§. XXI.
Moedas Arabigas.
Começou o Senhorio dos Arabes em Espanha no anno de 714. com a grande victoria, que Tarif, e Muça alcançaraõ de D. Rodrigo, ultimo Rey dos Godos; porèm como acharaõ Espanha toda debaixo do governo de hum Principe, vencido este, ficavaõ todas as Provincias rendidas, e os Arabes Senhores de todas ellas; o que naõ acontecera se Espanha tivera mais Reys naquelle tempo, como se vio depois nas entradas, que fizeraõ os Almoravides, Almoades, e Benemerines, que passando a Espanha com muito mayor poder, do que foy o de Tarif, e alcançando alguns delles dos Christãos grandes vitorias, nem por isso senhorearaõ a Provincia, por estar possuida por mais de hum Principe. Pelo que introduzindo os Mouros, que com Tarif vieraõ, e os que se lhe seguiraõ em Espanha, suas leys, e costumes, as Moedas, que corriaõ, eraõ todas suas; destas hà inda hoje grandissima quantidade em Portugal, e eu tenho muitas, que principalmente se acharaõ no territorio de Evora, e Beja; muitas dellas de ouro, as mayores da grandeza de hum Real de prata, e de pezo de 500. atè 600. reis; que teriaõ ametade deste valor, e outras de grandeza de pequenos vintens. Os nomes destas Moedas naõ podemos saber; em nenhuma dellas hà figura alguma, por lhe ser prohibida em sua Seita, senaõ letras de ambas as partes, de huma poem o nome de Deos com os seus attributos de Grande, Bom, Omnipotente, &c. da outra o nome do Principe, que a manda bater com o de seu pay, e Avò, e outros ascendentes, como he costume dos Arabes, que tem isto por a clareza de suas ascendencias. Das Moedas de prata tenho tambem muitas, as mayores como tostoens; mas tam delgadas, que tem só de pezo meyo tostaõ, outras menores, e algumas taõ pequenas, como meyos vintens, todas tem o mesmo modo de letreiros, porèm algumas de muy perfeita esculptura, que deviaõ de ser do tempo dos Reys de Cordova, que floreceraõ em muita grandeza, e policia. As de cobre naõ excedem o tamanho das de prata, ainda que saõ muito grossas, mas tambem as hà meudas, e muito pequenas de peso dos nossos seitiis.
Esta he a noticia, que posso dar destas Moedas, das quaes naõ se pode saber, se alguma toca a Portugal, posto que como se achaõ na mesma terra, parece que devem de ser dos Reys Arabes, que então a senhoreavaõ.
Que nome tivessem estas Moedas, naõ pude alcançar em particular, mas em commum, as que se achaõ nas nossas Chronicas, saõ tres generos de Moedas de ouro, humas chamadas Dobras Mouriscas, outras Dobras Validias, outras Maravidis de ouro.
As Dobras Mouriscas tinhaõ a valia da Dobra Cruzada,[207] que da nossa Moeda faz agora 270. reis, posto que no peso passaria de 600. se agora se achasse, como entendo que o he huma de ouro, que tenho entre outras, que se acharaõ modernamente em Beringel.
Dobras Validias eraõ Moeda de Berberia, que se batia em Tunes de 23. quilates, e terço de peso, e diz a Ordenaçaõ velha, que valia doze Reaes brancos dos primeiros, pelo que vinha a montar da nossa Moeda 216. e destas Dobras se faz particular mençaõ na historia do primeiro Capitaõ de Ceita[208] onde se falla tambem de outras Dobras Mouriscas, com estas palavras: Dobras Validias era Moeda Mourisca, e communalmente esta era a Moeda de ouro, que se mais corria com estes Reynos, e isto era quasi em todo los tempos dos Reys passados. Sempre os Mouros dalem mar trataraõ nestes Reynos de mercadoria, comprando pela mayor parte todolos annos a fruita do Algarve, e que naõ pagavaõ, senaõ em ouro; e a mayor parte daquellas Dobras saõ feitas em Tunes, e eraõ 23. quilates, e terço de pezo. E outras Dobras traziaõ aquelles Infieis, a saber Dobras de Prazida; e de Sagilmensa, e de Marrocos, de que este Reyno foy assaz fornido, especialmente os thesouros dos Reys, como no começo dos feitos deste Rey fica contado, &c.
Maravidi he Moeda, que os Mouros introduziraõ em Espanha,[209] cujos Authores dizem, que foraõ os Almoravides, que cà vieraõ, de maneira, que antes observa o Mestre Ambrosio de Morales, que senaõ acha mençaõ desta Moeda, nem da conta dos Maravidis nas memorias de Castella, e pelo contrario de entaõ para cà foy taõ ordinaria em Castella a conta dos Maravidis, que por elles se faziaõ todas as computaçoens dos preços das cousas, e das Moedas, o que ainda hoje permanece; porque para significar a valia do Real de prata, dizem que tem 36. Maravidis, e o dobraõ de ouro 960. Maravidis; computando o Maravidi pela valia do nosso Real de cobre; porèm cà em Portugal ainda que se usou desta Moeda, parece que naõ foy mais que a de ouro, 60. das quaes faziaõ hum marco. Pelo que segundo o preço, vinhaõ a montar hoje 500. reis; com tudo este nome de Maravidi se veyo estender tambem às Moedas de ouro Portuguesas; de maneira, que se diz na Chronica delRey D. Sancho I. que deixou a seu filho ElRey D. Afonso 10U000. Maravidis de ouro.
Isto que està dito dos Reys Mouros, que senhorearaõ Portugal, se entende principalmente atè o tempo delRey D. Fernando o I. de Leaõ, por quanto este Rey tomou Coimbra, e Santarem, e deixou a seu filho ElRey D. Garcia quasi toda a terra, que pertencia a Portugal atè o Tejo; e poucos annos depois seguindose-lhe ElRey D. Afonso Henriques com a tomada de Lisboa, Evora, e Vitoria do Campo de Ourique, e de outros lugares de Alentejo, ficou ElRey quasi Senhor de todo o Reyno; e assim elle, como seus descendentes, foraõ os que mandaraõ bater Moedas com seus nomes, e insignias, como se hirà vendo de cada hum em particular.