II

Tu, próvido Lycurgo, ou quem primeiro
Á vaga turba legislou dos homens,
Severo alçando temeroso ferro
Duro reprimes da natura os gritos;
Á face mulheril, immovel d'antes,
Pudibundo rubor e pejo déstes;
Mas ah! não tema varonil caterva
Femineo pejo, sendo eu o seu mestre.
Corta o duro machado erguido tronco,
Mas vejo sempre pullular vergonteas;
Diques forçosos contra o mar se elevam,
Mas além d'elles delphins mansos nadam.
Pode mais do que as leis a Natureza,
Pratica o mundo só o que ella dicta;
Faz-se escondida em quanto a não descobrem;
Eu subtil mestre a descobril-a ensino.
Ah! não me chamem críticos austeros
Dos bons costumes corruptor profano!
Ah! não me mande Cesar irritado
No frio Euxino a viver c'os Getas.
Outra cousa não faz duro colono
Com liso arado, quando rompe a terra:
Dura codêa o calor nativo impede,
O ferro a rasga, e o calor transpira.