*SCENA I.*

A Sciencia por hum lado, e a Indigencia por outro, com a Hospitalidade.

Sciencia.

Eu, que elevo os Mortaes, e os esclarêço,
Que méço a Lua, o Sol, que o Mundo abranjo,
Que da vetusta Idade aclaro as sombras,
Que entro por seus arcanos, e revóco
D'entre o pó, d'entre a cinza, d'entre o Nada
Ao Seculo vivente as Eras mortas;
Que dócil fiz o indómito Oceano,
Abysmo de pavor, de bôjo immenso,
Que só por alta Lei não sorve a Terra;
Eu, do grão Jove, Confidente e Imagem,
Que do Fado os Mysterios desarreigo,
E co'a Moral dos Ceos cultivo o Globo;
Eu, a Sciencia, eu Fonte, eu Mãi das Artes,
Que sei desirmanar na Intelligencia
Entes, na fórma iguaes, na especie os mesmos,
Tornando-os entre si tão desconformes,
Qual dista do Selvagem bruto, e fero,
Macio Cidadão, que as Léis polirão,
Ah! não posso impetrar, colher dos Numes
Para os Alumnos meus pavêz sagrado
A teus golpes, Fortuna, inteiro, illeso!
Sem que benigna mão lhe adoce os Fados,
Sem que escaça piedade o chame á vida,
De vigilias mirrado o Sabio morre.
Almas corrompe do Egoismo a peste;
Camões, Homeros na penuria cantão:
Ei-los co'a gloria temperando a sorte;
Sôão prodigios de hum, prodigios de outro;
Férrea Caterva os ouve: admira, e foge.
Só quando o Vate he cinza, o Muito he nada,
Por elles se interéssa o Mundo ingrato;
Na gloria estéril de Epitafio triste
Solidos bens o Barbaro compensa:
Contradictoria Humanidade insana!
No insensivel sepulcro os Sabios honra,
E os Sabios não remio na desventura!
Quaes elles forão diz, não diz, qual fôra:
Nas almas frias o remórso he mudo.
Ai dos Alumnos meus! Soccorre-os, Fado,
Risca do Livro eterno o duro artigo,
Que ao Mérito, ao Saber seus premios veda;
Aquece os Corações no ardor da Gloria,
Fraterniza os Mortaes; onde suspirão,
Os poucos Filhos meus co'a Mãi prosperem,
E onde com seus innumeros sequazes
Colhe triunfos, a Ignorancia gema.

Indigencia.

Mãi veneravel, teu queixume ouvindo.
Amarga-me da vida o fel em dobro.
A filha tua, a misera Indigencia,
Que muda te escutou piedosas mágoas,
Comtigo vem gemer, carpir comtigo
A moral corrupção, que empesta o Globo.
Plagas e Plagas, entre as Socias minhas,
Entre as mansas Virtudes, hei vagado.
Pela voz da Pureza (a que he de todas
A mais formosa) deprequei o auxilio
De inchado Cortezão, que hum Deos se cria.
Melindre, Candidez, virginea Graça
(Qual flor, em que era orvalho o doce pranto)
Aos olhos do Soberbo expôz seus males.
De gesto accezo, ovante, elle a contempla,
Nem hum momento á dor constrange o vicio:
Em vil proposição, que as Furias dictão,
Profana da Innocencia o casto ouvido,
E em cambio da virtude exige o crime.

Sciencia.

Ceos! Que infamia! Que horror! Prosegue, ó Filha,
Sucumbio a Innocencia á vil proposta?

Indigencia.

Não, que nos olhos meus velavão Deoses,
Fautores da Virtude: escuta e folga.
O celeste rubor, que tinge a Aurora,
Sóbe á face gentil, e as rosas brilhão,
Mas súbito tremor branquê-as logo;
Ei-la, d'olhos no Ceo, recúa e geme:
Eu, porém, que no effeito observo a causa,
Ao seductor pestifero arrebato
O objecto divinal, que o torna hum Monstro.

Sciencia.

Olha o Ceo na Innocencia a imagem sua.

Indigencia.

Murchas no horror do abominavel caso,
Inda comtudo as esperanças minhas
Levei de lar em lar; devendo a poucos
Piedade accidental, bati cem vezes
Ás surdas portas de sumido Avaro,
(Sumido em subterraneo abysmo de oiro)
Fallára o Monstro, se fallasse a Morte,
O silencio dos túmulos o abrange
Ante o metal (seu Deos), que em férreos Cofres
C'o a vista famalenta o Vil devora
Servos delle (o poder he tal do exemplo!)
Depois de longo espaço, e vans instancias,
C'hum desabrido - Não - me affugentárão.

Sciencia.

De tudo ha Monstros mil na Especie humana,
Mas todos vence da Avareza o Monstro.

Indigencia.

Attende ao mais, e adoçarás teu pranto.
Do centro da Impiedade em fim retíro
Os fatigados pés, e os guio aos Campos,
Absorta nas imagens carinhosas,
Com que affagais a idéa, oh aureos Tempos.

Sciencia.

Se alli não ha Virtude, onde he que existe!

Indigencia.

Pobre choupana, que forravão colmos,
Humildes lares, que zelava hum Nume,
Attrahem meus olhos, e meu passo animão.
Chego, e curvo Ancião, que alli repousa,
Grande em seu nada, na indigencia rico,
Sorrindo-se, me acolhe, amima, e nutre.
Santa Hospitalidade! Eras a Deosa,
Que o rugoso Varão, madura Esposa,
E imberbe Prole sua, abençoava!
Com milagrosas mãos os parcos fructos
Nas arvores fadadas avultando,
Para os errantes, pálidos Mesquinhos,
Que eterna Providencia lá dirige,
Leda colhias saboroso alento,
E qual outr'hora a hum Deos, incluso no Homem,
Muito do pouco a teu querer surgia.

Hospitalidade.

Conferio-me esse dom quem té no insecto
Provê, do que lhe cumpre, a tenue vida.
Deixando influxos meus no casto alvergue,
Onde Beneficencia e Paz convivem,
Acompanhar-te quiz ao vasto Emporio
De Lysia, do Universo, á Grão Cidade,
Que espelha os Torreões no vitreo Téjo,
Donde sagradas Leis despede ao Ganges.
O Globo he puro aqui, e aqui parece
Estar inda na Infancia a Natureza,
Bella, serena, candida, innocente:
Principe amado, imitador dos Numes,
Ao Público Baixel menêa o leme;
Numéra os dias seus por Dons, por Graças,
E o Mérito sem susto encara o Throno:
Se o gravame do Sceptro acaso inclina,
He sobre os hombros de Ministros puros,
Dignos do alto esplendor, que sahe da escolha.
Hum delles, cujo nome he caro aos justos,
Que tem, que exerce o Ministerio santo
De velar sobre o público Repouso,
Que encarcéra, agrilhôa, opprime o vicio,
O contagio dos máos aos bons evita,
E em piedoso Recinto abriga, instrue
A Puericia, que em flor dispõe ao fructo,
Luceno, o Zelador dos sãos costumes,
Pai do Infortunio, da Sciencia amigo,
Guarida vos promette, exponde, exponde
Ao Ministro exemplar, meu claro Alumno,
A vossa condição: vereis descer-lhe
Dos olhos Paternaes amavel pranto,
Proveitoso, efficaz, não pranto esteril,
Que momentaneas sensações produzem,
E o Mérito infeliz, qual vírão, deixão.
Em Luceno o favor segue a piedade,
Mortal, que os Immortaes sem custo imita,
E o bem, só porque he bem, desenha, opéra.
Eia, vinde: eu vos guio aos bem fazejos
Lares seus, Lares meus; sereis ditosas,
Oh Sciencia! Oh Penuria: os Ceos o ordenão.