Conferencias portuguezas
Não podia ser mais auspiciosa a inauguração da primeira série das conferencias portuguezas, promovidas pelo Centro Republicano Portuguez desta capital.
A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo salão do Instituto Historico e Geographico encheu-se completamente, de uma assistencia distincta e brilhante, quer pela quantidade, quer pela qualidade.
Além de muitas senhoras e senhoritas, compareceram tambem á primeira conferencia do Centro Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas, consul da França, Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e encarregado de negocios de Portugal, o representante do sr. general Ferreira de Abreu, inspector da decima região militar, o dr. Paula Souza, director da Escola Polytechnica, commendador Mondim Pestana, official de gabinete do sr. dr. secretario do interior, dr. Bettencourt Rodrigues, dr. Rodolpho de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio Egas, e muitas outras pessoas gradas.
O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal, chegou ao Instituto Historico ás 8 e meia da noite, em companhia do dr. Bartholomeu Ferreira, secretario da Legação Portugueza, sendo recebido á porta pela directoria do Centro.
Em seguida, s. exa. foi introduzido no salão pelos srs. drs. Bettencourt Rodrigues e Ricardo Severo, tomando assento na mesa, ao lado da directoria do Centro, e tendo á sua esquerda o dr. Bettencourt Rodrigues.
Abrindo a sessão, o sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, presidente do Centro R. Portuguez, explicou o fim das conferencias portuguezas, dizendo que, antes de apresentar á assistencia o conferencista sr. dr. Garcia Redondo, cumpria lhe o dever de agradecer á directoria do Instituto Historico, que promptamente poz á disposição do Centro o seu salão, afim de ahi serem realisadas as conferencias. Agradece tambem a honrosa visita do sr. ministro portuguez, que, com sua presença, veio dar maior solennidade á primeira conferencia.
Alludindo á pessoa do conferencista, o sr. presidente diz que o dr. Garcia Redondo é por demais conhecido do auditorio que, sobejamente, conhece a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de apresental-o.
Em seguida, é dada a palavra ao sr. dr. Garcia Redondo para proceder á leitura de sua conferencia sobre «O descobrimento do Brasil—Prioridade dos portuguezes no descobrimento da America.»
Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia Redondo, e não dispomos, hoje, do necessario espaço, só amanhan poderemos dar na integra a sua conferencia.
As ultimas palavras do conferencista foram abafadas com uma grande salva de palmas, sendo s. s. abraçado e cumprimentado pela directoria do Centro e pelo sr. ministro de Portugal.
Antes de ser encerrada a sessão, o sr. ministro de Portugal solicita a palavra pronunciando um discurso do qual damos o resumo que se segue:
O sr. Antonio Luiz Gomes começa dizendo que não vinha com a intenção de tomar a palavra nesta assembléa. Vinha apenas, na qualidade de representante do seu paiz, trazer as saudações mais affectuosas ao Gremio Republicano Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores destas magnificas conferencias.
«Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o orador, despertou-se logo no meu espirito e na minha alma a certeza absoluta de que estas conferencias deviam ter uma influencia muitissimo grande na pacificação dos espiritos dos portuguezes, um pouco revoltados, e que ellas teriam, como conclusão final, approximar ainda mais a familia portugueza da familia brazileira.
E, senão bastara isso, eu tambem não podia conservar-me calado depois de ouvir a palavra brilhantissima do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma crueldade, uma injustiça que eu, em publico, deixasse de attestar, não só o meu reconhecimento, mas, o que é mais, o reconhecimento do meu paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho. (Muito bem).
Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo não fosse sufficientemente conhecido, não só nas boas letras, como na sciencia, bastava esta conferencia para justificar o elevadissimo conceito em que o seu nome é tido entre portuguezes e brazileiros.
Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam, indiscutivelmente, altos pensamentos com uma forma burilada e perfeita, e que vem coroar a sua já larga obra na sciencia e nas letras.
E depois de prestar um enorme serviço, de vir levantar a minha patria á altura a que indiscutivelmente ella tem direito, porque Portugal, embora pequeno como disse s. exa., aquella mancha pequena, que se encontra no ponto occidental da Europa, prestou serviços á humanidade, e á civilisação humana, que, positivamente, não foram excedidos por povo algum do mundo. (Muito bem.)
A civilisação do mundo, meus senhores, firma-se em tres peninsulas, nos tres pontos que observaes naquelle mappa.
Se na Grecia nasce a civilisação, nascem as artes, a philosophia, a sciencia; se naquella peninsula italica nasce o direito, porque o direito romano, pode-se dizer, é a propria razão humana feita lei; foi naquella pequenina peninsula iberica, naquelle extremo do occidente, que, numa época em que os grandes povos de hoje viviam uma vida inteiramente apagada, numa época em que a valorosa Inglaterra ainda não tinha historia; em que a Allemanha apenas se preparava para esse movimento augusto e sublime que proclamava perante o mundo inteiro a liberdade de consciencia; em que a França fazia os ultimos retoques na sua lingua e se preparava para escrever paginas brilhantissimas sobre a historia da humanidade, é certo, entretanto, que nenhuma dellas, por assim dizer, tinha ainda firmada a sua civilisação.
Por esse tempo, naquelle «pontinho» se levantava um povo pequenino de lavradores e de guerreiros, que deixava a patria, para levar o pendão das Quinas aos extremos mais remotos, aos confins do mundo.
Essa historia é assombrosa: é inacreditavel.
Custa a acreditar que esse povo, como disse um dos grandes philosophos contemporaneos, Max Nordau, fosse o precursor em todos os grandes acontecimentos.
Elle tinha dispersado os arabes sem que a Hespanha o conseguisse em duzentos annos.
É que durante esse tempo a essa grande raça nada faltava: tinha força, tinha talento, tinha sciencia.
Foi precisamente esse povo pequenino que deixou sementes por toda a parte da grandesa do genio de sua raça.
Por isso, meus senhores, espero que a invocação do dr. Garcia Redondo produza bem rapidamente seus frutos.
Estas lutas não podem continuar, e não podem continuar, sobretudo, no campo em que infelizmente foram postas.
Eu, quando vim representar a Republica Portugueza, não vim com o desejo de que todos os portuguezes se fizessem republicanos: não precisamos de tanto. A unica coisa que desejamos, que eu desejo, como patriota, é que todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem, muito bem.)
Eu louvo até, com a franqueza que me caracteriza, que hajam convicções monarchicas no meio de portuguezes. O que é necessario é que os republicanos respeitem os monarchistas e que os monarchistas respeitem os republicanos (Muito bem).
O que nós pedimos é muito pouco: é que nunca confundam as glorias da patria, da terra onde nasceram com as pequeninas paixões que possam viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).
E, posta a luta nestes termos, como é facil todos nos entendermos! Basta que cada um de nós se esforce para ser o melhor portuguez que possa ser; trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz; honre o nome portuguez por toda a parte; defenda as suas convicções politicas, mas honradamente, honestamente.» (Muito bem. Palmas).
Depois de varias considerações termina o sr. Antonio Luiz Gomes.
«Para realisar a nossa obra não queremos que todos sejam republicanos; o que queremos apenas é que ninguem se esqueça que a patria está acima das paixões de cada um. (Muito bem).
E eu estou convencido de que esse tempo vae chegar rapidamente.
A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter a sua constituinte, a sua constituição.
Nas ultimas eleições, que foram feitas em condições excepcionaes, depois de uma revolução, depois de boatos aterradores, a Republica já teve a sua consagração.
Nunca as urnas portuguezas foram tão concorridas como neste momento: 80 por cento do corpo eleitoral de Lisboa foi votar.
O Porto, considerado como reaccionario, não para nós republicanos, porque foi precisamente lá que tiveram inicio todos os grandes movimentos de Portugal, no proprio Porto, a votação foi maior do que em qualquer outro ponto.
Portanto, todos vêm a situação definida e clara em que se encontra hoje Portugal.
Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas saudações mais affectuosas não só ao povo de S. Paulo, mas tambem á auctoridades do Estado, que nos deram a alta honra de se fazer representar nesta conferencia, e remato por agradecer a todas as senhoras, a todos os cidadãos que aqui vieram e, finalmente de novo, dirijo os meus agradecimentos mais sinceros e profundos ao dr. Garcia Redondo, não só em meu nome, como no de Portugal, que tenho a honra de representar.»
As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes foram abafadas com uma estrepitosa e prolongada salva de palmas da grande assistencia.
(Noticia do Estado de S. Paulo de 4 de Junho de 1911).