Conferencias portuguezas

No salão nobre do Instituto Historico e Geographico de S. Paulo, realizou-se hontem á noite, conforme se annunciára, a primeira conferencia da série promovida pelo Centro Republicano Portuguez, desta capital.

Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia Redondo, que tomou por thema de sua oração—«O descobrimento do Brazil» «Prioridade dos portuguezes, no descobrimento da America».

Precisamente ás 8 horas e meia, constituida a mesa da presidencia pelo sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro plenipotenciario de Portugal no Rio de Janeiro, sr. Dr. Antonio Luiz Gomes, que para tal fim veio a esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e membros da directoria do Centro Republicano Portuguez, era o conferencista introduzido no salão, que já regorgitava de numerosos cavalheiros e gentilissimas senhoras e senhoritas.

Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os seguintes:

Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente Carlos Rocha, representando o general Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª região militar, com séde nesta capital; major Arthur da Graça Martins, secretario do commando geral, da Força Publica; Jacques Dupas, consul da França, e sua familia; commendador Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e encarregado do consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas, Arthur Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta, José Vicente Sobrinho, dr. Antonio Francisco de Paula Sousa, director da Escola Polytechnica; dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola; dr. Ricardo Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul de Guatemala, dr. Alfredo Redondo, dr. Manoel Redondo, Jayme Redondo e sua familia.

Abriu a sessão o sr. Cunha Barbosa.

Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao dr. Bettencourt Rodrigues, de quem partira a idéa das conferencias, cujo grande valor salientou, pois ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos que unem os dois povos portuguez e brazileiro.

Saudava a patria portugueza, alli directamente representada na pessoa do seu ministro plenipotenciario, cuja presença, agradecia.

Á directoria do Instituto Historico e Geographico agradecia tambem, penhorada, a gentileza de haver cedido o salão da sua séde, para a realização da conferencia.

Isto dito, e como não desejava prender por mais tempo a attenção do auditorio, naturalmente ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo, cuja apresentação julgava desnecessario fazer, pois tinha absoluta certeza de que nem uma só pessoa alli presente, desconhecia, quer através da imprensa ou da literatura, os altos meritos do conferencista.

Uma prolongada salva de palmas ecôa pela sala.

Levanta-se então o dr. Garcia Redondo que começa agradecendo aos circumstantes a sua temeridade em affrontar os rigores daquella noite humida e fria, não para ouvir a sua modesta palavra, pois não tinha sobre isso illusão alguma, mas para corresponder ao appello que lhes dirigiram os promotores daquella conferencia.

Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presença das representantes do sexo gentil, que á festa emprestavam a nota brilhante.

Diz que o thema da sua conferencia havia sido para elle objecto de longos e profundos estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem ter necessidade de ler, nem mesmo simples annotações.

Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades que queria assumir e receiando que a memoria o trahisse, considerava mais prudente ler a sua conferencia.

Em seguida, offerece alguns esclarecimentos sobre um grande mappa que está ao seu lado, e que elle organizou para illustrar a conferencia, e entra finalmente no assumpto.

Ás ultimas palavras da brilhante oração do dr. Garcia Redondo, uma calorosa e prolongada salva de palmas se fez ouvir no salão.

S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo «bouquet» de flôres naturaes.

Levantou-se então o ministro plenipotenciario da Republica de Portugal, sr. Antonio Luiz Gomes.

Recáe sobre a sala um profundo silencio.

O illustrado diplomata começa affirmando que não comparecera áquella reunião com o intuito de falar.

Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em nome de Portugal, que tinha a honra de representar, o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.

Tratando da moderna phase da sua patria, fala sobre o Portugal antigo, cujos feitos enchem as paginas da historia universal.

Refere-se á Monarchia, dizendo que ella teve tempo mais que sufficiente para demonstrar a capacidade dos seus homens.

Por occasião do assassinato de d. Carlos, levaram os republicanos a sua generosidade ao ponto de prestigiar—sem o sacrificio, porém, das suas convicções politicas—as instituições então vigentes, desde que isso concorresse para o bem do paiz.

Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente; nada fez porque nada poude fazer para manter o prestigio de Portugal.

As crises ministeriaes succediam-se de um modo assustador e a situação chegou a tal ponto que só a Republica poderia salvar as gloriosas tradições do paiz.

E a Republica veio, não a Republica do terror, das perseguições, como apraz aos boateiros vulgares, mas a Republica que tem por lemma o levantamento moral do tradicional paiz das quinas.