I
Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia,
Que os beneficos céos, os céos piedosos
Exigem nossos ais, nossos suspiros
Em vez de adorações, em vez d'incensos?
Credula, branda amiga é falso, é falso:
Longe a cega illusão. Se ambos sumidos
Em solitario bosque, e misturando
Doces requebros c'os murmurios doces
Dos transparentes, garrulos arroios,
Sempre me ouvisses, sempre me dissesses
Que és minha, que sou teu; que mal, que offensa
Nosso innocente ardor faria aos Numes?
Se acaso reclinando-te comigo
Sobre viçoso thalamo de flores,
Turvasse nos teus olhos carinhosos
Suave languidez a luz suave;
Se os doces labios teus entre meus labios
Fervendo, grata Lilia, me espargissem
Vivissimo calor nas fibras todas;
Se pelo excesso de ineffaveis gostos
Morressemos, meu bem, d'uma só morte;
E se Amor outra vez nos désse a vida
Para expirar de novo: em que peccára,
Em que afrontára aos céos prazer tão puro?
A voz do coração não tece enganos,
Não é réo quem te segue, oh Natureza:
Esse Jove, esse deus, que os homens pintam
Suberbo, vingador, cruel, terrivel;
Em perpetuas delicias engolphado,
Submerso em perennal tranquillidade
Com as acções humanas não se emb'raça:
Fictos seus olhos no universo todo,
Em todos os mortaes, n'um só não param:
As vozes da razão profiro, oh Lilia!
É lei o amor, necessidade o gosto:
Viver na insipidez é erro, é crime,
Quando amigo prazer se nos franquêa.