VIDA DE TECLA HAYMANOT
Tecla Haymanot quer dizer Planta da Fé; foi descendente de Sadoc, sacerdote, filho de Abeitar de Hierusalem; porque, quando Salamão mandou a seu filho, pera que reinasse em Ethiopia, mandou com elle a Azarias, filho de Sadoc, pera ser sacerdote, como seu pai; e sahio de Hierusalem com grande festa e honra, trazendo comsigo a arca de Siam Deos de Israel; e pouco tempo despois, chegado á terra de Tigré, casou Azarias com huma filha dos honrados da terra, que se chamava Decamadabay, e gerou hum filho, a quem poz por nome Sadoc, como seu pai; Sadoc, gerou a Levi; e Levi gerou a Hizbizaay; e Hizbizaay [gerou] a Hezbeoay; e estes sacerdotes ensinaram a Lei velha á gente de Ethiopia, até o tempo que Tiberio era Emperador de Roma, e Herodes Rei de Galileia, e Bacen Rei de Ethiopia, e Aquim sacerdote; então nasceo Nosso Senhor Jesus Christo em Bethlem de Judá; Aquim, sacerdote, gerou a Simão; e Simão gerou a Embarim; e despois da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Christo 256 annos, veio hum mercador de Hierusalem, e com elle dous meninos, que se chamavam Fremenatos e Sydracos, e se agasalharam em casa de Embarim, sacerdote; e aquella noite adoeceo o mercador, e dali a pouco tempo morreo; e os meninos se criaram em casa de Embarim. Nossos pais antigos[[21]] nos trouxeram a circumcisão; e o crer em Christo nos ensinou a Rainha Endake; pera nos bautizar e dar a communhão não veio a nós Apostolo; mas vós ide ao Papa de Hierusalem, pera que vos dê poder de ser nosso apostolo: e deulhe ouro e prata pera seu caminho.
Com isto partio Fremenatos de Ethiopia, e chegando a Hierusalem, referio ao Papa Athanasio os costumes desta terra, com o que elle se alegrou muito; e ordenandoo o fez Bispo de Ethiopia, e lhe poz por nome Abba Salama, que quer dizer Padre Pacifico, porque havia de por paz entre Deos e os homens; e assi tornou Abba Salama á terra de Agazy, e chegou a Embarim aos 315 annos do nascimento de Christo Nosso Senhor, e o bautizou, e lhe deu ordens de diacono, e despois de sacerdote; e mudandolhe o nome, o chamou Hezbekadez, e lhe mandou que bautizasse toda agente, e disse que lhe dava poderes de Bispo; e assi foi bautizando a todos os de Tigré, Amaharâ, e Angot, e ensinandolhes a Fé de Christo; e foram muito bons christãos. Hezbekadez gerou a Hezbebarie; este veio da terra de Tigré, e fez seu assento na terra de Daont, que se chama Baheraquedâ, aonde casou, e gerou a Tecla Kade; este casouse no Amaharâ com huma mulher, que se chamava Maguedela, e gerou sete filhos, e até agora estão ali seus descendentes; e hum daquelles sete, que se chamava Azquelevi, bautizou a gente de Olecâ e Amaharâ, e a gente de Marrabete e Manz. Este Azquelevi casou em Harbeguixe, e gerou a Abaila, a quem, despois que cresceo, mandou el Rei Dignacio á terra de Guva com cento e cincoenta sacerdotes; e chegando bautizou em hum dia vinte mil, e edificaram muitas igrejas; e Abaila escolheo a terra de Zorarê, e gerou Harbeguixê; este gerou a Bacoraseon; este gerou a Hezbekadez; este gerou a Brahanamascal; em tempo deste passou o reino de Israel a Zagoe; Brahanamascal gerou a Heotbena; este gerou a Zarajoanes; [este gerou] a Sagaza Ab, o qual he pai do nosso santo. Sagaza Ab casou com huma filha dos honrados daquella terra, que se chamava Sara; e foram ambos tementes a Deos, faziam muita oração, jejuavam, e davam grandes esmolas; e amavamse como Abraham e Sara, e Zacharias e Isabo.
Era Sara dotada de grande formosura e muito prudente; pelo que seu sogro a chamou Egzyereâ, que quer dizer Deos a escolheo, e por este nome se nomeou ao diante; porém era esteril, pelo que ella e seu marido tinham grande sentimento; e assi pediam muito a Deos, que lhes desse fructo de benção; e pera alcançar esta mercê, tomaram ao archanjo S. Miguel por seu particular avogado, e cada mez lhe faziam festa; mas vendo que havia já muitos annos que eram casados, e que não alcançavam o que tanto desejavam, offereceram a Deos, e repartiram com as igrejas e os pobres toda sua fazenda, forrando juntamente muitos escravo que tinham.
Neste tempo se levantou hum tyrano, por nome Mutolamê[[22]], cuja mãi se chamava Aseldanê, e reinou nas terras de Damot, Xaoa, Amaharâ, até o rio Gemâ; este adorava os idolos, e destruia as igrejas. Hum dia veio este tyrano dar hum assalto na terra de Salalgi, e cercou a Zorarê; fugiu Sagaza Ab; seguioo hum cavalleiro dos do tyrano, e indo já perto lhe atirou com huma lança, mas errouo; segundou com outra, mas esta se virou no ar, e lhe veio atravessar hum braço; ficou o homem espantado, e Sagaza Ab teve tempo pera se meter em huma alagoa, que ali perto estava, na qual S. Miguel o guardou por espaço de tres dias debaixo da agoa. Egzyereâ cativou neste assalto; e vendo os soldados sua extraordinaria formosura, a levaram a seu Rei, o qual a cubiçou pera mulher; e dandolhe ricos vestidos, mandou aparelhar grandes festas pera a receber e coroar por rainha diante de hum seu idolo em hum templo, que se chamava Malberedê s. Seiva de Deos. Egzyereâ estava muito triste, e passava os dias e noites em oração, pedindo a Deos a livrasse das incestuosas bodas do tyrano. Chegou o dia sinalado, que foi o de 22 de agosto; sahio Mutolamê com toda a sua corte, do melhor que nella havia; e mandou trazer a Egzyereâ ricamente vestida até o templo dos seus idolos; estava o ceo claro e sereno; porém em hum momento se toldou de nuvens grossas e espessas, as quais se romperam em trovões espantosos, e em tantos raios e coriscos, que mataram a mil soldados, e a trezentos feiticeiros e sacerdotes dos idolos; e o tyrano Mutolamê ficou tam assombrado, que perdeo de todo o juizo, e desta maneira viveo muitos annos; só a serva de Deos ficou intacta, porque o archanjo S. Miguel no meio daquella escuridão lhe appareceo com grande luz e resplandor; e tomandoa, e levandoa pelos ares, de Damot a poz em hum momento em sua terra de Zorarê. Sahia da igreja Sagaza Ab, aonde fora encommendar a Nosso Senhor a vida e saude de sua mulher; encontrando com ella, ficou não menos espantado, que alegre, ouvindo contarlhe as maravilhas, que Deos e o santo archanjo obraram em seu livramento; contoulhe elle tambem os favores que primeiro recebera de S. Miguel; e passando o dia em louvores de Deos, naquella noite concebeo Egzyereâ, e teve ella e seu marido varios e mysteriosos sonhos, em que Deos lhe descobrio as grandezas do filho, que Deos lhe queria dar; era 23 de agosto o seguinte dia que amanheceo, e dali a nove mezes, aos 30 de dezembro lhes nasceo o bemdito menino; o qual ao terceiro dia despois de nascer, alevantando a mãosinha, e abrindolhe Deos a bocca, disse em alta voz estas palavras: Hum Padre Santo, hum filho Santo, hum Spirito Santo: pasmaram todos os presentes, e deram a Deos grandes louvores; e como se acabou o tempo da purificação, que são quarenta dias, levaram o menino ao templo, e o bautizaram, pondolhe por nome Feça Sion, que quer dizer Alegria de Siam, polla muita que lhes trouxe, e muita mais que trazia Deos a toda a igreja por meio deste menino. Sendo de treze mezes Feça Sion, em toda a Xaoa e Zorarê havia grande fome; e chegandose a festa de S. Miguel não tinham seus pais com que a festejar, dando nella como costumavam largas esmolas aos pobres; havia em casa hum cesto com hum pouco de trigo, hum calão com alguma manteiga, e algum sal. Sobre tudo isto poz o menino as mãos, e fez o sinal da cruz; e logo o trigo pullou no cesto, cresceo a manteiga e sal, de maneira que se encheram doze cestos de trigo, muitos calões de manteiga, e houve sal em abundancia; fizeram sua festa dando as costumadas esmolas, e sobejoulhe ainda pera todo o tempo da fome.
Cresceo o menino em idade e saber; aprendeo os salmos de David com admiravel facilidade; jejuava muito, e com o jejum e paciencia se armava contra as tentações do diabo. Chegando aos dezoito annos o levou seu pai ao Abbuna Kerilos, sendo Patriarcha de Alexandria Abba Benjamin, pera que o ordenasse de diacono; appareceo S. Miguel ao Abbuna, e reveloulhe como Deos tinha escolhido aquelle menino pera cousas de grande gloria e honra sua; e por isso em o vendo, lhe mostrou muito amor e respeito, e lhe deu as ordens de diacono com grande vontade. Voltando Feça Sion pera sua terra, a hum homem que o tratou mal, e não quiz agasalhar em sua casa, alevantandoo no ar, o fez açoutar S. Miguel, até que elle pedia misericordia, e Feça Sion fez oração por elle; indo mais adiante, anoitecendolhe em hum lugar, em que não havia agoa, a pedio elle a Nosso Senhor com muitas lagrimas, e chegando as que chorava, ao chão, arrebentou huma fonte muito clara, em a qual elle e vinte homens, que vinham em sua companhia, beberam e mataram a sede.
Pouco despois de chegar a sua casa ordenado de diacono, trataram seus pais de o casar; repugnou elle a isto com grande determinação, dizendo que tinha offerecido a Deos sua riqueza; porém os pais, pretendendo sahir com seu intento, trouxeram a donzella, com quem o queriam casar, pera sua casa; mas Deos acudio, e ordenou, que ella dentro de poucos dias adoecesse e falecesse. Feça Sion então se foi a buscar o Abbuna Keriloa, e lhe disse que attentasse pelos abusos que havia na terra, que faziam outra Fé, e outro costume novo da igreja, porque bautizavam os meninos antes de os circumcidarem; ouvindo isto o Abbuna Kerilos lhe deu a benção, e disse: Porque tendes zelo das cousas de Deos, como Elias propheta de Israel, haveis de ser novo apostolo, e derrubareis os idolos, e lançareis aos demonios fora dos corpos, e fareis que muitos, deixada a adoração dos demonios, adorem a Christo Nosso Senhor polla graça do Spirito Santo, que está em vós: e logo o ordenou de missa, e fez como vigario geral seu em toda a terra de Xaoa, e o mandou pera ella com muita honra.
Pouco despois de chegar á sua terra morreram seus pais, Egzyereâ aos 12 de agosto, e Sagaza Ab aos 16 do mesmo mez; teve Feça Sion o devido sentimento com a morte de tão bons pais; e gosando das riquezas que lhe deixaram, e cumprindo com as obrigações de sacerdote, esteve sete annos em sua casa, no fim dos quais, sahindo hum dia á caça, e apartandose no campo dos companheiros, lhe appareceo S. Miguel com tão notavel luz e resplandor, que assombrado Feça Sion cahio no chão como morto; mas o archanjo o alevantou, e animou; e tirandolhe o medo, lhe disse: Este officio não he vosso, que não pertence ao sacerdote ser caçador das feras, senão das almas dos homens pera as trazer a Deos; assi o fazei daqui por diante; e sabei que Deos vos dá poder pera resuscitar os mortos, sarar os doentes, e lançar os demonios dos corpos humanos; o vosso nome não seja Feça Sion, senão Tecla Haymanot, que quer dizer Planta da Fé, porque a plantareis em muitas terras e nas almas de muitos. Dizendo isto S. Miguel, Christo Nosso Senhor appareceo em figura de mancebo muito formoso, assentado sobre as azas do archanjo, e fallandolhe com grande amor, lhe disse que pela bocca de S. Miguel lhe mandara, e dera nome novo pera o mandar a hum povo novo, aonde não chegaram seus Apostolos; ouvindo isto Tecla Haymanot se lançou por terra, e deu a Deos muitas graças por tão grande mimo e mercê.
Desappareceo a visão, e o santo se ajuntou com seus companheiros; e vindose pera casa, repartio e deu aos pobres tudo quanto tinha, começando vida nova e apostolica, pregando com grande spirito, e acompanhando a pregação com espantosos milagres, aos quais seguia a conversão de almas sem conta. Sahindo logo de sua terra, se foi a huma, que se chamava Catata, por lhe dizerem em Tigré, que os moradores nella adoravam a huma arvore, e ao demonio que lhes falava nella; fez oração, arrancouse a arvore com tal força, que matou a vinte e quatro dos que achou mais perto; e logo o demonio, forçado da mesma oração, por mandado do santo declarou a todos, como não era Deos, e os enganos em que os trouxera tanto tempo; pasmava a gente do que via, e ouvia; e desenganados se lançaram aos pés do santo, prometendo de fazer tudo, que lhes mandasse e ensinasse. Elle, pera mais os confirmar, pedio a Deos que resuscitasse os vinte e quatro, que a arvore matou, e logo se alevantaram vivos e sãos; e com elles mais quinze homens da mesma terra, os quais perguntados, quem eram, aonde estavam, e como resuscitaram, responderam, que viveram naquella terra no tempo que reinava Abra e Azbaha; e morrendo estiveram sempre em hum lugar, em que padeciam grandes tormentos, donde foram tirados; porque pela oração que o santo fizera pelos vinte e quatro, fora mandada a misericordia do ceo; e porque estavam ali juntos, os alcançara tambem a elles.
Ensinou, e doutrinou Tecla Haymanot a todos os que ali eram presentes, e bautizou naquelle dia 12.345, e entre elles a todos que resuscitaram; mas [disselhes] que não temessem, porque não hiriam pera o lugar de tormentos, aonde primeiro estavam, senão ao lugar de descanso; e logo morreram, e forão enterrados; ao dia seguinte veio muita mais gente, e logo ao principe daquella terra, que se chamava Darasgued, e a todos o santo ensinou, e converteo; e os que nesta terra receberam o santo bautismo chegaram a 645.387. Ao principe poz o santo por nome Bamina Christos, e a sua mulher Acrocia; e da arvore, que arrancou, fez fazer huma formosa igreja na terra de Enquedem, no lugar de Jateiber; aqui se deteve tres annos, e mandou á sua terra de Zorarê buscar sacerdotes, pera que o ajudassem a ensinar, e cultivar tão grande numero de christãos; na quaresma se mettia Tecla Haymanot pelo deserto, e jejuava sem comer mais que aos domingos, e nelles seu comer eram as hervas do campo, sem fazer differença entre as doces e as amargas. Estando hum dia no deserto lhe falou Deos, e mandou que fosse a pregar a Fé ao reino de Damot, e lhe revelou que naquelle lugar do deserto havia de alevantar huma igreja hum seu filho spiritual, que se chamaria Tadeus. Cumprindo Tecla Haymanot com o que Deos lhe mandava, despedindose daquelles christãos com muitas lagrimas e sentimento de todos elles, entrou pelas terras de Xaoa pregando o santo Evangelho, e convertendo a muitos; e dali passou a huma grande serra, que se chama Oifat, na qual o demonio, apparecendo de noite aos moradores em figuras espantosas, cavalleiro sobre hum lobo, e fazendo grandes males aos que o não adoravam, se fazia adorar por Deos de toda aquella pobre gente; mas o santo, pregandolhes e ensinandolhes que adorassem ao verdadeiro Deos, e bautizandoos, os livrou daquelle cativeiro do demonio, lançandoo fora daquelle monte e dos corpos de muitos, aos quais tyranisava com varias doenças e aleijoens. Daqui passou ás terras de Ennaret, aonde derrubou muitos idolos; e destas a Oiraguâ, e Catal, e á terra de Bilat, aonde reinava hum insigne feiticeiro, ao qual Tecla Haymanot deu huma grande bofetada, e derrubou com ella de huma cadeira dourada, na qual assentado, com varias e diabolicas adivinhações, enganava o povo; mas os criados do feiticeiro o carregaram de tantas e tão pesadas punhadas e pancadas, que o deixaram morto ao pé de huma arvore; resuscitouo S. Miguel, e logo tornou ao feiticeiro, e lhe fez o mesmo que primeiro sem medo algum; desta vez foi pelos criados do feiticeiro açoutado com cadeias de ferro, de tal maneira que lhe appareciam os ossos; e ficando espedaçado e morto, S. Miguel o curou e resuscitou segunda vez; quarenta dias trabalhou o santo debalde pera ensinar e converter a esta gente; mas vendo a sua dureza, aceso em zelo da honra de Deos, como outro Elias, fazendo oração pedio que se abrisse a terra, e os subvertesse vivos, o que Deos lhe concedeo; e no dia seguinte ouvio huma voz do ceo, que lhe disse, que lhe nasceria hum filho spiritual, por nome Anoreos, o qual converteria a gente daquella terra, e edificaria ali igreja.
Daqui chegou Tecla Haymanot ao reino de Damot, no qual fez grandissimos milagres. Era vivo, e havia vinte e cinco annos que estava fora do seu juizo el Rei Mutolamê; sarouo Tecla Haymanot; disselhe que era filho daquella mulher de Xaoa, que elle escolhera pera esposa; resuscitou os mil homens e tresentos feiticeiros, que S. Miguel matou no dia que livrou a Egzyereâ, e a levou pelos ares a sua terra; e a estes, e a outros muitos converteo á Fé de Christo Senhor Nosso; bautizou ao Rei, e pozlhe por nome Feça Sion, e com elle bautizou 10.299 almas. Detevese nesta terra doze annos; jejuava sempre a quaresma com o rigor que acima dissemos. Aqui pois no sabbado santo, bem á meia noite, lhe appareceo Nosso Senhor com a Virgem Santissima, sua Mãi, acompanhados de S. Miguel, S. Gabriel, e dos doze sagrados Apostolos, e outros muitos santos do ceo, e lhe disse: A paz de meu Padre Eterno, e do Spirito Santo esteja convosco; alegraivos, porque vosso nome está escrito no livro da vida; vim pera vos dar hoje grande alegria, porque vós ma destes a mim grandissima com tantas almas que trouxestes á minha Fé; todo aquelle que der pão, ou offerecer incenso, até um pucaro de agoa, em vosso nome, passe convosco ao reino do ceo; e a todo que vos chamar no dia do seu trabalho, eu o livrarei: e deulhe huma herva e a agua da vida, dizendo: Comei, e bebei: com o que se alegrou muito sua alma, de maneira que lhe parecia não ter jejuado hum só dia; tambem lhe disse: Ide á terra de Amaharâ, e ali estai, até que eu vos mande pera outra parte, e S. Miguel estará convosco: e dandolhe osculo de paz, desappareceo a visão, e o santo ficou todo banhado em huma cordeal e celestial consolação.
Despediose Tecla Haymanot do Rei Feça Sion e da gente daquella terra com grande sentimento e lagrimas, dos que ficavam; e caminhou pera onde Deos o mandava; e o mesmo Senhor ordenou, que achasse no caminho hum frade que foi sua guia, e o trouxe ao mosteiro de Abba Michael, fazendo no caminho muitos milagres. Neste mosteiro começou a servir aos frades, accarretando agoa e lenha, e moendo farinha, de modo que se fez escravo de todos; e pera os descançar tomava sobre si o trabalho de todos os religiosos; rezava muitos salmos cada dia, e afora isso adorava a Deos inclinando a cabeça até o chão 1750 vezes; despois de alguns annos por mandado do abbade ou mestre, fazendo oração, começou a dar saude a alguns enfermos, e resuscitou a hum sobrinho do mesmo mestre, pelo que todos o respeitavam, e honravam mais, do que seu spirito humilde podia sofrer; e assi pedio a Nosso Senhor que o mandasse pera outra parte, aonde não fosse conhecido nem honrado. Ouvio Nosso Senhor sua tão santa e justa petição, e mandou a S. Miguel, o qual lhe disse que se fosse pera hum mosteiro, que estava em huma ilha da alagoa de Dambeâ, que se chamava Haic, porque ali estava hum varão santo, o qual lhe daria o habito, e poria aos hombros o jugo da religião. Dez annos se deteve Tecla Haymanot em Amaharâ, no mosteiro de Abba Michael.
E elles acabados, quando S. Miguel tomou o caminho pera a ilha de Haic, e chegando á borda da alagoa, não achando embarcação, fez oração a Deos, e logo vio ao anjo S. Miguel, que vinha sobre a agoa, e lhe dizia que o seguisse; assi o fez, hindo sobre a agoa como se fora em terra firme. Chegou á ilha e ao mosteiro; mas primeiro S. Miguel revelou ao mestre delle, que se chamava Abba Jesus, quem era, o que o vinha buscar, e lhe disse que era vontade de Deos, que lhe desse o habito. Recebeo Abba Jesus com grande alegria e mostras de amor a Tecla Haymanot, e dahi a pouco lhe deu o habito[[23]]; Tecla Haymanot o recebeo com especial devoção; e como se começara seu noviciado, assi se exercitava em todas as obras de virtude. Estando nesta ilha e mosteiro, teve huma visão muito mysteriosa, e foi que o anjo de Deos o levou a huma sala que resplandecia mais que o sol; tão larga e comprida, que a gente do mundo todo a não poderia encher; tinha muitas columnas de grande obra; o pavimento era de cristal, e o tecto mais claro que o sol; no meio estavam tres cadeiras todas formosas a maravilha; excedia porém a do meio em grandeza, obra, e formosura, e a todos cercava, e rodeava o arco celeste, que chamamos Iris. Na cadeira do meio estava hum vestido de luz, como huma lingoa de fogo, e sobre elle hum rotulo, que dizia: Alleluia ao Padre, alleluia ao Filho, alleluia ao Spirito Santo. Na cadeira da mão direita estavam sete coroas, differentes humas das outras. Estava Tecla Haymanot suspenso e assombrado á vista de cousas tam novas e maravilhosas; o anjo porém o animou e lhe tirou o medo; perguntou então quanta era a grandeza daquella casa, e quem era o dono della. Respondeolhe o anjo: Attentai primeiro bem pera tudo, e despois vos direi o que perguntais. E vendo nas columnas escritos varios nomes, perguntou quem eram aquelles, cujos nomes ali estavam escritos, quantas as columnas, e cujas as tres cadeiras. Respondeolhe o anjo: Esta casa he vossa, e a cadeira do meio, o vestido, e coroas vosso he tudo; nas cadeiras da mão direita e esquerda se assentarão vossos filhos, que vos hão de seguir, e guardar vossos mandamentos; o numero das columnas da mão direita...[[24]], os da mão esquerda outras tantas; os nomes que nellas estão escritos são dos filhos, que vos hão de nascer do Spirito Santo até ao fim do mundo. Respondeo Tecla Haymanot: Quem sou eu, peccador, pera alcançar tanta graça? Disselhe o anjo: Deos dá a graça a quem quer. Acabado isto levou o anjo ao santo ao ceo, e meteuo dentro da cortina, e fez que estivesse em pé diante do throno da Trindade, aonde adorou e deu louvores a Deos; e logo ouviu huma voz, que sahio do throno, e dissse: Tecla Haymanot, Tecla Haymanot, seja vossa parte com os vinte e quatro meus sacerdotes: e deramlhe hum thuribulo de ouro com elles, e foi sua gloria e vestido semelhante ao dos vinte e quatro, e via claramente Deos na Trindade. E disselhe Deos: Assi como me amastes, vos amarei, e como me honrastes vos honrarei, e farei vosso nome honrado; por verdade vos digo que todo aquelle que confiar em vossa oração, será salvo por amor de vós; e todo aquelle que em vossa lembrança offerecer o que poder, o farei grande no ceo e na terra; e ao que se vir em alguma tentação, se chamar por vosso nome, o livrarei della: e ao que servir a vossa igreja, eu lhe pagarei com os sete meus archanjos; e aonde for lido o livro dos vossos milagres e chamado vosso nome, ali será paz e misericordia pera sempre. Ouvindo isto o santo adorou, e deu a Deos muitas graças; e o anjo o tornou ao lugar aonde primeiro estava.
Com estes mimos e favores do ceo crescia cada dia mais o desejo da perfeição, em que se abrasava; e havendo dez annos que estava no mosteiro da ilha de Haic, lhe veio desejo de ir a outras terras, e conhecer e tratar outros frades pera imitar suas virtudes; e o anjo S. Miguel lhe disse, que fosse a Tigré ao mosteiro de Damô; e despedindose com grandes saudades de seu mestre Abba Jesus, passando por cima da agoa da alagoa a pé enxuto, como a primeira vez, se foi a Tigré, e subio á rocha Damô, em que está o mosteiro, o qual foi fundado por hum daquelles nove santos, que vieram de Rum e Egypto, reinando Alamida, filho de Saladoba, os quais nove santos são estrellas de claridade que alumiaram todas as terras; alguns delles semeavam pela manhã, e colhiam á tarde; outros traziam agoa em peneiras, sem se entornar; e faziam outros muitos milagres. Entrando no mosteiro lhe perguntou Abba Joanni, que era mestre delle, como se chamava, e quem lhe dera o habito; respondeo que se chamava Tecla Haymanot, e que o habito lhe dera Abba Jesus, que morava na ilha de Haic; disse abba Joanni: Em verdade sois filho de meu filho, porque eu o gerei em spirito: e benzendo um capello e asquema[[25]] lhos deu; recebeuos Tecla Haymanot com grande devoção, e logo começou a fazer os milagres que faziam os nove santos primeiros, e prophetisava as cousas futuras muito antes de acontecerem.
Neste mosteiro esteve Tecla Haymanot doze annos, no fim dos quais lhe disse o anjo, que fosse visitar outros mosteiros e santos do deserto de Tigré; e alcançando licença de seu mestre Abba Joanni, se foi descendo da rocha, que he tão alta, que he necessario corda de trinta covados pera por ella descer ao chão; quebrou a corda, mas foramlhe dadas seis azas, com as quais voou seis legoas, o que visto por Abba Joanni e outros frades, deram a Deos grandes louvores. Entrou Tecla Haymanot no deserto Oallis, aonde achou muitos santos, com os quais passou quarenta e oito dias jejuando sempre; e dali passou ao mosteiro de Haiozan, sarando muitos doentes, até chegar ao mar Roxo; e não achando nao, fez oração, e logo S. Miguel lhe appareceo, e o levou sobre a agoa, atravessando em huma hora a largura do estreito. Chegando á outra banda, achou hum homem morto, ao qual resuscitou; e perguntandolhe quem era, disse que era christão do povo de Sion, e que por falta de agoa morrera hindo para Hierusalem; e tomando a este por companheiro chegou á santa cidade, visitou ao sepulchro de Nosso Senhor, e aos mais lugares santos, e dali foi ao Patriarcha de Alexandria, o qual era então Abba Michael; este lhe deu muitas bençãos; e despedido delle foi visitar ao deserto Sihots, s. Asquetes, e tomou a benção de muitos santos monges, que ali moravam; com estes se queria ficar Tecla Haymanot toda sua vida; mas o anjo lhe appareceo, e mandou que tornasse para a terra de Ethiopia, e desse o habito aos que lhe pedissem, porque não viriam a elle senão os que fossem escolhidos para o ceo. Cumprio o que o anjo lhe mandava, tornouse pera Ethiopia, e na terra de Tigré edificou muitos mosteiros, e deu o habito a muitos frades, e primeiro que todos o deu áquelle seu companheiro, ao qual resuscitou vindo pera Hierusalem; e quando lhe deu o habito lhe poz por nome Brahaya Sagahu. De Tigré tornou duas vezes a Hierusalem, e na derradeira lhe disse o Patriarcha Abba Michael, que não tornasse lá mais, senão que assentasse em algum lugar do deserto; pelo que vindo a Tigré, subindo ao monte Damô, tomou a benção de Abba Joanni, e dali se foi a hum monte, que se chama Cantorar, aonde jejuou quarenta dias, e determinou fazer ali seu assento, porque a terra era deserta; mas appareceolhe o anjo de Deos, e disselhe que não era aquelle o lugar, pera onde Deos o chamava, posto que ao diante morariam ali muitos filhos seus; que se fosse ter com Abba Jesus, e fizesse o que elle lhe dissesse. Ao dia seguinte muito cedo se poz ao caminho, e chegando á borda da alagoa, e não achando embarcação, caminhou por cima da agoa, como se fora por terra; e chegou a Abba Jesus, o qual se alegrou muito de o ver, e lhe perguntou quem lhe dera capello e asquema; respondeo que Abba Joanni do monte Damô; disse elle: Pois daime a mim capello e asquema, porque o desejo receber de vossas santas mãos: e nosso padre Tecla Haymanot lho deu por lhe ter mandado o anjo que fizesse o que elle lhe dissesse.
E assi a serie dos nossos padres he esta: o anjo S. Miguel deu o habito de frade a Abba Antonios; Abba Antonios deu o habito a Abba Macarios, Abba Macarios o deu a Abba Pachomios; Abba Pachomios o deu a Abba Arogaua; Abba Arogaua veio a Ethiopia, e deu o habito a Abba Christo Bezanâ; e este o deu a Abba Mascalmoâ; e este o deu a Abba Joanni; e este o deu a Abba Jesus; e Abba Jesus o deu a Abba Tecla Haymanot; despois Abba Tecla Haymanot deu capello e asquema a Abba Jesus, como já dissemos. Despediose Tecla Haymanot de Abba Jesus, e caminhou pera a terra de Amaharâ, e chegando a Arabeâ, achou ali hum monte, que se chama Daddâ, aonde subio com seu discipulo Azaya Sagahu, e achou huma serpente muito grande, a qual abrindo a boca o queria engulir; mas o santo fez o sinal da cruz, e logo a serpente se fez em tres pedaços; mandou a seu discipulo que a medisse, e achou que era de 175 covados. Acudio a gente da terra, e o rei com elles, pasmados de tão grande milagre; e pregandolhes o santo receberam todos a Fé de Christo Nosso Senhor; e descendo ao rio Soaâ, benzendo o santo a agoa, bautizou a 3.000 homens, a fora mulheres e meninos, e deulhes a todos a communhão; mandoulhes que sobre o monte, aonde matou a serpente, fizessem huma igreja á honra dos quatro Evangelistas, a qual até hoje dura.
Estando aqui Tecla Haymanot ouvio huma voz do ceo, que lhe disse: Ide á terra de Xaoa, porque ficaram poucos os fieis, que ali ajuntastes; vizitaios, ensinailhes a Fé, como primeiro, e ali será vossa sepultura, e vossos filhos se multiplicarão, como as areias do mar e as estrellas do ceo; e edificarseha em vosso nome hum mosteiro, como Hierusalem; e vosso nome será ouvido em toda a terra. Despediose então com muitas lagrimas daquelles christãos, e deixoulhes por mestre seu discipulo Azaya Sagahu; chegando á terra de Xaoa deu o habito de frade a ib, e entre elles a hum seu primo, filho de hum irmão de seu pai; despois indo com hum seu discipulo ao lugar de huma alagoa, sahio um spirito maligno, e começou a atormentar a seu discipulo; fez então Tecla Haymanot o sinal da cruz, dizendo: Sahe spirito mau de meu filho: e fugio logo delle; e querendose tornar a meter na agoa, fez outra vez o sinal da cruz, e não pode entrar nella. Chegou Tecla Haymanot, e pegando delle lhe disse: Porque vos atrevestes a entrar em meu filho? Como vos chamais? Respondeo: Porque me pareceo, que ereis como os outros homens; meu nome he Bahara Alcao. Perguntoulhe Tecla Haymanot se queria ir com elle, ou ficar aonde primeiro estava; respondeo: Como fizestes o sinal da cruz, perdi meu poder; já não posso entrar aonde estava. Levouo então comsigo, circumcidouo, e levandoo a huma igreja lhe poz por nome Christos harayo, id est, Christo o escolheo; e despois de servir algum tempo, lhe deu habito de frade, e foi amado de Deos em toda a sua vida, até que morreo e entrou no reino do ceo.
Pouco tempo despois veio a Ethiopia o Abbuna João, e mandando chamar a Tecla Haymanot o queria fazer Bispo, e entregarlhe a metade de Ethiopia; mas elle se escusou, dizendo que lhe não convinha tão alta dignidade; e vindo pera sua casa converteo a hum filho de hum feiticeiro. Teve o pai grande sentimento, e ajuntando muitos companheiros seus no tal officio, vieram pera matar ao santo, gritando como leões e cães; mas o santo mandou á terra que se abrisse, e os tragasse a todos; esta maravilha se divulgou por toda a terra de Xaoa, e receberam a sua doutrina com muita vontade até á terra de Gueraria. Tambem vieram muitos demonios á sua porta gritando, com o que seus discipulos tiveram grande medo; mas o santo, fazendo o sinal da cruz, os afugentou. Estando despois em oração, veio a elle huma serpente de dois cornos, e o quiz engulir; mas fazendo o sinal da cruz, arrebentou, e ficou ali morta; mandou que a medissem, e acharam que era de sessenta covados; affirmou então a seus discipulos que Christo lhe mandara que lhes dissesse, que todo aquelle que mata-se serpente em quinta feira, ou domingo, lhes seriam perdoados os peccados de quarenta annos.
Estando doente hum senhor grande, a quem tinha convertido, e chegada a hora da morte, disse: Vejo a meu pai Tecla Haymanot, e vós outros não no vedes; graças a Deos que mo mostrou: e morreo logo, estando nosso padre longe dali. Também testemunham muitos santos, que visitava a seus filhos na hora da morte, e todas as almas por elle, ou seja de justos, ou seja de peccadores, vão a elle; porque a do justo não entra em sua herança sem chegar a elle, e a do peccador chegando a elle, se nella vê alguma boa obra, como chamar pelos padres antigos, ou por elle, roga a seu Deos conforme ao conceito que tem, e faz que vá a vida eterna.
Sendo já velho Tecla Haymanot, e não podendo andar de hum lugar pera outro ensinando a Fé, como costumava, fez no deserto huma casinha, que abastava pera estar em pé, e poz na parede oito pregos com as pontas pera dentro, dois detraz, dois diante, dois pera cada huma das ilhargas; e assí esteve muitos annos em pé, sem se encostar, e sem comer, nem beber, mais que aos domingos algumas hervas e agoa, com o que lhe veio a apodrecer e cahir hum pé, ao qual seus discipulos enterraram na igreja perto do altar; despois esteve sobre o outro pé sete annos, e quatro delles nem agoa bebeo, pelo que veio a não ter mais, que a pelle pegada aos ossos. No cabo lhe appareceo Christo, Senhor Nosso, com a Virgem Santissima, sua Mãy, Nossa Senhora, Prophetas, e doze Apostolos, e outros muitos santos, vestidos de luz e claridade; e disselhe: Como estais, meu amigo? Tecla Haymanot, vim hoje pera vos levar ao descanso e alegria, que não terá fim; digovos de verdade que todo aquelle, que em vossa lembrança der esmolas, e chamar por vosso nome, perdoarei não só a elle, mas a seus descendentes até á decima geração; e quem edificar igreja em vosso nome, eu lhe edificarei casa no reino do ceo; e ao que escrever, ou fizer escrever o livro de vossos milagres, crendo, eu escreverei seu nome no livro da vida; e ao que receber algum hospede em vosso nome, eu o receberei, quando vier a mim; e ao que der de comer e beber em vosso nome, eu lhe darei a comer o pão da vida, e a beber da fonte do sangue, que sahio do meu lado; e todo o que fizer vossa festa com alegria, eu o assentarei comigo no jantar de mil annos; e ao que offerecer á igreja incenso, vinho, e azeite, eu aceitarei sua oração, e lhe perdoarei seus peccados; e ao que visitar vosso sepulchro, seja de longe, seja de perto, eu lhe darei o premio, como se visitasse o meu sepulchro de Hierusalem. Respondeo nosso padre: Graças vos dou, Senhor, que me fizestes tantas mercês, não por meus merecimentos, senão pelo amor, que tendes aos homens; aonde mandais, Senhor, que seja enterrado o meu corpo? Disselhe o Salvador: Aqui será enterrado até cincoenta e sete annos, e despois deste tempo cahirá esta casa, e vossos filhos edificarão aqui pera huma banda hum grande mosteiro em vosso nome, e tresladarão pera elle vosso corpo; e eu serei guarda dos que estiverem ali, e ouvirei suas orações; e a vossos filhos, que morrerem neste deserto, contarei como martyres: e dizendo isto lhe deu paz, beijandoo tres vezes, subio pera o ceo com grande gloria.
Mandou logo nosso padre Tecla Haymanot ajuntar todos seus filhos, e disselhes: Eis aqui chegou a festa das bodas; eu sou chamado; apparelhaivos, porque me disse hoje meu Senhor Jesus Christo, que era chegado o tempo de minha morte, e alguns de vós ireis comigo. Ouvindo isto seus discipulos, alguns se alegraram cuidando que acompanhariam a seu pai, morrendo juntamente com elle; outros se entristeciam, e choravam arreceando que ficariam sem elle nesta vida; nosso padre os exhortou a todos ao desprezo do mundo e suas cousas; e encomendoulhes que se amassem huns aos outros, porque o amor do Spirito Santo faz limpa a carne e a alma; e disselhes que se guardassem isto, seriam fructo da vida, e seus filhos verdadeiros; e ordenou que Elsaâ ficasse em seu lugar, e lhes fosse pai. Dizendo isto, se lhe agravou a doença, e na noite de 27 de agosto entrou na casa, aonde estava, huma luz tão grande, e hum cheiro tão suave, que arrebatava o coração; e appareceolhe Christo, Nosso Senhor, com sua Mãy Santissima, S. Miguel, S. Gabriel, vinte e quatro sacerdotes com thuribulos nas mãos, e muitos anjos com candeias; e vendo nosso padre ao Salvador, o adorou pondose de joelhos, como se tivera sãos ambos os pés. Disselhe o Salvador: Ó meu amigo, todos vossos trabalhos estão escritos em Hierusalem: e dizendo isto sahio a alma do corpo de nosso padre Tecla Haymanot; Christo, Senhor Nosso, a recebeo, e lhe disse: Alma limpa, vinde a mim: e subindo, cantavam os anjos: Quem trabalhou no mundo, viva pera sempre; este he o dia, que fez o Senhor; gozemos e alegremonos nelle: e assi a levaram, e entrou em sua herança pera sempre; e deulhe o Salvador a vestidura, que os anjos lhe tinham mostrado com a lingua de fogo, que fallava da Divindade, e as sete coroas que rezam de sua fé, e outras virtudes; viveo neste mundo 103 annos e 45 dias.
Ficaram todos seus filhos chorando; e amortalharam, e enterraram o corpo cantando como he costume dos sacerdotes; tres dias despois morreo hum diacono, primo do nosso santo, por nome Amda Mascal; amortalharamno, e levaramno a enterrar; e despois de acabar o officio dos defuntos, bulia; abriram a mortalha, e perguntaramlhe que fora aquillo; respondeo: Morri, como vistes, e fui levado diante do Senhor da verdade, e dali me levaram ao nosso padre Tecla Haymanot, e vi o com tão grande gloria, que lingua humana não na pode declarar; sua corôa resplandecia sete vezes mais que o sol; a grandeza do que vi, não se pode fallar; mandoume que tornasse, e vos dissesse: Elsaâ venha a mim, e Philippe fique em seu lugar; porque em seu tempo se manifestarão minhas cousas por toda a terra: e dito isto tornou a sahir a alma do corpo, e o enterraram. Dali a tres mezes morreo nosso padre Elsaâ, e seus discipulos puzeram em seu lugar a nosso padre Philippe, como se lhes tinha mandado; e nelle se mostrou a graça do nosso padre Tecla Haymanot, porque delle sahiram quatorze pastores, que manifestaram, e fizeram guardar a Fé. A oração do nosso padre Tecla Haymanot, mestre honrado, nos livre da força do inimigo, e das cousas más, em todo o tempo, e em todas as horas. Amen.
[[1]] Perruchon, Histoire des guerres d'Amda Seyon, roi d'Éthiopie, Paris, 1890.
[[2]] Dillmann, Zur Geschichte des abyssinischen Reiches, no Zeitschrift der Deutschen Morgenländischen Gesellshaft, t. VII, p. 339-350; Drouin, Les listes royales éthiopiennes, p. 48 e segs.
[[3]] Cfr. Relazione de Guidi e Teza, em Conti Rossini, Il Gadla Takla Haymanot, p. 3.
[[4]] Almeida, Historia de Ethiopia a alta, t. I, fol. 104, v; Tellez, Historia geral de Ethiopia a alta, liv. I, cap. XXXIII.
[[5]] Cfr. A. d'Abbadie, Catalogue raisonné des manuscrits éthiopiens, p. 48; Conti Rossini, Il Gadla Takla Haymanot, p. 4.
[[6]] Conti Rossini, Il Gadla Takla Haymanot, p. 6.
[[7]] Zotenberg, Catalogue des manuscrits éthiopiens de la Bibliothèque Nationale, p. 205.
[[8]] Conti Rossini, Il Gadla Takla Haymanot, Roma, 1896.
[[9]] Dillmann, Catalogus codicum manuscriptorum, qui in Museo Britannico asservantur, pars III, cod. aeth., p. 49; Wright, Catalogue of the ethiopic manuscripts in the British Museum, p. 182, 194, 195 e 196.
[[10]] The Academy, June 7, 1894, n.º 1157, p. 11.
[[11]] Zotenberg, Catalogue des manuscrits éthiopiens de la Bibliothèque Nationale, p. 204 e 206.
[[12]] A d'Abbadie, Catalogue raisonné des manuscrits éthiopiens, p. 48.
[[13]] Guidi, Il Gadla Aragavi. Comtudo nesta obra (p. 34) diz-se que o abba Yohani foi o septimo successor do abba Aragavi.
[[14]] Comtudo no cap. XCV de redacção de Dabra Libanos da Vida de Takla Haymanot conta-se, que um homem da tribu do El-Agam (Al Adjam), propheta dos Tanbalat, de Davaro, foi com sua mulher e um seu filho ainda menino a Fatagar, onde então estava Takla Haymanot, procurar o santo, para que lhe desse remedio para salvação de suas almas; e que o santo, depois de lhes ensinar a fé christã, os baptizou, pondo ao mesmo homem o nome de Tasfa Hesan, á mulher o de Iyolita, e ao filho o da Qireqos. A origem d'esta historia é evidente; o auctor da Vida de Takla Haymanot introduziu este episodio para exaltar o santo attribuindo-lhe tambem a conversão de uma familia de musulmanos de Davaro.
[[15]] Almeida, Historia de Ethiopia a alta, t. I, fol. 105, v; Telles, Historia geral de Ethiopia a alta, liv. I, cap. XXXII. Comtudo não é bem certo que Takla Haymanot vivesse no seculo VIII.
[[16]] Zotenberg, Catalogue des manuscrits éthiopiens de la Bibliothèque Nationale, p. 205.
[[17]] Slane, Catalogue des manuscrits arabes de la Bibliothèque Nationale, p. 205.
[[18]] Uri, Bibliothecae Bodleianae codicum manuscriptorum catalogus, pars I, p. 146.
[[19]] D'esta obra, ainda inedita, existe um manuscripto no Museu Britanico, ms. add. 16255; d'elle foi feita uma copia actualmente depositada na Bibliotheca Nacional de Lisboa. A Vida de Takla Haymanot está t. I, fol. 92, v a 104, r.
[[20]] Almeida, Historia de Ethiopia a alta, t. I, fol. 92, r e v.
[[21]] No manuscripto ha evidentemente uma lacuna; a traducção da passagem correspondente do texto geez é: «E um dia Fremenatos disse a Embaram: Ó meu senhor, eu na verdade admiro os vossos usos da gente de Ethiopia; a circumcisão e a crença de Christo existe entre vós; mas o baptismo e o receber da communhão não existem. E Embaram disse a Fremenatos: A circumcisão na verdade trouxeram os Levitas, nossos paes, e a crença trouxe o eunucho da rainha Hendake; e para dar o baptismo e ministrar a communhão não nos foi enviado apostolo. Mas eia, vae tu ao arcebispo, e recebe d'elle a ordenação para seres nosso apostolo.» (Gadla Takla Haymanot, cap. IV; ms. aeth. c. 3 da Bibliotheca Bodleiana, fol. 3, v).
[[22]] Em geez este nome é escripto Motalame. Dillmann (Chrestomathia aethiopica, p. 177) conjectura que este nome é derivado do verbo arabico lama (brilhar); Basset (Études sur l'histoire d'Éthiopie, p. 231) o compara com a palavra arabica musalama (dada, concedida); Conti Rossini (Il Gadla Takla Haymanot, p. 32, nota 3) julga que o mesmo nome é uma palavra cuxita. Em um hymno em honra do rei Amda Seyon (Guidi, Le canzioni geex-amariña, VIII. v. 27) um principe de Damot, inimigo d'aquelle rei, tem o nome de Mot lami. Em galla a palavra moti significa rei (Cecchi, Da Zeila alle frontiere del Caffa, t. III, p. 229), mas esta palavra é provavelmente de origem cuxita, tomada de uma das linguas falladas nas regiões situadas ao sul de Ethiopia. A palavra Motalame é talvez por Mot Alame, e Alame por Alamale (Historia das guerras de Amda Seyon, ed. Perruchon, p. 10, l. 16), e esta é o nome de um antigo reino situado ao sul de Xava, a oeste de Vaj, e a leste de Hadya. (Conti Rossini, Catalogo dei nomi propri di luogo dell'Etiopia, p. 14). Assim Motalame, que o escriptor abexim tomou por um nome proprio, significaria simplesmente rei de Alamale.
[[23]] «Muitos dos [Religiosos de Ethiopia] que professam vida eremitica, vestem pelles escodadas tingidas de amarello, ou pannos da mesma cor.» (Tellez, Historia geral de Ethiopia a alta, liv. I, cap. XXXIV).
O monachismo christão de Ethiopia foi, segundo é tradicção, propagado do Egypto; comtudo em algumas peças de vestuario não póde deixar de se reconhecer a influencia hindu.
O habito dos monges hindus compõe-se de tres peças de vestuario, que são simples pedaços de tecido de algodão tingidos de amarello.
[[24]] No manuscripto falta o numero, que segundo o texto geez era de quarenta e cinco centos de centos (450000). (Gadla Takla Haymanot, cap. LXIII).
[[25]] «Aschema he como Escapulario; e parece que aquelles primeyros Monges [os nove Santos], como eram Gregos, lhe chamaram Asquema por ser tamquam schema Monachismi, que he a divisa de Monge. Porque quasi todos os Monges de Ethiopia andam vestidos, como cada um pode, e lhe parece; mas em trazendo aquelle escapulario, que he feyto de correyas brandas, e bem curtidas, sam avidos por Macarios, e Pachomios.» (Tellez, Historia geral de Ethiopia a alta, liv. I, cap. XXXIII). «Asquema he huma transinha de tres tiras de couro ordinario, e vermelho, as quays lançadas ao pescoço se rematam em huma argolinha de ferro, ou cobre, que trazem em huma correya, com que se cingem.» (Tellez, op. cit., liv. I, cap. XXXIV).
A palavra askema, em syriaco askema, em arabe askim, do grego schema, designa em particular a estola angelica, que segundo é tradicção um anjo deu a S. Antam, principe dos monges do Egypto, e que por elle foi deixada a seu successor, como superior do seu mosteiro, em signal da sua dignidade. (Dillmann, Lexicon linguae Aethiopicae, c. 752; Brun, Dictionarium Syriaco-Latinum, p. 25; Vansleb, Histoire l'église d'Alexandrie, p. 42). Esta estola, que em copto tem o nome de marchnoh, foi depois usada por todos os monges da ordem de S. Antam, e por ella se distinguiam dos outros monges. (Peyron, Lexicon linguae Copticae, p. 104). Mas segundo o testemunho de Maqrizi (Khitat, t. II, p. 508) e do Padre Sicard (Nouveaux memoires des Missions dans le Levant, t. V, p. 150) a estola angelica ou askim tinha forma muito differente do askema usado pelos monges Abexins. (Evetts, The Churches and Monasteries of Egypt, attributed to Abu Salih, p. 164, nota 1).
A forma do askema usado pelos monges de Ethiopia é muito semelhante ao cordão usado pelos Brahmanes. «A todos aquelles [tres] espiritos regentes do mundo [os Brámenes] fazem como filhos da primeira causa [filhos de Deus], e participantes da sua divindade, e per honra, e culto supersticioso dos tres, que dissemos, traz cada Brámene hum tiracollo de tres fios atados, e rematados em hum só nó.» (Lucena, Historia da vida do Padre S. Francisco de Xavier, liv. II, cap. XI)