Nuno Freire de Andrade filho do Mestre de Christo D. Nuno.
Nasceo o Padre Frey Bernardo em Almeida, Villa notavel deste Reyno, dia de S. Bernardo 20. de Agosto de 1569. Seguio seu pay Pedro Cardoso a Milicia, e foy Capitaõ de nome em Italia, e Flandes, em serviço delRey D. Felippe o II. de Castella. Com esta occasiaõ andou o Capitaõ Pedro Cardoso ausente deste Reyno muitos annos, e temendo, que a falta de sua presença fosse de prejuzo à criaçaõ de seu filho, de pouca idade, o fez hir a Roma, e conhecendo bem, que naõ bastava sómente a mudança do lugar para melhorar o animo (como jà o disse Horacio, pelos que em seu tempo passavaõ a Athenas) lhe deu os melhores Mestres, que entaõ floreciaõ naquella Corte, que por tantos titulos he a Metropoli do Mundo. Delles aprendeo o nosso Author a policîa das lingoas, e ouvio a exposiçaõ dos mais illustres Poetas, e Oradores. Aproveitou o Padre Frey Bernardo muito com esta doutrina, e tornando em breve tempo ao Reyno, veyo muito acrescentado das partes acquiridas, que pertencem a hum mancebo nobre, porque sabia a lingoa latina com eminencia, fallava a Italiana como natural, a Francesa expeditamente, e naõ lhe faltava noticia da Hebraica, e Grega. Da historia fazia particular profissaõ, e sobre tudo se deu tanto à liçaõ dos Poetas, que compoz naquella primeira idade muitos versos, que nos conceitos, e elegancia podem competir com os dos melhores Lyricos de Espanha. A todas estas partes, e outras muitas naturaes, de que era dotado, soube acrescentar a mayor perfeiçaõ de todas, que foy dedicallas a Deos: e como reconheceo sempre a S. Bernardo por seu padroeiro, movido da devaçaõ que lhe tinha, deixou o Mundo, e se fez seu Religioso no Real Mosteiro de Alcobaça, mudando juntamente com o estado o nome de Balthasar de Brito de Andrade, que atè entaõ usara.
Sentio notavelmente o Capitaõ Pedro Cardoso seu Pay esta resoluçaõ, como ordinariamente costumaõ fazer os parentes, que ficaõ no Mundo, naõ lhes deixando ver a paixaõ, que se tem por boa fortuna aceitar-lhe o Principe da terra hum filho em seu serviço, quanto mayor felicidade he receber-lho o do Ceo por Grande de sua casa. Porèm como o Capitaõ Pedro Cardoso fazia conta de o deixar na Milicia com grandes ventagens, que esperava em satisfaçaõ de seus serviços, e entendia por este meyo ficavaõ accomodadas as cousas de sua Familia, fez tanto, que impetrou hum Breve com que se passasse à Religiaõ do Hospital de S. Joaõ, que vulgarmente chamaõ de Malta, e era taõ valido em Roma, que alcançou esta licença, cousa que rarissimamente se concede. Offende-se Deos grandemente de os Seculares perturbarem as vocaçoens dos Religiosos, e como naõ queria que o nosso Author fosse famoso pelas armas, mas que as armas fossem famosas por elle, levou para si o Capitaõ Pedro Cardoso poucos dias, depois do Indulto chegar a Portugal, e seu filho naõ quiz usar do Breve, com que mostrou claramente, que senaõ tratara a mudança por vontade sua, senaõ pela de seu pay.
Quando o Padre Fr. Bernardo veyo de Italia, como carecia da inteira noticia da historia da Patria, procurou darse a ella com toda a diligencia, porque ainda que qualquer historia seja huma compendiosa sabedoria, e fonte de prudencia, sempre a da Patria he mais proveitosa; pois tanto mais aprendem os homens, aprendem dos progressos, ou adversidades da mesma Provincia, para acertarem na administraçaõ das cousas particulares, e publicas, quanto os successos proprios ensinaõ mais, que os estranhos. Com este primeiro fervor juvenil, naõ sómente leo as Chronicas do Reyno, mas movido com o desejo de ver aquella escritura em melhor estilo, as resumio num volume, que escreveo de sua maõ, acrescentando algumas cousas de hum Author, que achou em Alcobaça, chamado Mendo Gomes. Porèm considerando depois attentamente a perfeiçaõ, com que os modernos Historiadores Castelhanos, e Aragoneses hiaõ escrevendo as historias de suas patrias, averiguando pelas escrituras dos Arquivos as cousas incertas, e achando outras muitas de novo, de que os antepassados se esqueceraõ, sobre esteve na publicaçaõ deste volume, entendendo, que lhe era necessario para sahir à luz fazer elle tambem a diligencia com os Cartorios de Portugal, que os outros tinhaõ feito em suas Provincias. Mas porque a nossa naõ ficasse inferior a nenhuma, vendo que faltava escritor, que tratasse as cousas de Portugal ordenadamente, e que por estarem divididas por muitos Authores, havia pouca noticia dellas, movido do zelo do bem publico se resolveo em escrever a historia Portuguesa sucessivamente des do principio do mundo atè seu tempo. Este heroico pensamento intentou primeiro Joaõ de Barros na Europa, que prometeo, posto que por lhe faltar descanso, e tempo o naõ pode comprir. O mesmo pretendeo Andre de Resende, porèm occupado em outros estudos, naõ pode mais que começar a empresa, deixando alguns fragmentos do tempo dos Romanos, ainda que de muita importancia. Menos parece obrou a intençaõ de Jorge Cardoso, como se vè no Tratado, que Manoel Fernandes Conego de Lamego fez da antiguidade daquella Igreja. Todos estes Authores saõ dignos de graõ louvor por terem taes intentos; porèm quanto vay do pensamento à obra, tanto mayores graças se devem ao Padre Fr. Bernardo, pois o que elles sómente imaginando mereceraõ, elle reduzio prosperamente a effeito.
Começou esta historia em Alcobaça, e ainda que os Superiores o mandaraõ continuar na Theologia em Coimbra, naõ se esqueceo da empreza, antes a proseguio nas horas, que lhe ficavaõ livres com tal cuidado, que a veyo acabar no principio do anno de 1596. tendo de idade 27. e no de 1597. a imprimio. Foy esta obra recebida com igual applauso, naõ só neste Reyno, mas ainda em toda Espanha, assim por aquella certa novidade, que as antiguidades trazem consigo, como por ser a primeira Historia Universal Portuguesa, que em vulgar sahio impressa. Nella mostrou o Author grande liçaõ, e hum animo incansavel, pois no meyo de tamanha occupaçaõ, como a dos estudos, pode concluir hum intento taõ arduo, que (como elle diz na sua elegantissima Dedicatoria) só o pensamento delle fez abaixar as velas a engenhos de muita estima, porque sendo por huma parte rarissimos os Authores, que fallaõ nestas materias, era necessario por outra hum infinito trabalho para buscar, o que se havia de dizer em huma immensa copia de leitura.
Recebeo ElRey Filippe II de Castella este serviço com particular benevolencia, por ver que o Padre Fr. Bernardo lhe offerecia graciosamente neste Reyno, o que no de Castella lhe tinha custado muita despesa, e cuidado, para assim obrigar o Mestre Ambrosio de Morales a se encarregar de semelhante historia, por tanto naõ só por sua carta agradeceo ao Padre Fr. Bernardo o trabalho da obra, mas ainda lhe encomendou de novo, que continuasse o que faltava della, e mandou ao Padre Geral de Alcobaça lhe ordenasse o mesmo.
Este favor animou ao Padre Fr. Bernardo para naõ fazer caso do desagradecimento de alguns mal contentadiços, que em lugar do premio de hum tamanho beneficio lhe censuravaõ o estilo do livro, e a certeza das cousas delle, naõ considerando, que a lingoagem he accidente em semelhante historia, e que tendo o Author a criaçaõ fóra da patria, naõ podia estar ainda taõ adiantado nos termos, que pede a gravidade da lingoa Portuguesa, como depois o esteve, e no que toca à historia, se no que passa em nossos tempos, e o que mais he diante dos nossos olhos, saõ tantas as opinioens, que nenhuma cousa se pòde quasi saber com infalivel certeza, demasiado rigor he querer, que se dè em cousas taõ antigas a firmeza, que nas presentes senaõ alcança. Pelo que com razaõ foy esta obra muito estimada dos doutos, e bem intencionados, e por ella se podem dar os parabens à Patria com aquelles excellentes versos, com que lhos dà hum famoso Escritor de nosso tempo, dizendo ao Tejo:
Ripis ecce tuis genuit tibi patria civem
Illustri egregium partu, quo clarior orbe
Jactabit nullo tellus se Lysia tantum
Arte potens opibusque animi, Bernardus ab alto
Ducet Lysiadum famam, & monumenta tuorum
Ex quo prima novis Aurora inventa quadrigis
Splenduit humano generi, dehinc arma triumphis
Inclyta, tunc sanctos repetens ab origine mores
Longa vetustatis, rerumque arcana movebit.
Antes deste tempo lhe tinha a sua Congregação encomendado a composiçaõ da historia de Cister, de que fóra deste Reyno havia pouco escrito, e em Portugal nada, sendo assim que esta Ordem floreceo entre nòs com grandes ventagens a muitas outras Provincias da Christandade. Obedeceo o Padre Fr, Bernardo, e pouco depois de tres annos da impressaõ da Monarquia, sahio com a primeira parte da Chronica de Cister, que imprimio no anno de 1602. Como jà neste tempo estava mais exercitado na lingoa Portuguesa, compoz esta historia com tanta elegancia, e pureza de palavras, que o Padre Fr. Joaõ Marquez, hum dos mais doutos Varoens de nosso tempo, lhe dà por ella o titulo de Historiador insigne; e no que toca às cousas, escreveo com tal diligencia, que o Padre Fr. Antonio de Yepes honra da Religiaõ de S. Bento, quasi tradùs esta Chronica nos seus Annaes, e podemos com verdade dizer, que ao nosso Author se deve possuirmos agora as excellentes historias de S. Bento, e S. Bernardo, que depois sahiraõ à luz em Castella, pois o Padre Fr. Bernardo abrio caminho, e deu exemplo para sobre estas materias escreverem taõ singulares sugeitos. Alèm da Chronica de Cister se mandou ao Padre F. Bernardo por decreto do Capitulo Geral, que escrevesse outro livro dos privilegios da Ordem; o que elle fez com immenso trabalho, porque lhe coustou muitos de perigrinaçaõ, e ver os Cartorios de todos os Conventos de Religiosos, e Religiosas, que a Congregaçaõ de Alcobaça tem neste Reyno, e outra muita leitura. A molestia desta occupaçaõ com o continuo estudo dos annos passados, lhe foraõ causa de huma grande enfirmidade, que o teve naõ somente muito tempo impedido para continuar com a historia Portuguesa, mas ainda desconfiado da vida. Com tudo tanto que a saude lhe deu lugar, tornou a Coimbra a concluir os estudos, que a obediencia lhe fizera interromper, e naquella Universidade deu grandes mostras de seu engenho nos actos que fez, atè tomar o grào de Doutor, que foy no anno de 1606. Pouco antes compoz o livro dos Elogios dos Reys de Portugal, que imprimio no anno de 1603. Esta obra, ainda que breve, he de grande consideraçaõ, porque na lingoa, e juizo, pòde servir de modello a toda a boa historia abreviada, e na perfeiçaõ com que fez abrir em bronze os retratos dos Reys, e alcançou os originaes mais apurados, mandando vir alguns de partes remotas, com grande custo e despeza, exccedeo muito suas forças, e mostrou o grande zelo, que tinha de engrandecer a Patria, e de eternizar a memoria dos Reys Portugueses, a quem neste livro levantou hum honroso trofeo, e tal, que a nenhuns outros Reys de Espanha vemos outro semelhante dedicado. Este livro quasi traduzio em latim o Padre Antonio de Vasconcellos no seu Anacæsaleosis, mandando abrir as mesmas estampas dos Reys em mayores laminas, por estas serem as que só merecem credito de verdadeiras.
Desempedido destas digressoens, tornou a continuar a historia da Monarquia Lusitana, que imprimio no anno de 1609. Nesta segunda parte seguio hum estilo chaõ, e claro, ainda que grave; e se na elegancia ficou inferior aos dous livros proximos, que tinha publicado, foy a causa por naõ dar mais lugar a materia, pois o principal trabalho daquella historia, he descobrir. e por em ordem as cousas daquelles tempos das conquistas dos barbaros, que atègora por falta de Authores estiveraõ escondidas, e cheyas de duvidas, e fabulas.
Estas foraõ as obras, que o Padre Fr. Bernardo de Brito imprimio em sua vida, porèm naõ eraõ menos illustres outras muitas, que compoz, e naõ pode tirar a luz com a morte antecipada. Destas direy algumas, que chegaraõ à minha noticia.
Compoz hum tratado, a que deu titulo Republica antiga de Lusitania, em que tratou dos costumes, religião, e governo dos antigos Lusitanos. Dedicou esta obra à Senhora Infanta Dona Isabel Clara Eugenia a 21. de Março de 1596. Era dividida em dez capitulos, e continha huma maõ de papel, segundo me informou o Licenciado Francisco Galvaõ de Mendanha (grande benemerito dos Escritores Portugueses, como em outro lugar diremos) que a vio, por lha communicar hum Religioso, que assistia em S. Bento de Evora.
Outro livro me mostrou o Padre Frey Bernardo, passando por Evora em Abril de 1611 intitulado Historia de Nossa Senhora de Nazareth. Era hum justo volume, e tratava da invençaõ daquella Sagrada Imagem, e das doaçoens, que os Principes, e devotos lhe fizeraõ com a relação de seus milagres, e no fim de cada hum a linhagem, e descendencia daquelle, em quem o milagre fora obrado, por esta via ficava sendo o livro hum Nobilitario das principaes Familias deste Reyno; pareceo-me obra excellente, e do mesmo voto foy Luiz da Sylva de Brito Prior do Santo Milagre de Santarém, assaz conhecido neste Reyno por suas muitas letras, o qual lhe escreveo na primeira folha hum elegante Epigrama em louvor da obra, e Author. Levava o Padre Frey Bernardo este livro a Madrid para o offerecer à Rainha Dona Margarida.
No mesmo tempo me mostrou tambem huma Apologia, que escrevera ao Arcebispo de Braga D. Frey Agostinho de Castro, em reposta de certas duvidas, que pelo mesmo Arcebispo lhe foraõ enviadas sobre a primeira parte da Monarquia, e no fim della estava huma carta do mesmo Arcebispo, em que se dava por satisfeito de suas perguntas, e o exortava, que na composiçaõ da Monarquia seguisse igualmente a Historia Secular, e Ecclesiastica: e a das linhagens nobres do Reyno, como elle depois fez.
Àlem destas obras soube então delle, que tinha composto dous Volumes em lingua Latina, hum sobre os Profetas Menores, e outro de Duabus Hebdomadibus, que eraõ as duas somanas da criação do Mundo, e sua redempçaõ, conceito novo, e digno do grande engenho do seu Author.
Na primeira parte da Monarquia Lusitana prometeo de escrever huma Historia Ecclesiastica deste Reyno, o que em effeito comprio, introduzindo as cousas Ecclesiasticas com as Seculares na segunda parte da Monarquia, e assim tinha intençaõ de o hir continuando. Tambem quando tratou da Geographia antiga da Lusitania, prometeo a de Portugal com taboas da Provincia, e plantas das Cidades, o que sem duvida fizera, se chegara com a Historia às cousas deste tempo, porem se por lhe faltar a vida naõ pode comprir esta promessaa, assaz obrigados lhe ficamos, naõ só pelos desejos, mas por as excellentes obras que imprimio, com que eternizou a fama deste Reyno. Pelo que com justo titulo se lhe póde applicar o do Pheniz, que em num Epigrama lhe dey, quando imprimio a segunda parte da Monarquia: pois estando naquelle tempo jà quasi extinto o nome dos Portugueses, elle o tornou a resuscitar, e fazer com sua pena mais famoso, que de antes, como se vè destes versos.
Cespite odoato Phænix ut Lysia mundo,
E casia factis ignibus usta perit,
Usta perit, gemini orbis opes, secum ipsa cremavis
Qua cadit undisono Sol, oriturque mari.
At veluti pulchris, ut odoribus ipsa cremata est,
Lysiadum restat sic nisi solus odor.
Bernarde hunc spargis, Phænix redivivus odorem,
Pulchrior & diris surgis ab exequis.
Tanto mais proprio fica agora este Epigrama ao Author depois de morto, quanto vemos, que se tem levantado daquelle insigne Convento da Ordem de S. Bernardo, ou por melhor dizer daquella Pira, e Areola aromatum, de virtudes, e sabedoria, quem com igual valor vay seguindo, e renovando os heroicos intentos do Padre Frey Bernardo de Brito.
Estas obras fizeraõ julgar a seu Author por digno de grandes premios, mas como os que o Mundo dà, naõ sejaõ bastantes para satisfazer semelhantes merecimentos, permitte Deos muitas vezes, que ate estes faltem, para que melhor conheçamos, que só he digno de ser servido, quem naõ só paga com grandes ventagens todos os serviços que lhe fazem, mas ainda galardoa atè os pensamentos delles. Com tudo por vezes foy nomeado o Padre Frey Bernardo para alguns Bispados ultramarinos, que elle naõ quiz aceitar, naõ só por sua humildade, mas por a continuaçaõ dos estudos lhe ter tirado a saude propria, com que ficava impedido, para procurar a espiritual alheya. Posto que claramente se entende, que os que o consultaraõ, antepuzeraõ o bem particular do Padre Frey Bernardo ao bem publico do Reyno, a quem importava, que lhe dessem commodo para compor, e não que o desterrassem para onde naõ podesse continuar sua Historia. No que devem ser muy considerados os Ministros superiores, naõ premiando os benemeritos fora de seus talentos, pois àlem deste danno fazem, que os providos comecem muitas vezes a aprender na faculdade alheya, quando pela idade, e experiencia podiaõ com mayor fruito ensinar na propria.
Por esta razaõ foy provido o nosso Author no officio de Chronista Mòr de Portugal, no anno de 1616 quando vagou por falecimento de Francisco de Andrade, naõ por faltarem partes no sugeito, a quem este cargo podia competir, mas por naõ aver outro premio, que se pudesse dar ao Padre Frey Bernardo, mais proprio, e devido a seus estudos, o que naõ se seguia na pessoa, que o podia pretender, pois avia muitos despachos, com que podia ser galardoado.
Porèm nem assim lhe servio este cargo de premio, senaõ de huma carga pesadissima, e de hum seminario de desgostos, que nunca teraõ fim, sendo esta a causa de escreverem huns contra elle, e outros em sua defensaõ. Infelicissima emprezas para taõ felices engenhos, pois podendo ganhar grande honra para a Patria, e para si com seus estudos.
Bella geri placuit nullas habitura triumphos
Tomaraõ huma ingloriosa contenda: Non cogitantes (como diz a Sagrada Escritura) prosperitatem adversum cognatos malum esse maximum, & non civium, sed hostium trophea capturi. Estava o Padre Frey Bernardo em Madrid, quando se lhe encarregou esta occupaçaõ, e se lhe encomendou, que deixados todos os outros intentos se applicasse sómente à Chronica delRey D. Sebastiaõ, pelo que logo na Corte começou a obra, e a continuou atè a Embaixada de D. João de Borja. Como neste tempo estava já taõ exercitado na composiçaõ, e preceitos da Historia, dizem os que a viraõ, que levava esta, ventagem a todas as outras, que elle tinha composto, e que se se acabàra, fora hum illustre ornamento da lingoa Portuguesa. Porèm a tudo atalhou a pouca fortuna deste Reyno, que tirando-lhe outros bens lhe quiz também roubar o engenho do Padre Frey Bernardo, quando estava mais assasoado para dar perfeitissimos fruitos.
Finalmente vindo de Madrid já falto de saude, se lhe aggravou a infirmidade no caminho, de maneira, que naõ pode passar de Almeida, onde continuando a doença, em pouco tempo lhe consumio as forças, e acabou a vida a 27. de Fevereiro, recebendo primeiro os Santos Sacramentos, e conhecendo sua morte com mostras de muita devaçaõ, e de verdadeiro Religioso. Seu corpo foy levado ao Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, junto a Castel Rodrigo, que he de Religiosos de S. Bernardo, e sepultado na Capella Mor, onde se vè hum letreiro de pedra na parede, que diz: Aqui jaz o muy douto Padre Frey Bernardo de Brito Chronista Mòr, que foy deste Reyno, morreo no anno de 1617. Foy pessoa de agradavel presença, grande de corpo, bem proporcionado, e de robusta compreiçaõ, se a naõ estragara com o demasiado estudo, o que acontece a muitos engenhos de Espanha, que naõ saõ menos prodigos da vida no exercicio das letras, do que Silo Italico o confessa no das armas. Foy de suave conversaçaõ, e de felice memoria. Prègou com muita fama, e em todos os estudos, a que se applicou, mostrou grande talento, o qual sempre empregou no serviço publico, eternizando os Principes deste Reyno, illustrando a Nobreza delle, e resuscitando, como outro Deucaleonte, os Portugueses, atè das pedras espadaçadas dos Romanos, para lhes dar perpetua vida na memoria dos homens. Evora a 2. de Abril de 1628.
ELOGIO
DE EVORA.
No meyo da Provincia de Alentejo està situada a Cidade de Evora[255] em hum posto taõ eminente, que fica senhoreando os campos, que a cercaõ por toda a parte atè pararem em quatro serras, com que a natureza em larga distancia a cercou, quasi como com muro. Da parte do Oriente a serra de Ossa; de Meyo dia a de Portel, e Viana, do Norte a de Arrayolos, e do Occidente a de Montemuro. He este sitio taõ agradavel à vista, que aos de Italia lhes pareceo que era Roma; e aos de Castella, o seu Madrid, e Toledo. Esta he aquella Cidade, que sendo fundada por Elysa primeiro Povoador de Espanha, tem sustentado por tantos seculos o mesmo nome, e lugar, quando das Metropolis das mayores Monarchias naõ se sabem já os vestigios donde foraõ. A fama deste sitio trouxe a si da Gallia os Celtas, a quem admitindo os Eborenses por Cidadaõs, os dividiraõ depois por as Provincias vizinhas, reconhecendo-se sempre por colonias suas todos os Celtiberos de Espanha. Esta he a Cidade, a cuja vista Viriato levantou os primeiros tropheos dos desbaratados exercitos Romanos, e Sertorio edificou os muros, aqueductos, e fabricas Corynthias dos despojos daquelle povo, que foy vencedor do mundo,acquiridos com os soldados Eborenses; e que ainda hoje permanecem por testemunhos de tamanha gloria. Este o lugar, em cujo nome quiz o primeiro Emperador de Roma, que ficasse eternizada a memoria de sua liberalidade. Esta foy a Cidade, que primeiro ouvio as alegres novas do Evangelho, e della, como de Sede propria, as recebeo por S. Mancio toda Lusitania. Esta foy o propugnaculo dos Reys Godos contra o Imperio. E naquella grande ruina ultima de Espanha, posto que se sometteo ao poder dos Arabes, inda depois de rendida se temeraõ tanto della, que levaraõ a principal parte de seus moradores a Marrocos, cabeça de sua Monarquia, onde os Eborenses fundaraõ outro lugar, com o nome da mesma patria, em que conservaraõ a Fè, e a liberdade por muitos seculos, atè que no tempo delRey D. Joaõ I. se tornaraõ a Espanha. Nenhuma força pode recuperar esta inexpugnavel fortaleza; e assim foy só restituida pela industria intrepida de Giraldo Illustre Cavalleiro, que com ella deu aos Reys Portugueses a mayor parte da Lusitania. Esta foy a primeira em defender a liberdade de Espanha, naquella milagrosa batalha do Triumpho da Cruz, onde seus moradores se ouveraõ com tanto valor, que a mesma Cruz lhe ficou por premio em perpetua memoria de taõ glorioso Triumpho. Na conservaçaõ da liberdade Porruguesa foy ella a primeira, que servio a ElRey D. Joaõ I. depois que intentou a defensaõ do Reyno. Aqui foy a praça de armas do Condestable, com cujos moradores alcançou tantas victorias. Aqui permanece a primeira Igreja de Espanha, illustrada com tantos Santos, e gravissimos Prelados. Esta foy a patria de tantos Varoens insignes em letras, onde florecem todas as sciencias divinas, e humanas. Esta he aquella, que produzio a Real planta da Senhora Infanta Dona Catharina; donde refloreceo com mayor felicidade a nossa Monarquia. Esta foy a primeira, que teve valor para desprezar o poder da Monarquia Castelhana, a cujo exemplo deve Catalunha a conservaçaõ de seus foros, e Portugal sua honrosa, e amada liberdade. E finalmente Evora he a que com a restauraçaõ de seu Rey, e natural Senhor tem descuberto outro novo mundo a todas as Provincias de Europa.