*EPISTOLA.*
O Sabio não vai todo á sepultura,
Na memoria dos homens brilha, e dura.
Rim. du Bocag. T. a.
Hum triste, hum infeliz, da Sorte avêssa
Tragando o fel dos ais, o fel da vida,
Saúda hum triste, que abraçar não póde,
Penhóra em letras, mensageiras d'alma,
Os effluvios da candida amizade,
Os saudosos gemidos, que te envia,
Elmano, que em soluços te evapóras,
Que atroppelado pela dor intensa,
Sóltas dos lumes teus acerbo pranto,
Que em vão te banha as faces enlutadas,
Que tenta em vão desenrugar teus Fados.
Mas ah! cobra valor; constancia, Amigo:
Esforçada razão represe as mágoas,
Que a horrenda fantasia, nebulosa
Avulta em quadros, em que tudo he negro.
Se ella dá brilho, se a existencia affaga,
Debuchando na idéa deleitosa
Glorias, prazeres, jubilos, encantos;
Tambem nos males nos accurva a mente
Com duplicados, horridos pavores.
Baldar o sentimento ao corpo afflicto
Não quero, Elmano, que tambem sou homem.
Se Zêno, se Platão sorrindo em ancias,
Não mostrárão na face a côr do medo,
Que erão diremos corações de bronze?
Sentirão, que a desgraça a todos punge;
Porém soffrêrão com tenaz constancia,
Engolfados na sãa Filosofia.
Se qual vivêrão, tal morrêrão lêdos;
Porque não seguiremos os seus passos?
Forão d'outra materia, que não somos?
Forão d'outro talento, que não tenhas?
Quem da convulsa natureza, opressa
Falsêa em parte os horridos embates,
He sobranceiro á morte em gloria firme:
Se tu com ella nos degráos luzentes,
Librado sobre os extasis divinos,
Nectar libaste na Apollinea Mêza;
Porque tremes das soffregas voragens,
Em que se abysma a Natureza toda?
Que saudades do Mundo te acompanhão?
Por quantos males se não comprão ditas,
Que bem qual o relampago se esváem!
Que te valeo na Patria modulando,
Da bocca deslizar thesoiros d'alma;
Ora cantando de Marilia a face,
Aonde se remóça a florea Gnido;
Ora abrazado em ralador ciume,
Praguejando o rival de teus amores;
Detestando a cruel, a fementida;
Ora carpindo a[1] flor cortada em breve,
Que acordava o botão medrando em risos;
Enriquecendo em fim a Patria, o Mundo
Nos vivos quadros da Moral prestante?
Se horrorosos baldões o premio forão;
Se isto se diz viver… se o Mundo he isto…
Não tens que suspirar; esquece a Terra!
Não succumbas ao pêzo da desgraça:
Se te borbulha hum Deos na mente acceza,
Quem 'sta cheio d'hum Deos não teme a Morte.
De Pedro José Constancio.
[1] Alludo ao Idyllio da Saudade Materna, feito pelo Senhor Bocage.
* * * * *
Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage.
Tu ne cede malis; sed contra audentior ito,
Quam tua te Fortuna sinet……
Æneid. 6. vers. 95.
He nos revézes que apparece o Sabio,
Que d'hum peito atravéz, que a Dor crucîa,
Reluz hum coração, virtudes todo:
Nunca d'Athenas o lustroso esmalte,
O Mestre da Moral, o Deos dos Sabios,
D'alma heroica mostrou mais nobres rasgos,
Que ao entrar na prizão com rosto alegre,
E ao beber a cicuta airoso, e forte.
De Roma nos Annaes, que o Mundo assombrão,
Não teve cabimento Heróe mais claro,
Que hum Séneca, fiel ás leis sagradas
Da Virtude, e Dever , aos pés calcando
Cruas perseguições, desterro iniquo,
Sobranceiro ao rigor dos Ceos, da Terra.
Nem sómente entre as horridas refregas
Do procelloso mar, ou nos combates
D'alma forte resumbra ardor valente:
Da virtude he tambem theatro o leito;
Neste mais de huma vez provou-se o Sabio:
Encara com desdem o Sabio a morte,
Certo que a preço tal se merca a vida.
Temos mui nobre, e remontada Essencia,
Viemos povoar Terraqueo Globo
De mui alto lugar; e a prova, Elmano,
Em nós mesmos se dá, julgando escassa
Humilde habitação, d'arte os portentos,
De Arquitectura, e luxo assombros claros,
Que hum leve sopro esbrôa, esmaga, e prostra;
Não temendo largar tão baixa esfera.
He das dores crueis o termo a morte!
Entre desgraças mil sempre vagando,
De molestias sem fim alvos constantes;
Bem como acontecer deve aos que aberrão
Do seu clima natal, e estranho habitão.
Só depois de existir puras substancias,
Despidas do grosseiro, e terreo manto,
Gostaremos prazer sadio, estreme.
Filosofia, és tu, quem dás ao Homem
Do sepulcro despir-lhe o medo, o tédio;
Por ti (qual déstro nauta exp'rimentado,
Que rasgado o velame, os mastros rotos,
Co'as ruinas da náo prosegue a rota),
Não succumbe o Mortal da morte á face,
Não lhe desbóta do semblante as côres,
Da constancia o vigor não lhe entorpece
Buido ferro, que centelhas vibra;
Da vida o termo com sorriso encara,
Como se alheio fosse, e não seu termo.
Genios transcendentaes, que o mundo honrárão,
Não temêrão largar barrenta capa,
Que mesquinha entorpece os vôos d'alma:
Do divino Platão, o Sol da Grecia,
Ouve attento o clamor, no peito o encerra:
"O espirito do Sabio anhéla a morte,
Nella medita, e a quer: sempre que tende
Fóra de si; taes são seus appetites."[1]
Quanto ao summo chegou do fim jaz pérto:
Fructo, que sazonou co'a Primavera,
Do Outono na estação não orna as mezas!
Quanto mais clara resplandece a chamma,
Tanto mais prompta affraca, e se amortece:
Taes os Engenhos; quanto mais sublimes,
Tanto mais breves são; que he perto o Occaso,
D'onde falta o lugar ao crescimento.
E pois, Elmano, te guindas-te ao cume
Do Horizonte, onde és Sol de Lysia aos Vates,
Cujas centelhas dão calor aos Genios,
Dão brio, dão vigor para ir á gloria,
Postergando montões de vis insectos
De ephemerico ser, d'aspecto ingrato;
Não deves estranhar, que Atropos dura
Se antecipe a cortar-te o fio á vida;
Ella, que sem respeito ao Môço, ao Velho,
Se apraz de encher de lucto, e pranto o Mundo.
Ah! Se a vozes de dor se move a Parca,
Se do Destino as leis transtornos soffrem,
Verás, Elmano, decorrer teus dias
A par dos de Nestor, Tu, que o semelhas
No mel, que vertem teos divinos labios.
Lysia, desfeita em ais, banhada em pranto,
Ante as aras de hum Deos mil preces sólta
Pela conservação do seu esmalte,
Do seu Genio melhor, da Gloria sua,
E aos de Lysia Filinto une os seus votos.
Fr. Francisco Freire.
[1] Sapientes animum tetum in mortem prominere, hoc velle, hoc
meditari, hoc semper cupidine ferri in exteriora tendentem.
Senec. Consol. ad Marciam.
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Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage.